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quinta-feira, 20 de abril de 2017

(RE) LENDO STEFAN ZWEIG

*Mail Marques de Azevedo


A palestra do professor Celso Lafer sobre o pacifismo de Stefan Zweig, a que assistimos na USP, no dia 31 de março, abordou a conferência sobre a unidade espiritual da Europa, pronunciada pelo escritor austríaco no Rio de Janeiro, em 1936, no Instituto Nacional de Música. Professor titular de Filosofia do Direito na Universidade de São Paulo, membro da Academia Brasileira de Letras, por duas vezes ministro das Relações Exteriores, o palestrante falou com autoridade sobre a trajetória pacifista de Stefan Zweig, impulsionada pelo ideal da harmonia entre os povos.

A utilização do avanço do conhecimento tecnológico para a destruição em massa, que transformou a Primeira Guerra Mundial em um banho de sangue, teria sido o ponto de partida para a jornada utópica de Stefan Zweig por diversos países do oriente e do ocidente em busca de mostras da dignidade do ser humano.

Utilizando-se da alegoria da torre de Babel na peleja contra o belicismo, Zweig argumenta na referida conferência que a capacidade de traduzir é o fio de Ariadne que conduz o homem para fora do labirinto. Daí a função do intelectual como mediador: enquanto a política divide, a cultura une, vive e cresce no diálogo; é o caminho que conduz à universalidade. Apesar de retrocessos e recaídas, o intelectual não deve duvidar da força da comunicação pela linguagem. É a linguagem universal da música que permite a Handel transferir-se dos estados germânicos para a Itália e, posteriormente, para a Inglaterra, criando sua arte monumental.

Como cidadão europeu, Stefan Zweig viveu a experiência da Europa da cultura, cujos valores de harmonia entre os povos inspiram o ideal da Comunidad
e Europeia. A conferência de 1936, publicada em várias línguas, contém o germe da obra Brasil, o país do futuro, evidentemente a mais conhecida dos brasileiros, e isto por mais de uma razão.

Desde a divulgação pelas coordenadoras do GT Literaturas Estrangeiras Modernas, que promoveu a palestra, o assunto escolhido acordou ecos de contatos recentes com a obra de Zweig. Há algum tempo, fiz a revisão final do artigo “Vida e morte de Stefan Zweig no cinema de Sylvio Back (1995-2003): identidades, ressentimentos e suicídio como protesto,” publicado em 2013, na nossa Scripta Uniandrade. Dos pontos ressaltados pela articulista, Rosane Kaminski, na análise do filme ficcional de Back, Lost Zweig, parece-me importante comentar “o sentimento de solidão intelectual e o dilaceramento de Zweig entre o ato criativo da escrita e as pressões exercidas pelo governo Vargas sobre sua atuação profissional”.

Nos anos 1930, a publicação das obras de Zweig no Brasil atingia elevado número de leitores com sucesso incomum. Não é de surpreender, portanto, que fosse recebido de braços abertos em sua primeira visita ao país, ocasião em que pronunciou conferências para salões sempre lotados. Nas viagens que fez ao Brasil, até estabelecer-se com a esposa, Lotte, em Petrópolis, em 1940, Stefan Zweig coletou anotações para o ensaio Brasil, país do futuro, publicado em 1941, de onde se originou a alcunha “país do futuro”, quase um aposto aplicado ao nosso país.

A publicação suscitou reações adversas de jornalistas que viam na obra um pagamento à concessão pelo governo Vargas a Zweig do visto de residência no Brasil. Artigos no Correio da Manhã insinuam o “comercialismo do escritor” e censuram as “interpretações abusivas” de Zweig na descrição dos hábitos do povo brasileiro. Trata-se de “um livro mau” e tendencioso marcado por imprecisões históricas. Sai em sua defesa Afrânio Peixoto que, no prefácio do livro polêmico, apresenta ao leitor o escritor famoso como “um encanto de convivência, de conversação, de simplicidade” (...) “... aqui está, aqui esteve, sem ruído, no Brasil. Aqui, não foi ao Catete nem ao Itamarati, nem às Embaixadas, nem à Academia” (...) “Não quis nada, nem condecorações, nem festas, nem recepções, nem discursos . . . Não quis nada.”

