A DUPLICIDADE DE SENTIDOS E O DISFARCE DAS IDENTIDADES
EM REI LEAR
Célia Arns de Miranda
(Este estudo é um pequeno
recorte de um artigo que ainda está sendo desenvolvido sobre a peça Rei
Lear que é
considerada uma das quatro grandes tragédias de Shakespeare, juntamente com Hamlet, Macbeth e Otelo.)
Crédito da imagem:
Edições livre. Disponível em
<https://edicoeslivre.com.br/rei-lear-edicoes-livre> Acesso em 16 jun.
2026.
Apesar de que em toda a obra
dramática de Shakespeare a temática da aparência e realidade seja considerada
uma questão fundamental, percebe-se que em Rei
Lear esse tema destaca-se em diversos níveis. Na realidade, as peças shakespearianas apresentam dois níveis de significação: uma significação
apresentada ou evidente e uma significação subjacente (FRYE, 1992) que é
expressa por meio de metáforas, da imagística, da simbologia, dos Bobos, dos
monólogos, do transvestimento, dos disfarces, das máscaras ou, por meio de
certos discursos subordinados e subliminares. Esses níveis podem ainda ser
chamados de “nível explícito” e “nível implícito”. Em Rei Lear, nós nos defrontamos com a duplicidade de sentidos em toda
a tragédia.
Para os elisabetanos havia um perfeita
interligação entre o indivíduo, o estado e a natureza. A peça Rei Lear trata do distúrbio que ocorre
nesses três níveis quando o mal se
instala sobre todo o seu conjunto:
uma vez que se inicia esse processo,
todos os personagens, sejam culpados ou inocentes, são arrastados,
indiscriminadamente, em sua trilha destruidora. Nas peças shakespearianas, o mal está sempre vinculado
a um ato de transgressão contra a natureza. Barbara
Heliodora (1998, p.6) menciona que “não há nada de errado
em Lear dividir seu reino entre as filhas. [...] Onde ele erra, onde ele
transgride a natureza é na sua recusa em compreender o justo amor de Cordélia,
preferindo acreditar nas bajulações de Goneril e Regan”, ou seja, para
Lear a forma tem primazia sobre o conteúdo, a aparência deve preponderar sobre
a verdade.
Obviamente, que o fato de ter sido
enganado e iludido pela hipocrisia de Goneril
e Regan foi um erro de grandes
proporções, entretanto, o erro que coloca
em movimento toda a ação do processo
trágico, é o seu equívoco
em relação ao amor. Lear considera-o como uma
mercadoria que pode ser comprada com presentes
̶ nesse caso as três partes de
seu reinado. Quando Lear pergunta, “Qual das três vai dizer que mais nos ama,
// Para tornar mais amplo o nosso dote, // Pondo em debate a natureza e o
mérito?” (SHAKESPEARE, 1.1. p.16), ele não se comporta apenas como uma pessoa tola e autoritária, mas como alguém que tem uma compreensão completamente errada da relação
mais vital entre os seres vivos e demonstra ter um conhecimento muito superficial de suas
filhas.
Ao perguntar para Cordélia o que ela tem
a oferecer nessa competição verbal para ganhar
“o terço mais polpudo
que o das irmãs”, ela responde “nada, senhor” (“Nothing, my
lord”). É interessante perceber que a palavra “nada” recebe uma ênfase
adicional quando ela é repetida cinco vezes em uma troca de palavras de quatro
linhas:
Shakespeare, muitas vezes, faz com que
uma simples palavra como “nada” nessa passagem, sustente um peso de
significados. Lear considera o amor como tendo um valor mensurável, que pode
ser trocado por propriedade, da forma como Goneril e Regan fizeram. A palavra
“nada” na resposta de Cordélia tem um sentido duplo: Cordélia, por um lado,
afirma que não é possível dizer qualquer coisa que se iguale às asseverações substanciais e falsas de suas irmãs. E, por outro lado, a negativa de Cordélia está relacionada com a visão de
amor de Lear como uma mercadoria. O amor de Cordélia é espiritual, não é
material, não podendo ser trocado, comprado ou usado. A caminhada de Lear
através da peça é da ignorância desse fato para o sofrido reconhecimento e
constatação dele.
