ONDE HABITA O MEDO
Silvana S. Silva
Onde habita o medo
Autor: Tai
Desenhos: Niil
HQ brasileira ambientada na região Norte do Brasil
O cheiro de
rio e o peso do silêncio
A história começa com aquele alívio gostoso de
quem volta para casa. Kauê deixa a bagunça de Belém para trás e entra no ritmo
do rio. A gente quase consegue sentir o vento úmido no rosto e aquele sol
alaranjado que só existe no Norte, batendo na pele enquanto ele chega à casa
dos avós.
É um começo que abraça: tem o cheiro do café
coado, o estalar do chão de madeira e aquela paz de estar com quem a gente ama.
Dá vontade de morar dentro dessas primeiras páginas.
Só que, conforme o dia cai, esse aconchego vai
ficando meio estranho. Sabe quando você sente que tem alguém te olhando, mesmo
estando sozinho? Pois é. Os desenhos mostram uma floresta que não é só mato;
ela parece um bicho gigante que está ali, parado, observando.
O
autor não busca assustar o leitor logo de início; ele vai plantando uma sementinha de dúvida. Entre uma história e outra
contada pelos avós, você percebe que o medo deles não é superstição boba.
É um medo real, de quem conhece os segredos
que o rio esconde quando a luz vai embora.
Onde o
trauma vira monstro
Quando a noite chega de vez, o azul toma conta
de tudo e o clima fica pesado, quase sufocante. Aquele papo de criança
desaparecida na região deixa de ser boato e vira um desespero que dá nó na
garganta.
Kauê acaba no meio de um pesadelo que mistura
as lendas antigas com a dor de ver a floresta sendo maltratada. O traço do
desenho aqui fica mais “sujo”, mais intenso, e você sente a aflição do menino
tentando entender o que é visagem e o que é perigo de verdade.
O que mais mexe com a gente no final não é nem
o monstro em si, mas o que ele representa. O “medo” ali não é um vilão de
filme; é o grito de uma terra que está sendo invadida e de uma cultura que as
pessoas tentam apagar.
Você fecha a HQ com um vazio no peito, meio
pensativo, sentindo que o verdadeiro horror não está nas sombras da mata, mas
no que o ser humano é capaz de destruir.
É uma leitura que não sai da cabeça facilmente; ela fica ali, cutucando, lembrando que a floresta tem memória e que o medo, às vezes, é a única coisa que sobra quando a gente perde as raízes.
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Silvana S. Silva
é graduada em Ciências Econômicas, com especialização na área de Negócios
Digitais. Atua como tradutora de francês e inglês, desenvolvendo atividades
relacionadas à comunicação e à mediação linguística. Atualmente, dedica-se ao
estudo e à aplicação de ferramentas de Inteligência Artificial no cotidiano,
buscando ampliar conhecimentos e explorar novas possibilidades de uso dessas
tecnologias em contextos profissionais e pessoais.