Entre o libelo e o panegírico, escolho ouvir o próprio autor. Tenho em mãos os dez volumes das Obras completas de S. Zweig, publicadas pela Delta, em 1960. É uma daquelas edições encadernadas, com decorações em vermelho e dourado, pertencente a meu pai que, certamente, rendeu-se às técnicas insistentes de algum vendedor – hoje substituído pelas incursões igualmente intrusivas que sofremos via TV, e-mail, Ipad, Ipod, smartphone e quejandos. Retirei os livros dos fundos da prateleira de obras de referência, onde descansavam em tranquilidade. Surpreendi-me fascinada pelo texto, lendo trechos aleatoriamente, sem me concentrar na busca específica que deveria fazer. 

O prefácio à história de Maria Antonieta, na primeira página, por exemplo, oferece-nos de pronto sinais da honestidade intelectual do escritor que não se alinha com detratores ou defensores da desventurada rainha, mas introduz com equanimidade os argumentos com que irá apresentar a personagem ao leitor:


Assim como o artista procura às vezes intencionalmente um motivo na aparência mesquinho, (...) a fim de melhor provar sua força criadora, também o destino, uma vez ou outra, escolhe um herói insignificante, para mostrar que, de uma matéria frágil, sabe tirar o mais intenso patético, de uma alma fraca e indolente, a mais alta tragédia. Maria Antonieta é um dos mais belos exemplos desse heroísmo involuntário. (ZWEIG, 1960, vol. 1, p. 4)


Ao invés de me embrenhar em comentários sobre Brasil, o país do futuro, − o texto de maior interesse para nós, brasileiros − em que Zweig parte da história do país, desde a chegada dos portugueses − prefiro citar um trecho curto da “Pequena viagem ao Brasil”, cuja epígrafe indica: O Brasil: primeiro um curso de repetição para o europeu. Após constatar a ignorância do europeu culto que vê o Brasil como “uma terra de clima quente e pouco saudável, com paisagens lindíssimas e muita matéria-prima não aproveitada, à espera de imigrantes e colonos audazes e desesperançados em suas pátrias”, Zweig nos dá sua própria visão do Brasil: “um país com uma cultura própria, independente e valioso, uma terra que tem a extensão de um continente. Um país que dentro de poucos decênios será um dos mais poderosos e importantes do mundo” (ZWEIG, 1960, v.10, p. 247). Pergunta-se: onde ficou a inocência atávica que encantou o escritor?

Resta ainda comentar a solidão intelectual que leva o escritor a renunciar à vida, na terra em que depositara suas esperanças de um recomeço saudável depois da débâcle da civilização europeia.  Em uma de suas últimas cartas, Zweig fala da situação de exílio, das perdas que isto representa, entre outras, a do seu público leitor, os falantes de sua língua materna e as dificuldades de adaptar-se ao novo público e em especial dos efeitos do exílio em sua obra. “Em meu trabalho propriamente dito estou paralisado devido ao sentimento inconsciente de não possuir mais um público leitor certo” (ZWEIG, 1953, p. 232).

Na apresentação do professor Lafer, nossa colega Nancy Rosenchan referiu-se ao tema de estudo que desenvolvemos no presente biênio “Línguas em trânsito na literatura: espaços, memórias, identidades”, que visa a estudar literaturas que apresentem a complexa contingência do exercício de uma língua distinta da materna por autores ou personagens, ou seja, uma desterritorialização. A literatura se articularia, então, a partir de uma rede de impossibilidades: a de escrever, a de não escrever e a de escrever de outra maneira. Uma língua desterritorializada seria, assim, a que se escreve fora de um território, dito de origem. Nesse sentido, o caráter político dessa literatura é fundamental. A desterritorialização da língua, junto à ligação do individual com o imediato político e o agenciamento coletivo de enunciação, são, portanto, as três categorias caras a este projeto de estudo. Difícil imaginar, no contexto deste tema, personalidade literária que mais se teria enquadrado no aspecto da desterritorialização do que Stefan Zweig que, saído da Áustria, encontrou abrigo no Brasil, mas não o seu território linguístico e cultural.

(Re)leiamos Stefan Zweig!

 


REFERÊNCIAS

ZWEIG, Stefan. Encontro com homens, livros e países. Tradução de Odilon Galloti. Rio de Janeiro: Guanabara, 1953.
__________. Obras completas de S. Zweig. Rio de Janeiro: Delta, 1960. 10 volumes.

