UNIANDRADE & SESC-PR
Fique por dentro da primeira
novidade desta parceria que vai movimentar nossos Programas!
Patrícia Fiori Manfré
A experiência de participar de
uma apresentação multissensorial é única e pessoal, pois diferentemente das
formas tradicionais de visitação artística, nas quais somos nós nos deslocamos
até as obras e as contemplamos por meio da visão, essa proposta rompe com a
lógica da contemplação unilateral e convida o público a vivenciar a arte de
maneira mais integrada e sensorial.
Minha primeira experiência
nesse formato ocorreu em 2023, durante a exposição interativa “Van Gogh &
Impressionistas”. Ela se mostrou inovadora justamente por inverter o movimento
habitual dos museus: não somos nós que caminhamos em direção às obras, mas elas
que se projetam em nossa direção. Cores, formas e movimentos nos envolvem por
todos os lados, criando um ambiente no qual a arte deixa de ser apenas
observada e passa a ser sentida. A visão continua sendo o sentido central, mas
é acompanhada por sons, variações de luzes e pela própria espacialidade, que
amplia as sensações de pertencimento e imersão.
Outro aspecto que merece
destaque é a possibilidade de permanência. Não há a exigência do deslocamento
constante; é possível permanecer em um mesmo ponto e, experimentar as obras em
diferentes tamanhos, distâncias e ângulos. Quando optamos por circular pelo
espaço, multiplicam-se os pontos de vista, ampliando também as interpretações,
emoções e impressões subjetivas. Essa dinâmica transforma o espectador em parte
constitutiva da experiência estética, retirando de certa maneira, a separação
rígida entre obra e público.
A trajetória de vida e o
processo criativo do artista, apresentados no caminho que se percorre até
chegar ao espaço da exposição interativa, funciona como um prefácio sensível.
Esse momento inicial aprofunda a experiência, pois contextualiza as imagens que
virão a seguir. Ao reconhecer aspectos biográficos e históricos, temos a
sensação de acompanhar uma narrativa, quase como se estivéssemos assistindo a
um filme contado por meio das obras do pintor, o que, na minha opinião,
potencializa o envolvimento emocional e cognitivo.
Em minha segunda experiência,
em 2025, ao assistir ao concerto “Catedral de Luz”, percebi que, embora a
proposta seja distinta, a intenção permanece a mesma: transformar o estático em
movimento e intensificar a percepção sensorial. Nesse caso, o prefácio é o
espaço arquitetônico da catedral, que inicialmente se apresenta como em um dia
comum de visitação. No entanto, à medida que o espetáculo se inicia, o jogo de
luzes, a presença da orquestra e as vozes do coral, ora coletivas, ora
individuais, ressignificam todo o ambiente.
A música, aliada à iluminação
e ao majestoso espaço, desperta sentimentos intensos de alegria, conexão e
pertencimento. Aos poucos, público, performance e arquitetura se fundem em uma
única experiência. Novamente, não somos apenas espectadores, mas participantes
de uma vivência que mobiliza sentidos, memória e emoção.
Essas experiências reforçam as
possibilidades que as propostas artísticas nos proporcionam, ao nos permitir
interagir com a arte de diferentes linguagens e sentidos. Ao promover o
encontro entre arte, corpo e emoção, as duas formas de arte interativa nos
lembram de que sentir, pertencer e participar são dimensões fundamentais tanto
da estética quanto dos processos de aprendizagem e formação humana.
Créditos das imagens: Ingresso.com (Van Gogh) e Curitiba.pr.gov.br (Catedral)
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Patrícia Fiori Manfré é doutoranda em Teoria Literária pela
UNIANDRADE, sob orientação da professora Verônica Daniel Kobs. Atualmente é
professora na Rede de Ensino do Município de Curitiba.
Thales
Vianna Coutinho
Fonte: Imagem enviada pelo autor do texto.
Os fãs da saga “A Guerra dos Tronos” costumam alertar os leitores de última hora da seguinte forma: “não se apegue a nenhum personagem, porque daqui a pouco ele morre”. Apesar de ser um aviso bastante sensato, não previne a experiência do luto parassocial quando a profecia finalmente se cumpre. De igual forma, há dezenas de publicações em metaciência (área do conhecimento que se dedica a compreender o fazer científico) alertando que não devemos confiar cegamente em cientistas, pois muitos deles acabam se revelando como impostores. Ainda assim, quando isso finalmente acontece, não dá para evitar o sentimento de decepção e traição.
Vale,
no entanto, ressaltar que vivemos em um contexto no qual a tendência ao
cancelamento parece sempre estar engatilhada, de modo que qualquer mínimo
movimento estranho pode disparar uma bala feroz e destrutiva. Por isso,
precisamos redobrar nossa reflexão e analisar os fenômenos com bastante
sensatez, para não balear alvos errados simplesmente pela ânsia por sangue.
A
bomba da vez estourou em cima da reputação de um dos neurologistas mais
queridos das últimas décadas: Oliver Sacks. Um cara que brindou o mundo com livros
sensíveis sobre seus pacientes complexos, dando títulos icônicos às suas
coletâneas de casos, sendo “O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu”
(lançado em 1985) a obra mais famosa.
Suas
obras, marcadas pela união entre fenomenologia e medicina (Silva, 2011),
ficaram conhecidas não apenas entre os profissionais de saúde, mas também entre
leitores com diferentes backgrounds. Todos super interessados em ler aquelas
narrativas cuidadosas, que descreviam não apenas os déficits, mas os potenciais,
dos pacientes neurológicos. Não foi à toa que, no Brasil, seus livros não foram
lançados pela ArtMed, ou pela Manole (importantes editoras de medicina), mas
sim pela Companhia das Letras, reconhecida por seus romances e suas
autobiografias.
