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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

UMA PROFESSORA, UMA SEMENTE E MUITAS VOZES:

OS CAMINHOS ENTRE A LITERATURA E A DOCÊNCIA

 

Jaqueline Maria de Oliveira


Créditos da imagem: OPENAI. ChatGPT. Gerado em: 16 de outubro 2026. Disponível em: https://chat.openai.com

 

Há professores que passam por nossas vidas e há aqueles que permanecem em nós, mesmo muitos anos depois de deixarmos suas salas de aula. Neste Dia dos Professores, revisito uma experiência que marcou minha trajetória e me fez compreender como determinadas práticas pedagógicas podem produzir sentidos que ultrapassam o tempo escolar. Sempre gostei de estudar, embora a Língua Portuguesa nem sempre tenha sido minha disciplina favorita. Essa relação começou a mudar, quando encontrei uma professora que transformou minha experiência com a linguagem.

Desejando nos preparar para os desafios do Ensino Médio, ela propunha atividades pouco comuns à nossa rotina: declamação de poemas, jornal falado e apresentações em público. Queria que aprendêssemos a nos expressar sem que o medo nos paralisasse. Na época, eu não imaginava que aquelas experiências se tornariam tão significativas para minha vida profissional. Hoje, reconheço naquela professora a origem de um interesse que se aprofundaria ao longo de minha formação: o trabalho com a oralidade e os gêneros poéticos. A experiência em sala de aula evidenciou a necessidade de continuar estudando e aproximar os conhecimentos acadêmicos dos desafios cotidianos da docência.

Foi em uma Festa Literária Internacional de Paraty que conheci a poesia Slam. Encontrei nessa manifestação literária uma potência expressiva que dialogava com as experiências e as realidades sociais dos estudantes com quem trabalhava em uma escola da periferia de Curitiba. De certa maneira, reencontrei ali as experiências que minha professora havia proporcionado tantos anos antes: a palavra em voz alta, a poesia compartilhada e a possibilidade de ocupar o espaço público por meio da linguagem. Segundo D’Alva (2019), o Slam articula poesia, performance e expressão crítica, abordando frequentemente questões como racismo, violência e desigualdade social. Sua força está também na possibilidade de tornar audíveis experiências e perspectivas muitas vezes marginalizadas.

O meu interesse pela pesquisa me levou a questionar como a oralidade e os gêneros orais são trabalhados nas aulas de Língua Portuguesa. Que oportunidades oferecemos aos estudantes para desenvolver suas formas de expressão? Como articulamos as práticas sociais da linguagem aos conhecimentos que a escola precisa ensinar? Essas inquietações passaram a orientar meu percurso acadêmico, culminando na pesquisa desenvolvida no ProfLetras sobre a poesia Slam como proposta de leitura dialógica para o 9º ano. Nesse caminho, compreender a oralidade tornou-se fundamental. Marcuschi (2001) a define como uma prática social interativa, realizada por meio de diferentes gêneros textuais e em variados contextos comunicativos. A escola não ensina o estudante a falar como se essa capacidade não existisse antes de sua chegada, mas tem a responsabilidade de ampliar seus conhecimentos sobre os usos da linguagem, especialmente em situações públicas que exigem formas específicas de fala e escuta.

O Slam possibilita integrar leitura, produção textual, oralidade e análise linguística, articulando o estudo da linguagem à experiência estética e à realidade dos estudantes. A poesia Slam também me faz refletir sobre a concepção de educação que orienta nossas práticas. Paulo Freire (1987), ao criticar a educação bancária, questiona um ensino que reduz os estudantes à condição de receptores passivos de conteúdos. Trabalhar com manifestações poéticas que acolhem suas experiências, inquietações e formas de interpretar o mundo permite construir outras relações com o conhecimento. Isso não significa abandonar o ensino sistematizado, mas reconhecer que aprender a linguagem envolve compreender seus usos, experimentar possibilidades expressivas e participar de práticas sociais significativas.

Ao olhar para minha trajetória, percebo que a professora da antiga 8ª série não foi apenas alguém que ensinou conteúdos ou propôs atividades diferentes. Ela abriu possibilidades de relação com a linguagem que continuaram produzindo sentidos muito depois daquele ano escolar. A menina que ainda não reconhecia na Língua Portuguesa sua disciplina favorita tornou-se professora e pesquisadora, interessada justamente por uma dimensão da linguagem que aquela docente ajudou a revelar.