KAMINSKI, Rosane. “Vida e morte de Stefan Zweig no cinema de Sylvio Back (1995-2003): identidades, ressentimentos e suicídio como protesto”. Scripta Uniandrade, v.11 n.2 (2013).
* Professora do Curso de Mestrado em Teoria Literária
da UNIANDRADE

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

REVELAÇÕES IV: as poetas do Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE


*Sigrid Renaux 

Dando continuidade aos blogs REVELAÇÕES I, II e III, este blog apresenta uma leitura do poema de Alice Della Coletta Moreno “Algo do passado/Lances do presente”.
Como o título já sugere, o poema está dividido em dois momentos: “Algo do passado/” com onze quadras, nas quais o eu-poético relembra episódios de sua infância, e “/Lances do presente”, com sete quadras, nas quais o eu-poético tece considerações sobre sua vida acadêmica atual. A aliteração em “passado/presente”, a nível sonoro, enfatiza, a nível lexical, o contraste passado/presente, um presente que por sua vez também já se tornou um passado, como presente de uma narrativa. O pronome indefinido “algo”, por sua vez, sugerindo como essas lembranças não constituem toda a realidade, mas apenas uma parte do passado, contrasta com o substantivo “Lances”, com seus múltiplos significados: o que acontece, aconteceu ou pode acontecer; episódio, caso, fato, acontecimento; impulso; aventura; etapa. Todos eles enriquecem o sentido de “lance”, como será visto adiante.
Composto por dezoito quadras rimando na 2ª.e na 4ª. linhas, o poema merece destaque não só pela musicalidade natural de seu ritmo – com linhas de versos que variam entre hexa- e octosilábicos, com três acentos tônicos por linha – mas principalmente pela liricidade com que relembra suas origens, bem como pela sensibilidade e sabedoria com que avalia seu momento presente.
Concentrando-nos primeiramente nas rememorações em “Algo do passado”, percebemos, ao examinar os diversos níveis de construção do texto, os seguintes elementos estruturais:  
            Na quadra I, o eu poético nos informa, orgulhosamente, de sua ascendência “roceira”,  “Pois só na origem do mato/Vinga a formação verdadeira”, ou seja, é no crescer, no desenvolver-se em contato com o “mato” – no interior, na roça, no campo – que realmente formamos nossa personalidade. A rima grave “roceira/verdadeira”, a rima interna “sertão/formação” e a aliteração “só/sertão/roceira” acentuam as relações fono-semânticas, ao aproximarem as palavras no som e no sentido:                                              
                                                              
Sou lá do sertão paulista
Com orgulho de roceira
Pois só na origem do mato
Vinga a formação verdadeira.

            Já quadra II, o eu poético passa da lembrança da paisagem ampla aos detalhes de sua vivência em contato com os animais da roça, ressaltando que “para ser boa matuta/ Só através dos animais”. Ou seja, se o “matuto” é um indivíduo que vive no campo e cuja personalidade revela rusticidade de espírito, falta de traquejo social, um  “caipira”, por sua vez “matutar” sugere pensar demoradamente sobre algo, meditar, refletir, levando-nos assim ao sentido apenas positivo de matuto como indivíduo que vive no campo, retomando deste modo a “formação verdadeira”, em contato com a natureza, da primeira quadra:

A pinguela e o mata-burro
São lembranças atuais
Pois para ser boa matuta
Só através dos animais.

A rima aguda “atuais/animais” enfatiza mais ainda a relação entre o eu poético e a lembrança sempre presente dos animais, que será detalhada nas seis quadras seguintes.  
O eu-poético ressalta, na quadra III, a beleza da “égua Faceira”, sua “companheira” nas cavalgadas, lembrando-nos que, no sul do Brasil, diz-se “faceira” do cavalo que é garboso e levanta o pescoço quando em marcha. Assim, a facilidade com que surge a rima “Faceira/ companheira” bem demonstra, mais uma vez, a íntima relação entre som/sentido, pois “Faceira/ minha companheira” se identificam como pertencentes ao eu-poético, além de participar de suas  aventuras:  

Agora tenho saudade
Da linda égua Faceira,
Que nunca se negava
  A ser minha companheira

A quadra IV continua a apresentar as lembranças do eu-poético descrevendo suas aventuras com a égua e a humanização dada ao animal, que “parecia sempre rir,/Quando eu puxava seu freio/Para a porteira abrir”, sugerindo que a alegria das lembranças entre o eu- poético e o animal transforma-se numa única alegria, pois “abrir a porteira” indica, para ambos,  o começo da liberdade de ir ao encontro dos campos. Unem-se, deste modo, mais uma vez, som e sentido através da rima aguda “rir/abrir”:

Em seu lombo confortável
Ela parecia sempre rir,
Quando eu puxava seu freio
Para a porteira abrir.