No
início de 2015 ele escreveu um texto bastante comovente, declarando que estava
com metástase e já antecipando a própria morte, mas com uma visão esperançosa,
análoga àquela que nutria pelos seus próprios pacientes. À época, postei um
vídeo no meu Facebook, intitulado "Oliver Sacks: O Homem que foi
imortalizado de três maneiras", explicando que ele deixou uma marca
indelével tanto na academia (seus livros são usados rotineiramente em aulas dos
cursos de saúde), na arte (suas obras foram adaptadas para o cinema e para o
teatro) e no coração das pessoas (sua generosidade, toda vez que um fã o parava
no meio de suas corridas no Central Park, fazia dele uma figura extremamente
carismática).
Digo
isso para justificar que esse texto é fruto não apenas do impacto que senti ao
ler a notícia que descreverei abaixo (e as reações das pessoas a ela), mas
também da admiração que sempre nutri por ele, admiração que foi tão importante
para a minha própria formação. Afinal, além de ser neuropsicólogo clínico, a
Psicologia Narrativa (tema que hoje abordo em diferentes ciclos, em parceria
com a professora Verônica Daniel Kobs), é fortemente influenciada pela forma
empática e “dickensiana” como ele descrevia os casos.
Porém,
no dia 8 de dezembro de 2025, a jornalista Rachel Aviv publicou uma extensa
matéria no The New Yorker, relatando informações inéditas, derivadas de
entrevistas e do acesso aos diários que foram cedidos a ela pela Oliver
Sacks Association. Além de um relato biográfico muito impressionante, contemplando
a forma como ele encarava a própria sexualidade, as injustiças que sofreu na
vida e até crises existenciais, o texto apresentou informações que abalaram muitos
dos que o admiravam. Eu mesmo, num primeiro momento, fiquei chocado e tive uma
discussão mais dura sobre o caso, em um grupo de colegas no Whatsapp. Mas,
posso dizer que esse texto, escrito sem estar no calor do momento, funciona
como uma espécie de mea culpa às críticas não necessariamente justas que fiz ao
querido neurologista.
Descobrimos
que, repetidas vezes, em seus diários, Oliver Sacks confessava um sentimento de
culpa por ter representado seus pacientes de forma pouco fidedigna. Essas
confissões se revelaram mais intensas após a publicação de "O Homem que
confundiu sua mulher com um chapéu", principalmente devido as
profundas inconsistências envolvendo alguns casos, como o dos gêmeos autistas
que ele dizia terem uma incrível habilidade matemática envolvendo números
primos (algo que se revelou inverídico).
É
bem verdade que, em seu livro anterior: “Tempo de Despertar” (originalmente
lançado em 1973), Sacks escreve o seguinte, no prefácio à primeira edição: “Em
um livro como este – a respeito de pessoas vivas – surge um problema
complicado, por vezes insuperável: o de transmitir informações minuciosas sem
trair o sigilo profissional e pessoal. Precisei mudar os nomes de meus
pacientes, o nome e localização do hospital em que se encontraram e
determinados detalhes circunstanciais. Procurei, porém, preservar o que é
importante e essencial – a presença real e plena dos próprios pacientes, o
sentimento de como eles vivem, como são suas personalidades, moléstias, reações
– as características essenciais de sua situação singular” (Sacks, 2005, p.
15).
De
fato, em nome da ética médica, esse cuidado é absolutamente indispensável. No
entanto, os diários revelam que não é totalmente verdade que somente dados de
identificação foram omitidos. Sob o guarda-chuva de “determinados detalhes
circunstanciais”, ele omitiu informações muito importantes sobre alguns
pacientes, como a ocorrência de condutas sexuais reprováveis.
Longe
de ele precisar de um advogado, eu quero aqui tecer uma argumentação à luz da
teoria literária, que julgo ser importante para explicar a complexidade do caso
e contribuir à opinião pública. Permita-me, no entanto, começar pelo princípio.
Durante
o último semestre, tive a oportunidade de participar da disciplina de “Linguagens
da Alteridade”, ministrada pela professor Mail Marques de Azevedo, no
programa de doutoramento em Teoria Literária da Uniandrade. Durante as aulas,
discutimos o conceito de pacto autobiográfico, elaborado por Philippe Lejeune. Para
ele, que tanto se debruçou sobre as estruturas das autobiografias, o leitor de
uma obra estabelece uma espécie de pacto assíncrono com o autor. Em que
sentido? Ele irá assumir que todas as informações dispostas no livro são
verdadeiras.
Esse
pacto, obviamente, tem alguns limites razoáveis. Basta dar como exemplo esse
próprio momento em que você lê meu texto. A sua leitura não é objetiva! Ela
está impregnada com elementos dos mais variáveis, que vão gerar uma
interpretação muito distinta de algum colega seu que entre em contato com o
mesmo amontoado de palavras. Isso significa que, estimulado pela minha escrita,
pode ser que você sinta mais raiva, ou menos raiva, do Oliver Sacks. Esse afeto
determinará se você recomendará, ou não, essa leitura a terceiros. E, para
fazer isso, você recorrerá a argumentos persuasivos favoráveis, ou
desfavoráveis, à “escrita do Thales”. Ou seja, o mesmo texto pode gerar visões
diametralmente opostas, que serão repercutidas adiante. E tudo isso mantendo a
absoluta autenticidade do relato (você será fiel à sua percepção, ao falar
sobre esse texto com seus colegas).
