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terça-feira, 30 de outubro de 2012

O lirismo de P.K.Page: (re)leituras de um discurso complexo

Sigrid RENAUX

Resumo: Esta pesquisa visa examinar, através da análise da produção lírica de P.K.Page, o uso que esta poeta canadense faz da intertextualidade explícita, como a inserção de motes de renomados poetas (Neruda, Rilke, Auden, entre outros) como temas para o desenvolvimento de suas próprias glosas. Esta abordagem nos permitirá avaliar melhor como Page, ao entrar numa relação de transformação, transgressão e amplificação dos textos originais, está simultaneamente fazendo uso da criação como da crítica, através da metapoesia, confirmando deste modo as possibilidades criativas da intertextualidade como instrumento de palavra privilegiado para um diálogo entre textos, literaturas e nações.

 

Introdução

Partindo da pressuposição de que “um texto propõe sempre determinadas estratégias de abordagem que o leitor deverá atualizar num movimento de cooperação interpretativa” (REIS & LOPES,1988, p. 168), a leitura da obra poética de P.K.Page, com sua grande variedade temática, formal e estilística, revela-se particularmente fértil na proposta de estratégias de abordagem. Pois, ao iniciar numerosos poemas com motes de poetas renomados como Pablo Neruda, Rainer Maria Rilke, W.H. Auden, Elizabeth Bishop e T.S. Eliot, entre outros, intertextos esses que servirão como matriz para o desenvolvimento de suas próprias glosas, Page está fazendo uso não apenas de uma intertextualidade poética explícita, mas, através dela, também de uma intertextualidade implícita (JENNY, 1991, p. 3), ao dialogar simultaneamente com outros fragmentos intertextuais, remetendo-nos destarte ao confronto das unidades morfológicas, sintáticas ou semânticas comuns ao texto nutriente e ao novo contexto.

Assim, diante de material tão rico e versátil, esta pesquisa irá se concentrar no uso que Page faz dessas duas formas de intertextualidade e demonstrar como, ao inserir motes como parte integrante de seus próprios poemas, Page está não apenas ludicamente fazendo uso da glosa – forma métrica espanhola inventada pelos poetas da corte no final do século XIV e que consiste num mote introduzindo o tema do poema, seguida por uma estrofe para cada linha do mote, comentando ou glosando a linha (CUDDON, 1992, p. 378).  Está, concomitantemente, entrando num diálogo altamente complexo com os motes, ao não só incorporá-los e comentá-los mas assimilá-los, transformá-los e recriá-los de tal maneira que esses textos-origem não são mais determinantes ou controladores do sentido mas fragmentos significantes à procura de um outro referente. E, ao se rearticularem em novas construções metalingüísticas, não ampliam apenas seu próprio espaço semântico mas levam as glosas, conseqüentemente, a operar uma “reescrita crítica”( JENNY, 1991, p. 44) dos textos originais.

Ao adotarmos como estratégia de trabalho a intertextualidade como definida por Kristeva – “qualquer texto se constrói como um mosaico de citações e é absorção e transformação dum outro texto” – definição à qual Jenny acrescenta “trabalho de transformação e assimilação de vários textos, operado por um texto centralizador, que detém o comando do sentido” ( JENNY, 1991, p. 13-14) e tomando portanto como texto centralizador o poema “Planet Earth” (PAGE, 2002, p. 14-15), cuja epígrafe é um mote de Pablo Neruda (1904-1973), estamos simultaneamente levantando as seguintes questões: como se opera a assimilação, transformação e recriação, no poema de Page, dos enunciados pré-existentes em Neruda? Em que relação estão esses enunciados assimilados com o seu estado primeiro? De que modo o poema de Page como criação pode ser considerado simultaneamente uma reescrita crítica de Neruda?