Já na quadra V é a vez do irmão do eu- poético a ser rememorado, por meio da imagem do cavalo “Guarani” – “Guarani”, como sabemos, denomina o grupo indígena que habita Mato Grosso do Sul, e do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul – e que, em contraste com a égua Faceira, é “um tremendo animalão”, lembrando assim a etimologia de “guarani”: guerrear, combater. Sua função, portanto, era de levar o menino, protetoramente, “de casa para a escola”, o que é ressaltado pela rima aguda “animalão/irmão”, caracterizando bem o grande porte do cavalo em contraste com o irmão:  
O cavalo Guarani
Um tremendo animalão,
De casa para a escola
Levava o meu irmão.

Em seguida, na quadra VI, passamos às lembranças que o eu-poético tem da “vaquinha Azeitona”, que lhe “dava o primeiro alimento”:

A vaquinha Azeitona
Que não me sai da lembrança,
Pois dava o primeiro alimento
Desde o tempo de criança.

O diminutivo “vaquinha” já demonstra o carinho para com este animal, a cor verde- “azeitona” sugerindo talvez a tonalidade de seu pelo, ou simplesmente como um epônimo. Por sua vez, a rima grave “lembrança/criança”, a aliteração “Azeitona/alimento”, a assonância em “alimento/ tempo” são todos efeitos sonoros que enriquecem a musicalidade das linhas além de uni-las numa única recordação.
            Na quadra VII o eu-poético já se apresenta em atividades de “fazendeira” ao ajudar na separação dos bezerros das mães, o que lhe causava “tristeza”, pois sentia-se sem coragem para exercer tal função: se a vaquinha Azeitona a alimentava, por que precisaria separar os bezerros das outras mães? O fato de a primeira linha ser eneassílaba, portanto mais longa que as outras, parece confirmar a obrigatoriedade desta tarefa triste da qual havia sido encarregada, enquanto a aliteração em “tarefa/toda/tarde/tristeza” enfatiza esta obrigatoriedade, levando-a a sentir-se  “toda tarde” como uma “covarde”:

Separava os bezerros das mães
Tarefa de toda tarde,
Que tristeza que sentia
Parecendo uma covarde.

Entretanto, por meio de seu eu-poético, esta menina continua a crescer e suas próximas atividades, na quadra VIII, já demonstram sua bravura, em contraste com sua “covardia” anterior:

Aprendi a pegar cobra
À tarde ou de manhã,
Depois eram enviadas
Para o Instituto Butantã.

O fato de ter aprendido “a pegar cobra”, a qualquer hora do dia, torna-se assim um ato corriqueiro na vida desta “fazendeira”, pois, dentro de novas responsabilidades, sabe o valor de seu ato ao serem os repteis depois enviados ao Instituto Butantã. Assim, a rima aguda “manhã/ Butantã” confirma a rotina quase diária de pegar cobras para este famoso centro de pesquisa biomédica e, deste modo, contribuir para a produção de vacinas, soros e biofármacos para uso humano.
Nas quadras IX e X - ,
A lembrança da escolinha
Traz à tona a rotina,
Com colegas muito amados
E a professora Albertina.

