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sábado, 12 de setembro de 2026

 VITRINE COM SEGURO DE IPVA

 

Rubens Gomes Corrêa

 

Crédito da imagem: Imagem cedida pelo autor.

 

Comprei um tênis porque “é só um tênis que eu quero.” Digo isso alto, para mim e para o vendedor, como se a frase tivesse peso e segurasse a vergonha. 

É só um tênis. Ele sorri com a etiqueta colada no ar, e desenha no rosto a cifra do preço. A etiqueta me devolve outra verdade, não é só um tênis. É uma assinatura que exige proteção, seguro, nota fiscal, declaração de valor moral.

Quando o preço bate na mesa, penso: vai ficar um pouco mais caro, porque vou ter que fazer um seguro. Faz sentido. Tudo que brilha demais pede apólice. Tem coisas que, de tão caras, deviam vir com emplacamento, pagar IPTU, IPVA. Onde vamos parar com esses valores? Em lugar nenhum, porque parar é reconhecê-los. Melhor continuar o desfile puxando o cartão de crédito. - 10 vezes.

Se eu não puder comprar o mais caro, 25 de Março ou o Paraguai está ali, igualzinho, versão pirata, quinhentos reais e com a mesma promessa, fazendo  todo mundo pensar que você pagou R$11.791,00 numa grife de luxo italiana Zegna que algum magnata que recebe de salário nos seus R$46.366,19.

A diferença não está no couro ou na sola, mas no contrato social que aceita a farsa. Somos crianças com brinquedos de adulto, fingir é brincar de existir. É uma exposição calculada, o tênis é selfie, a rua é feed, o peito inchado de ar condicionado é academia, o sorriso é filtro.

A exposição do “eu” virou esporte. Sibilia chamaria isso de espetáculo do sujeito, a vida transformada em vitrine. A academia é o altar, o espelho, o confessional. Se mostrou, logo existe. Se curtiu, validou-se. A beleza em excesso não é desejo, é política, molda corpos, ordena olhares, distribui elogios como troféus. Cada forma é meticulosamente apresentada, cada luz é pensada para o ângulo perfeito. Os ambientes se tornam cenários. O quarto é set, a rua, plateia. Você não só se veste, você monta uma cena.

Eu me idiotizei do que eu não sei quem eu sou. Preciso fingir para que você me atribua um valor que eu não tenho e eu me sinta feliz pelo que você pensa. E à noite, a cabeça no travesseiro pesa com a estupidez social que nos engoliu. A felicidade do engano é barata e tem prazo de validade, dura o tempo da notificação. Depois, o vácuo. A máscara fica grudada.

A neurose do consumo é um discurso que repete, mais, mais, mais. Ele não se satisfaz, ele se reproduz. Compramos imagens para preencher a falta de uma consistência íntima. 

A pessoa que se monta diariamente em frente à lente é tanto atriz quanto dramaturga de si mesma. Selfies são pequenos testamentos, provas de que eu existo aos olhos que eu quero. O like é absolvição. O comentário é confissão. Somos juízes e réus do próprio espetáculo.

Apelo para uma passagem típica de aforismo e de esquina, sem pretensão mística, mas com a mesma vocação de julgamento: “Já não sou o que penso ser, minha vida é o que os outros assinam.” Não é maniqueísmo. É diagnóstico. O problema não é enfrentar dificuldades exteriores, é compreender se eu sei quem eu deveria ser. Se estou onde deveria estar. Se cumpro o que devo, ou se apenas coleciono etiquetas.

A questão é elementar e cruel. O que vale? Será que viver é somar aquisições ou somar momentos? Será que a autenticidade cabe num mostruário? A resposta não é coletiva, é íntima. Não adianta o show se, por dentro, a corda está solta. O que salva não é o tênis, nem o selo, nem a melhor luz. O que salva é ter uma razão para estar no mundo que não precise de audiência. E então resta a escolha, continuar se expondo para ser visto ou desmontar o cenário e se ver. Arrancar filtros, calçar o que for preciso sem considerar o aplauso. Não é milagre nem penitência, é prática. Praticar a própria presença. Alguns chamariam isso de rebelião silenciosa, outros, de desinteresse. Eu chamo de economia radical, investir na integridade.

Volto à vitrine do shopping com meu “só um tênis” e observo. O vendedor repete gestos aprendidos, eu repito frases antigas. Do lado de fora, o mundo inventa mais demandas. No espelho do provador, uma última imagem do tênis sobre o chão imaculado.

Nada nele promete salvação. Promete, apenas, a sensação passageira de caber num lugar onde se exige que sejamos aquilo que compramos. Se isso não for suficiente, que se dane a vitrine. Prefiro, talvez pela primeira vez, calçar os sapatos de andar mais devagar. 

