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quinta-feira, 18 de junho de 2026

 YOLANDA PENTEADO E A ARTE DE SUSTENTAR SONHOS

 

Alessandra Pereira Louzada

 

Créditos da imagem: OpenAI. (2026).  ChatGPT  21 de maio. https://chat.openai.com/chat

 

A literatura sempre me tocou. Mas foi o mestrado que aguçou minha percepção para aquilo que a arte tem de mais invisível: suas camadas humanas, históricas e afetivas.

Ao me debruçar sobre o estudo da Semana de Arte Moderna de 1922 e, especialmente, revisitando a minissérie Um Só Coração, da Rede Globo, senti algo difícil de explicar. Como se aquelas narrativas deixassem de ser apenas conteúdo acadêmico e passassem a ocupar um espaço sensível dentro de mim. Como se eu absorvesse e assimilasse tudo de outra maneira, uma experiência antropofágica, tal como propunha o próprio movimento modernista: devorar referências, memórias, histórias e devolvê-las transformadas em percepção, emoção e pensamento.

E foi nesse contexto que o meu olhar pousou diante da figura de Yolanda Penteado.

Existe algo profundamente simbólico na vida de Yolanda e na época em que ela viveu. Uma feliz coincidência histórica, ou talvez um raro privilégio temporal, ter convivido no mesmo espaço-tempo com Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e tantos expoentes da cultura brasileira.

Imagino aqueles encontros atravessados por ideias, arte, rupturas e sonhos de modernidade, enquanto São Paulo e o Brasil começavam lentamente a construir sua identidade cultural.

E Yolanda estava ali.

Não apenas como espectadora daquele movimento.

Mas como parte essencial dele.

Nascida na elite paulistana da época – a chamada elite quatrocentona – Yolanda poderia ter vivido apenas o destino confortável reservado às mulheres de sua classe social. Os salões elegantes, os eventos sociais, a vida cuidadosamente desenhada para parecer impecável e silenciosa.

Mas algumas mulheres nascem com uma percepção rara do próprio tempo.

Sobrinha de Olívia Guedes Penteado, uma das grandes incentivadoras da Semana de 1922, Yolanda cresceu cercada pela arte e pela efervescência intelectual daquele período. Talvez tenha aprendido cedo que cultura não é luxo. Cultura é construção de identidade. É memória coletiva. É permanência.

E quanto mais leio sobre ela, mais penso no quanto algumas figuras históricas acabam ficando à margem das narrativas principais, mesmo sendo fundamentais para que elas existissem.

Yolanda Penteado foi uma das maiores ativistas culturais do Brasil no século XX.

Desafiou seu tempo de maneira elegante, mas firme. Em uma sociedade ainda profundamente patriarcal, ocupou espaços de influência cultural, articulou movimentos, incentivou artistas e ajudou a construir instituições que transformaram definitivamente o cenário artístico brasileiro.

Sua vida atravessou encontros memoráveis.

Foi amiga de Santos Dumont, convivendo com o imaginário da invenção e do impossível. Manteve proximidade com Assis Chateaubriand, que dentre inúmeras realizações, fundou o MASP - Museu de Arte de São Paulo. Instituição com a qual ela sempre manteve uma relação de parceria.

Mas talvez um dos episódios mais fascinantes de sua trajetória tenha sido a criação da Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, ao lado do marido, Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo Matarazzo.

Há algo de cinematográfico nisso tudo.

A primeira Bienal só saiu do papel porque Yolanda atravessou oceanos para fazê-la existir. Viajou pessoalmente à Europa para convencer artistas, galerias e instituições a enviarem suas obras para o Brasil. Fico imaginando-a entre os museus europeus carregando consigo não apenas influência social, mas uma convicção apaixonada de que São Paulo precisava dialogar artisticamente com o mundo.

E conseguiu.

A Bienal Internacional de São Paulo ajudou a transformar a cidade num centro cultural permanente e colocou o Brasil no circuito internacional das artes.