Com o uniforme alinhado
Blusinha branca, saia marinho,
E para que ficasse completo
No cabelo um lacinho.

o eu-poético relembra, inicialmente, a escolinha em que estudava – o diminutivo acentuando a valorização afetiva do substantivo – bem como os colegas e a professora Albertina. Simultaneamente, a “rotina” evocada – este hábito de fazer algo sempre do mesmo modo, mecanicamente –  à qual as crianças precisam se acostumar, é compensada pelo coleguismo e pela figura da professora, enfatizados pela rima grave “rotina/Albertina”, unindo, destarte, a rotina das aulas com a dedicação da professora. 
            O eu-poético relembra, em seguida, o uniforme – blusa branca, saia marinho: o branco, com suas implicações de asseado, impecável, em contraste a tonalidade escura do azul marinho,  similar ao azul do mar lembrando-nos, por similaridade visual, das cores da bandeira nacional. Este vestuário padronizado e distintivo, por sua vez, é qualificado como “uniforme alinhado”, remetendo-nos tanto aos alunos enfileirados à entrada da sala de aula, como também ao orgulho que as meninas sentiam, por estarem “uniformizadas” e, assim, pertencentes a uma escola. O “lacinho”, por sua vez, dá um toque especial ao “uniforme”, pois é o traço diferencial entre as meninas. O uso de diminutivos – blusinha, lacinho – como já visto em estrofes anteriores – escolinha, vaquinha – acentua mais uma vez o carinho que as lembranças do eu-poético despertava na menina, o que é confirmado, nesta quadra, pela rima grave “marinho/lacinho”, além da repetição da consoante líquida /l/ em “alinhado/blusinha/completo/cabelo/lacinho”, acrescentando, deste modo, uma sonoridade maior a esta quadra e, consequentemente, aproximando as palavras em som e sentido.
            Esta primeira parte do poema encerra-se, na quadra XI, com uma pergunta retórica do eu - poético:

Quem é que não tem saudade
Do seu tempo de criança?
Aí estão as verdades
Que mantemos como herança.

E a resposta, nas linhas 3 e 4, nos remete à quadra I:

Sou lá do sertão paulista
Com orgulho de roceira
Pois só na origem do mato
Vinga a formação verdadeira.

Ou seja, assim como a “formação verdadeira” se desenvolve em contato com a natureza, também as “verdades” que adquirimos em tempos de criança são as “que mantemos como herança”. Este círculo rememorativo se fecha, deste modo, valorizando a infância: do contato com a “natureza” e suas experiências na fazenda, ao convívio com o “saber” e com os outros, representados pela escolinha, a professora, os colegas. A rima grave “criança/herança” acentua a relação entre todos os elementos apresentados em “Algo do passado”, pois reúne os dois polos semânticos: a lembrança do passado e a herança que este passado lhe deixou.
            Ao passarmos para a segunda parte do poema, “/Lances do presente” – quadras XII a XVIII – na qual o eu-poético reflete sobre seu presente como mestranda da UNIANDRADE, esta reflexão se inicia com uma decisão (quadra XII):

Preciso com tato organizar
E ilustrar as minhas lidas,
Outras audiências virão
Assim que constituídas.
O fato de “lidas”, na linha 2, poder se referir tanto a um esforço fora do comum, como também a uma leitura rápida, superficial e, assim, “ilustrar minhas lidas” implicar em exemplificar, esclarecer seu trabalho/suas leituras para “outras audiências”, para outros ouvintes, demonstra, por meio da metalinguagem, a preocupação do eu-poético em sair-se bem nesta nova fase de sua vida acadêmica.
As quadras XIII a XVIII apenas ampliam, em outro nível, as recordações da “escolinha” de sua infância, ao comentar, na quadra XIII, que “” daqui a pouco” – quando tiver terminado o curso – irá “curtir nova saudade”; o fato de se referir a “daqui a pouco”, irá marcar a temporalidade futura da quadra XIV, pois ao retomar as figuras dos atuais colegas, professores,  funcionários e assessores, esses “retratos serão eternos”. O uso do diminutivo em “cantinho” também retoma os diminutivos da primeira parte do poema, sempre com o viés carinhoso de seu olhar. Como acima, as rimas graves na quadra XIII – Uniandrade/saudade – bem como da quadra XIV – professores/assessores – formam um grupo semântico que abriga a instituição com seus membros, como também o efeito que a futura separação irá causar no eu-poético – a saudade:

Agora outra vez aluna
Da grandiosa Uniandrade
Em Suma daqui a pouco
A curtir nova saudade.

