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sábado, 29 de novembro de 2025

 CRÍTICA LITERÁRIA: NOVELA URBAN, DE MARCELO ALCARAZ

 

 

Rubens Gomes Corrêa

 

 

Título do livro: Urban

Autor da obra: Marcelo Alcaraz

Editora: Urutau

Data de edição: 2025

Gênero literário: Literatura contemporânea / Ficção urbana


 

Crédito da imagem: https://editoraurutau.com/titulo/urban

 

Narrador: A narrativa é em terceira pessoa, permitindo uma visão abrangente sobre os pensamentos e sentimentos do protagonista, Urban. Essa escolha narrativa ajuda a construir uma conexão entre o leitor e as frustrações e anseios do personagem.

Tempo da ação: A história se passa em um contexto contemporâneo, logo após o período da pandemia, refletindo um momento de transição e adaptação social.

Análise geral: O livro Urban, de Marcelo Alcaraz (2025), apresenta uma narrativa densa e introspectiva que mergulha na psicologia de seu protagonista, um soldado imerso em um conflito interminável e desumanizador.

A obra destaca-se por sua crueza e pela complexidade com que trata temas como a violência cotidiana, o impacto psicológico da guerra, a perda da ética e da humanidade, e a alienação causada tanto pela brutalidade do conflito quanto pelo mundo contemporâneo das redes sociais e do consumo.

A escrita de Alcaraz é marcada por uma prosa direta, às vezes fragmentada, que reflete a confusão e o desgaste emocional de Urban, ao mesmo tempo em que evoca uma reflexão profunda sobre a condição humana em contextos extremados.

A construção do personagem Urban é particularmente eficaz ao mostrar a contradição entre sua formação universitária e sua função violenta no campo de batalha, além das tensões internas entre seus valores éticos e as ações que é obrigado a cometer. Esse conflito interno, bem como a representação do sofrimento emocional ganha ainda mais força pela ausência de qualquer romantismo sobre a guerra; Alcaraz expõe uma realidade dura, onde a humanidade se corrói diariamente.

Outro aspecto relevante é a crítica social implícita na obra, que denuncia não apenas a violência física da guerra, mas também a violência simbólica e estrutural de uma sociedade que banaliza o massacre e naturaliza o sofrimento, além de explorar a negligência frente ao passado e às consequências do esquecimento coletivo. Em suma, Urban funciona como um espelho inquietante da atualidade em que vivemos, transpondo para a literatura o impacto da barbárie cotidiana através da lente de um indivíduo que luta para manter sua sanidade frente ao caos, tornando-se um texto significativo para a reflexão sobre ética, memória, e a fragilidade da condição humana diante da violência sistêmica.

Essa crítica literária evidencia a força simbólica da obra e sua capacidade de provocar um olhar crítico sobre a guerra e as suas múltiplas dimensões humanas e sociais.

 


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Rubens Gomes Corrêa: Nascido em Mandaguaçu, Paraná. Reside em Curitiba desde 1982. Doutorando em Teoria Literária pelo Centro Universitário Campos de Andrade e Mestre em Assistência pela UFPR. Especialista em Didática do Ensino Superior. MBA em Gestão do Conhecimento na Educação Superior. Professor no Instituto Federal do Paraná. Possui 26 livros publicados.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

 

CAPÍTULOS DE UMA VIDA PERMEADA PELA LITERATURA

 

Angela Cristina Cavichiolo Bussmann

 

Desde a minha infância a literatura faz parte do meu cotidiano. Minha mãe era professora de uma escola pública dos Anos Iniciais e, portanto, os livros faziam parte natural do ambiente doméstico. Meu pai, embora trabalhasse no comércio, sempre foi um leitor ávido. Lia inúmeros livros por mês — e continua assim até hoje, mesmo com mais de oitenta anos. Crescer nesse contexto foi, de certa forma, crescer entre histórias, palavras e mundos imaginários. Talvez por essa influência familiar, desde muito cedo desenvolvi um gosto profundo pela leitura.