A fim de podermos trabalhar essas questões de modo coerente, iremos recorrer também, como reforço teórico, à proposta de Jenny quanto aos tratamentos que um enunciado sofre ao ser inserido num novo conjunto textual, quais sejam: a verbalização, a linearização e o engaste. Se os dois primeiros – a nível de expressão – já se encontram normalizados e explicitados no poema de Page, pois a substância significante do texto está verbalizada e o significante verbal, integrando o material transcrito – o cut up – com o novo texto, desvenda-se progressivamente ao longo das linhas, são os engastes intertextuais – a nível de conteúdo –, assentados em isotopias metonímicas e/ou metafóricas, que irão nos auxiliar na análise da palavra poética de Neruda em sua relação com a de Page. Essas três operações, incidindo na transformação do condicionamento contextual, serão complementadas com o auxílio do arsenal de figuras de retórica, que oferece uma matriz lógica para classificar os tipos de alteração sofrida pelo texto no decurso do processo intertextual, ou seja, as modificações imanentes às quais os fragmentos intertextuais estão sujeitos. Dentre essas figuras faremos uso principalmente da amplificação, ou seja, a transformação dum texto original por desenvolvimento de suas virtualidades semânticas (JENNY, 1991, p. 30-44).

O poema de Page já traz o próprio título como elemento marcado por excelência – “Planet Earth” – visto que, pelo fato de nos remeter à definição de “Planeta Terra” e portanto fazendo-nos visualizar o globo terrestre como um corpo celeste, parte de um sistema de planetas que giram sobre si mesmos e à volta do sol, o título já antecipa um vínculo entre “Earth” como planeta habitado pelo homem e “Earth” em relação ao cosmos, vínculo esse que será ampliado e detalhado ao longo dos versos. E, como elemento paratextual, o título será recuperado não apenas através do mote de Neruda, mas principalmente através de isotopias metonímicas e metafóricas, presentes tanto no plano de expressão, como no plano de conteúdo do poema. Simultaneamente e dentro de nosso século XXI, no qual a grande tônica recai sobre a conscientização da preservação do planeta Terra, o título também adquire uma conotação ecológica, como o desenvolvimento do poema irá confirmar.


IV CICLO DE INTEGRAÇÃO GRADUAÇÃO E PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS ATIVIDADE REUNI
AUTORES INTIMISTAS BRASILEIROS: LÚCIO CARDOSO, CORNÉLIO PENNA E CLARICE LISPECTOR

ATIVIDADE GRATUITA

QUARTAS, 16h às 18h [INÍCIO 07 de novembro]

(com certificado de 30hs)

Informações e Inscrições 
Universidade Federal do Paraná

Rua General Carneiro, 460, 10° andar

(041) 33605102

Das 10 às 12 e das 14 às 17

gabrielaszabo@hotmail.com

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

CURITIBA ZERO GRAU: A PREVISÃO É DE TEMPO BOM.