Uns retratos serão eternos
Dos colegas e professores,
De cada cantinho da sala
                                                                 Dos funcionários e assessores


Já na quadra X, amplia-se também o conceito de “verdade” expresso na “formação verdadeira” da quadra I e nas “verdades” da quadra XI, pois agora o eu-poético, assumindo-se como adulto, afirma que “o sentido da vida/Só é completo na união”, algo que, na infância, ainda não temos condições de avaliar. A rima aguda “emoção/união” traz à tona esta agitação de sentimentos, este comoção afetiva ou moral que sentimos quando descobrimos uma grande verdade: unir é estabelecer harmonia, aliança, ligação entre as pessoas, pois só com esta união completa-se o sentido da vida: 
                                                
 Uma das grandes verdades
Que só reforça a emoção,
É que o sentido da vida
Só é completa na união.

Nas quadras XVI e XVII o eu-poético menciona sua gratidão a duas professoras, que, como outros mestres da Instituição, tiveram a oportunidade de lhe transmitir conhecimentos, transformando deste modo o ensino numa aventura de mão dupla, pois, certamente, as professoras se enriqueceram humanamente tanto em contato com os alunos como estes com elas. As rimas esdrúxulas, em “clássicos/mágicos” da quadra XVI, e graves em “literatura/aventura” da quadra XVII, apenas corroboram a magia do encontro com textos clássicos e com a modernidade que eles expressam, como também a visão da literatura como uma aventura infinda, tanto para alunos como para professores:

A sábia professora Sigrid
Na apresentação dos clássicos,
Tem tão grande maestria
Que parece ter dons mágicos.

A Brunilda se impõe
Ao expor literatura
E o ouvinte queira ou não
Introduz-se na aventura.

O poema finaliza, na quadra XVIII, com a constatação de que a “solidariedade” – este compromisso, este laço pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas – é a descoberta de uma verdade que vai muito além da aprendizagem de teorias e textos, pois é esta união, que dá sentido à vida, que também dá sentido às aulas que os alunos estão frequentando. Torna-se, assim, a grande “mensagem/aprendizagem” transmitida a todos – solidariedade, como o bem maior:

O ambiente calmo e aconchegante
Dá a todos a mensagem:
Aqui reina a solidariedade
Acima da aprendizagem.


As lembranças do eu-poético na primeira parte do poema tornaram-se, deste modo, uma mensagem de uma infância da qual todos nós já fizemos parte, enquanto as declarações do eu-poético na segunda parte do poema converteram-se numa mensagem da maturidade, época em que atingimos a condição de plenitude em arte, saber ou habilidade adquirida. Ambas as partes completam portanto um ciclo que, por sua vez, como “presente”, continua sempre a receber novos “lances”.
Que estas considerações – limitadas – sobre este poema, bem como sobre os poemas das outras mestrandas, já analisados em blog anterior, sirvam de incentivo a todas para continuarem suas aventuras infindas pelo mundo das palavras.


*Professora das disciplinas Teorias da Poesia e Poéticas da Modernidade: dos formalistas russos a Bakhtin,  no Curso de Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

REVELAÇÕES III :as poetas do Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE

*Sigrid Renaux

Em continuidade aos blogs REVELAÇÕES I e II, nos quais foram apresentados e comentados poemas dos alunos do 8º. Período de Letras, no blog REVELAÇÕES III apresentamos e comentamos poemas escritos pelas mestrandas em Teoria Literária da UNIANDRADE. O fato de as mestrandas estarem cursando a disciplina Teorias da Poesia, durante a qual foram apresentadas e discutidas as poéticas de diversos teóricos e poetas, para, em seguida, aplicá-las a poemas selecionados, ocasionou a sugestão de elas próprias escreverem e apresentarem seus poemas, a fim de verificar, por meio de sua criatividade, como um poema é uma conjunção de inspiração (natureza) e técnica (arte), ou, como afirmava Longino em Do Sublime: “a arte é acabada quando com esta [a natureza] se parece e, por sua vez, a natureza é bem sucedida quando dissimula a arte em seu seio” (c.XXII, I). Seguem, pois, os poemas de algumas das mestrandas de 2016:    
Vanda Carla Bobato Claudino: “Palavras”
                              
1.Um dia é muito tempo 
       2.para sorrir ou chorar  
       3.sentir e não gostar,  
       4.tempo para aceitar.  
 
5. Que fazer com o tempo? 
6. com desmedida, amar,  
7. olhar, esperar, dar,  
8. com cuidado... falar.
  
9. Palavras podem ser  
10. doces igual ao mel   
11. amargas como o fel,   
12. palavra é poder! 

13.Vejo a vida passar   
14. rápida como a luz,
15. bonita como o mar,  
16. doída como a cruz.
 