E o que mais me emociona em Yolanda é aquilo que quase não aparece.

Ela não foi a artista mais celebrada de sua geração.

Não pintou como Tarsila.

Não escreveu manifestos como Oswald.

Não rompeu paradigmas estéticos como Anita.

E ainda assim, ajudou tudo aquilo a florescer.

Talvez esse seja um dos maiores segredos da história da arte: às vezes, quem sustenta uma revolução cultural não é só quem aparece no centro da cena, mas quem silenciosamente cria as condições para que ela exista.

Yolanda compreendeu algo raro.                                              

A arte também precisa de abrigo.

Precisa de pontes.

Precisa de quem acredite antes.                                                                                               

E foi exatamente isso que ela escolheu ser: não apenas uma mulher de seu tempo, mas uma mulher que ajudou a transformar o tempo em legado.

 

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Alessandra Pereira Louzada, graduada em Publicidade pela PUC-PR, atua na área da comunicação visual e marketing digital. Em 2022 lançou seu primeiro livro para o universo infantil – O Ladrão de Flores. Em 2023 lançou o segundo – A Dona Formiga e o Senhor Leão, ambos pela editora Giostri. Ministra cursos de escrita e de redes sociais ao público 60+. Voluntária na Capa dos Pobres como contadora de histórias às crianças em vulnerabilidade.

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

 A CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

 

Greicy Pinto Bellin


Em 1911, o escritor alemão Thomas Mann escreveu um texto que eu considero perfeito: Morte em Veneza.

 

Fonte da imagem: Prime Video (editada pelo Blog Sarau Literário)

 

O enredo trata de um escritor de meia-idade, Gustav von Aschenbach, que, em meio ao cansaço de uma rotina extenuante de trabalho e atravessando uma crise existencial, resolve passar férias na Itália, destino usual e quase clichê de muitos escritores alemães naquela época. Durante a viagem, o protagonista se depara com Tadzio, um belíssimo jovem polonês por quem se apaixona, embarcando em uma jornada ensandecida que resultará na sua própria morte, conforme o título da novela anuncia.

Observa-se, ao longo da narrativa, a instauração de uma verdadeira dança pelo abismo, em uma espiral de perturbações cada vez mais intensas que se iniciam no barco que leva Aschenbach até a Itália. É neste barco que ele encontrará a primeira manifestação de sua sombra em um velho vestido de forma ridícula e que se mistura sem critério com os jovens, atitude que, apesar de lhe causar repulsa, será a tônica principal de sua estadia em Veneza após o encontro com Tadzio. O ancião do barco pode ser considerado como um dos primeiros mensageiros da morte encontrados pelo protagonista ao longo da viagem, sendo o segundo deles o repulsivo gondoleiro que o conduz até Veneza. A descrição da gôndola como algo semelhante a um túmulo impacta a mente e os afetos do leitor, bem como a suspeita, nutrida pelo próprio protagonista, de que poderia ser assassinado a qualquer momento: “Mesmo que só estejas interessado em meu dinheiro e, com um golpe de remo pelas costas, me envies para a mansão do Hades, terei feito uma boa viagem”. Há, nesta passagem, uma fina e macabra ironia, travestida de um componente mitológico que nos permite efetivamente adentrar o reino dos mortos, ainda que Aschenbach pareça não desejar, pelo menos conscientemente, a sua própria morte. 

À medida em que se aproxima de seu fatal desfecho, o enredo mostrará que o protagonista toma o caminho da própria sombra beirando o ridículo nas perseguições a Tadzio, já não escondendo mais o que sentia e arriscando, até mesmo, a ser descoberto em meio ao absurdo de ingerir morangos estragados para não perder o rapaz de vista. A narrativa segue em uma gradação cada vez mais vertiginosa até a constatação de que a família polonesa estava abandonando o hotel em virtude de uma epidemia de cólera; após esta cena, o escritor presencia, na praia, uma luta em que Tadzio é quase morto pelo amigo Jaschu, em macabra antecipação do momento em que o jovem faz, contra a luz do sol, o mesmo sinal feito por Aschenbach quando tomou a decisão de realizar o mergulho fatal e definitivo nas águas turbulentas e sombrias de seu próprio inconsciente. 