 

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Rubens Gomes Corrêa é doutorando em Teoria Literária na UNIANDRADE, Mestre em Assistência (UFPR) e Licenciado em Enfermagem (PUCPR). Possui MBA em Gestão do Conhecimento na Educação Superior e especializações nas áreas de Educação e Saúde. É professor do Instituto Federal do Paraná e autor de 26 livros publicados.

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

VERSOS SOMBRIOS

 

Brunilda T. Reichmann

 

Cinco poemas sobre memórias que não pedem licença para voltar — a infância, o medo e as sombras que habitam a casa.

 

Imagem cedida pela autora.











                                          

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Brunilda T. Reichmann é doutora em Literatura Comparada pela University of Nebraska–Lincoln (UNL) e professora do Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária da Uniandrade. Sua produção acadêmica concentra-se em estudos de Intermidialidade e tradução de textos acadêmicos. 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

 QUANDO O MEDO GANHA NOVAS CORES: UMA EXPERIÊNCIA DE LEITURA DE LÁ VEM O HOMEM DO SACO COM CRIANÇAS DO INFANTIL

 

Ligia Fernanda Giorgia de Oliveira Klein 


Capa da obra Lá vem o Homem do Saco e ilustração do desfecho da narrativa. Fonte: Rennó (2013) e Editora FTD (2025).


"Ele vai pegar alguém?"

A pergunta surge quase em um sussurro enquanto pequenas mãos apontam para a imagem de um homem caminhando lentamente, carregando um grande saco nas costas. Os olhos das crianças percorrem a página em busca de respostas. Algumas observam as janelas das casas; outras reparam nos personagens escondidos nos umbrais. Há silêncio, expectativa e uma certa apreensão no grupo.

Antes mesmo que qualquer palavra seja dita, a imagem já contou uma história. O homem de aparência misteriosa, o cenário em tons acinzentados, a atmosfera sombria e os olhares assustados das personagens ilustradas despertam nas crianças uma sensação conhecida: o medo diante do desconhecido.

Mas, essa história ainda guarda uma surpresa. O que parece ameaçador revelará algo inesperado. O que provoca medo carregará música. O Homem do Saco, personagem tão presente no imaginário popular brasileiro, ganhará novas cores diante do olhar curioso das crianças.

 

1. O Homem do Saco: uma memória do folclore brasileiro

As histórias populares fazem parte da memória cultural de um povo. Transmitidas principalmente pela oralidade, elas atravessam gerações, carregando costumes, valores, ensinamentos e também os medos construídos socialmente.

O Homem do Saco é uma dessas figuras que permaneceram vivas no imaginário brasileiro. Sua imagem foi, durante muito tempo, associada ao desconhecido e utilizada pelos adultos como forma de alertar as crianças sobre perigos ou comportamentos considerados inadequados. Para Luís da Câmara Cascudo (2006), o folclore não é algo parado no tempo; ele se transforma conforme as sociedades recriam suas narrativas. As histórias populares permanecem vivas porque cada geração encontra nelas novos sentidos. É justamente esse movimento que acontece em Lá vem o Homem do Saco, de Regina Rennó (2013). A autora retoma um personagem conhecido da tradição popular, mas o apresenta por uma perspectiva diferente: a narrativa não confirma o medo inicialmente associado a essa figura, mas convida o leitor a olhar novamente.

A obra é construída exclusivamente por imagens. Não há palavras conduzindo o caminho do leitor. São as cores, os gestos, os espaços, as expressões dos personagens e a sequência visual que constroem a narrativa.  Nesse tipo de livro, a criança não ocupa apenas o lugar de quem recebe uma história. Ela torna-se participante da criação narrativa. Como destacam Nikolajeva e Scott (2011), o livro de imagens possui uma linguagem própria, na qual os elementos visuais assumem função narrativa. Cada detalhe pode revelar informações, sugerir emoções e provocar interpretações.

 

2. Ler imagens: quando a criança também se torna autora da história

Durante a leitura compartilhada com crianças do Infantil 5, percebeu-se que o silêncio das páginas não significava ausência de narrativa. Pelo contrário: ele abriu espaço para muitas histórias possíveis. Ao observar o Homem do Saco caminhando pelas páginas iniciais, as crianças começaram a construir suas próprias interpretações.

— "Ele está indo pegar alguém."

— "As pessoas estão escondidas, porque ele é mau."

— "Eles estão com medo dele, ele rouba crianças."

As falas revelavam que as crianças compreendiam não apenas aquilo que estava representado, mas também os sentimentos presentes na cena em virtude de repertório já pré-existente em seu imaginário. Elas percebiam o medo nas personagens desenhadas. Percebiam a distância entre o homem e aqueles que o observavam. Percebiam o clima de suspense criado pelas imagens. A leitura acontecia pelo olha enquanto as expressões e as mais variadas falas, apresentavam a interpretação do texto visual.