17. Numerosas palavras   
18. semeadas ao vento.    
19. Agora, o que fazer? 
20. Esperar e colher!   

A composição gráfica do poema (cinco quadras), bem como a construção métrica e acentuação (com seis sílabas poéticas e três acentos silábicos em quase todas as linhas) já demonstra o cuidado formal da autora em salientar esta regularidade visível das estrofes. Refere-nos, portanto, ao título, pois a palavra é uma “unidade da língua escrita, situada entre dois espaços em branco, ou entre espaço em branco e sinal de pontuação” (HOUAISS). 
 O uso que a poeta irá fazer das “palavras” demonstra como é versátil seu emprego, pois nas duas primeiras quadras, a temática gira em torno do tempo e de nossos gestos, ações e sentimentos e, simultaneamente, do contraste entre aqueles que podemos usar “com desmedida” e a ação que devemos usar “com cuidado... falar”. A repetição da palavra “tempo” no final da linha 1 da primeira quadra e no final da linha 5 da segunda, bem como as rimas em “-ar” nas outras linhas, criando o esquema abbb,abbb, demonstram novamente a preocupação da autora com a homofonia externa.
Da palavra “falar”, última da segunda quadra, retomamos o título “palavras”, no início da terceira quadra, pois o ato de falar significa literalmente “expressar por meio de palavras”. Assim, o “cuidado” que se deve ter ao “falar”, é concretizado por meio das comparações das “palavras” que podem ser “doces igual ao mel” ou “amargas como o fel”, e, consequentemente, têm o “poder” de agradar ou causar dor ou tristeza.  Nesta quadra, um novo esquema de rimas (cddc) acentua a mudança temática do “tempo” para o poder das “palavras”.
A quarta quadra, por sua vez, retoma o tema da temporalidade, desta vez mesclada à fugacidade, à beleza e ao sofrimento da vida, os dois primeiros comparados à luz e ao mar – como elementos que podemos visualizar – o último comparado ao instrumento em que Jesus Cristo esteve crucificado e que se tornou símbolo da religião cristã, lembrando-nos, portanto, que o sofrimento faz parte de nossa vida. A rima alternada (efef) também enfatiza a alternância dos momentos belos com os sofridos ao longo de nossa vida.
A quinta quadra, metalinguística como a terceira – as palavras falando das palavras – sugere que um poema é constituído de palavras “semeadas ao vento”, ou seja, lançadas para germinar. Entretanto, não podemos assegurar em que local elas vão germinar, pois o “vento” – tão simbólico de liberdade, inspiração poética, força vital, rapidez e, portanto, carregando as palavras como inspiração poética – pode arremessá-las perto ou longe. Só nos resta, como leitores, esperar e colher, onde quer que as palavras estejam! O esquema de rimas (g, a,c,c) lança toda a homofonia para as duas últimas linhas (rimas emparelhadas), corroborando, pela semelhança sonora, que todo poeta, após ter lançado suas palavras ao vento, a única atitude que pode tomar é esperar que germinem e que os leitores as colham e delas desfrutem. 


    Luzia Maria Tistki Almeida: “Vida e Morte”

       1.Nascimento e morte:   
2. duas magnificências antagônicas  
3. circundam o ser humano.  
4.Nascimento – celebração da vida  
5. rompimento para a luz,  
6.norte do pai e da mãe 
7.com crença na criação divinal.3
8.Morte - a transgressão da vida perfeita, plena e indelével.  
9.O espaço entre elas é um espiral, 
10.com altos e baixos,  
11.conforme a própria vida se comporta. 
12.Todos somos predestinados para o que vier. 
13.Com saraivadas e com os afagos da própria vida.
14.Também o faz-de-conta  
15.conta muito para ensinar a reaprender a amar a ausência  
       16.e aguar  a sementinha do amor  
17.na presença dos que estão presos à vida, 
18.equilibrando-se na tênue linha do aqui e do acolá.
19.Nascimento: muito te quis.
20.Tanto te quis que você nasceu! 
21.Morte: muito te odiei.
22. Tanto te odiei que reaprendi a te  aceitar! 

