Patrícia Fiori Manfré
A experiência de participar de
uma apresentação multissensorial é única e pessoal, pois diferentemente das
formas tradicionais de visitação artística, nas quais somos nós nos deslocamos
até as obras e as contemplamos por meio da visão, essa proposta rompe com a
lógica da contemplação unilateral e convida o público a vivenciar a arte de
maneira mais integrada e sensorial.
Minha primeira experiência
nesse formato ocorreu em 2023, durante a exposição interativa “Van Gogh &
Impressionistas”. Ela se mostrou inovadora justamente por inverter o movimento
habitual dos museus: não somos nós que caminhamos em direção às obras, mas elas
que se projetam em nossa direção. Cores, formas e movimentos nos envolvem por
todos os lados, criando um ambiente no qual a arte deixa de ser apenas
observada e passa a ser sentida. A visão continua sendo o sentido central, mas
é acompanhada por sons, variações de luzes e pela própria espacialidade, que
amplia as sensações de pertencimento e imersão.
Outro aspecto que merece
destaque é a possibilidade de permanência. Não há a exigência do deslocamento
constante; é possível permanecer em um mesmo ponto e, experimentar as obras em
diferentes tamanhos, distâncias e ângulos. Quando optamos por circular pelo
espaço, multiplicam-se os pontos de vista, ampliando também as interpretações,
emoções e impressões subjetivas. Essa dinâmica transforma o espectador em parte
constitutiva da experiência estética, retirando de certa maneira, a separação
rígida entre obra e público.
A trajetória de vida e o
processo criativo do artista, apresentados no caminho que se percorre até
chegar ao espaço da exposição interativa, funciona como um prefácio sensível.
Esse momento inicial aprofunda a experiência, pois contextualiza as imagens que
virão a seguir. Ao reconhecer aspectos biográficos e históricos, temos a
sensação de acompanhar uma narrativa, quase como se estivéssemos assistindo a
um filme contado por meio das obras do pintor, o que, na minha opinião,
potencializa o envolvimento emocional e cognitivo.
Em minha segunda experiência,
em 2025, ao assistir ao concerto “Catedral de Luz”, percebi que, embora a
proposta seja distinta, a intenção permanece a mesma: transformar o estático em
movimento e intensificar a percepção sensorial. Nesse caso, o prefácio é o
espaço arquitetônico da catedral, que inicialmente se apresenta como em um dia
comum de visitação. No entanto, à medida que o espetáculo se inicia, o jogo de
luzes, a presença da orquestra e as vozes do coral, ora coletivas, ora
individuais, ressignificam todo o ambiente.
A música, aliada à iluminação
e ao majestoso espaço, desperta sentimentos intensos de alegria, conexão e
pertencimento. Aos poucos, público, performance e arquitetura se fundem em uma
única experiência. Novamente, não somos apenas espectadores, mas participantes
de uma vivência que mobiliza sentidos, memória e emoção.
Essas experiências reforçam as
possibilidades que as propostas artísticas nos proporcionam, ao nos permitir
interagir com a arte de diferentes linguagens e sentidos. Ao promover o
encontro entre arte, corpo e emoção, as duas formas de arte interativa nos
lembram de que sentir, pertencer e participar são dimensões fundamentais tanto
da estética quanto dos processos de aprendizagem e formação humana.
Créditos das imagens: Ingresso.com (Van Gogh) e Curitiba.pr.gov.br (Catedral)
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Patrícia Fiori Manfré é doutoranda em Teoria Literária pela
UNIANDRADE, sob orientação da professora Verônica Daniel Kobs. Atualmente é
professora na Rede de Ensino do Município de Curitiba.

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