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quinta-feira, 9 de julho de 2026

 A DUPLICIDADE DE SENTIDOS E O DISFARCE DAS IDENTIDADES EM REI LEAR

 

Célia Arns de Miranda

 

 

(Este estudo é um pequeno recorte de um artigo que ainda está sendo desenvolvido sobre a peça Rei Lear que é considerada uma das quatro grandes tragédias de Shakespeare, juntamente com Hamlet, Macbeth e Otelo.)

 

 

Crédito da imagem: Edições livre. Disponível em <https://edicoeslivre.com.br/rei-lear-edicoes-livre> Acesso em 16 jun. 2026.

 

Apesar de que em toda a obra dramática de Shakespeare a temática da aparência e realidade seja considerada uma questão fundamental, percebe-se que em Rei Lear esse tema destaca-se em diversos níveis. Na realidade, as peças shakespearianas apresentam dois níveis de significação: uma significação apresentada ou evidente e uma significação subjacente (FRYE, 1992) que é expressa por meio de metáforas, da imagística, da simbologia, dos Bobos, dos monólogos, do transvestimento, dos disfarces, das máscaras ou, por meio de certos discursos subordinados e subliminares. Esses níveis podem ainda ser chamados de “nível explícito” e “nível implícito”. Em Rei Lear, nós nos defrontamos com a duplicidade de sentidos em toda a tragédia.

Para os elisabetanos havia um perfeita interligação entre o indivíduo, o estado e a natureza. A peça Rei Lear trata do distúrbio que ocorre nesses três níveis quando o mal se instala sobre todo o seu conjunto: uma vez que se inicia esse processo, todos os personagens, sejam culpados ou inocentes, são arrastados, indiscriminadamente, em sua trilha destruidora. Nas peças shakespearianas, o mal está sempre vinculado a um ato de transgressão contra a natureza. Barbara Heliodora (1998, p.6) menciona que “não nada de errado em Lear dividir seu reino entre as filhas. [...] Onde ele erra, onde ele transgride a natureza é na sua recusa em compreender o justo amor de Cordélia, preferindo acreditar nas bajulações de Goneril e Regan”, ou seja, para Lear a forma tem primazia sobre o conteúdo, a aparência deve preponderar sobre a verdade.

Obviamente, que o fato de ter sido enganado e iludido pela hipocrisia de Goneril e Regan foi um erro de grandes proporções, entretanto, o erro que coloca em movimento toda a ação do processo trágico, é o seu equívoco em relação ao amor. Lear considera-o como uma mercadoria que pode ser comprada com presentes ̶ nesse caso as três partes de seu reinado. Quando Lear pergunta, “Qual das três vai dizer que mais nos ama, // Para tornar mais amplo o nosso dote, // Pondo em debate a natureza e o mérito?” (SHAKESPEARE, 1.1. p.16), ele não se comporta apenas como uma pessoa tola e autoritária, mas como alguém que tem uma compreensão completamente errada da relação mais vital entre os seres vivos e demonstra ter um conhecimento muito superficial de suas filhas.


Ao perguntar para Cordélia o que ela tem a oferecer nessa competição verbal para ganhar “o terço mais polpudo que o das irmãs”, ela responde “nada, senhor” (“Nothing, my lord”). É interessante perceber que a palavra “nada” recebe uma ênfase adicional quando ela é repetida cinco vezes em uma troca de palavras de quatro linhas:

 


Shakespeare, muitas vezes, faz com que uma simples palavra como “nada” nessa passagem, sustente um peso de significados. Lear considera o amor como tendo um valor mensurável, que pode ser trocado por propriedade, da forma como Goneril e Regan fizeram. A palavra “nada” na resposta de Cordélia tem um sentido duplo: Cordélia, por um lado, afirma que não é possível dizer qualquer coisa que se iguale às asseverações substanciais e falsas de suas irmãs. E, por outro lado, a negativa de Cordélia está relacionada com a visão de amor de Lear como uma mercadoria. O amor de Cordélia é espiritual, não é material, não podendo ser trocado, comprado ou usado. A caminhada de Lear através da peça é da ignorância desse fato para o sofrido reconhecimento e constatação dele.

