Sugestão do professor Edson Ribeiro sobre site com seleção de poemas sobre mitos gregos.
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segunda-feira, 22 de julho de 2013
A derrocada das ciências da educação nas propostas curriculares de escolas curitibanas
Prof. Dr. Edson Riberio
Parece um
imenso paradoxo reconhecer que, enquanto as propostas curriculares oficiais
feitas no país a partir da década de 90 tentam atualizar a escola brasileira em
relação ao que as ciências da educação e da cognição vêm apregoando desde o
começo do século XX, as escolas curitibanas têm não apenas ignorado a verdade
científica, mas transformado os seus currículos em uma coletânea de noções
amparadas unicamente em achismos subjetivos e no senso-comum.
Poderia ser
apenas risível, se não fosse uma ofensa ao conhecimento científico e uma
zombaria para com leis aprovadas e implantadas.
Não se trata
apenas de desconhecimento do que as ciências norteadoras da educação têm defendido
ou contestado. Trata-se, ao contrário, de um esforço consciente para trazer de
volta as noções preconcebidas que orientaram a formação dos profissionais que
atuam nas escolas. Estes, por sua vez, apoiam as suas convicções pessoais,
baseadas no achismo de quem confessa nunca ter lido textos científicos, na
vontade que os pais dos alunos têm de reencontrar uma escola onde se fale
apenas em costumes, mas nunca em conhecimento científico. Dessa forma, o aluno
precisa saber de cor os hinos do país, do estado, do município e da escola, mas
não precisa saber quem foram os maiores escritores ou compositores do país, nem
as teorias que explicam por que ele está aqui. Ele precisa ter seus cadernos
com capas e margens, mas o que se encontra ali é apenas cópia de exercícios dos
livros didáticos. Nenhum texto produzido, nenhuma obra lida.
A ideia de
que a escola de antes era boa, e de que foram as modernidades científicas que
geraram a crise de falta de rendimento se apoia na visão altamente
condescendente que pais e professores têm de si mesmos. Acreditam que a escola
em que estudaram fez deles modelos de sucesso e de cidadania. E que bastaria que
as escolas de agora trouxessem de volta os sistemas de avaliação e as regras de
conduta da escola tradicional e tecnicista que a crise estaria resolvida. Na
verdade, é suficientemente sabido que a escola brasileira, em nenhuma época,
foi exemplo de sucesso. E o professor de hoje, assim como os pais, são
resultados de uma escola que não ensinou conhecimento científico nem artístico,
que não habituou seu aluno a ler nem a escrever, mas que passa por ter sido uma
escola satisfatória porque nem esses pais nem esses professores acreditam que o
que o ensino não lhes deu seja importante. Exemplos notórios dessa visão são as
ações movidas contra o concurso público recente, por ele ter incluído questões
sobre Machado de Assis, na prova de língua portuguesa, ou por ter feito uma
questão sobre os movimentos estudantis de 1968 em Paris, na de história. O
professor que leu apenas um livro de Machado, na época da faculdade, diz que o
edital do concurso deveria ter listado as obras a serem lidas, mesmo que entre
os conteúdos estivessecontido história da literatura brasileira; o professor de
história alega que esses movimentos de 68 não caem nos livros didáticos que as
escolas adotam, o que o eximiria da obrigação de conhecer cientificamente, e
não apenas didaticamente, a sua disciplina.
A derrocada
do conhecimento científico se manifesta, por exemplo, no ensino de gramática
das escolas curitibanas, que nem ao menos conhecem o conceito linguístico de
gramática. Acreditam que gramática são as regras para se escrever e passam os
muitos anos de escolarização repetindo isso para o aluno. Exemplo notório neste
sentido são os projetos de literatura, como a da Escola Ângelo Trevisan, em que
os alunos leem fascículos comprados em bancas de jornal, sobre aves ou
dinossauros, como sendo literatura. Porque os pais acham que é. E acham que ler
sobre aves é mais útil que ler Machado ou Graciliano, autores aos quais a
escola impede o acesso pelo aluno. Ou os sistemas de avaliação que ignoram o
conceito de avaliação defendido pela ciência da pedagogia. O que prevalece é a
noção de avaliação da mãe do aluno, que paga para fazer o trabalho de pesquisa
que a escola pediu, mas que não considera produção de texto ou leitura como
formas legítimas de avaliar. Isto leva as escolas curitibanas a descumprirem o
que as Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e a Deliberação 007/99
definem como regras oficiais para a avaliação. Uma delas, a de que provas e
testes devem valer menos do que a maioria absoluta do total da nota; outra, a
de que a escola nunca pode usar menos do que três formas diferentes de
avaliação. Assim, basta olhar as
propostas das escolas em suas páginas na internet e ver que elas têm provas
valendo 8,0 ou 10,0 pontos, ou perceber que não há nada além de prova e uma
pesquisa valendo nota. O Colégio Santa Felicidade é um exemplo notável dessa
facilitação a professores e alunos.