O que a novela de Mann nos revela é o surreal itinerário de um homem na busca por algo que pode vir a governar a vida de um ser humano: o desejo. Este desejo é projetado na figura do belo rapaz que parece alimentar a obsessão do escritor de meia idade com migalhas de atenção, a exemplo do que acontece muitas vezes nas redes sociais, fomentando a proliferação dos tantos stalkers que presenciamos por aí. E o que o stalker percorre, ao fim e ao cabo, é apenas o desejo, mesmo que isso venha a significar a sua própria morte, na maior parte das vezes espiritual, mas física no caso de Aschenbach.

À parte o seu mérito literário inquestionável, Morte em Veneza nos conduz a pensar nas muitas vezes em que a alma humana insiste em perseguir o desejo sem se dar conta de que ele não é feito para ser perseguido e sim, para ser contemplado com distância segura e calculada, sem qualquer envolvimento que enrede a alma nas teias de um destino que pode se revelar trágico, inexorável e imutável.

 

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Greicy Pinto Bellin é doutora em Estudos Literários pela UFPR. É professora titular do Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e do curso de Graduação em Letras da UNIANDRADE.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

CLUBE DE LEITURA DA SOCIOEDUCAÇÃO DO PARANÁ: EXPERIÊNCIA QUE NASCE DO ENCONTRO, DA ESCUTA E DA CORAGEM DE FAZER DIFERENTE


Andressa Ferreira Candido

Sandra Aparecida Pires Franco

Stela Maris Britto Maziero


No coração da Socioeducação do Paraná, há uma experiência que nasce do encontro, da escuta e da coragem de fazer diferente: o Clube de Leitura. Mais do que um projeto, ele é uma construção coletiva que brotou do chão das unidades, da sensibilidade e do compromisso de profissionais que, no cotidiano, acreditam na potência transformadora da palavra.

Ao contrário de iniciativas que chegam prontas, desenhadas de cima para baixo, o Clube surgiu como um gesto espontâneo — quase como quem acende uma pequena luz em meio às rotinas duras. E essa luz foi crescendo. Foi ganhando forma, sentido, pertencimento. Aos poucos, aquilo que era prática passou a ser reconhecido, acolhido e incorporado pela própria gestão, que soube, com sabedoria, não engessá-lo, mas adaptar-se a ele.

Há algo de profundamente democrático nisso: quando a instituição escuta suas bases, quando legitima o que nasce da experiência real, ela não apenas fortalece práticas — ela fortalece pessoas.

A literatura, nesse contexto, deixa de ser apenas leitura e passa a ser ponte. Ponte para o diálogo, para o reconhecimento de si, para a construção de sentidos em trajetórias muitas vezes marcadas por silêncios e rupturas. Cada roda de leitura se torna um espaço de respiro, de reflexão e de possibilidade. Um espaço onde jovens podem, talvez pela primeira vez, se ver nas palavras — ou se reinventar por meio delas.

E não são apenas os adolescentes que se transformam. Os profissionais também se reinventam no processo. Ganham voz, identidade, pertencimento. O Clube de Leitura, assim, não organiza apenas encontros literários — ele organiza sentidos, relações e novas formas de existir dentro da Socioeducação.

Essa experiência nos lembra de algo essencial: práticas verdadeiramente transformadoras não se impõem, elas emergem. E quando encontram escuta, respeito e apoio, tornam-se capazes de redesenhar caminhos — individuais e institucionais.

Talvez seja isso que um sarau literário celebre: não apenas a beleza das palavras, mas a potência dos encontros que elas tornam possíveis.