O que acaba por se tornar uma ironia é que, apenas algumas cenas mais tarde, Lear é obrigado a enfrentar um desdobramento cruel de seu próprio ato precipitado, fato que se torna uma constatação extremamente dolorosa para ele: Lear é desrespeitado, repudiado e expulso de seu próprio reino por Goneril e Regan. Ou seja, o elo (“bond”) familiar lhe é negado ̶ tal qual ele havia feito com Cordélia quando a expulsou de seu reino e negou a natureza e os elos familiares, ocasionando a desagregação de sua família e do Estado (guerra civil): a cena da tempestade na peça reflete o abalo da natureza a partir da subversão da ordem familiar e social. Lear, na sua trajetória de sofrimento, aprende, paulatinamente, o significado e a importância da palavra “bond” que ele próprio havia negado a Cordélia. Na visão de Frye (1992, p. 135), quando “Lear apela para a deusa Natureza para amaldiçoar Goneril, está se referindo a uma natureza que inclui o que é tipicamente natural do homem, a uma ordem de existência na qual o amor, a obediência, a autoridade e a lealdade são naturais por serem autenticamente humanos.”



 

Há duas concepções de sociedade na peça. Por um lado, a facção que vê a sociedade por um prisma de competição natural, de acordo com a analogia do mundo animal. Por outro, existe a concepção da sociedade representada pela rede de deveres que Cordélia defende: nesse caso, a sociedade, como uma família, é um todo orgânico, mantida unida pela harmonia espiritual e obrigação ética. Enquanto a peça trata das duas famílias e sua desagregação, a ideia da sociedade como um todo está implícita na noção da família; a desordem em uma é a mesma da desordem na outra. De certa maneira é correto afirmar que em Rei Lear todos os relacionamentos humanos são exemplificados pelos relacionamento Pai-filho.

 



Nada é mais acertado do que a afirmação de Jan Kott (2003) de que em Rei Lear a tempestade deve soprar no peito de Lear e Gloucester e não sobre o palco, para descrever o sofrimento desesperançado de um velho homem que um dia foi rei e que agora se prostra com humildade e desespero diante das filhas desumanas, insensíveis e cruéis. Não restam dúvidas de que o final da última cena do Ato 2 é uma das mais contundentes na tragédia: Lear desnuda o seu peito estilhaçado para as filhas intransigentes, ele clama desesperadamente por paciência, “Oh céus, dai-me paciência; é o que preciso!” (2.4, p. 91). Lear tenta controlar-se heroicamente: o esforço para argumentar com as filhas foi excessivo e ele se desestrutura ao pronunciar ameaças incoerentes, “[...] Bruxas anormais. // Hei de vibrar nas duas tais vinganças // Que o mundo inteiro...Eu farei tais coisas, // Não sei o que serão, mas hão de ser // O horror da terra (...)” (2.4, p. 91). O último verso dessa fala, “Bobo, eu enlouqueço!” sugere que a loucura se aproxima como também se aproxima a tempestade. Essas palavras dirigidas ao Bobo são por si só poderosas entretanto, o contraste dessas palavras com a linguagem dos outros personagens que permanecem no palco acrescenta um pathos adicional: todos eles falam com uma tonalidade impassível, inalterada dos que são totalmente insensíveis ̶ “Vamos entrar. Vai haver tempestade.” (2.4, p. 91). A partir da repetição da frase “Tranque as portas; a noite está violenta. [...] saiamos da tormenta.” (2.4. p.93) por Regan e Cornwall ao final da cena 4, as duas facções estão definitivamente divididas, física e simbolicamente. Lear, o Bobo e Kent foram mandados desprotegidos para fora. Gonerial Regan, Edmund e Cornwall estão dentro do palácio, protegidos pelo poder. E, como Frye afirma com ironia, o “violento séquito” de Lear consiste apenas no Bobo.” (1992, p. 133).

 

REFERÊNCIAS

FRYE, N. Sobre Shakespeare. (Tradução e Notas) Simone Lopes Mello. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992.

HELIODORA, B. Falando de Shakespeare. São Paulo: Perspectiva; Rio de Janeiro: FUNARTE: Cultura Inglesa, 1997.

HELIODORA, B. Introdução. IN: SHAKESPEARE, W. Rei Lear. (Tradução) Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Lacerda, 1998.

KOTT, J. Shakespeare nosso contemporâneo. (Tradução) Paulo Alves. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

SHAKESPEARE, W. Rei Lear. (Tradução) Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Lacerda, 1998.

 

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Célia Arns de Miranda possui Doutorado em Língua Inglesa e Literaturas Inglesa e Norte-Americana pela Universidade de São Paulo e Pós-Doutorado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora Titular da Universidade Federal do Paraná. Atua como professora Sênior no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPR, e é professora do Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária na UNIANDRADE.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

 VIVA A LITERATURA

 

Amanda Vital


Créditos da imagem: OPENAI. ChatGPT. Gerada em: 12 de junho 2026. Disponível em: https://chat.openai.com


Quando me foi pedido para escrever sobre a minha vivência com a Literatura, admito que pensei em desistir. Como falar sobre algo que permeou a maior parte da minha vida? Como reduzir um conceito tão complexo em apenas alguns parágrafos? Como capturar a imensidão invisível da luz em um pequeno prisma?