A própria
linguagem em que as propostas pedagógicas estão elaboradas demonstra um domínio
exíguo da língua. Não parecem obra de profissional formado. Mas são. Por isso,
torna-se impossível não vincular todo esse desconhecimento das ciências à má
qualidade da formação desses profissionais. Se os pais, tantas vezes, não
chegaram a fazer um curso superior, o professor chegou, e deveria ser ele o
responsável por vencer os achismos e o senso-comum que a verdade científica já
desconstruiu e lutar pela implantação daquilo que há décadas as propostas
curriculares vêm defendendo. Elas, sim, vieram das mãos de profissionais
qualificados.
sábado, 6 de julho de 2013
BERTOLT BRECHT, ONTEM E HOJE: MOVIMENTOS SOCIAIS E VOZES DA ACADEMIA
Profa. Anna Stegh
Camati
Em 20.06.2013, os alunos do
Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE apresentaram um painel sobre a
dramaturgia, crítica e linguagens cênicas de Bertolt Brecht (1898-1956) no VII
CIEL da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Brecht será sempre
lembrado por desenvolver uma arte engajada em causas sociais e por
manifestar-se contra os desmandos dos detentores do poder. Por conta da atual
conjuntura política que levou milhares de pessoas (majoritariamente jovens) às
ruas em diversas cidades, as reflexões desenvolvidas pelos mestrandos se
inseriram na pauta das reivindicações dos manifestantes, cujas vozes inicialmente
protestaram contra o aumento abusivo das tarifas do transporte público mas que,
em seguida, tomaram de assalto o Congresso com insatisfações de longa data que
afetam diretamente a população brasileira
Um dos participantes do painel levantou um paralelo entre os
acontecimentos da peça A mãe (1931), de Bertolt Brecht, adaptação
do romance homônimo de Máximo Gorki, e as mobilizações nas ruas em todo país.
Em uma das cenas desse texto, os operários de uma fábrica lutam pelos seus direitos e se
manifestam contra a opressão capitalista. Os protestos começam com o desconto
de um “copeque” (moeda de baixo valor) do salário dos trabalhadores, no
entanto, como argumenta um dos personagens, a luta não se trava apenas pelo
“copeque”, nem pelo remendo do casaco, mas
pelo casaco inteiro.
Em matéria publicada em 19.03.2013, na terceira página do Caderno G, da Gazeta do Povo, intitulada “Acordes
Locais”, Luiz Claudio Oliveira, faz comentários a respeito das mobilizações de
rua que remetem às colocações brechtianas mencionadas acima: “Ao contrário do
que pensam os conformados, os protestos não são só pelos vinte centavos do
aumento do ônibus [...]. Tem outros motivos banais que vão se acumulando e
subindo mais rápido que água de inundação. Tem o mensalão e toda a corrupção que
ele representa e que se espalha nos gabinetes dos três poderes. Tem o Renan na
presidência do Senado, tem o Feliciano na presidência dos Direitos Humanos, as
benesses exageradas para os políticos,
os magistrados e os apaniguados em cargos de comissão ou recebendo jetons em
dispensáveis postos nos conselhos administrativos de empresas públicas. Quanta
sujeira”. Acrescente-se a isso a “avalanche
de impostos municipais, estaduais e federais que nos impõem em troca de
serviços públicos de péssima qualidade” nas áreas da educação, saúde e outras.
Durante as apresentações na UEPG de Ponta Grossa, as vozes dos mestrandos
mesclaram-se com os clamores do povo nas ruas. A reflexão crítica não se
limitou apenas às tensões subjacentes ao contexto cultural da época em que Brecht
viveu e escreveu, mas estendeu-se aos problemas da realidade brasileira de
hoje. Como afirmou o encenador Peter Brook, na história da humanidade sempre
surge um momento em que uma combinação de fatores e circunstâncias valida a
opção de montar um texto clássico. Nesse sentido, agora é a hora e a vez de
Bertolt Brecht.