Agora
imagine que esse é um mero recorte da forma como a realidade é subjetivamente
construída, e que isso se aplica a absolutamente todas as suas experiências
cotidianas. Isso torna naturalmente impossível exigir que alguém seja objetivo no
relato daquilo que vivenciou, dado o fato que a objetividade nunca pode ser tocada.
Logo, há sim uma “cláusula” nesse pacto autobiográfico em que o leitor concorda
que detalhes da obra não representam a realidade concreta. Nesse ponto,
inclusive, podemos retomar as frases (já citadas, e que citarei mais adiante)
pouco salientes dos prefácios de seus livros que, quase de forma envergonhada,
informam que um ou outro aspecto descrito não será totalmente autêntico. Para
mais esclarecimento sobre a construção subjetiva da realidade, e da própria
memória, você pode ler Johnson (2025), Simpson (2023), e Lau e colaboradores
(2022).
No
entanto, a questão assume tons mais complexos quando a própria teoria literária
contemporânea entende que a autobiografia é apenas um dos tipos de “escrita de
si”, assim como a autoficção. Per Krogh Hansen (2017), em seu artigo, começa
retomando a definição paradoxal de autoficção formulada por Serge Doubrovsky (“ficção
de fatos estritamente reais”), assim como o conceito de “duplo contrato”
(cunhado por Poul Behrendt), segundo o qual a autoficção opera simultaneamente
sob as regras da comunicação factual e da ficcional. Portanto, não é exagero
considerar que a autoficção desafia as teorias clássicas da ficção, criando
“sítios de ficcionalização” em meio às informações concretas, ao mesmo tempo
que uma tensão tanto com a teoria do pacto autobiográfico, quanto com
abordagens narratológicas e pragmáticas que defendem uma separação clara entre
narrativas factuais e ficcionais (James, 2022).
Na
verdade, concepções tradicionais de autobiografia, baseadas na ideia de um self
estável e de um relato referencial transparente, tornaram-se insustentáveis
diante de abordagens contemporâneas (Fonioková, 2025), justamente por aquilo
que já expliquei anteriormente: uma mesma experiência gera percepções
distintas, que serão relatadas de forma diferente, ainda que absolutamente
sinceras. Negar isso é desconsiderar a natureza da cognição humana.
Nesse
sentido, Karen Ferreira-Meyers (2025) argumenta que a autobiografia e a autoficção
não devem ser tratadas como rivais, sendo que os dois devem ser compreendidos
como modos distintos, porém complementares. Em seu artigo, ela cita Philippe
Forest, que enxerga a autoficção como a forma “honesta” da autobiografia
contemporânea, por reconhecer que nossas memórias não são infalíveis. Essa
visão está alinhada com a de Schmitt (2022), para quem a tematização da
falibilidade da memória é um elemento que precisa estar presente no texto autoficcional,
para reforçar a instabilidade narrativa e chamar a atenção para o caráter
construído da narrativa de si, sem que se estabeleça um pacto autobiográfico de
verdade. Por isso, em seu artigo Fonioková (2025) considera que há necessidade
de uma sinalização explícita da intenção autoficcional, de forma que ela
anuncie a presença da invenção.
Voltando
à matéria de Rachel Aviv, podemos contemplar a correspondência do neurologista
com um dos seus irmãos, Marcus Sacks, para quem enviou o exemplar de seu famoso
livro de 1985, e disse algo como "essas narrativas peculiares - meio
relato, meio imaginação, meio ciência, meio fábula, mas com uma fidelidade
própria - são o que eu faço, basicamente, para afastar meus demônios do tédio,
da solidão e do desespero".
De
fato, no prefácio do livro ele escreve: “O científico e o romântico, nessas
esferas, imploram para ficar juntos — Luria gostava de falar em "ciência
romântica". Eles se encontram na intersecção de fato e fábula, a
intersecção que caracteriza (como fiz em meu livro Tempo de Despertar) as vidas
dos pacientes aqui narradas” (Sacks, 2003, p. 05). O problema é que parece
ter entrado em ação o fenômeno da “morte do autor”, cunhado por Roland
Barthes, segundo o qual a intenção do autor não conta para a apreciação do
leitor sobre a obra (Barthes, 1977).
A
evidência principal disso é que, em 2017, o crítico Robert McCrum publicou no The
Guardian uma lista com os 100 melhores livros da categoria não-ficção de
todos os tempos, na qual "O Homem que confundiu sua mulher com um
chapéu" ocupa a posição 12, ao lado de obras como "O Gene
Egoísta" (de Richard Dawkins) e "A Estrutura das Revoluções
Científicas" (de Thomas Khun). Ou seja, podemos até dizer que Oliver
Sacks não tornou tão saliente essa sua declaração de que nem tudo ali era
verdade, que está no meio de outras tantas coisas mais interessantes do seu
livro. Mas, não é possível afirmar que ele tenha sido totalmente desonesto com
o leitor.
É
importante também ter em mente que Serge Doubrovsky cunhou o neologismo
autoficção somente em 1977. Mas, à época, ainda não era um gênero tão conhecido
quanto hoje, em que temos até prêmio Nobel vinculado a ele (como Annie Ernaux).
Isso permite conjecturar que Oliver Sacks, não estando familiarizado com o
conceito, pode não ter sido tão claro quanto aos elementos ficcionais de seus
casos clínicos por medo de que eles fossem mal recebidos pelo público. No
entanto, será que esse receio, se verdadeiro, procede?