Sou capaz de fazer isso? Definitivamente não. Mas, talvez eu não precise. Por que eu deveria tentar definir o indefinível? O que quero dizer? Bem, se a Literatura sempre esteve presente em minha vida, então por quê pensei em falar dela como conceito e não como o que a Literatura realmente é? Uma parte da existência humana.

Eu poderia começar explicando como a Literatura me foi apresentada quando eu ainda era bastante jovem; ou das incontáveis idas a bibliotecas; da quantidade levemente problemática de dinheiro deixada em sebos; da coleção de impressos que ocupa mais espaço que minhas roupas. Tudo isso faz parte da Literatura em minha vida, mas não é assim que pretendo contar essa história.

Quero começar minha memória pelo período que eu gostaria de esquecer: o um ano e meio em que morei em Portugal, na cidade do Porto para ser exata. Estaria mentindo se dissesse que tudo foi horrível (afinal, a pior das tempestades ainda consegue formar um arco-íris). Mesmo assim, foi um período para mim com mais tristezas do que alegrias. Apesar de tudo, a Literatura ainda se fez presente em minha vida.

Para aqueles que não sabem, Porto tem, a que é considerada, a livraria mais antiga do mundo. Ironicamente, apesar de ter morado na cidade por um ano e meio e considerar a Literatura como parte bastante definidora de quem eu sou, nunca visitei aquela livraria. Queria ter algum motivo legítimo para justificar essa ausência, mas a verdade é que… Precisa pagar entrada e eu sou mão de vaca, não me julguem!

Então, se eu nunca estive nessa livraria tão importante para história da Literatura como eu pretendo falar (ou escrever) sobre Literatura? Muito simples. Não falando sobre a livraria. A Literatura não está apenas na livraria. Está nos domingos nos quais eu e minha vizinha comíamos pizza enquanto bebíamos cidra de maçã (ela dizia que a de melancia era melhor, mas nunca achei para comprar) e ouvíamos música alta para incomodar as vizinhas fofoqueiras da casa ao lado.

A Literatura está em uma tarde no shopping, um filme ruim no cinema e fazer compras de Natal com uma pessoa especial. Gestos pequenos de afeto que eu interpretei como mera amizade, incapaz de ver a reciprocidade do que eu também sentia. Não na livraria, mas no brilho dourado do rio ao final da tarde e na alegria de dividir doces com uma amiga depois de um dia passeando pela cidade.

A Literatura está nas videochamadas com as amigas que estavam no Brasil. As longas (e ainda assim curtas) madrugadas nas quais conversávamos e jogávamos juntas, nos divertindo como se não houvesse um oceano nos separando.

É claro que a Literatura também está no preconceito sofrido; no medo constante de “virar estatística”; nos olhares enviesados que eu recebia; nos comentários de ódio velado, e nos explícitos também; nas situações perigosas e no medo de procurar ajuda e não ser ouvida (ou coisa pior). O que quero dizer com tudo isso? Que a Literatura é algo que vai muito além dos livros em uma livraria.

Querer limitar a Literatura a um punhado de autores ou a livros específicos é talvez o que de mais presunçoso que possa se fazer. Uma ostra pode produzir uma pérola, mas é apenas um pequeno ponto na imensidão de diversidade que forma o oceano. É claro que as pérolas são mais valiosas que uma sardinha, mas ninguém está tentando comer uma pérola ou fazer um colar com uma sardinha. Ambos são úteis de sua própria maneira. E, é em tal vastidão que também se espelha a Literatura.

A Literatura existe em cada ser humano, em cada pessoa que tenha uma história para contar (e toda história merece ser contada). Todo dia praticamos Literatura nas rotinas, nos vícios, nas alegrias, nas tristezas, nos pequenos gestos e nos chamados para a aventura. Somos seres narrativos, portanto nossa mera existência é literária, nossa vida é um livro de páginas invisíveis. Nossas vivências influenciam como lemos histórias, mas também como as contamos.

Todo livro merece ser escrito e toda Literatura merece ser vivida.

 

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Amanda Vital é Mestre em Teoria Literária pelo Centro Universitário Campos de Andrade, é escritora e designer freelancer. Possui dois livros publicados pela Editora Viseu: Amores Inocentes (2023) e Drinque Doce e Amargo (2023), e participação em diversas antologias.