No Brasil, a influência de Brecht evidenciou-se em vários momentos
históricos de tensão sócio-política nos
quais o dramaturgo alemão foi revisitado, atualizado e ressignificado. O painel
apresentado pelos mestrandos da UNIANDRADE objetivou criar um espaço de
discussão e reflexão, ressaltando não apenas a atualidade de Brecht, mas sua
importância como pensador e o caráter dialético de sua dramaturgia que permitem
a adaptação de suas peças, em linguagens contemporâneas, para novos tempos e
novos públicos.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
FAROESTE DE ONTEM E HOJE
Verônica Daniel Kobs*
Uma das músicas mais longas do rock
nacional virou filme. Faroeste caboclo,
escrita por Renato Russo, na década de 1970, e lançada em 1987, pela Legião urbana, no disco Que país é
este 1978/1987, foi o ponto de
partida para o roteiro do longa Faroeste
caboclo. O filme brasileiro foi lançado em maio de 2013, com roteiro de Marcos
Bernstein e Victor Atherino; direção de René Sampaio; e atuações de Fabrício
Boliveira (João), Ísis Valverde (Maria Lúcia), Felipe Abib (Jeremias) e César
Troncoso (Pablo).
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João e Maria Lúcia, “com a Winchester 22”, e Jeremias,
no filme Faroeste caboclo**
O desafio era adaptar para as telas a
história da música de Renato Russo, conhecida pela sua extensão (são 160 versos
cantados em nove minutos e três segundos de música), pela estrutura peculiar
(apesar do tamanho, a música não tem refrão) e pelo enredo denso e trágico. Deu
certo. Com cortes, inversões e acréscimos comuns a qualquer adaptação, o filme cria
um clima de suspense que se mantém do início ao fim, mesmo com o desfecho trágico
já anunciado pela letra da música. É certo que os fãs de Renato Russo e da Legião urbana esperavam reconhecer, na
tela, traços da música que conta a história de João de Santo Cristo e Maria
Lúcia. Pois está quase tudo lá (e, nesta parte, o spoiler é necessário): o passado de criminalidade de João e o desejo
de vingança pela morte do pai; a plantação de maconha, em sociedade com Pablo;
“a violência e o estupro”; “o senhor de alta classe com dinheiro na mão”; o
amor por Maria Lúcia; e a rixa com Jeremias. A única ausência é a do boiadeiro,
que “tinha uma passagem e ia perder a viagem/ Mas João foi lhe salvar” (LEGIÃO, 1987). Na
música, o encontro dos dois é o que desencadeia a ida de Santo Cristo para
Brasília, mas, no filme, houve motivos de sobra para o corte. O principal deles
foi a condensação da história, que ficou com menos deslocamento e menos
personagens, o que rendeu pontos no adensamento da trama.
No filme, pouca coisa não fazia parte
da letra. Porém, o roteiro apresenta algumas modificações, todas adequadas e
bastante pertinentes. O “senhor de alta classe”,
no filme, corresponde ao senador, pai de Maria Lúcia, que oferece dinheiro a
João, para tentar afastá-lo da filha. Além disso, no filme, João é surrado e
violentado pela turma de Jeremias. Essas alterações são fundamentais, pois
ampliam o triângulo amoroso entre João, Maria Lúcia e Jeremias, acirram a
disputa entre os dois rivais e conferem mais unidade à história, porque fatos
que, na música, apareciam isolados, no filme são relacionados aos personagens
principais.
A ordem dos acontecimentos da história
contada na música Faroeste caboclo também
sofreu adaptações. No longa, Santo Cristo conhece Maria Lúcia logo no início,
antes de começar a cultivar maconha, antes de sofrer violência sexual e também
antes de se tornar um “bandido/ Destemido e temido no Distrito Federal” (LEGIÃO, 1987). A
justificativa para isso é bastante plausível. Não só Maria Lúcia aparece, no
filme, desde o início, mas também Jeremias. Ele sempre desejou a garota e
controlava o tráfico da região. Com a chegada de João, ele perde a chance de
conquistar a mulher que ama e perde poder e dinheiro, já que a droga oferecida
por Pablo e Santo Cristo era de melhor qualidade. Aliás, esses dois motivos
detonam todos os conflitos entre os personagens e ganharam como suporte uma espécie
de “continuidade” dada pelos roteiristas à música de Renato Russo. Como música
e cinema se opõem, no que se refere ao que é abstrato e concreto, o filme
precisava preencher o espaço daquilo que não foi dito no texto. Na música,
depois de um embate com o rival, João fica um tempo longe de casa e, quando
volta, descobre Maria Lúcia casada com Jeremias e grávida. No filme, a ausência
de Santo Cristo e até mesmo o casamento inusitado são explicados: João foi
preso a mando de Jeremias,
sofre violência constante na cadeia e, por isso, Maria Lúcia faz um acordo com
Jeremias — o casamento em troca da segurança e da vida de João.