De
acordo com Effe & Gibbons (2022), os leitores possuem sim expectativas
distintas ao ler textos factuais e ficcionais, e que a autoficção explora
deliberadamente essa duplicidade, produzindo um modo específico de leitura
caracterizado por oscilação, combinação ou tensão entre pactos de leitura
autobiográfico e ficcional. Ainda, Gibbons (2022) propõe um modelo cognitivo
teórico em que, ao ler autoficção, o leitor constrói múltiplos mundos mentais:
um texto-mundo interpretado como autobiográfico, e outro como ficcional.
Portanto, a leitura da autoficção não consiste em uma simples alternância entre
“fato” e “ficção”, mas em um processo cognitivo interconectado e dinâmico.
Porém,
apesar das diferenças em termos de expectativa, a resposta a essa pergunta
parece vir de Ghasseminejad (2025a, 2025b), que investigou como leitores reais
percebem a ficcionalidade e a não ficcionalidade em textos híbridos.
Identificou-se que, mesmo quando os leitores reconhecem elementos possivelmente
inventados, a força expressiva da narrativa gera um sentimento de “verdade
experiencial”, levando-os a aceitar o texto como autêntico. Talvez, se soubesse
dessa informação, Oliver Sacks ficasse mais tranquilo para brandar aos quatro
ventos o quanto adulterou a realidade na descrição de seus casos clínicos.
Em
determinado momento, Sacks chega a perguntar a Lawrence Weschler, seu então
biógrafo, se estava cometendo um erro ao descrever de forma deliberadamente
fantasiosa as experiências que teve com seus pacientes, ao que seu colega o
encorajou a continuar fazendo isso, devido à liberdade de escritor. De fato,
alguns autores sustentam que a autoficção oferece maior liberdade criativa do
que a autobiografia (Jassim & Mozahem, 2025).
Na
realidade, de acordo com Hansen (2017), a autoficção constitui um caso-limite
para as teorias tradicionais de narrador não confiável, sustentando que, ao
borrar deliberadamente as fronteiras entre autor, narrador e personagem, a
autoficção torna-se propensa à não confiabilidade autoral, mesmo quando não há
intenção explícita de enganar o leitor. Portanto, a autoficção é, em si, um
gênero estruturalmente não confiável, pois reivindica simultaneamente verdade
factual e liberdade ficcional.
Mas,
será que essa não-confiabilidade do autor compromete o valor da descrição dos
casos, como tantos algozes de Oliver Sacks estão dizendo por aí, nos últimos
dias?
Lembre-se
de que estamos falando de uma produção que é amplamente usada em cursos de
medicina e psicologia para desenvolver o raciocínio clínico dos futuros
profissionais. Hoje em dia, no entanto, as bases de dados de artigos
científicos estão repletas de evidências mostrando como personagens absolutamente
ficcionais (não apenas parcialmente) podem ser utilizados para ilustrar
fenômenos clínicos reais.
De
Anakin Skywalker (da Rocha et al, 2012) a Eric Cartman (Yalch, 2016), passando
por trabalhos que eu mesmo orientei e que apresentei durante o XVII Seminário
de Pesquisa/ IX Seminário de Teses e Dissertações em Andamento, em que algumas
alunas (respectivamente, Luciana Silveira Ravani Chavito e Sarah Ferreira)
analisaram à luz da neuropsicologia personagens como Pinnochio, de Carlo
Collodi, e Charlie Gordon, de Daniel Keyes, fica demonstrado que usar a ficção
para treinar a realidade não apenas é possível, como incentivado, em diferentes
partes do mundo.
No
entanto, esse sentimento de que “a culpa tem sido muito maior”, que
considera uma “criminalidade hedionda” e que duvida da própria
capacidade de descrever com precisão os casos que atendia, mostram que Oliver
Sacks estava sob forte efeito da ‘culpa deontológica’, um fenômeno
caracterizado pela tendência a se penitenciar por violar um código moral
interno mesmo sem ter lesado objetivamente ninguém (Mancini, 2021). Fazendo um
paralelo com outro de seus livros, parece que ele foi “Um Neurologista em Marte”,
pois viveu uma guerra interna durante muitos anos, que certamente potencializou
o seu sofrimento mental.
No
entanto, não podemos ser anacrônicos. Oliver Sacks não deve ser punido por algo
que desconhecia. É bem possível que ele tenha sofrido o que sofreu por
ignorância quanto aos gêneros textuais, que sequer estavam estabelecidos à sua
época (ao bem da verdade, ainda não estão!). Pode ser que, por não saber a
diferença entre autobiografia e autoficção, omitiu aspectos importantes que, na
verdade, não fariam diferença na apreciação artística ou científica de suas
obras. Hoje, em pleno 2025, outras pessoas que desconhecem essa diferença
atiram pedras no autor, sem saber que, no fim das contas, os casos clínicos
descritos por Oliver Sacks, independente do nível de ficção impregnado neles,
são imortais na academia, na arte e no cérebro (“coração”) das pessoas. Vida
longa à autoficção do grande Oliver Sacks!