              

Créditos das imagens: Convite. Clube de Leitura com a presença do   escritor Itamar Vieira Junior, autor do livro Torto Arado. 


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Andressa Ferreira Candido: Mestranda em Educação na Universidade Estadual de Londrina e Coordenadora Estadual do Clube de Leitura da Socioeducação do Paraná.

Sandra Aparecida Pires Franco: Mestre em Educação pela UEM e Doutora em Letras pela UEL. Pós-doc em Educação na Unesp (Campus Marília). Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina.

Stela Maris Britto Maziero: Mestra em Educação pela UFPR e Coordenadora Pedagógica do Clube de Leitura da Socioeducação do Paraná.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

 E SE IRACEMA NÃO TIVESSE MORRIDO?


Margarete Gomes de Lima Silva Slisinski


Essa foi a pergunta norteadora da fanfiction escrita por Margarete Gomes de Lima Silva Slisinski. Acompanhe, abaixo, os detalhes para acessar essa produção!


Imagem enviada pela autora 



Para saber sobre essa experiência, ouça o podcast em que a autora é entrevistada por Jacqueline de Lima Silva Slisinski

https://drive.google.com/file/d/1eBvPmBSSUY1cBuCtf8cZZhs85H0jPbIr/view?usp=sharing


Para acessar o arquivo completo da fanfiction, basta seguir o link: 


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Margarete Gomes de Lima Silva Slisinski é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária da Uniandrade e desenvolveu a fanfiction como trabalho final da disciplina de Literatura e Tecnologia Digital, ministrada pela Profa. Dra. Verônica Daniel Kobs, no segundo semestre de 2025. 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

GRACILIANO RAMOS REVISITADO POR DUAS INTELIGÊNCIAS:

A HUMANA E A ARTIFICIAL

 

Nazareth Queiroz


Imagem enviada pela autora e editada pelo blog Sarau Literário


No trabalho final da disciplina de Literatura e Tecnologia Digital, a doutoranda Nazareth Queiroz escolheu fazer uma adaptação de um texto de Graciliano Ramos usando a IA generativa.




Para saber sobre essa experiência, ouça o podcast em que a autora conta detalhes dos bastidores: 

Para acessar o arquivo completo da adaptação, basta seguir o link: 
https://docs.google.com/document/d/1Xb1w9eU5GPu1rxBzPo2Q6ZAuOUul6hUH/edit?usp=sharing&ouid=113070375722491973231&rtpof=true&sd=true



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Nazareth Queiroz é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária da Uniandrade e desenvolveu a adaptação como trabalho final da disciplina de Literatura e Tecnologia Digital, ministrada pela Profa. Dra. Verônica Daniel Kobs, no segundo semestre de 2025. 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

 MAIS UMA OFICINA CONFIRMADA EM EVENTO DO SESC-PR

 

Créditos das imagens: Canva, Instagram e LinkedIn.

 

A terceira edição do curso de Psicologia Narrativa vem aí, em um formato mais curto e mais interativo. E menos de um ano, três edições desse crossover de sucesso entre a Literatura e Psicologia.

Em breve, mais informações no Instagram: @literatura.uniandrade

quinta-feira, 16 de abril de 2026

MAIS UM CAPÍTULO DA PARCERIA UNIANDRADE & SESC-PR


Para os amantes da nona arte, nossa egressa, Amanda Vital, está preparando uma oficina inédita.
"Quadrinhos – História e Produção"
Ementa: Durante a oficina serão abordados os seguintes temas: a história das histórias em quadrinhos, no mundo e no Brasil (início das narrativas visual e verbo-visual, primeiras HQs, etc.); e principais formatos e variações possíveis de técnicas e materiais. Ao fim da oficina, será proposto um exercício de elaboração de roteiros e personagens.
Em breve, mais informações em nosso Instagram:
@literatura.uniandrade


Créditos da imagem: Canva, Instagram, Fantasia Wiki e Scream & Yell.