Talvez ela não imaginasse que suas propostas permaneceriam vivas em minhas escolhas acadêmicas e profissionais. Eu também não poderia prever que a declamação de poemas e as apresentações em sala de aula se transformariam em referências para minhas pesquisas sobre gêneros poéticos orais. Hoje, compreendo que algumas sementes precisam de tempo para florescer e que o alcance de uma prática pedagógica nem sempre pode ser medido quando acontece.

Ser professora significa reconhecer os desafios que atravessam a escola e, ao mesmo tempo, acreditar nas possibilidades que surgem quando os estudantes encontram espaço para aprender, criar e se expressar. Por isso, continuar estudando e pesquisando é também uma forma de cuidar do ensino e de buscar caminhos que aproximem a reflexão acadêmica da realidade escolar. Neste Dia dos Professores, minha homenagem dirige-se especialmente àquela professora que, ao incentivar seus estudantes a encontrarem a própria voz, ajudou a construir a minha. Entre as primeiras declamações escolares e as oficinas de Slam, há anos de formação, pesquisa e trabalho, mas permanece o vínculo entre duas experiências: a de quem abriu caminhos para que eu descobrisse a potência da palavra e a de quem, hoje, procura criar oportunidades para que outros estudantes também a descubram. Afinal, alguns professores continuam ensinando muito depois de a aula terminar.

 

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Jaqueline Maria de Oliveira é professora de Língua Portuguesa, mestre em Letras e atua na Secretaria Municipal da Educação de Curitiba, na Gerência de Educação Integral, com formação docente. Pesquisa a poesia Slam e o ensino de Língua Portuguesa.

 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

 A CONTORÇÃO DO PEIXE


Paulo Venturelli


Fonte: Imagem criada com auxílio de inteligência artificial generativa da OpenAI (2026).

 

 

O movimento da boca

esconde um palimpsesto

em que o peixe decifra

as marolas da isca

 

O peixe está livre de

assimilar o absurdo

- o anzol a pesca

 

O movimento da boca

manifesta alternâncias

entre o fim e o começo

mais o som de algo

 

O peixe adivinha nos arabescos

seu destino parcial

quando o homem por perto

 

O movimento da boca

tem sonolência de matizes

que as naves cegas igualam

ao deserto da longitude

 

O peixe é furtivo atrás dos lábios

Recicla seu destino entre

Palavras que o caçam   

 

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Paulo Venturelli é escritor, professor e pesquisador, nascido em Brusque (SC), em 1950, e radicado em Curitiba. É doutor em Literatura Brasileira pela USP e foi professor da UFPR. É autor de romances, contos, poesia, crítica literária e literatura infantojuvenil, com obras como Meu pai e Visita à baleia. Integra a Academia Paranaense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 5.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

URBAN SOMOS TODOS NÓS!

 

Claudinei Duarte de Lima

Capa do livro Urban, do professor e escritor Marcelo Barbosa Alcaraz. (Imagem fornecida pelo autor da resenha).

 

Urban é um personagem polimorfo: adere a diferentes classes, gêneros e nacionalidades. Incorpora um bilionário que passeia impune sob o sol grego, descansa no corpo de um artesão de vida simples, agita-se em uma educadora autoritária, em um soldado israelense que posta stories ou em um figurante de Fellini que despreza o cinema italiano.

Urban somos todos nós. No país da miséria, do meme, do fundamentalismo religioso e das sucessivas crises éticas e estéticas. Contudo, por vezes, o narrador procura o nosso melhor. Inspira-se na crônica de Clarice ou na anticrônica de Victor Heringer; rememora o melhor do cinema mundial: Fellini, Jim Jarmusch, Kaurismäki.

A leitura é convidativa e acompanha-se com prazer o seu fluxo, ao mesmo tempo em que desconstrói a ideia de que a crônica trata sempre de temas leves e prosaicos. O gênero é breve, versátil e também pode apreender, do cotidiano, aspectos grotescos e avassaladores.

Urban não gosta da palavra esperança, mas quem escreve espera, deseja a recriação de seu texto em cada futuro leitor. Encontre Urban. Depois de duas horas de leitura, você será outro: bom, canalha, justo, feliz ou inconformado. Afaste-se um pouco das redes e caminhe, reflita. Ignore o relógio do fim do mundo. Temos algum tempo. A arte é nossa potência.