Segundo Wolfgang Iser (1996), toda experiência de leitura envolve a participação do leitor, que preenche espaços deixados pela obra e constrói sentidos a partir de sua própria experiência. Em um livro-imagem, esse processo torna-se ainda mais evidente, pois as lacunas são preenchidas pela imaginação daquele que observa.

As crianças não estavam apenas vendo imagens. Elas estavam interpretando. Estavam criando possibilidades. Estavam lendo e interpretando através do imaginário.

 

3. Entre o medo e a curiosidade: o segredo dentro do saco

O grande saco carregado pelo personagem torna-se o centro da expectativa.

— O que haveria ali dentro?

A cada página, novas hipóteses surgiam.

— "É uma bola!"

— "É um carrinho!"

— "É um boné!"

— "Tem algum brinquedo!"

O medo inicial começa a dividir espaço com a curiosidade. Esse movimento é fundamental na experiência literária infantil. A criança não precisa eliminar o medo para continuar lendo; ela aprende a conviver com ele, compreendendo que a narrativa pode oferecer diferentes caminhos.

Bruno Bettelheim (2007), ao estudar os contos tradicionais, demonstra que histórias envolvendo conflitos e personagens assustadores possibilitam à criança elaborar simbolicamente sentimentos e situações difíceis. A literatura oferece um espaço protegido para experimentar emoções e encontrar novos significados. Em Lá vem o Homem do Saco, esse processo acontece pela própria descoberta da imagem. Uma pequena ponta vermelha aparece.

Um detalhe aparentemente simples transforma toda a expectativa construída até aquele momento. A curiosidade vence o medo. As crianças querem descobrir, e a próxima página revela o inesperado.

 

4. A música que transforma a paisagem

Dentro do saco não existe aquilo que as crianças imaginavam.

— Não há ameaça.

— Não há perigo.

— Há uma gaita.

O personagem que parecia assustador revela-se alguém que carrega música. Nesse instante, a narrativa visual se transforma. As páginas antes dominadas pelos tons cinzentos começam a revelar novas cores. O ambiente ganha movimento. As personagens deixam seus esconderijos. Os rostos antes apreensivos passam a expressar alegria. A música modifica a paisagem.

E modifica também o olhar das crianças sobre aquele personagem. Aquele que antes era visto como ameaça passa a ser compreendido como alguém capaz de proporcionar encontro e felicidade. Essa transformação evidencia a força da imaginação. Para Bachelard (1993), a imaginação poética não apenas reproduz o mundo, mas cria novas possibilidades de percebê-lo.

A literatura faz exatamente isso: permite que vejamos novamente aquilo que acreditávamos conhecer. O “Homem do Saco” deixa de ser apenas o personagem do medo contado pelas gerações anteriores e torna-se, na experiência das crianças, aquele que traz música.

 

5. A infância como espaço de criação de sentidos

A experiência com Lá vem o Homem do Saco revela que a criança é leitora desde muito antes de dominar a escrita convencional.

— Ela lê imagens.

— Lê expressões.

— Lê cores.

— Lê silêncios.

A leitura visual desenvolvida na Educação Infantil contribui para a formação estética e narrativa das crianças, pois permite que elas criem relações, formulem hipóteses e desenvolvam sua capacidade interpretativa. Como afirma Teresa Colomer (2017), o contato com a literatura desde os primeiros anos favorece a construção da competência narrativa e amplia o repertório cultural infantil.

Mais do que ensinar uma história, a literatura possibilita uma experiência. No encontro com essa obra, as crianças aprenderam que nem tudo aquilo que parece assustador realmente representa perigo. Aprenderam que uma aparência pode esconder outras possibilidades. Aprenderam que uma história conhecida pode ganhar um novo final. E talvez seja esse o maior encanto da literatura infantil: permitir que o mundo seja visto novamente.

O “Homem do Saco” carregava uma surpresa. As crianças carregavam imaginação. E, entre páginas cinzentas que lentamente ganharam cor, nasceu uma nova forma de olhar para uma antiga história.

 

REFERÊNCIAS

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007.

CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil. São Paulo: Global, 2006.

COLOMER, Teresa. Introdução à literatura infantil e juvenil atual. São Paulo: Global, 2017.

ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Editora 34, 1996.

NIKOLAJEVA, Maria; SCOTT, Carole. How Picturebooks Work. New York: Routledge, 2011.

RENNÓ, Regina. Lá vem o Homem do Saco. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2013.

VAN DER LINDEN, Sophie. Para ler o livro ilustrado. São Paulo: Cosac Naify, 2018.

ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 2003.

 

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Ligia Fernanda Giorgia de Oliveira Klein é mestra em Teoria Literária pela Uniandrade. Integra o Grupo de Estudos em Teoria da Complexidade da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e atua como voluntária da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS) e no Ministério de Surdos Neemias.