Referências
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Links importantes
- "Oliver Sacks Put Himself
Into His Case Studies. What Was the Cost?". Disponível em: https://www.newyorker.com/magazine/2025/12/15/oliver-sacks-put-himself-into-his-case-studies-what-was-the-cost?utm_source=nl&utm_brand=tny&utm_mailing=TNY_Weekly_120825&utm_campaign=aud-dev&utm_medium=email&utm_term=tny_weekly_digest&bxid=5bd6747524c17c104800dbb2&cndid=36616945&hasha=8b775cde51558abfb1c204e8a411a06b&hashb=15b411190f1b31d1e404ca4adcec582da5d8bd55&hashc=e8b53cd5d79389dd42408e878addc8022351ed3e9e8a331facd307ff936c737c&esrc=subscribe-page
- "Oliver Sacks, neurologista que virou referência mundial, mentiu sobre pacientes e inventou casos". Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/oliver-sacks-neurologista-que-virou-referencia-mundial-mentiu-sobre-pacientes-e-inventou-casos/
- "The 100 best nonfiction books of all time: the full list". Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2017/dec/31/the-100-best-nonfiction-books-of-all-time-the-full-list
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Thales Vianna Coutinho é psicólogo, professor no Curso de Psicologia da UNIANDRADE e doutorando em Teoria Literária da UNIANDRADE.
AFINAL, O QUE É UMA GRAPHIC NOVEL?
Márcio Pereira Ribeiro
Uma
Graphic Novel é um tipo de história em quadrinhos publicada no formato
de livro. Embora o termo romance, em geral, se refira a longas obras ficcionais
em prosa, o termo "romance gráfico" é aplicado de maneira mais ampla
e inclui obras de ficção, não-ficção e antologias. O termo refere-se a qualquer
forma de HQ de maior duração, com temáticas mais adultas, argumento mais
elaborado, não necessitando de um super-herói, podendo narrar a vida de pessoas
comuns, anônimas, sem nenhum acontecimento surreal.
Irina
Rajewsky aponta a “Intermidialidade no sentido mais restrito de combinação de
mídias (ópera; filme; teatro; performance; quadrinhos, dentre outros): o
alcance dessa categoria vai desde a mera contiguidade de duas ou mais
manifestações materiais de mídias diferentes até a integração “genuína” de
elementos constituintes” (Rajewsky, 2012, p. 24-25). Dessa forma, compreendemos
que a Graphic Novel poderia ter sido um romance de 1000 páginas, mas sendo
o artista tão primoroso em desenhos e
argumentos, consegue misturar os gêneros e escrever uma boa história,
aproximando-a, na arte sequencial, a uma prosa ou romance (algo semelhante aos Light
Novels)1.
O
termo "graphic novel”2, popularizado pelo cartunista Will
Eisner3, surgiu na capa de sua obra prima “Um Contrato com Deus”
(1978), sendo considerado um trabalho maduro e complexo, focado na vida de pessoas
comuns no mundo contemporâneo e real. Eisner inspirou-se nos livros de Lynd
Ward, que produzia romances completos através de xilogravuras. Em sua capa fora colocado um selo "graphic novel" para
distinguir do formato das HQs tradicionais.
Eisner
não foi o primeiro a usá-lo, mas sim Richard Kile, em um ensaio no fanzine
Capa-Alpha #2, em 1964, e também em um artigo na revista Fantasy Illustrated
#5, de 1966. Recentemente o termo tem sido sinônimo de Trade Paperback (edições
encadernadas em formato de livros de história pré-publicadas em revistas).
Precursores
Les Amours de monsieur Vieux Bois (1828), do caricaturista suíço Rodolphe Töpffer, é considerada a mais antiga Graphic Novel. Contando com 84 desenhos, é uma sátira do romance sentimental: o protagonista se apaixona; histérico e melancólico, consegue vencer um rival, e finalmente se casa com sua amada. Em 1940, ocorre o lançamento de Classics Illustrated4, uma série de HQs que adaptou romances de domínio público, em edições independentes para jovens leitores.
Em 1946, Citizen 13660, da artista nipo-americana Miné Okubo, romance ilustrado, reconta, de forma autobiográfica, sobre o “internamento” de japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Ainda em 1946, a Editore Ventura (Itália) publica uma coleção de HQs com as frases "romanzo completo" e “interamente illustrato a quadretti”; usando também a expressão "Picture Novel" na capa da revista bilíngue italiano-inglesa de HQs "Per voi! For you!".
Um
ano depois, em 1947, a Fawcett Comics publicou Comics Novel #1: "Anarcho,
Dictator of Death", uma história em quadrinhos de 52 páginas com um único
enredo. No ano seguinte, a Ediciones Reguera (Espanha) lançou uma coleção de
adaptações de obras literárias chamada La novela gráfica. Em 1950 a St. John Publications
apresenta a história adulta It Rhymes with Lust,
em formato digest, com
bastante influência do cinema
noir, estrelado por uma mulher ruiva
manipuladora chamada Rust. Tendo ainda uma 2ª edição: The Case of the Winking Buddha. “Um romance
de longa-metragem original" dizia sua capa.
Tinha 128 páginas,
no formato digest. A popularidade do
gênero entre o público leitor pode ser confirmada em 1982, quando
a Marvel Comics — tradicional editora de HQs — a publicar Marvel Graphic Novel. A primeira seria “A morte
do Capitão Marvel”, de Jim Starlin.
A partir dos anos 1980,
houve uma sequência grande de publicações neste gênero, como Maus (1980
a 1991), de Art Spiegelman; The
Crow (1981), de James O'Barr; Ronin (1983/84), de Frank Miller; The Dark
Knight Returns (1986), de Frank Miller e Lynn Varley; Watchmen
(1986/87), de Alan Moore e Dave Gibbons; V for Vendetta (1988), de Alan
Moore e David Lloyd; A Arte Suprema (1997), de Rui Zink e António Jorge
Gonçalves; Sin City (1991/92), de Frank Miller; Os 300 de Esparta
(1998), de Frank Miller; From Hell (1999), de Alan Moore e Eddie
Campbel; Ghost in the Shell (2002), de Masamune Shirow, entre outras
publicações de grande sucesso editorial.