 

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Claudinei Duarte de Lima é Mestre em Teoria Literária pela Uniandrade, graduado em Pedagogia pela UFPR, Psicologia pela UPF e Tuiuti. Professor da rede pública de Colombo desde 2003 e da rede municipal de Curitiba desde 2010. Trabalha na Educação Especial em Curitiba desde 2011.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

 POESIA, DESPOESIA, PÓS-POEMAS: AUGUSTO DE CAMPOS

 

Claudio Daniel

 

Poema de Augusto de Campos. Imagem cedida pelo autor deste texto.

 

O poeta paulista Augusto de Campos publicou recentemente o livro Pós-poemas, que integra uma tetralogia formada por três outros livros (ou antilivros): Despoesia (1994), Não (2003) e Outro (2015). Os títulos dessas obras já questionam o próprio conceito da arte poética, pelo menos em seu sentido de construção exclusivamente verbal. Todas as composições desta série notável de obras, embora mantenham o uso da palavra, ao mesmo tempo a redimensionam, não apenas pelo uso diferenciado da espacialização e das fontes, mas sobretudo pelo uso dos recursos das tecnologias digitais. Foram realizadas diretamente no computador, e não mais na máquina de escrever ou com recursos artesanais ou semiartesanais, como as dobraduras de papel e a aplicação da letraset, que o poeta utilizou na época do surgimento da Poesia Concreta, por exemplo em Poetamenos (1953), série de poemas coloridos inspirados na melodia de timbres do compositor austríaco Anton Webern, ou em Poemóbiles (1974), conjunto de doze poemas-objeto coloridos tridimensionais, desenvolvidos em parceria com Júlio Plaza. Conforme diz Augusto de Campos, em entrevista que realizei com ele em 2015 para a revista CULT, tanto Despoesia (1994) quanto os livros seguintes, Não (2003) e Outro (2015) “foram inteiramente produzidos em meu computador  e assinalam o meu ingresso, sem volta, no mundo da linguagem digital”.

Em Pós-poemas, seu mais novo trabalho autoral, Augusto de Campos retoma e leva ao limite as experiências realizadas nos três livros anteriores. Conforme escreve Carlos Adriano, no texto de “orelha” da obra: “Este livro compila trabalhos realizados de 2005 a 2024 e radicaliza a depuração rigorosa da condensação que demarca a poética de Augusto de Campos. O recurso da concisão é correlato ao transladar e decupar por estranhamento a palavra ou frase do senso comum, em intervenção meticulosa que gira sentidos insuspeitos a partir do elementar espanto do alumbramento” (Campos, 2025). Dividido em cinco partes, o volume inclui, além das composições verbivocovisuais do próprio poeta, “intraduções” de Omar Fitzgerald, o genial tradutor inglês que reinventou as quadras (rubáis) do persa Omar Kahhayam, poemas de Iliazd, Marcel Duchamp, Gerasim Luca e Emily Dickinson, esta última reimaginada em paralelo com a lembrança da companheira do poeta, Lygia de Azeredo Campos, falecida em 2024 aos 92 anos de idade, cujos poemas foram reunidos postumamente no volume Adormeço. Mereço?, publicado por Vanderley Mendonça pela editora Cobalto. Pós-poemas apresenta ainda uma seção intitulada Profilogramas, com homenagens poéticas aos já referidos Emily Dickinson e Marcel Duchamp, e também a James Joyce, Fernando Pessoa e Giuseppe Ungaretti, este último traduzido por Haroldo de Campos e Aurora Bernardini no livro intitulado Daquela estrela à outra.  A intertextualidade, portanto, permanece nessa obra como uma das pedras-de-toque fundamentais da poética de Augusto de Campos, que desde o seu primeiro livro publicado, O rei menos o reino, já dialogava com Lautréamont, Mário de Sá Carneiro e outros poetas que o marcaram na mocidade. Este é, sem dúvida, o livro de poesia mais interessante publicado neste ano.

 

 Referência:

CAMPOS, Augusto de. Pós-poesia: São Paulo, Perspectiva, 2025.

  

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Claudio Daniel é poeta, romancista, crítico literário e professor de literatura. Doutor em Literatura Portuguesa (USP). Pós-doutorado em Teoria Literária (UFMG). Autor de diversos livros, entre eles Cadernos bestiais: breviário da tragédia brasileira, Dialeto açafrão (sob a lua de Gaza), Mojubá e A casa das encantadas.

