YOLANDA PENTEADO E A ARTE DE SUSTENTAR SONHOS
Alessandra Pereira Louzada
Créditos
da imagem: OpenAI.
(2026). ChatGPT 21 de maio. https://chat.openai.com/chat
A literatura sempre
me tocou. Mas foi o mestrado que aguçou minha percepção para aquilo que a arte
tem de mais invisível: suas camadas humanas, históricas e afetivas.
Ao me debruçar sobre o estudo da Semana de Arte Moderna de 1922 e, especialmente, revisitando a minissérie Um Só Coração, da Rede Globo, senti algo difícil de explicar. Como se aquelas narrativas deixassem de ser apenas conteúdo acadêmico e passassem a ocupar um espaço sensível dentro de mim. Como se eu absorvesse e assimilasse tudo de outra maneira, uma experiência antropofágica, tal como propunha o próprio movimento modernista: devorar referências, memórias, histórias e devolvê-las transformadas em percepção, emoção e pensamento.
E foi nesse contexto que o meu olhar pousou diante da figura de Yolanda Penteado.
Existe algo profundamente simbólico na vida de Yolanda e na época em que ela viveu. Uma feliz coincidência histórica, ou talvez um raro privilégio temporal, ter convivido no mesmo espaço-tempo com Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e tantos expoentes da cultura brasileira.
Imagino aqueles encontros atravessados por ideias, arte, rupturas e sonhos de modernidade, enquanto São Paulo e o Brasil começavam lentamente a construir sua identidade cultural.
E Yolanda estava ali.
Não apenas como
espectadora daquele movimento.
Mas como parte
essencial dele.
Nascida na elite paulistana da época – a chamada elite quatrocentona – Yolanda poderia ter vivido apenas o destino confortável reservado às mulheres de sua classe social. Os salões elegantes, os eventos sociais, a vida cuidadosamente desenhada para parecer impecável e silenciosa.
Mas algumas mulheres nascem com uma percepção rara do próprio tempo.
Sobrinha de Olívia Guedes Penteado, uma das grandes incentivadoras da Semana de 1922, Yolanda cresceu cercada pela arte e pela efervescência intelectual daquele período. Talvez tenha aprendido cedo que cultura não é luxo. Cultura é construção de identidade. É memória coletiva. É permanência.
E quanto mais leio sobre ela, mais penso no quanto algumas figuras históricas acabam ficando à margem das narrativas principais, mesmo sendo fundamentais para que elas existissem.
Yolanda Penteado foi uma das maiores ativistas culturais do Brasil no século XX.
Desafiou seu tempo de maneira elegante, mas firme. Em uma sociedade ainda profundamente patriarcal, ocupou espaços de influência cultural, articulou movimentos, incentivou artistas e ajudou a construir instituições que transformaram definitivamente o cenário artístico brasileiro.
Sua vida atravessou encontros memoráveis.
Foi amiga de Santos Dumont, convivendo com o imaginário da invenção e do impossível. Manteve proximidade com Assis Chateaubriand, que dentre inúmeras realizações, fundou o MASP - Museu de Arte de São Paulo. Instituição com a qual ela sempre manteve uma relação de parceria.
Mas talvez um dos episódios mais fascinantes de sua trajetória tenha sido a criação da Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, ao lado do marido, Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo Matarazzo.
Há algo de cinematográfico nisso tudo.
A primeira Bienal só saiu do papel porque Yolanda atravessou oceanos para fazê-la existir. Viajou pessoalmente à Europa para convencer artistas, galerias e instituições a enviarem suas obras para o Brasil. Fico imaginando-a entre os museus europeus carregando consigo não apenas influência social, mas uma convicção apaixonada de que São Paulo precisava dialogar artisticamente com o mundo.
E conseguiu.
A Bienal Internacional de São Paulo ajudou a transformar a cidade num centro cultural permanente e colocou o Brasil no circuito internacional das artes.
E o que mais me emociona em Yolanda é aquilo que quase não aparece.
Ela não foi a artista mais celebrada de sua geração.
Não pintou como
Tarsila.
Não escreveu
manifestos como Oswald.
Não rompeu paradigmas
estéticos como Anita.
E ainda assim, ajudou tudo aquilo a florescer.
Talvez esse seja um dos maiores segredos da história da arte: às vezes, quem sustenta uma revolução cultural não é só quem aparece no centro da cena, mas quem silenciosamente cria as condições para que ela exista.
Yolanda compreendeu algo raro.
A arte também precisa de abrigo.
Precisa de pontes.
Precisa de quem acredite antes.
E foi exatamente isso que ela escolheu ser: não apenas uma mulher de seu tempo, mas uma mulher que ajudou a transformar o tempo em legado.
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Alessandra Pereira
Louzada, graduada em Publicidade pela PUC-PR, atua na área da comunicação
visual e marketing digital. Em 2022 lançou seu primeiro livro para o universo
infantil – O Ladrão de Flores. Em 2023 lançou o segundo – A Dona Formiga e o
Senhor Leão, ambos pela editora Giostri. Ministra cursos de escrita e de redes
sociais ao público 60+. Voluntária na Capa dos Pobres como contadora de
histórias às crianças em vulnerabilidade.








