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sexta-feira, 12 de junho de 2026

 A CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

 

Greicy Pinto Bellin


Em 1911, o escritor alemão Thomas Mann escreveu um texto que eu considero perfeito: Morte em Veneza.

 

Fonte da imagem: Prime Video (editada pelo Blog Sarau Literário)

 

O enredo trata de um escritor de meia-idade, Gustav von Aschenbach, que, em meio ao cansaço de uma rotina extenuante de trabalho e atravessando uma crise existencial, resolve passar férias na Itália, destino usual e quase clichê de muitos escritores alemães naquela época. Durante a viagem, o protagonista se depara com Tadzio, um belíssimo jovem polonês por quem se apaixona, embarcando em uma jornada ensandecida que resultará na sua própria morte, conforme o título da novela anuncia.

Observa-se, ao longo da narrativa, a instauração de uma verdadeira dança pelo abismo, em uma espiral de perturbações cada vez mais intensas que se iniciam no barco que leva Aschenbach até a Itália. É neste barco que ele encontrará a primeira manifestação de sua sombra em um velho vestido de forma ridícula e que se mistura sem critério com os jovens, atitude que, apesar de lhe causar repulsa, será a tônica principal de sua estadia em Veneza após o encontro com Tadzio. O ancião do barco pode ser considerado como um dos primeiros mensageiros da morte encontrados pelo protagonista ao longo da viagem, sendo o segundo deles o repulsivo gondoleiro que o conduz até Veneza. A descrição da gôndola como algo semelhante a um túmulo impacta a mente e os afetos do leitor, bem como a suspeita, nutrida pelo próprio protagonista, de que poderia ser assassinado a qualquer momento: “Mesmo que só estejas interessado em meu dinheiro e, com um golpe de remo pelas costas, me envies para a mansão do Hades, terei feito uma boa viagem”. Há, nesta passagem, uma fina e macabra ironia, travestida de um componente mitológico que nos permite efetivamente adentrar o reino dos mortos, ainda que Aschenbach pareça não desejar, pelo menos conscientemente, a sua própria morte. 

À medida em que se aproxima de seu fatal desfecho, o enredo mostrará que o protagonista toma o caminho da própria sombra beirando o ridículo nas perseguições a Tadzio, já não escondendo mais o que sentia e arriscando, até mesmo, a ser descoberto em meio ao absurdo de ingerir morangos estragados para não perder o rapaz de vista. A narrativa segue em uma gradação cada vez mais vertiginosa até a constatação de que a família polonesa estava abandonando o hotel em virtude de uma epidemia de cólera; após esta cena, o escritor presencia, na praia, uma luta em que Tadzio é quase morto pelo amigo Jaschu, em macabra antecipação do momento em que o jovem faz, contra a luz do sol, o mesmo sinal feito por Aschenbach quando tomou a decisão de realizar o mergulho fatal e definitivo nas águas turbulentas e sombrias de seu próprio inconsciente. 

O que a novela de Mann nos revela é o surreal itinerário de um homem na busca por algo que pode vir a governar a vida de um ser humano: o desejo. Este desejo é projetado na figura do belo rapaz que parece alimentar a obsessão do escritor de meia idade com migalhas de atenção, a exemplo do que acontece muitas vezes nas redes sociais, fomentando a proliferação dos tantos stalkers que presenciamos por aí. E o que o stalker percorre, ao fim e ao cabo, é apenas o desejo, mesmo que isso venha a significar a sua própria morte, na maior parte das vezes espiritual, mas física no caso de Aschenbach.

À parte o seu mérito literário inquestionável, Morte em Veneza nos conduz a pensar nas muitas vezes em que a alma humana insiste em perseguir o desejo sem se dar conta de que ele não é feito para ser perseguido e sim, para ser contemplado com distância segura e calculada, sem qualquer envolvimento que enrede a alma nas teias de um destino que pode se revelar trágico, inexorável e imutável.

 

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Greicy Pinto Bellin é doutora em Estudos Literários pela UFPR. É professora titular do Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e do curso de Graduação em Letras da UNIANDRADE.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

CLUBE DE LEITURA DA SOCIOEDUCAÇÃO DO PARANÁ: EXPERIÊNCIA QUE NASCE DO ENCONTRO, DA ESCUTA E DA CORAGEM DE FAZER DIFERENTE


Andressa Ferreira Candido

Sandra Aparecida Pires Franco

Stela Maris Britto Maziero


No coração da Socioeducação do Paraná, há uma experiência que nasce do encontro, da escuta e da coragem de fazer diferente: o Clube de Leitura. Mais do que um projeto, ele é uma construção coletiva que brotou do chão das unidades, da sensibilidade e do compromisso de profissionais que, no cotidiano, acreditam na potência transformadora da palavra.

Ao contrário de iniciativas que chegam prontas, desenhadas de cima para baixo, o Clube surgiu como um gesto espontâneo — quase como quem acende uma pequena luz em meio às rotinas duras. E essa luz foi crescendo. Foi ganhando forma, sentido, pertencimento. Aos poucos, aquilo que era prática passou a ser reconhecido, acolhido e incorporado pela própria gestão, que soube, com sabedoria, não engessá-lo, mas adaptar-se a ele.

Há algo de profundamente democrático nisso: quando a instituição escuta suas bases, quando legitima o que nasce da experiência real, ela não apenas fortalece práticas — ela fortalece pessoas.

A literatura, nesse contexto, deixa de ser apenas leitura e passa a ser ponte. Ponte para o diálogo, para o reconhecimento de si, para a construção de sentidos em trajetórias muitas vezes marcadas por silêncios e rupturas. Cada roda de leitura se torna um espaço de respiro, de reflexão e de possibilidade. Um espaço onde jovens podem, talvez pela primeira vez, se ver nas palavras — ou se reinventar por meio delas.

E não são apenas os adolescentes que se transformam. Os profissionais também se reinventam no processo. Ganham voz, identidade, pertencimento. O Clube de Leitura, assim, não organiza apenas encontros literários — ele organiza sentidos, relações e novas formas de existir dentro da Socioeducação.

Essa experiência nos lembra de algo essencial: práticas verdadeiramente transformadoras não se impõem, elas emergem. E quando encontram escuta, respeito e apoio, tornam-se capazes de redesenhar caminhos — individuais e institucionais.

Talvez seja isso que um sarau literário celebre: não apenas a beleza das palavras, mas a potência dos encontros que elas tornam possíveis.

              

Créditos das imagens: Convite. Clube de Leitura com a presença do   escritor Itamar Vieira Junior, autor do livro Torto Arado. 


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Andressa Ferreira Candido: Mestranda em Educação na Universidade Estadual de Londrina e Coordenadora Estadual do Clube de Leitura da Socioeducação do Paraná.

Sandra Aparecida Pires Franco: Mestre em Educação pela UEM e Doutora em Letras pela UEL. Pós-doc em Educação na Unesp (Campus Marília). Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina.

Stela Maris Britto Maziero: Mestra em Educação pela UFPR e Coordenadora Pedagógica do Clube de Leitura da Socioeducação do Paraná.