Verônica Daniel Kobs*

Na semana de estreia do filme, apesar de a produtora e o diretor do filme terem considerado o filme uma produção “não bairrista”, foi justamente o fato de o filme ser curitibano que repercutiu, nas entrevistas veiculadas em programas culturais e também nas propagandas de rádio. Como curitibana, boa provinciana e apreciadora de cinema, fui conferir o filme e confesso que esperava algo “para turista ver”.
Evidente que o bairrismo existe: o espaço curitibano está lá, como cenários de quatro histórias e de quatro personagens, assim como o sotaque tão particular de quem é de Curitiba e fala “piá” e “leite quente”. Por isso, o espectador curitibano tem uma relação especial com o filme. Eu gostei de ver um modo de falar diferente dos sotaques carioca e paulista e me surpreendeu, em muitos sentidos, a qualidade técnica do filme, que é uma produção a altura das grandes produções. Não foi à toa que o longa, antes de ser exibido nos cinemas, em todo o Brasil, participou do Festival de Cinema do Rio, em 2010, e, em 2011, conquistou o prêmio do público, no Cinesul.
O filme impressiona pela simplicidade das histórias, cotidianas e universais, que refletem muitos dos problemas do novo século. Em algumas críticas sobre o filme, li que “Curitiba zero grau fala da sobrevivência nas grandes cidades”. Verdade. E isso me fez pensar sobre a relação já anunciada no título, entre o filme curitibano e o polêmico Rio 40 graus, dirigido por Nelson Pereira dos Santos e lançado na década de 1950. A semelhança é o entrelaçamento de histórias de personagens que têm de tratar de ganhar a vida na capital. A diferença é a temperatura.
O frio curitibano está em várias paisagens de inverno do filme, a mais bonita delas no Parque Barigui. Mas se engana quem pensa que a produção elege só os cartões postais da cidade como cenário. Não mesmo. Acompanhando a história, vamos da Cidade Industrial ao Centro, depois ao Rebouças, ao Jardim Ambiental, ao Boa Vista e chegamos ao bairro Santa Cândida... Nossa cidade está lá, com a modernidade e os projetos urbanísticos que os turistas querem ver de perto, com os grandes parques, mas também com favelas, pequenas praças e vilas (anônimas para muitos), conjuntos residenciais populares... Espaço e identidade são ampliados, multiplicados, e são o lado bom do filme de Eloi Pires Ferreira.  
Quanto ao outro lado, claro que há tentativas de acerto, mas que não atingem plenamente o objetivo. Durante todo o filme, acompanhamos as histórias dos quatro protagonistas. Esse esquema de enredos paralelos sempre requer algum cuidado e exige uma escolha difícil: diminuir a intermitência narrativa, usando um espaço mais longo para cada história; ou investir na rapidez e na descontinuidade, com trechos mais curtos de cada narrativa. O ideal mesmo seria conseguir um equilíbrio, justamente o que faltou em Curitiba zero grau. Percebemos essa falha no final, quando os personagens se encontram e as histórias são retomadas. Mas alguns detalhes ficaram longe... O espectador já tinha até se esquecido deles. Resultado: A intensidade do problema não é retomada no mesmo nível de ansiedade e expectativa que havia no momento em que a história daquele personagem foi contada, lá no início.
Além disso, o cinema atual nos condiciona a esperar finais pouco otimistas e Curitiba zero grau contraria essa tendência. A isso se deve a frustração que tive (ainda que acompanhada de uma pequena dose de surpresa) com o final do filme: Tudo dá certo e o que não dá certo revela o bom caráter dos personagens. De um modo ou de outro, depois do frio, o sol volta a aparecer para todos. Pelo menos, o fim da história é coerente com o otimismo do trailer do filme...
Em Curitiba zero grau, a previsão é de tempo bom. Temperatura amena, com sol entre nuvens: uma paisagem tipicamente curitibana.

FICHA TÉCNICA DO FILME: CURITIBA zero grau. Direção de Eloi Pires Ferreira. BRA: Produzido e distribuído por Tigre Filmes e Camarada Filmes; 2012 (105 min); son.

* Verônica Daniel Kobs é professora de Imagem e Literatura do Curso de Mestrado em Teoria Literária da Uniandrade.




quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A mulher na literatura

No dia 25 de setembro de 2012, o evento A mulher na literatura, realizado no Country Club, contou com a presença das professoras Anna Stegh Camati, Brunilda Reichmann e Sigrid Renaux que participaram de uma mesa redonda sobre as autoras Margareth Edson, Katherine Mansfield e P. K. Page. Abaixo uma mensagem da organizadora Liana Leão, uma foto das professoras e uma mensagem de Clarissa Jordão.


Mensagem de Liana Leão:

Queridas Professoras Sigrid, Brunilda e Anny,

Parabéns as três grandes mestras pelas palestras maravilhosas a que tivemos o privilégio de assistir ontem à noite. Foram muitos os elogios. Excelentes as três falas sobre Wit, de Margaret Edson, o conto “Êxtase” (“Bliss”) de Katherine Mansfield, e sobre os Diarios de P. K. Page. Muito obrigada as três e um triplo parabéns.

Em nome de seus alunos, e da plateia de ontem também, agradecemos todo o carinho, dedicação e conhecimento compartilhado. 

Vocês são um contínuo estímulo à pesquisa, três exemplos de como a literatura pode sim fazer a diferença. Qualquer agradecimento fica pequeno diante de tantos caminhos que vocês nos abriram e continuam abrindo a alunos, pesquisadores, professores, colegas.

Já há alguns anos, após se aposentarem da UFPR, vocês mostraram que a união faz a força, conseguindo estruturar e abrir um mestrado bem cotado e uma excelente revista (muito bem cotada na Capes). O esforço, o trabalho de vocês foi fundamental para essas empreitadas serem bem sucedidas. Mais um exemplo de perseverança e de competência. Só podemos aplaudi-las.

Segue a mensagem da professora Clarissa Jordão, da UFPR, que foi lida ontem pela tradutora Martha Schlem antes do início da palestra. As palavras da Clarissa, como disse muito bem a Martha, traduzem a dívida de gratidão dos que foram  seus alunos na graduação e pós-graduação. São hoje professores que se espalham pelo país...