Passando agora para elementos
extra-textuais, o
faroeste da década de 1970 está na música e também no filme e focaliza momentos
decisivos, marcas da revolução da época, no país e em Brasília, principalmente,
como as festas punk e a “Roconha”.
Revolução e liberdade dão o tom para a rebeldia, a corrupção, a diferença de
classes e a luta pelo poder, no tráfico. Aliás, essas características são
próprias do faroeste, gênero baseado no western americano, pelos significados inerentes a esse tipo de filme: “conquista
de poder e de território” e, segundo Glauber Rocha, também “transformação” e a
representação da “marcha da civilização” (ROCHA, 2011). A reedição da música de
Renato Russo hoje, em forma de filme, adapta-se perfeitamente ao contexto
contemporâneo. Nossa época é marcada pelo crescimento da violência e da
criminalidade, que reforçam e refletem o individualismo e os duelos diários
para resolver todo e qualquer tipo de conflito. Por isso, a história contada na
música Faroeste caboclo serve de
alegoria aos conflitos experimentados e redivivos, em plena era da
globalização.
Faroeste
caboclo
(2013) exacerba a disputa de classe e de cor que fazia parte dos versos de
Renato Russo: “Não entendia como a vida funcionava / Discriminação por causa da sua
classe e sua cor” (LEGIÃO, 1987). Isso ocorre, pelas reações que a relação
entre Maria Lúcia e João de Santo Cristo provoca em Jeremias e no senador
(personagem de Marcos Paulo, pai de Maria Lúcia). Além disso, os duelos entre
João e Jeremias são vários (em festas, encontros casuais, na “Roconha” e no
final da história). A violência das cenas que opõem João de Santo Cristo e
Jeremias é espetacular. Inversamente, os cenários e o figurino são simples, justamente
para não ofuscarem o tom do filme e os conflitos que ele apresenta. A escolha
de contrabalançar as coisas é perfeita, sinal de que Faroeste caboclo é mais conteúdo do que ritmo; mais ideologia do
que forma.
No que diz respeito aos grandes duelos
do filme, o primeiro, realizado na “Roconha”, impressiona pela artimanha de
Jeremias, pelo suspense e pela grandiosidade das cenas. Jeremias faz João saber
do evento e o rival resolve aparecer. Chegando lá, Santo Cristo atrai Jeremias
para a mata e o surpreende com um grupo armado, comandado por Pablo. Mas a
maior surpresa estava por vir: Jeremias também mostra que veio armado e chama
seu bando, liderado por seu amigo, um policial corrupto (personagem de Antônio
Calloni). Com os dois inimigos frente a frente, o faroeste (um épico urbano) se
concretiza.
No duelo final, o que impressiona é a
atitude desmedida dos personagens: João marca o encontro, escrevendo o endereço
na mesinha da sala de Jeremias, com a cocaína que roubou do rival; Maria Lúcia
vai até lá, levando a Winchester 22, para tentar impedir o pior; e Jeremias
atira não só no inimigo, mas também em sua mulher, grávida.
Cena do duelo final, no filme Faroeste caboclo**
No filme, o final trágico e sangrento
faz jus à história da música, mas sem a plateia imaginada por Renato Russo: “Sentindo o sangue na
garganta,/ João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir/ E olhou pro
sorveteiro e pras câmeras e / A gente da TV que filmava tudo ali” (LEGIÃO,
1987). No duelo do filme, os
espectadores são o próprio público, que se impressiona com a ação violenta, com
as mortes e com os motivos da tragédia. O espetáculo da letra da música (“— Se
a via-crucis virou circo, estou aqui” (LEGIÃO, 1987)) se fez de outra forma,
nas salas de cinema, quando a música de Renato Russo de abstrata se fez
concreta.