Percebemos nesses quadrinhos contemporâneos,
bem como nas obras de Will Eisner, intensa midiatividade/midiaginia, pois
demonstram grandes possibilidades de adaptação para o cinema. As mídias podem ser
maleáveis ou resistentes em termos de estruturação midiática. Cada uma
delas (teatro, cinema, ópera, quadrinhos, o vídeo musical da MTV, etc.) possui energias comunicativas, potencialidades
expressivas e possibilidades técnicas específicas que são mais, ou menos,
compatíveis com certos substratos narrativos. Assim, a midiatividade é
determinada pelas características da mídia, ou seja, “pela configuração
semiótica interna que ela pressupõe e pelos aparatos comunicacionais e
relacionais que é capaz de gerar” (GAUDREAULT; MARION, 2012, p. 122).
A transposição de um texto-fonte (literatura) para uma outra mídia (cinema) implica em um processo de adaptação desse texto às possibilidades expressivas e técnicas
do novo suporte.
A midiaginia ou adaptabilidade de um texto é a capacidade de regeneração do mesmo em diferentes mídias.
Por fim, entender o que é
uma Graphic Novel significa reconhecer que ela não cabe tão facilmente
nas categorias tradicionais que usamos para separar literatura, artes visuais e
narrativas sequenciais. Como aponta Rajewsky (2012), esse tipo de obra vive
justamente no espaço entre mídias, combinando texto e imagem de um jeito que
não é apenas ilustrativo, mas profundamente integrado. É essa mistura que faz
com que muitas Graphic Novels tenham o peso narrativo de um romance,
mesmo sem depender exclusivamente da palavra escrita.
O percurso histórico — de Töpffer às experiências editoriais do século XX e à consagração do termo com Will Eisner — mostra que as Graphic Novels não surgiram de repente. Sendo construídas aos poucos, em diferentes países, nomes e formatos, até se firmar como uma alternativa adulta e complexa às HQs tradicionais.
Quando observamos as Graphic Novels à luz das ideias de Gaudreault e Marion sobre midiatividade e adaptabilidade, fica claro por que tantas dessas obras se transformam facilmente em filmes, séries ou animações. Não é só porque “parecem cinema”, mas porque suas formas de organizar o tempo, o ritmo e o ponto de vista dialogam naturalmente com outras mídias. Essa capacidade de circular entre formatos é parte importante de sua força narrativa.
Assim, pensar a Graphic
Novel hoje é pensar numa forma de narrativa que nasce exatamente do
encontro entre mídias, tradições e técnicas. Ela não é apenas um livro, nem
apenas uma HQ estendida — é um espaço de mistura, experimentação e
reinvenção. E é justamente por isso que continua crescendo no interesse do
público, da crítica e da academia: porque nos obriga a repensar como as
histórias podem ser criadas, lidas e transformadas quando texto e imagem
trabalham juntos de verdade.
Notas:
1
Light Novels (ranobe ou rainobe): romances ilustrados geralmente no estilo anime/mangá.
2 Até 1960 havia outras denominações: Comic Novel, Graphic Album, Novel-in-pictures e Visual Novel.
3 William
Erwin Eisner (Brooklyn, 1917 — Lauderdale Lakes, 2005), foi um renomado
quadrinista; em 70 anos de carreira, atuou como desenhista, roteirista,
arte-finalista, editor, cartunista, empresário e publicitário. Eisner é
considerado o papa dos quadrinhos modernos, havendo, inclusive um prêmio anual
com seu nome, o Will Eisner Prize, dedicado aos melhores graphic novels do
período.
4 Entre
os autores que tiveram suas obras adaptadas para o formato Graphic Novel
estavam Júlio Verne, Alexandre Dumas
, James Fenimore Cooper, Robert Louis
Stevenson, Charles Dickens, Walter Scott, William Shakespeare, Mark Twain, H.G.
Wells entre outros.
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Márcio
Pereira Ribeiro é mestre e doutor em
Teoria Literária pela UNIANDRADE. Pesquisa mitologia, intermidialidade e
tradução. Atua na área da Educação há mais de 20 anos.
CAMPINA GRANDE EM PEDAÇOS: UMA TRADIÇÃO
INTERROMPIDA
Verônica Daniel Kobs
Crédito da imagem: Capa
feita por George Tenório Pinto.
O livro Campina Grande em pedaços: a tragédia de José Pinheiro em 1974,
de Juliana Nascimento de Almeida, articula pesquisa histórica e sensibilidade
literária para reconstituir, através da memória e da narrativa, o drama
coletivo de uma fatalidade silenciada na história de Campina Grande. Diante
disso, este ensaio objetiva refletir sobre a estrutura, os recursos discursivos
e o tratamento temático do livro, enfocando sua relevância para os Estudos Literários
e Culturais que se voltam à cidade, à memória e às representações periféricas.
Entre o bairro e a cidade: a centralidade das identidades locais
A historiadora parte de uma perspectiva metonímica para pensar a cidade.
