Conexões

Destaques

quarta-feira, 1 de abril de 2026

 CONTEMPLAR A ARTE COM TODOS OS SENTIDOS


Patrícia Fiori Manfré

 

A experiência de participar de uma apresentação multissensorial é única e pessoal, pois diferentemente das formas tradicionais de visitação artística, nas quais somos nós nos deslocamos até as obras e as contemplamos por meio da visão, essa proposta rompe com a lógica da contemplação unilateral e convida o público a vivenciar a arte de maneira mais integrada e sensorial.

Minha primeira experiência nesse formato ocorreu em 2023, durante a exposição interativa “Van Gogh & Impressionistas”. Ela se mostrou inovadora justamente por inverter o movimento habitual dos museus: não somos nós que caminhamos em direção às obras, mas elas que se projetam em nossa direção. Cores, formas e movimentos nos envolvem por todos os lados, criando um ambiente no qual a arte deixa de ser apenas observada e passa a ser sentida. A visão continua sendo o sentido central, mas é acompanhada por sons, variações de luzes e pela própria espacialidade, que amplia as sensações de pertencimento e imersão.

Outro aspecto que merece destaque é a possibilidade de permanência. Não há a exigência do deslocamento constante; é possível permanecer em um mesmo ponto e, experimentar as obras em diferentes tamanhos, distâncias e ângulos. Quando optamos por circular pelo espaço, multiplicam-se os pontos de vista, ampliando também as interpretações, emoções e impressões subjetivas. Essa dinâmica transforma o espectador em parte constitutiva da experiência estética, retirando de certa maneira, a separação rígida entre obra e público.

A trajetória de vida e o processo criativo do artista, apresentados no caminho que se percorre até chegar ao espaço da exposição interativa, funciona como um prefácio sensível. Esse momento inicial aprofunda a experiência, pois contextualiza as imagens que virão a seguir. Ao reconhecer aspectos biográficos e históricos, temos a sensação de acompanhar uma narrativa, quase como se estivéssemos assistindo a um filme contado por meio das obras do pintor, o que, na minha opinião, potencializa o envolvimento emocional e cognitivo.

Em minha segunda experiência, em 2025, ao assistir ao concerto “Catedral de Luz”, percebi que, embora a proposta seja distinta, a intenção permanece a mesma: transformar o estático em movimento e intensificar a percepção sensorial. Nesse caso, o prefácio é o espaço arquitetônico da catedral, que inicialmente se apresenta como em um dia comum de visitação. No entanto, à medida que o espetáculo se inicia, o jogo de luzes, a presença da orquestra e as vozes do coral, ora coletivas, ora individuais, ressignificam todo o ambiente.

A música, aliada à iluminação e ao majestoso espaço, desperta sentimentos intensos de alegria, conexão e pertencimento. Aos poucos, público, performance e arquitetura se fundem em uma única experiência. Novamente, não somos apenas espectadores, mas participantes de uma vivência que mobiliza sentidos, memória e emoção.

Essas experiências reforçam as possibilidades que as propostas artísticas nos proporcionam, ao nos permitir interagir com a arte de diferentes linguagens e sentidos. Ao promover o encontro entre arte, corpo e emoção, as duas formas de arte interativa nos lembram de que sentir, pertencer e participar são dimensões fundamentais tanto da estética quanto dos processos de aprendizagem e formação humana.

Créditos das imagens: Ingresso.com (Van Gogh) e Curitiba.pr.gov.br (Catedral) 

 

-------------------------

Patrícia Fiori Manfré é doutoranda em Teoria Literária pela UNIANDRADE, sob orientação da professora Verônica Daniel Kobs. Atualmente é professora na Rede de Ensino do Município de Curitiba.