*Doutora em Letras e Professora de Imagem e Literatura do Curso de
Mestrado em Teoria Literária da Uniandrade – PR
** Imagens disponíveis em: www.google.com.br
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quarta-feira, 19 de junho de 2013
Dom Casmurro e os discos Voadores
MACHADO DE ASSIS
& LÚCIOMANFREDI
DOM CASMURRO
E OS DISCOS VOADORES
O título do
livro publicado pela editora Lua de Papel, Dom
Casmurro e os discos voadores, destina-se, evidentemente, a chamar a
atenção para a reescritura de obras canônicas como combinações de gêneros de
literatura de massa, na série Clássicos
Fantásticos. Três outros títulos foram publicados em 2010, como parte do
projeto da editora de “recriar nossas obras mais festejadas [...] com elementos
da ficção moderna”: Senhora e a bruxa,
A escrava Isaura e o vampiro e O alienista caçador de mutantes,
assinados, respectivamente, por Angélica Lopes, Jovane Nunes e Natália Klein.
O estudo de Dom Casmurro e os discos voadores foi
assunto do trabalho que apresentamos em um dos simpósios do 25º Congresso da
LASA (Latin American Studies Association), em Washington, no final de maio. Foi
gratificante verificar o interesse da platéia, formada de estadunidenses que se
dedicam ao estudo da literatura dos diversos países da América Latina ─
particularmente os de língua espanhola ─ e de estudiosos falantes de espanhol,
pela literatura brasileira. Houve curiosidade em saber detalhes sobre os demais
romances que compõem a série.
Nosso trabalho
partiu do exame da tendência mundial de associar obras consagradas com gêneros
tornados populares pela mídia ─ deflagrada pela publicação de Pride and Prejudice and Zombies, por
Seth Grahame-Smith ─ para as questões de autoria e da classificação dos gêneros
utilizados em tais reescrituras.
A indicação de
coautoria estampada em evidência na capa das obras mencionadas ─ Machado de
Assis & Lúcio Manfredi; José de Alencar & Angélica Lopes ─ suscita
problemas de teoria literária, por fugir aos parâmetros da adaptação e da
paródia.
Para examinar a
propriedade de colocar as diferentes utilizações do sobrenatural sob o
guarda-chuva comum da ficção científica, reportamo-nos aos estudos de Eric
Rabkin sobre o fantástico. Rabkin aponta que o termo ficção cientifica “vem
sendo forçado a prestar os mais variados serviços”: da viagem a Laputa em Viagens de Gulliver (1726) e do Icaromenippus de Luciano de Samosata
(b.120 A.D.) à série Guerra nas estrelas.
Sua observação seguinte põe em relevo a flexibilidade do gênero e as
dificuldades de categorização: “E há outros trabalhos [...] que se esgueiram
para dentro e para fora do gênero sem que ninguém note”. (NOTA)
As dificuldades
aumentam claramente na atual sociedade de comunicação de massa, em que a mídia
visual tem papel preponderante e fornece as mais esdrúxulas combinações
permitidas pela tecnologia.
MAIL MARQUES DE
AZEVEDO
NOTA. RABKIN, E. The
Fantastic in Literature. Princeton: Princeton Un, Press, 1977.p.
118-119 Tradução da autora
quarta-feira, 12 de junho de 2013
TEORIA DA NARRATIVA: LEITE DERRAMADO E SUAS DIVERSAS ABORDAGENS
Luiz Zanotti
Na próxima semana os
alunos da disciplina Teorias da narrativa irão apresentar no CIEL (UEPG),
diversos ensaios no Grupo de Trabalho “Leite
derramado e suas diversas abordagens”. Estes ensaios mostram a diversidade
de perspectivas teóricas possíveis de serem assumidas para a análise literária
do romance de Chico Buarque. As diversas possibilidades da interpretação de uma
obra literária estão baseadas em processos tais como a investigação do seu
estrato linguístico e discursivo, a relação do texto com a história, aspectos
sociais, psicológicos e políticos envolvidos, e mais recentemente, a interação
do leitor com a obra, os estudos culturais e de gênero. Para Marisa Lajolo,
estas diferentes perspectivas assumidas pelos estudos da literatura frente ao
seu objeto muitas vezes coexistem e hoje em dia quase sempre se sobrepõe. Desta
forma, dentro do panorama perspectivista contemporâneo, o Grupo de Trabalho
buscará construir um panorama interpretativo da narrativa do protagonista
Eulálio Montenegro d’Assumpção, um homem centenário, que faz um relato da sua
existência através da derrocada de uma família tradicional carioca desde a
Monarquia até os tempos atuais através da reflexão sobre as manifestações
críticas e formulações teóricas suscitadas pela narrativa ficcional.