Aproveito para agradecer também a Martha Schlem e Mariza Almeida que, em meio a tantos compromissos, conseguiram comparecer ao evento e inclusive participaram com algumas palavras. Martha, obrigada por ler a mensagem da Clarissa e também por falar sobre sua experiência como aluna. Mariza, muito obrigada por fechar com chave de ouro o nosso evento e falar em nome da UFPR. 

Agradeço em especial ao prof. Paulo Pellissari que dedicou a tarde a compor um texto emocionante, que, tenho certeza, repassou a vocês. Paulo, obrigada também por ter cancelado a aula para poder comparecer a homenagem as mestras. 

Agradeço a todos que compareceram, como a pró-reitora da Tuiuti, prof. Dra. Ana Margarida Taborda, a professora Marcia Becker, a diretora Silvia Camargo, aos familiares e amigos, e a todos os que desejaram, com sua presença, homenagear nossas queridas mestras. 

Espero que consigamos promover novos encontros com essas professoras maravilhosas. Foi um prazer enorme vê-las em "sala de aula" novamente. Foi novamente um grande aprendizado.

Liana Leão


Brunilda, Sigrid e Anna

Mensagem de Clarissa Jordão:

Embora impossibilitada de comparecer fisicamente hoje, gostaria de dizer a todos que estou com vocês em pensamento. E dizendo isso, gostaria de tomar a liberdade de, nesse momento, contar uma grande vantagem, porque vejo que tenho motivos para me sentir um ser privilegiado: tive a grande honra, reservada a poucos, de ser aluna dessas três grandes mestras da literatura na cena curitibana – e isso é razão mais do que suficiente para me sentir iluminada. De fato, creio que eu tenha sido mesmo iluminada por estas três grandes professoras. A elas devo minha carreira acadêmica: a Sigrid, pelo estímulo para continuar os estudos após a graduação, a Brunilda por me aceitar como orientadora no mestrado, e a Anna por me aceitar durante o desespero do fim do mestrado. A todas, devo o apoio que me fez seguir em frente e acreditar em mim. Obrigada, amadas mestras, pelo exemplo de competência, perseverança e humanidade no qual sempre me espelho. Amo vocês. Obrigada por tudo.

Clarissa Jordão

domingo, 30 de setembro de 2012

I JORNADA INTERMÍDIA

I JORNADA INTERMÍDIA: ICONOTEXTOS, REFERÊNCIAS INTERMIDIÁTICAS, TRANSPOSIÇÃO E ADAPTAÇÃO
No dia 21 de setembro de 2012, realizou-se na Universidade Federal de Minas Gerais a I Jornada Intermídias: Iconotextos, Referências Intermidiáticas, Transposição e Adaptação, com a presença do Prof. Claus Clüver (Professor Emérito da Indiana University), Profa. Thaïs Flores Nogueira Diniz (Professora da UFMG e Coordenadora do Grupo de Pesquisa Intermídia do CNPq), Profa. Solange Ribeiro de Oliveira (Professora Emérita da UFMG e Associada da Universidade de Londres) e Profa. Eliana Lourenço de Lima Reis (Professora da UFMG e membro integrante do grupo de Estudos Intermídia do CNPq).
Professoras Thais Flores Nogueira Diniz e Eliana Lourenço de Lima Reis
 Organizadoras do evento.

Alguns membros do Grupo Estudos da Intermidialidade do CNPq presentes na Jornada Intermídia (da esquerda para a direita): Profa. Brunilda Reichmann (Uniandrade, PR), Professor André Vieira (UFSM), Profa. Anna Stegh Camati (Uniandrade, PR), Prof. Claus Clüver (Indiana University), Profa. Chantal Herskovic (UFMG), Profa. Thaïs Flores Nogueira Diniz (UFMG) Prof. Júlio Cesar Alessi (UNIBH/EBA-UFMG, atrás), Prof. Solange Ribeiro de Oliveira (Profa. Emérita da UFMG), Profa. Eliana Lourenço de Lima Reis (Professora da UFMG, atrás) Profa. Silvia Anastácio (Profa. UFBA) e Profa. Márcia Arbex (UFMG).
O Programa do evento contou com duas palestras e duas mesas redondas:
I JORNADA DO NÚCLEO INTERMIDIA:
Iconotextos, referências intermediáticas, transposição e adaptação
PROGRAMAÇÃO:
Palestra
Claus Clüver (Indiana University, Emérito)
Se as palavras pudessem pintar, e dançar, e fazer música... Reflexões sobre iconotextos, ecfrase e referências intermidiáticas
Moderadora: Thaïs Flores Nogueira Diniz

