UMA ARQUEOLOGIA LITERÁRIA: REDES DE CRIAÇÃO EM JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Denize Moura Dias de Lucena
Este
texto apresenta parte das reflexões e estudos iniciados em 2019 e que, no
momento, desenvolvo no curso stricto sensu, doutorado, do
Programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Para elaboração desta etapa,
continuo a usar o procedimento iniciado no mestrado e ao qual chamei de
arqueológico, uma vez que me leva a procurar refazer os passos de João Cabral
de Melo Neto, de maneira a elucidar os procedimentos e escolhas realizados na
elaboração de seus escritos para o teatro.
As
lembranças dos textos, dos poemas e das entrevistas de João Cabral foram
atravessando meu pensamento. Assim, surge o estudo com o objetivo de reunir a
rede de criação na formação literária de João Cabral, a fim de tecer uma trama
de pensamentos sobre o fazer poético que me auxilie a compreender em que medida
o contato com as ideias dessa rede, contribuíram para a formação do escritor
João Cabral.
Para
melhor compreender essa trama, apoio-me no conceito de “Redes de Criação”, de
Cecília de Almeida Salles (2006). Segundo a autora, o processo criativo não é
um evento isolado, mas um ato dinâmico de conexões entre memórias, leituras e
escolhas estéticas. Sob esse prisma, a arqueologia que busco não é o mero
elencar de influências mas uma cartografia de tensões e diálogos que revelem
uma poética cabralina em constante devir.
Pensar em criação como processo, já implica movimento e continuidade: um tempo contínuo e permanente com rumos vagos. A criação é, sob esse ponto de vista, um projeto que está sempre em estado de construção, suprindo as necessidades e os desejos do artista, sempre em renovação. O sentimento que aquilo que se procura não é nunca plenamente alcançado leva a uma busca constante que se prolonga, que dura. O tempo da criação está estreitamente relacionado, portanto, ao tempo da configuração do projeto poético (Salles, 2006, p. 56).
Apesar
de minha pesquisa ter como objeto central os textos dramatúrgicos, entendo que,
ao estudar os processos de criação de João Cabral, necessito levar em conta
para além do dramaturgo, o poeta, e principalmente, o escritor, o que me leva,
necessariamente, à formação do leitor em João Cabral.
Fonte: Quatro cinco um.
Eu confesso a você que tenho o vício da linguagem, quer dizer, o vício da leitura. Desde que me entendo por gente, não me lembro de mim, mesmo menino, senão com um livro na mão. eu tenho a doença de ler… Talvez defenda este ponto de vista, porque estou defendendo o meu vício (Athayde, 1998, p. 52).
Assim,
para estudar João Cabral é necessário “sentir o mesmo e exigente chamar”1
que motivou o “poeta-viajante”, como o identificou o crítico José Castello
(1996, p. 108). Em cada um de seus escritos encontro um convite a uma nova
investigação. Não há pois, como encontrar os processos de João Cabral sem
buscar recompor seus passos, nessa arqueologia literária que me leva aos seus
biografemas.
O
século 20 estava quase pela metade e o jovem João Cabral dava seus primeiros
passos na vida literária. Filho de família abastada, em pouco tempo, deixava a
vida de brincadeiras nos engenhos para desbravar outros universos. Embora
distante da penúria que movia seus conterrâneos, João Cabral foi também um
retirante. Ao longo de sua vida literária, as viagens constantes em virtude dos
postos diplomáticos, foram estímulo para sua escrita e, os livros, seus
companheiros de jornada.
Por
onde passou, o “poeta-viajante” dialogou com os muitos artistas, com os quais
conviveu ou interagiu por meio da leitura. Na adolescência, sua convivência com
os intelectuais do Recife lhe apresentou o mundo da literatura, especialmente a
francesa. No dizer do próprio poeta, seu acesso à rica biblioteca de Willy
Lewin foi “equivalente a uma faculdade de Filosofia e Letras” (Athayde, 1998,
p. 37).
Assim,
desde seus primeiros escritos, é possível encontrar as marcas do leitor no
escritor. Em seu livro de estreia, Pedra do Sono (1942), por exemplo,
João Cabral reproduz como epígrafe, o verso do poeta francês, Stéphane
Mallarmé: “Solitude, récif, étoile…”. Citados em poemas ou a eles
dedicados, como dito anteriormente, muitos são os nomes que compõem a rede de
formação literária de João Cabral.
Como
característica recorrente em seus textos, as referências a outros autores e
outras obras apresentam muitos nomes com os quais estabelece diálogo, estejam
estes presentes em quase oitenta de seus títulos (Augusto de Campos, Graciliano
Ramos, Joaquim Cardoso, Paul Valéry etc.) ou nas epígrafes constantes de quase
todos os seus livros e em alguns poemas (Mallarmé, Le Corbusier, Jorge Guillén,
Gertrude Stein e muitos outros). Ademais, suas referências podem ser vistas no
corpo dos textos de alguns poemas (O sim contra o sim, Retrato de
poeta, Lendo provas de um poema, etc.) ou nas suas inúmeras
dedicatórias.
Desde
2019, quando passei a estudar sua dramaturgia, logo percebi que qualquer etapa
da pesquisa se capilariza com facilidade. A cada tentativa de recorte me deparo
com um afluente de outros autores, obras e referências diversas, que me levam a
fazer uma nova rota.
Na
área dramatúrgica, nomes como o de Luigi Pirandello, Federico Garcia Lorca e
Aníbal Machado se juntam a muitos outros com os quais João Cabral vai cosendo o
tecido de seus textos teatrais e as marcas de sua própria dramaturgia.
Completando
um setênio de investigações sobre a dramaturgia cabralina uma certeza posso
elencar: quem se decide por um estudo sério sobre a obra de João Cabral deve
estar disposto a transitar por “uma estrada mal pavimentada”2.
Se a
estrada é “mal pavimentada”, nem por isso deixa de ser convidativa uma vez que
o leitor se disponha aos solavancos e surpresas do caminho. Para iniciar essa
travessia, recomendo a leitura de João Cabral de Melo Neto: uma biografia,
de Ivan Marques, publicada em 2021. Uma oportunidade de encontrar, na trama
cabralina, onde a dureza da palavra e a potência do humano melhor se revelam.
Notas:
1 Trecho do poema O Rio, de João Cabral de Melo Neto, publicado em 1953.
2 Expressão usada por João Cabral
sobre o objetivo de sua poesia.
Referências:
ATHAYDE, Félix de. Ideias fixas de João
Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: FBN; Mogi das Cruzes:
Universidade de Mogi das Cruzes, 1998.
CASTELLO, José. João Cabral de Melo Neto: o
homem sem alma. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
SALLES, Cecília de Almeida. Redes de
criação: construção da obra de arte. São Paulo: Editora Horizonte, 2006.
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Denize Moura Dias de Lucena é professora na Educação Básica e mestra em Teoria
Literária pela Uniandrade. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre os processos
criativos na dramaturgia de João Cabral de Melo Neto, no Programa de
Pós-Graduação (Doutorado) em Literatura e Crítica Literária na PUC-SP.