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

 TUDO BEM SER DIFERENTE: UMA EXPERIÊNCIA DE LEITURA, RESPEITO E ACOLHIMENTO

 

Arianne Luiza Brito dos Santos

 

Capa da obra Tudo Bem Ser Diferente, de Todd Parr. Fonte: Panda Books.

 

Trabalhar o livro Tudo Bem Ser Diferente, de Todd Parr, com as crianças do Infantil 5 D foi uma experiência muito especial. Desde o início da leitura, percebi a curiosidade e o interesse da turma, principalmente porque a obra apresenta situações próximas ao universo infantil de maneira simples, colorida e divertida. A própria editora classifica a obra nos temas diversidade e inclusão.

Durante a leitura, procurei criar um espaço em que as crianças se sentissem à vontade para falar, fazer perguntas e compartilhar situações que já haviam vivenciado. Em seguida, realizamos uma roda de conversa sobre o que significa ser diferente. Perguntei se todas as pessoas são iguais e o que cada uma considerava especial em si mesma. Aos poucos, surgiram comentários sobre características físicas, gostos, brincadeiras preferidas e diferenças percebidas entre os próprios colegas.

Foi interessante observar como, no decorrer da conversa, as crianças começaram a compreender que cada pessoa possui seu próprio jeito de ser. Algumas falaram sobre aquilo de que gostam, enquanto outras passaram a observar características dos amigos. De forma espontânea, chegamos a uma questão fundamental proposta pela leitura: as diferenças fazem parte de quem somos e precisam ser respeitadas.

Em alguns momentos, surgiram falas espontâneas e até engraçadas, próprias da infância. Essas situações também se transformaram em oportunidades de aprendizagem, pois possibilitaram conversar sobre como nossas palavras e atitudes podem afetar o outro. Falamos sobre a importância de não rir, excluir ou deixar alguém de lado por ser diferente e sobre como podemos aprender a respeitar e acolher cada pessoa em sua singularidade.

A leitura abriu caminhos para conversarmos não apenas sobre as diferenças, mas também sobre amizade, respeito, carinho e empatia. O livro tornou-se, assim, um ponto de partida para que as crianças relacionassem a experiência literária às situações vivenciadas no cotidiano e às relações construídas no espaço escolar.

Como professora, considero que essa experiência ultrapassou as páginas do livro. As situações apresentadas aproximaram-se das vivências das próprias crianças e criaram oportunidades para que elas observassem o outro com mais atenção, reconhecendo que as diferenças não impedem a construção de vínculos.

Ao final, ficou a percepção de que as crianças não apenas ouviram uma história. Elas puderam falar de si, observar os colegas e refletir sobre a convivência. Podemos ter características, gostos e maneiras de ser diferentes e, ainda assim, brincar, aprender, acolher e crescer juntos.

 

Referência

PARR, Todd. Tudo bem ser diferente. Tradução de Marcelo Bueno. São Paulo: Panda Books, 2002.

 

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Arianne Luiza Brito dos Santos é formada em Pedagogia pela Faculdade Claretiano e em Letras pela UNINTER. Possui especializações em Neuropsicopedagogia e Desenvolvimento Humano, Psicopedagogia e Gestão Escolar, além de Gestão Escolar Integrada. Atua como professora da Educação Infantil, em Colombo e Pinhais.

sábado, 12 de setembro de 2026

 VITRINE COM SEGURO DE IPVA

 

Rubens Gomes Corrêa

 

Crédito da imagem: Imagem cedida pelo autor.

 

Comprei um tênis porque “é só um tênis que eu quero.” Digo isso alto, para mim e para o vendedor, como se a frase tivesse peso e segurasse a vergonha. 

É só um tênis. Ele sorri com a etiqueta colada no ar, e desenha no rosto a cifra do preço. A etiqueta me devolve outra verdade, não é só um tênis. É uma assinatura que exige proteção, seguro, nota fiscal, declaração de valor moral.

Quando o preço bate na mesa, penso: vai ficar um pouco mais caro, porque vou ter que fazer um seguro. Faz sentido. Tudo que brilha demais pede apólice. Tem coisas que, de tão caras, deviam vir com emplacamento, pagar IPTU, IPVA. Onde vamos parar com esses valores? Em lugar nenhum, porque parar é reconhecê-los. Melhor continuar o desfile puxando o cartão de crédito. - 10 vezes.