Mesa-redonda
·         Márcia Arbex Enrico (FALE-UFMG)
Michel Butor e as artes: alquimia e desrazão gráfica
·         Maria do Carmo Freitas Veneroso (EBA-UFMG)
A caligrafia na arte atual: um diálogo entre Oriente e Ocidente
·         Sílvia Guerra Anastácio (UFBA)
Uma convergência de mídias e a estética da cultura líquida: One Art, de Elizabeth Bishop

Mesa-redonda
·         Anna Stegh Camati (Uniandrade, Paraná)
Sonho de uma noite de verão em trânsito pictural transmidiático
·         André Soares Vieira (UFRGS)
Tradução, transposição e adaptação no discurso sobre arte de Gonzaga Duque e em Lá-bas, de J.-K. Huysmans
·         Brunilda T. Reichmann (Uniandrade, Paraná)
L´animateur, de Nick Hiligross: criações transmidiáticas / leituras intermidiáticas

Palestra
Solange Ribeiro de Oliveira (UFMG/UFOP, Emérita)
Estudos de intermidialidade: um percurso de pesquisa
Moderadora: Eliana Lourenço de Lima Reis

Brunilda T. Reichmann
27.09.2012
 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Mimesis, a obra fundamental de Auerbach

Edna da Silva Polese
A obra Mimesis – a representação da realidade na literatura ocidental, publicado em 1946 por Eric Auerbach (1892-1957) configura-se com um dos trabalhos referenciais para os estudiosos da área de letras. A proposta do autor debruça-se em apresentar a abordagem de textos desde a antiguidade greco-romana, começando por Homero, até a produção da modernidade, terminando com Virginia Woolf. O método apresentado pelo autor consiste em comparar produções textuais de um determinado período, observando principalmente o que ele chama de representação da realidade e  direcionando a leitura para o processo de cristianização no mundo ocidental.
No primeiro capítulo, para ficarmos com um desses exemplos, Auerbach trata de duas narrativas aparentemente impossíveis de conterem algum tipo de ponto de convergência: a narrativa épica grega e a narrativa bíblica. Os trechos escolhidos são o episódio sobre o reconhecimento de Ulisses quando retorna à Ítaca e o episódio do sacrifício de Isaac.
No canto XIX da Odisseia, ocorre o reconhecimento de Ulisses: introduzido no palácio, disfarçado de mendigo, Ulisses é levado para lavar-se. A velha serva da casa, Euricleia, ao tocar no joelho do amo, percebe, pela cicatriz, tratar-se de Ulisses. Dá-se o que Auerbach chama de “elemento retardador”, pois, na sequência, a narrativa volta ao tempo para explicar como Ulisses adquirira a cicatriz. O “avançar e retroceder” na narrativa homérica é, para Auerbach, interpretado como uma necessidade do estilo homérico de “não deixar nada do que é mencionado na penumbra ou inacabado.”(AUERBACH, p. 3)
Em contrapartida, dá-se a leitura e interpretação de um dos episódios do Gênesis, no qual se relata o sacrifício de Isaac. Na narrativa bíblica, tudo ocorre de maneira rápida, sem explicações detalhadas acerca do chamado de Deus e da angústia de Abraão ao levar o filho, Isaac, ao local do sacrifício.
Auerbach compara as duas narrativas, a homérica e a bíblica, observando como na narrativa bíblica há a ausência de explicações e profundidade dos detalhes. São obras de cunho totalmente diferentes. Em Homero há a busca do ludismo, de representar a essência do homem grego e sua história. Na Bíblia há o mito fundador, a verdade fechada, que serve como paradigma aos crentes. No entanto, a leitura que Auerbach  demonstra uma nova reviravolta: A de que os personagens homéricos são retratados num mundo extremamente detalhado e rico que lhes tira a profundidade psicológica; ao passo que os personagens bíblicos vivem situações de pesar que lhes imprimem uma profundidade até então não observada em outros textos. Acompanha-se, por exemplo, o sofrimento de Abraão, cumprindo a ordem dada por Deus em sacrificar seu único filho, Isaac. Auerbach comenta:
O mais importante, contudo, é a multiplicidade de camadas dentro de cada homem; isto é dificilmente encontrável em Homero, quando muito na forma da dúvida consciente entre dois possíveis modos de agir; em tudo o mais, a multiplicidade da vida psíquica mostra-se nele só na sucessão, no revezamento das paixões, enquanto que os autores judeus conseguem exprimir as camadas simultaneamente sobrepostas da consciência e do conflito entre as mesmas. (AUERBACH, p. 10)
Com esse direcionamento, Auerbach discute como a literatura ocidental se reorganizará a partir da concepção desses dois mundos: o grego e o judaico-cristão.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Natureza e espiritualidade na poesia de Sigrid Renaux