O que acaba por se tornar uma ironia é que, apenas algumas cenas mais
tarde, Lear é obrigado a enfrentar um desdobramento cruel de seu próprio ato
precipitado, fato que se torna uma constatação extremamente dolorosa para ele:
Lear é desrespeitado, repudiado e expulso de seu próprio reino por Goneril e
Regan. Ou seja, o elo (“bond”) familiar
lhe é negado ̶ tal qual ele havia feito
com Cordélia quando a expulsou de seu reino e negou a natureza
e os elos familiares,
ocasionando a desagregação de sua família e do Estado (guerra civil): a cena da
tempestade na peça reflete o abalo da natureza a partir da subversão da ordem
familiar e social. Lear, na sua trajetória de sofrimento, aprende,
paulatinamente, o significado e a importância da palavra “bond” que ele próprio havia negado a Cordélia. Na
visão de Frye (1992, p. 135), quando “Lear apela para a deusa Natureza para
amaldiçoar Goneril, está se referindo a uma natureza que inclui o que é
tipicamente natural do homem, a uma ordem de existência na qual o amor, a obediência,
a autoridade e a lealdade são naturais por serem autenticamente humanos.”
Há duas concepções de sociedade na peça.
Por um lado, a facção que vê a sociedade
por um prisma de competição natural, de acordo com a analogia
do mundo animal. Por outro,
existe a concepção
da sociedade representada pela rede de deveres que Cordélia defende: nesse caso, a
sociedade, como uma família, é um todo orgânico, mantida unida pela harmonia
espiritual e obrigação ética. Enquanto a peça trata das duas famílias e sua
desagregação, a ideia da sociedade como um todo está implícita na noção da família; a desordem em uma
é a mesma da desordem na outra. De certa maneira é correto afirmar que em Rei Lear todos os relacionamentos
humanos são exemplificados pelos relacionamento Pai-filho.
Nada é mais acertado do que a afirmação
de Jan Kott (2003) de que em Rei Lear a tempestade deve soprar no peito
de Lear e Gloucester e não sobre o palco, para descrever
o sofrimento desesperançado de um velho homem que um
dia foi rei e que agora se prostra com humildade e desespero diante das filhas
desumanas, insensíveis e cruéis. Não restam dúvidas de que o final da última
cena do Ato 2 é uma das mais contundentes na tragédia: Lear desnuda o seu peito estilhaçado para as filhas
intransigentes, ele clama
desesperadamente por
paciência, “Oh céus, dai-me paciência; é o que preciso!” (2.4, p. 91). Lear
tenta controlar-se heroicamente: o esforço para argumentar com as filhas foi excessivo e ele se desestrutura ao pronunciar ameaças
incoerentes, “[...] Bruxas
anormais. // Hei de vibrar nas duas tais
vinganças // Que o mundo inteiro...Eu farei tais coisas, // Não sei o que
serão, mas hão de ser // O horror da terra (...)” (2.4, p. 91). O último verso
dessa fala, “Bobo, eu enlouqueço!” sugere que a loucura se aproxima como também se aproxima a tempestade. Essas
palavras dirigidas ao Bobo são por si só poderosas
entretanto, o contraste dessas palavras com a linguagem dos outros personagens
que permanecem no palco acrescenta um pathos
adicional: todos eles falam com uma tonalidade impassível, inalterada dos
que são totalmente insensíveis ̶ “Vamos entrar. Vai haver tempestade.”
(2.4, p. 91). A partir
da repetição da frase “Tranque
as portas; a noite está violenta.
[...] saiamos da tormenta.” (2.4. p.93) por Regan e Cornwall ao final da cena
4, as duas facções estão definitivamente divididas, física e simbolicamente.
Lear, o Bobo e Kent foram mandados
desprotegidos para fora. Gonerial Regan, Edmund e Cornwall estão dentro do palácio, protegidos pelo poder. E, como Frye afirma com ironia, o “violento séquito”
de Lear consiste apenas no Bobo.” (1992, p. 133).
REFERÊNCIAS
FRYE, N. Sobre
Shakespeare. (Tradução e Notas) Simone Lopes Mello. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
1992.
HELIODORA, B. Falando de Shakespeare. São Paulo: Perspectiva; Rio de Janeiro: FUNARTE: Cultura Inglesa, 1997.
HELIODORA, B. Introdução. IN: SHAKESPEARE, W. Rei Lear. (Tradução) Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Lacerda, 1998.
KOTT, J. Shakespeare nosso contemporâneo. (Tradução) Paulo Alves. São Paulo:
Cosac & Naify, 2003.
SHAKESPEARE, W. Rei Lear.
(Tradução) Barbara Heliodora. Rio de Janeiro:
Lacerda, 1998.
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Célia Arns de Miranda possui Doutorado em Língua
Inglesa e Literaturas Inglesa e Norte-Americana pela Universidade de São Paulo
e Pós-Doutorado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora Titular
da Universidade Federal do Paraná. Atua como professora Sênior no Programa de
Pós-Graduação em Letras da UFPR, e é professora do Programa de Pós-Graduação em
Teoria Literária na UNIANDRADE.