A minha contribuição
está contida na problematização se o romance objeto deste GT é ou não um
romance histórico, conceito construído pelo filósofo marxista George Lukács e
que possui uma série de características, entre as quais a descrição da
transformação da vida popular através de um conjunto de tipos humanos
característicos. No entanto, para Seymour Menton (2010), a designação
“histórica” deve ser somente utilizada apenas para os romances que tem a sua
trama num passado que não foi experimentado diretamente pelo escritor. Desta
forma, seria correto considerar Leite
Derramado como um romance histórico, uma vez que parte da narrativa se
passa durante um período contemporâneo ao autor?
Ainda dentro de uma
linha que privilegia a História, “Relato de uma saga familiar: uma breve
reflexão” de Syonara Fernandes aproveita a narrativa da crise brasileira e a derrocada
da aristocracia nos últimos dois séculos para uma aproximação ao movimento Novo
Historicismo e baseada no pensamento de Stephan Greenblatt, busca compreender a obra de Chico Buarque a
partir do contexto particular da cultura e da época em que ocorreu a narrativa.
A crítica feminista
aparece no ensaio que Ana Rosa Sana apresenta do retrato da mulher e seu papel
na sociedade no início do século XX a partir da visão de Chico Buarque. No
romance Leite Derramado esta imagem feminina aparece repleta de preconceitos e
ideias desarticuladas do ancião com relação à esposa, a partir de determinadas
convenções estéticas da época, que segundo Showater, interferem na prevalência
do subjugo das mulheres pelos homens.
Carlos Alberto Alves analisa a obra de Chico Buarque de Holanda
sob uma perspectiva psicanalítica.
Embora a psicanálise tenha fins clínicos e terapêuticos, que diferem da
literatura, Carlos afirma que ela se processa pela interpretação do discurso,
quer seja oral - o mais comum na clínica – ou até mesmo escrito. Assim, dentro
da imensa gama da teoria psicanalítica, é problematizado principalmente o
conceito de livre associação elaborado por Sigmund Freud através de um diálogo
entre a teoria psicanalítica e o texto literário.
A carnavalização de Leite Derramado está no centro do ensaio
de Patrícia Penkal de Castro que identifica esta característica conceituada nos
estudos de Bakhtin (2005). A carnavalização aparece como uma maneira de mostrar
o mundo por intermédio da inversão de costumes e valores, ou seja, a tradição
de uma sociedade é apresentada pelo chamado “mundo às avessas” que acarreta a
eliminação de toda a distância entre os homens ocasionando o livre contato
familiar entre eles, separados na vida diária por barreiras hierárquicas.
Dentro das últimas
abordagens teóricas, Renata Vargas traz a teoria dos efeitos conceituada pelo
teórico Wolfgang Iser (1996). A teoria dos efeitos analisa a interação entre o
texto e o leitor, sendo que o texto ganha existência no momento da leitura.
Neste sentido, Iser entende a recepção como noção estética que abrange um duplo
sentido: o efeito produzido pela obra e a maneira como esta é recebida pelo
público.
Leandro Amaral trabalha
uma abordagem estruturada nos Estudos culturais, visando a reflexão sobre a dignidade da pessoa
humana através de uma análise voltada a algumas situações apresentadas na obra
em questão, bem como uma possível compreensão das inúmeras relações entre
indivíduos. Finalmente, Winston Mello trabalha a desconstrução de Jacques
Derrida, um passo adiante em relação ao estruturalismo “clássico”, resultado de
um corte epistemológico na análise da estrutura através da inserção de um
elemento temporal, a “differance”, no entendimento do constructo supostamente
objetivo e não-histórico que seria o texto.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Cláudio Manuel da Costa em três momentos
Prof. Dra. Edna Polese
A obra de Cláudio Manuel da
Costa, poeta árcade, morto em circunstâncias misteriosas por seu envolvimento
com os Inconfidentes, demonstra a tentativa de se cantar um Brasil em formação.