Afinal, como ela afirma: "Pensar em bairro é pensar na formação de
‘pequenos mundos’ dentro da cidade" (Almeida, 2021, p. 7). Dessa forma, ao
eleger o bairro de José Pinheiro como foco, a autora desestabiliza a visão
hegemônica da cidade como um espaço uniforme, projetando sobre esse “bairro-cidade”
um olhar que une pertencimento, memória afetiva e história silenciada. Sob essa
ótica, o espaço tem uma vida autônoma dentro de uma urbanidade maior: "[...]
ele vai ser identificado como ‘cidade dentro de outra’, quando ocorreu
crescimento vertiginoso, coincidindo com o próprio crescimento da cidade"
(Amorin, citada em Almeida, 2021, p. 10, grifo no original).
Sem dúvida, isso desafia as hierarquias urbanas que historicamente
relegam as periferias às margens da narrativa. Corroborando essa ideia, Almeida
retoma, com acuidade metodológica, a perspectiva proposta por teóricos como
Sandra Pesavento (2007), ao compreender a cidade como um tecido vivo de
práticas, afetos e contradições, e não apenas como um conjunto de estruturas
físicas. Ao longo do texto, a cidade é narrada de baixo para cima: o olhar não
é o das elites urbanas, mas o das vozes silenciadas, dos corpos anônimos, das
memórias não oficiais.
O “Zepa”, termo ambíguo que tanto carrega afeto como estigma, é elevado pela
autora a um símbolo de resistência — um território popular onde se conjugam
trabalho, religiosidade, cultura, violência e festa. Trata-se de uma prática
textual que remete à “memória subterrânea” descrita por Michael Pollak (1989),
que resgata fragmentos esquecidos do passado coletivo, oferecendo-lhes forma
narrativa e relevância social.
Outro fator determinante do livro é a análise do silenciamento em torno
da tragédia. Assim, a afonia é apresentada como uma forma de violência. Nesse
contexto, Almeida denuncia o esquecimento, ao mencionar o "evento marcante
para o bairro e para a cidade”, mas que hoje é “pouco conhecido por seus
populares" (Almeida, 2021, p. 8). Esse apagamento é lido como sintoma de
uma memória seletiva, que tende a excluir acontecimentos que confrontam a
imagem de "progresso e ordem" (Benjamin, 2006) atribuída à Campina
Grande industrializada. Na tentativa de resgatar o fato e avaliá-lo em toda sua
envergadura, a autora dialoga com os conceitos de Maurice Halbwachs (2006), para
reativar uma "memória coletiva" que se estrutura em torno da dor
partilhada. Ao inserir depoimentos, imagens e registros esquecidos, Almeida
transforma sua obra em instrumento de reparação simbólica.
Entre o arquivo e o afeto: literatura historiográfica e memória
traumática
A estrutura da obra está organizada em duas partes complementares. A
primeira reconstrói o cotidiano do bairro, seus espaços de sociabilidade e seus
personagens — como José Pinheiro, o curandeiro e festeiro que deu nome ao lugar
— com forte ênfase em fontes documentais, relatos orais e jornais da época. A
segunda parte trata da explosão ocorrida em dezembro de 1974, durante uma
quermesse natalina e que vitimou dezenas de moradores do bairro.
Entretanto, Almeida não apenas narra o fato. Ela também realça a
reverberação da tragédia na memória coletiva. O rastro físico e simbólico da
explosão que lançou pedaços de corpos sobre tetos de casas e muros da igreja constitui-se
como trauma. Portanto, o tipo de relato que a autora privilegia inscreve-se na
tradição do testemunho, tal como definida por Shoshana Felman e Dori Laub (1991).
Com esse diferencial, trata-se de resgatar algo que vai muito além daquilo que
se viu, porque também se consideram o silêncio e o apagamento.
Para isso, a autora realiza um duplo movimento. A narrativa arqueja com a
história, como diria Walter Benjamin (2015), mas também propõe uma
interpretação a partir de um lugar de fala específico — o do pertencimento. Como
resultado, Almeida insere-se no fato, ao se considerar filha do bairro,
herdeira de suas dores e de sua força, aperfeiçoando seu texto com uma tensão
emocional que o aproxima da autoficção histórica, sem jamais perder o rigor
documental.
Aliás, essa é outra qualidade do livro, que se destaca pela combinação de
cientificidade e densidade emocional. Por meio desse entrelaçamento, a autora
mobiliza fontes como jornais da época (sobretudo o Diário da Borborema),
documentos, relatos orais e registros fotográficos, ao mesmo tempo em que
escreve com voz própria, dividindo com o leitor sua percepção como filha do
bairro: "Foi assim, voltando o olhar a este espaço, o qual também é parte
do meu lugar na cidade, que me senti instigada a revisitar algumas dessas
memórias" (Almeida, 2021, p. 8).
Tradição e rupturas: a tragédia como chave de leitura da urbanidade
No que se refere ao aspecto temporal, é significativo que a autora estabeleça
uma relação entre os espaços de festa e a tragédia. O bairro que era antes
palco de pastoris, blocos de carnaval, missas campais e festas do padroeiro,
torna-se, de repente, cenário de horror. No início do livro, destacam-se os
rituais festivos como elementos próprios da comunidade e do pertencimento:
"[...] o bairro surge como um território marcado por seus próprios
códigos" (Almeida, 2021, p. 21).
Porém, a tragédia de 1974 interrompe brutalmente essa sequência de celebrações.