A presença do azul e de paisagens marinhas na poesia de Sigrid Renaux* é uma obsessão em sua poesia, o que pode ser observado nos títulos dos seus quatro livros: Do mar e de outras coisas (1979), Azuis: poemas (2006), Outros azuis (2009) e De sons e silêncios (2011). Entre eles, destacamos o segundo e o último, nos quais observamos a permanência de uma mesma poética – provavelmente comum aos outros livros – pautada na síntese imagética do haikai e na pintura impressionista. Estas duas estéticas se aliam para dar forma às visões da natureza que o sujeito lírico – bastante impessoal – contempla na tentativa de integrar-se ao universo. Para isso fundamenta-se na crença romântico-simbolista na teoria das correspondências de Emmanuel Swedenborg (1668-1772), a qual considera que a linguagem poética pode nos aproximar da linguagem cifrada do cosmos (BALAKIAN, 1985).
 A Palavra é escrita de tal forma que tudo que nela se encerra, mesmo as coisas mais diminutas, tem correspondência com as coisas celestiais; portanto, a Palavra tem força Divina, e une
o céu à terra.
(SWEDENBORG, Arcanos Celestes, nº 8615, apud TROBIDGE, 1998, p. 130).
 A crença nas correspondências, que aparece de forma tímida na poesia de Kolody, encontra-se claramente expressa no poema abaixo:

 ondas 
desenrolando
caracóis de espuma
en donde resuena la música del mundo
y metros y rimas no son sino correspondencias
ecos, de la harmonía universal  (RENAUX, 2006, p. 141)
 Os três versos em espanhol são retirados da primeira página de “Poesia e poema”, introdução à obra O arco e a lira, de Otávio Paz (1982, p. 15), e demonstram sua afinidade com o pensamento romântico do poeta e crítico mexicano para quem a linguagem poética é essencialmente mítica e, por isso, “recupera sua originalidade primitiva, mutilada pela redução que lhe impõem a prosa e a fala cotidiana” (PAZ, 1982, p. 25-26), assim possibilitando a experiência do sagrado como “uma experiência repulsiva. Ou melhor: convulsiva. É um por para fora o interior e o secreto, um mostrar as entranhas. O demoníaco, dizem todos os mitos, brota do centro da terra. É uma revelação do oculto.” (PAZ, 1982, p. 168). E este oculto não é necessariamente “a revelação de um objeto exterior a nós – deus, demônio, presença alheia – quanto um abrir do coração ou das entranhas para que brote esse “Outro” oculto. A revelação (...) transforma-se num abrir-se do homem para si mesmo.” (PAZ, 1982, p. 170).  
                 na madrugada do mar
 acordo ao som das ondas
                recordando harmonias
                                      