Se eu não puder comprar o mais caro, 25 de Março ou o Paraguai está ali, igualzinho, versão pirata, quinhentos reais e com a mesma promessa, fazendo  todo mundo pensar que você pagou R$11.791,00 numa grife de luxo italiana Zegna que algum magnata que recebe de salário nos seus R$46.366,19.

A diferença não está no couro ou na sola, mas no contrato social que aceita a farsa. Somos crianças com brinquedos de adulto, fingir é brincar de existir. É uma exposição calculada, o tênis é selfie, a rua é feed, o peito inchado de ar condicionado é academia, o sorriso é filtro.

A exposição do “eu” virou esporte. Sibilia chamaria isso de espetáculo do sujeito, a vida transformada em vitrine. A academia é o altar, o espelho, o confessional. Se mostrou, logo existe. Se curtiu, validou-se. A beleza em excesso não é desejo, é política, molda corpos, ordena olhares, distribui elogios como troféus. Cada forma é meticulosamente apresentada, cada luz é pensada para o ângulo perfeito. Os ambientes se tornam cenários. O quarto é set, a rua, plateia. Você não só se veste, você monta uma cena.

Eu me idiotizei do que eu não sei quem eu sou. Preciso fingir para que você me atribua um valor que eu não tenho e eu me sinta feliz pelo que você pensa. E à noite, a cabeça no travesseiro pesa com a estupidez social que nos engoliu. A felicidade do engano é barata e tem prazo de validade, dura o tempo da notificação. Depois, o vácuo. A máscara fica grudada.

A neurose do consumo é um discurso que repete, mais, mais, mais. Ele não se satisfaz, ele se reproduz. Compramos imagens para preencher a falta de uma consistência íntima. 

A pessoa que se monta diariamente em frente à lente é tanto atriz quanto dramaturga de si mesma. Selfies são pequenos testamentos, provas de que eu existo aos olhos que eu quero. O like é absolvição. O comentário é confissão. Somos juízes e réus do próprio espetáculo.

Apelo para uma passagem típica de aforismo e de esquina, sem pretensão mística, mas com a mesma vocação de julgamento: “Já não sou o que penso ser, minha vida é o que os outros assinam.” Não é maniqueísmo. É diagnóstico. O problema não é enfrentar dificuldades exteriores, é compreender se eu sei quem eu deveria ser. Se estou onde deveria estar. Se cumpro o que devo, ou se apenas coleciono etiquetas.

A questão é elementar e cruel. O que vale? Será que viver é somar aquisições ou somar momentos? Será que a autenticidade cabe num mostruário? A resposta não é coletiva, é íntima. Não adianta o show se, por dentro, a corda está solta. O que salva não é o tênis, nem o selo, nem a melhor luz. O que salva é ter uma razão para estar no mundo que não precise de audiência. E então resta a escolha, continuar se expondo para ser visto ou desmontar o cenário e se ver. Arrancar filtros, calçar o que for preciso sem considerar o aplauso. Não é milagre nem penitência, é prática. Praticar a própria presença. Alguns chamariam isso de rebelião silenciosa, outros, de desinteresse. Eu chamo de economia radical, investir na integridade.

Volto à vitrine do shopping com meu “só um tênis” e observo. O vendedor repete gestos aprendidos, eu repito frases antigas. Do lado de fora, o mundo inventa mais demandas. No espelho do provador, uma última imagem do tênis sobre o chão imaculado.

Nada nele promete salvação. Promete, apenas, a sensação passageira de caber num lugar onde se exige que sejamos aquilo que compramos. Se isso não for suficiente, que se dane a vitrine. Prefiro, talvez pela primeira vez, calçar os sapatos de andar mais devagar. 

 

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Rubens Gomes Corrêa é doutorando em Teoria Literária na UNIANDRADE, Mestre em Assistência (UFPR) e Licenciado em Enfermagem (PUCPR). Possui MBA em Gestão do Conhecimento na Educação Superior e especializações nas áreas de Educação e Saúde. É professor do Instituto Federal do Paraná e autor de 26 livros publicados.

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

VERSOS SOMBRIOS

 

Brunilda T. Reichmann

 

Cinco poemas sobre memórias que não pedem licença para voltar — a infância, o medo e as sombras que habitam a casa.

 

Imagem cedida pela autora.











                                          

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Brunilda T. Reichmann é doutora em Literatura Comparada pela University of Nebraska–Lincoln (UNL) e professora do Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária da Uniandrade. Sua produção acadêmica concentra-se em estudos de Intermidialidade e tradução de textos acadêmicos.