No que deveria ser uma noite de alegria, durante uma quermesse natalina, um
cilindro de gás hidrogênio explode, tirando a vida de muitos moradores. Conforme
as notícias veiculadas no Diário da Borborema:
[...] inúmeros eram os relatos de horror sobre tal
acontecimento, [...] o trauma se instalava. [...] com a explosão do artefato,
vários pedaços de corpos foram arremessados em casas e na própria Igreja, [...]
denunciados, quase sempre, pelo mau cheiro desenvolvido com o avançar do
processo de decomposição desses restos humanos. (Almeida, 2021, p. 30)
A autora narra esse evento com uma sensibilidade que evita o
sensacionalismo, já que sua preocupação é evidenciar como o trauma se inscreve
na memória coletiva e como o esquecimento institucional pode ser mais violento
do que a tragédia em si. Essa ruptura simbólica é central para o entendimento do
tom da narrativa: a festa interrompida é também a infância violada, a comunhão
desfeita, o riso transformado em grito. O contraste entre festa e tragédia transcende
o plano discursivo e alcança a esfera estrutural.
Utilizando uma linguagem que alterna o descritivo e o poético, o
acadêmico e o afetivo, Almeida cria um efeito de ritmo oscilante que remete à
teoria do verso em sua forma livre. Nesse sentido, não importa a métrica ou a regularidade.
A expressividade da obra está na cadência emocional. A própria ideia da
fragmentação, exposta no título, reforça a estrutura da memória em frangalhos,
como um poema rasgado que tenta se recompor com as partes que restam.
No capítulo dedicado à explosão do cilindro de hidrogênio durante os
festejos natalinos, Almeida mobiliza com precisão a análise jornalística da
época para desmontar as narrativas oficiais, muitas vezes evasivas,
culpabilizando um “garrafeiro” e obscurecendo as condições de negligência e
precariedade que desencadearam a tragédia. Essa releitura crítica da imprensa
local aproxima o livro de uma prática ensaística engajada, semelhante àquela
proposta por autores como Eduardo Galeano, por exemplo, que denuncia as
estruturas de exclusão e omissão nas narrativas oficiais. Dessa forma, ao
devolver a tragédia à cidade — e não apenas ao bairro — a autora propõe uma
reflexão sobre o modo como as identidades urbanas são determinadas por meio daquilo
que é silenciado.
A escrita como antídoto ao esquecimento
Campina Grande em pedaços extravasa os limites do registro
histórico ou documental para se inscrever como manifesto em prol da memória, da
identidade cultural e da justiça. Consequentemente, Juliana Nascimento de
Almeida assume seu papel como sujeito da história, rompendo com o
distanciamento da narração tradicional e escolhendo a escrita como forma reparadora.
Em outras palavras, trata-se de uma obra contra a invisibilidade, porque,
ao transformar uma memória traumática em narrativa compartilhada, a autora
recupera o direito à lembrança como instrumento de cidadania. Sua escrita, que
mistura o rigor acadêmico da historiadora com a sensibilidade da escritora,
oferece ao leitor um documento vivo, um ato poético de revisão crítica.
Com forte apelo à literatura da memória, à urbanidade e à teoria do
testemunho, Campina Grande em pedaços convida o leitor a pensar sobre o
que se quer lembrar e sobre o que a sociedade é obrigada a esquecer. Emprestando
mais uma vez as palavras de Walter Benjamin, articular historicamente o passado
não significa conhecê-lo como ele de fato foi. Significa apropriar-se de uma
lembrança que relampeja nos instantes de perigo (Benjamin, 1994, p. 224-225). É
justamente isso que Almeida nos oferece justamente isso: um relâmpago que
ilumina momentaneamente o rosto partido da cidade. Assim, a autora nos faz compreender
que o esquecimento também é um tipo de violência. Como Luíra Freire Monteiro escreve,
no “Prefácio” do livro, a "cidade precisa se repensar, se enxergar na
crueza do contexto" (Almeida, 2021, p. 5). É nesse espelho estilhaçado da
memória que a obra se estabelece como um pedaço essencial da História e da
identidade de Campina Grande.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Juliana N. de. Campina
Grande em pedaços: a tragédia de José Pinheiro (1974). 1. ed. Campina Grande:
Nativa Edições, 2021.
BENJAMIM, Walter. Magia e
técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7.
ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Coleção Obras escolhidas, v. 1).
BENJAMIM, Walter. Passagens.
Belo Horizonte: UFMG, 2006.
BENJAMIM, Walter. Baudelaire e a modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
FELMAN, Shoshana; LAUB, Dori. Testimony: crises of witnessing in
Literature, Psychoanalysis and History. Londres: Routledge, 1991.
HALBWACHS, Maurice. A
memória coletiva. São Paulo: Vértice, 2006.
PESAVENTO, Sandra J.
Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias. Revista Brasileira
de História, v. 27, n. 53, São Paulo, jan.-jun. 2007, p. 11-23.
POLLAK, Michael. Memória,
esquecimento, silêncio. Estudos históricos, v. 2, n. 3, Rio de Janeiro, 1989,
p. 3-15.
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Verônica Daniel Kobs tem Pós-Doutorado em Literatura e Intermidialidade pela UFPR. É Professora e Pesquisadora de Literatura, Mídias e Tecnologia Digital. Atualmente, é Coordenadora e Professora dos cursos de Mestrado e Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE.
Juliana Nascimento de Almeida é Doutoranda do Curso de Ciências da Educação, Dinâmica Social Pós-Moderna e Religiosidade da Florida University of Science and Theology (FUST). Na UEPB, atuou como monitora do componente curricular “História da Paraíba”. Na FUST, atua como Coordenadora Pedagógica e Coordenadora do Grupo de Estudos de Metodologia da Investigação Científica.
Para ler o livro completo de Juliana Nascimento de Almeida, acesse o link:
https://drive.google.com/file/d/1uo-UvMROr_2sK1hbg1_f0P1pjPPvpCYg/view?usp=sharing