                                                  adormecidas  (RENAUX, 2006, p. 29)

leitores cegos
não deciframos os signos nos livros

nem ouvimos
insensíveis
por quem os sinos dobram

calados
não pronunciamos as palavras reveladoras
do nosso mais profundo
ser    (RENAUX, 2006, p. 114)
 Reforça esta leitura em que a natureza é vista como sagrada e capaz de nos religar com a imensidão cósmica a imagem dos “caracóis de espuma” no primeiro poema acima, pois a forma helicoidal do caracol, no mistério de sua perfeição arquitetônica, corresponde à perfeição do universo também presente no movimento circular das ondas. E este movimento mítico de eterno retorno organiza o livro Azuis, posto que as imagens da imensidão azul – presentes no oceano e no céu – retornam incessantemente a cada poema. Razão pela qual parece plausível afirmarmos que a autora busca organizá-los segundo um ritmo cíclico e pulsante correspondente ao mesmo ritmo que anima a natureza e o universo. Aliás, a escolha do azul, cuja vibração transmite paz, estando a cor associada à espiritualidade, aponta para um desejo de transcendência, de busca do sublime elevado, assim como vimos na poesia de Helena Kolody. E assim como na poesia dela, a de Sigrid Renaux também apresenta uma natureza harmoniosa, domesticada e sem conflitos. No lugar da natureza selvagem, que encontramos na poesia de Marcele Aires, Sigrid Renaux valoriza os jardins, pequenos ecossistemas que, em seus microcosmos, reproduzem sua concepção de um universo harmônico e infinitamente belo.
 Il faut cultiver notre jardin
      
          porque os sabiás
gorgeiam ainda melodias infindas
                                           nos jardins da manhã

para que os pássaros continuem cantando
              irreprimível e extasiadamente
                                  nos jardins do amanhã   (RENAUX, 2006, p. 82)
 De sons e silêncios (2011) apresenta as mesmas características que Azuis, embora, ao lado do azul, privilegie os pássaros com seus cantos. Seus poemas, como diz o título, também são plenos de sons e silêncios conforme o desejo simbolista de uma poesia que, em vez de nomear, sugere os sentidos ocultos e inacessíveis ao pensamento racional e analítico. Daí o gosto pelo impressionismo, seja o da pintura ou da música, na medida em que a luz e o silêncio são, respectivamente, fundamentais para cada uma destas artes. Ainda: a não numeração das páginas indica que todos os textos formam um só poema, o que aumenta ainda mais o silêncio existente entre os versos e estrofes na medida em que, além do espaçamento que os distancia entre si, o branco de cada página amplia ainda mais o silêncio de sua sinfonia, plena de pausas e sugestões como uma composição de Debussy.
 adormecidas
entre os sons e os silêncios
de ébanos e marfins
elevam-se
         íntimas e distantes

                                        as brumas de Debussy   (RENAUX, 2011, [s.p.] – “Brouillards”)

 manhã de outono
           silêncio súbito de pássaros
                          entre os mistérios do castanheiro  (RENAUX, 2011, [s.p.])
 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar do voo rasante realizado sobre a poesia de Sigrid Renaux, podemos apontar algumas considerações finais:
a) Não há uma preocupação ambientalista em denunciar a destruição da natureza.
b) A natureza é elemento importante a para o amadurecimento da espiritualidade.
c) É forte a presença de procedimentos estéticos oriundos da tradição do haikai inaugurada por Bashô – e de valores de uma visão de mundo romântica – perceptível especialmente na crença das correspondências universais (segundo teoria de Emmanuel Swedenborg) nas obras analisadas.
d) Satori e epifania são experiências que se aproximam e são possíveis através da contemplação da natureza e a poesia é um instrumento para compartilhar esse estado de espírito.

REFERÊNCIAS
BALAKIAN, A. Swedenborguismo e os românticos. In: O simbolismo. Trad. de José Bonifácio A. Caldas. São Paulo: Perspectiva, 1985, p. 17-28.
PAZ, O. O arco e a lira. Trad. de Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
RENAUX, S. De sons e silêncios. Ponta Grossa/PR: Todapalavra, 2011.
_______. Azuis. Poemas. Curitiba: Ed. do Autor, 2006.
TROBIDGE, G. L. Swedenborg. Vida e ensinamentos. Trad. de Raimundo Araujo Castro Neto. Rio de Janeiro: Sociedade Religiosa “A Nova Jerusalém”, 1998. Disponível em: http://bvespirita.com/Emanuel%20Swedenborg%20-%20Vida%20e%20Ensinamentos%20(G.%20L.%20Trobridge).pdf - Último acesso: 08/7/2012.

* Com doutorado e pós-doutorado em literatura norte-americana e inglesa, Sigrid Renaux é carioca de nascimento, mas paranaense há muito anos. Aposentou-se como professora pela UFPR e atualmente leciona na Uniandrade, em Curitiba.