Lembro com carinho de um costume da minha infância: o “presente do mês”. A cada novo mês, havia a expectativa pelo presente que minha mãe traria — e, na maioria das vezes, por opção dela ou escolha minha, eram livros infantis. Eu os devorava em poucos dias e, enquanto o próximo não chegava, relia os anteriores com o mesmo entusiasmo da primeira vez.

Na adolescência, essa relação se ampliou. Para quem nasceu nas décadas de 1970 e 1980, os livros da Coleção Vaga-Lume marcaram época e acompanharam uma geração inteira. Lembro-me de passar tardes inteiras mergulhada em títulos como “A Ilha Perdida”. Lia um após o outro, entretida e encantada com as histórias.

Com o passar do tempo, a literatura foi assumindo novos papéis na minha vida. Na fase adulta, ela deixou de ser apenas entretenimento e tornou-se também instrumento de conhecimento, reflexão e aprendizado. Passei a ler não apenas romances, mas também biografias, ensaios e livros de não-ficção. A leitura, que começou como um gesto de curiosidade infantil, transformou-se em uma forma de compreender o mundo — e, em muitos momentos, de compreender a mim mesma.

Além disso, sempre gostei de aprender novas línguas, e a literatura também me acompanhou nesse caminho. Ler em outros idiomas me ajudou a perceber nuances culturais, formas de pensar e expressões que vão além das palavras. Em cada língua, há uma forma particular de ver o mundo e é isso que, em muitos momentos, torna a leitura uma ponte entre culturas. Às vezes, optava por versões adaptadas; outras vezes, enfrentava o texto original como um desafio prazeroso.

Com o tempo, vieram as mudanças tecnológicas e, junto delas, novas formas de ler. Ainda que o livro físico ocupe um lugar insubstituível — o cheiro das páginas, o peso nas mãos, o gesto de virar cada folha —, o formato digital, como o Kindle, também conquistou espaço. Hoje, a literatura me acompanha em diferentes suportes, adaptando-se às rotinas e aos tempos modernos, mas sem perder sua essência. 

 


Crédito da Imagem: concedida pela autora.


A literatura, acredito, é um dos maiores exercícios de empatia e imaginação que podemos experimentar. Ela nos permite viver vidas que não são as nossas, sentir dores e alegrias de personagens distantes, enxergar o mundo por outros ângulos. Como disse Jorge Luis Borges, “sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”. E talvez haja verdade nisso: ao ler, nos aproximamos do que há de mais humano — a capacidade de sonhar, de pensar, de criar.

Estudos em diferentes áreas apontam para os inúmeros benefícios da leitura, não escreverei sobre eles, mas tenho a certeza de que ela nos ajuda a compreender as complexidades da vida, a lidar com sentimentos e a cultivar a sensibilidade. É uma prática silenciosa que molda, pouco a pouco, o modo como enxergamos o outro, a nós memos e o mundo.

Hoje, continuo lendo com a mesma frequência e entusiasmo de antes. Acompanho lançamentos, redescubro clássicos e revisito histórias que marcaram minha trajetória. Acredito que, assim como a linguagem, a literatura é viva — ela se transforma conosco, acompanha as fases da vida e nos devolve sempre algo novo. Tenho certeza de que os livros seguirão presentes em todos os meus dias. Porque ler, mais do que um hábito, é uma forma de estar no mundo.

 

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Angela Cristina Cavichiolo Bussmann: é formada em Letras – Português e Inglês. Atua como professora e coordenadora de inglês há mais de 25 anos. Fez cursos de especialização em Literatura Brasileira, Literatura Americana e Literatura Inglesa no Brasil, Inglaterra e Japão. Integra a equipe técnica de Língua Estrangeira da Secretaria Municipal de Educação de Curitiba.