Por um lado, a poesia épica, Vila Rica,
de 1773: envolta em acontecimentos históricos, conta a conquista do território
brasileiro, mais especificamente as vilas de Minas Gerais, a busca pelo ouro e
a instalação de um projeto civilizatório buscando seus moldes na mentalidade
europeia que se embasava na Razão. Por outro lado, a poesia bucólica “brigava”
com uma paisagem selvagem e ainda indomável frente a uma imagem herdada da
paisagem idealiza e europeia. A figura do poeta ganha contrastes diferentes em
decorrência de seu envolvimento com a Inconfidência Mineira que o leva a prisão
onde é encontrado morto. Era o ano de 1789.
Em 1953, Cecília Meireles publica
aquela que será considerada por muitos sua obra-prima: Romanceiro da Inconfidência. Fruto de um exaustivo trabalho de
pesquisa histórica, a obra retoma o momento histórico mais importante da
história de Minas Gerais e uma das mais destacadas no Brasil. Desfila no seu
poema uma gama de personagens, reais e fictícios, que sofrem a consequência dos
fatos históricos. O poema é inspirado, na forma, nos romances populares de
origem ibérica, o romanceiro. No “Romance XLIX ou de Cláudio Manuel da Costa”,
Cecília Meireles destaca a morte do poeta árcade:
“Que fugisse, que fugisse...
- bem lhe dissera o embuçado! –
que não tardava a ser preso,
que já estava condenado,
que, os papéis, queimasse-os todos...
Vede agora o resultado:
mais do que preso, está morto,
numa estante reclinado,
e com o pescoço metido
num nó de atilho encarnado.
(...)
Entre esta porta e esta ponte,
Fica o mistério parado.
Aqui, Glauceste Satúrnio,
morto, ou vivo disfarçado,
deixou de existir no mundo,
em fábula arrebatado,
como árcade ultramarino
em mil amores enleado.
Retomando os acontecimentos históricos que
envolveram a Inconfidência, seus atores e consequências, Cecília Meireles
apresenta-nos uma obra panorâmica que retrata, em momentos específicos, a vida
e morte desses personagens. Claudio Manuel da Costa sofre de maneira obscura as
consequências do seu envolvimento político fazendo um contraste entre o
idealismo de sua poesia e o realismo dos acontecimentos que o cercava. O poeta
árcade é um dos exemplos de perseguição à intelectualidade à época e isso fica
bem destacada no primeiro trecho do poema de Cecília Meireles em que uma voz
anônima aconselha o poeta a se calar, a fugir, a destruir a sua obra em prol de
uma possível sobrevivência.
O diário-ficcional da autoria de Silviano Santigo, Em liberdade, publicado em 1981, retrata
ao molde de um texto confessional, a suposta continuidade da obra de Graciliano
Ramos Memórias do Cárcere. Relatos da
família de Graciliano testemunham a ideia de que o autor pretendia escrever
algo renovador sobre a sua vida após ser libertado da prisão. Graciliano Ramos
foi perseguido pelo governo de Getúlio Vargas nos anos de 1930. Escreve uma
obra memorialística que retrata sua experiência na prisão e não consegue se
livrar desse aspecto amargo de sua vida. Silviano Santigo inspira-se nesse
desejo do autor e o realiza pela via ficcional. O Graciliano criado por
Silviano retoma, aos poucos, o prazer pela vida, de maneira lenta e dolorosa.
Num desses momentos, na obra, personagem de Graciliano debruça-se sobre a vida
de Claudio Manuel da Costa observando a proximidade das circunstâncias
políticas que os levaram à prisão: Claudio por conta da Inconfidência,
Graciliano por conta das questões políticas que ambientavam o momento do
governo Getuliano.
Essa proximidade entre Graciliano e Claudio Manuel
reforça o tema sobre a perseguição política sofrida por vários de nossos
escritores. Ainda sobre o romance, escrito na década de 80, há a sombra do
período da ditadura e a imagem de Claudio Manuel da Costa, supostamente morto e
enforcado na prisão, é aproximada à de Vladimir Herzog, jornalista que foi
assassinado no ano de 1975. O fato da fotografia apresentada pelo governo
demonstrar a impossibilidade do suicídio suscita revolta e questionamentos.
Assim, o poema de Cecília Meireles e a obra de Silviano
Santiago retomam momentos sensíveis da história política do Brasil destacando
figuras do mundo intelectual que sofreram de maneira direta e violenta as
consequências desses momentos. A literatura passa a ser também a possibilidade
memorialística e retoma o tema da perseguição intelectual sob formatos e tempos
diferentes.
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