O poema “Vida e Morte”, composto de 22 linhas em versos livres, já indica no título a temática que será desenvolvida: o contraste entre as “duas magnificências antagônicas”   “nascimento e morte”. O uso de “magnificência” para sugerir a imponência e grandiosidade desses dois eventos que nos “circundam”, revela bem o valor que a poeta atribui a essas duas forças opostas: o nascimento como celebração e a morte como transgressão, como violação da vida.  Mesmo o poema não obedecendo a nenhuma regra pré-estabelecida, as coincidências sonoras, em vez da rima, aproximam as palavras no som e no sentido, como a assonância em /nascimento/ magnificências/ rompimento/crença/, ou a repetição da sibilante /s/ nas linhas 1,2,3,4,7,8, entre outros, como a repetição de “vida” nas linhas 4 e 8.
A partir da linha 9, estes círculos antagônicos contêm um novo desafio, pois “o espaço entre eles é uma espiral” esta linha curva que se desenrola num plano de modo regular a partir de um ponto, dele afastando-se gradualmente; e, figurativamente, um processo ascendente difícil ou impossível de deter (HOUAISS) –, concretizando deste modo a predestinação, ou seja, os eleitos estão destinados à bem-aventurança, enquanto os réprobos estão destinados ao castigo eterno. As “saraivadas” e os “afagos”, são mais uma vez metafóricos desse processo em espiral de nossa vida. A repetição de “vida” nas linhas 11 e 13, com suas reverberações sonoras nas aliterações com “vier” e “saraivadas”, aproximam, novamente, som e sentido, pois a vida inclui o futuro – “vier” – bem como as “saraivadas”, que se sucedem em torrente.   
            Entretanto, apesar da predestinação, o mundo do imaginário da fantasia é necessário para que possamos expressar nossos sentimentos – amar a ausência e a presença ­ – a fim de que nossa trajetória em espiral continue em equilíbrio, como o eu poético conjectura entre as linhas 14 e 18, conjecturações essas novamente plenas de reverberações sonoras (sempre com a finalidade de aproximar som e sentido): a recorrência dos infinitivos ensinar/reaprender/amar/aguar; a repetição da consoante surda /k/ em faz-de-conta/ conta/que/ equilibrando/ aqui/acolá, tanto em posição inicial (aliteração), como final.
As linhas 19-22, que finalizam o poema, resumem e simultaneamente anulam a proposição antagônica inicial, pois o Nascimento, tão desejado, não é mais o oposto da Morte, tão odiada, porque esta, apesar de inevitável¸ é agora aceita como consequência de nosso “reaprendizado”, ou seja, aprendemos, através da própria espiral da vida, a aceitar a morte. A ênfase nos advérbios “muito” (linhas 19 e 21), e “tanto” (linhas 20 e 22), este último com suas implicações temporais, de grau e de maneira, tornam mais penetrante o contraste inicial entre nascimento e morte, e que agora, ao final do poema, tornam-se quase irmãos: amar e aprender a aceitar.

 Sharon Martins Vieira Noguêz:  “Tempos de paz”

1.Para tudo se leva um tempo   
2.Tempo para a rosa desabrochar 
3.Para o dia nascer 
4.Para a criança crescer 
5.Para o amor vigorar.  
6.E no vazio do silêncio  
7.Espero as tempestades o supérfluo varrer 
              8.Espero o tempo tudo germinar  
              9.Espero o fim do tormento, com preces de paz.  

                   Composto por 9 linhas em versos livres, como o poema anterior, “Tempos de Paz”, entretanto, não apresenta antagonismos como temática. Ao contrário, o tempo como duração relativa das coisas, que cria no ser humano a ideia de presente, passado e futuro percorre o texto, associado à postura serena do eu poético, que aguarda tranquilamente o tempo necessário para “a rosa desabrochar/ o dia nascer/ a criança crescer/ o amor vigorar”. A construção paralelística das linhas 2 a 5, como complementação semântica da linha 1 – “Para tudo se leva um tempo” – é enfatizada não apenas a nível sintático (para a rosa desabrochar/para o dia nascer/ para a criança crescer/ para o amor vigorar/) e a nível sonoro, pois os verbos no infinito rimam: desabrochar/vigorar (linhas 2 e 5) e nascer/crescer (linhas 3 e 4). É ressaltada também a nível semântico, pois desabrochar/nascer/crescer/vigorar são metafóricos, ou seja, estão todos associados à ideia de vida como expressão e força do tempo, enquanto os substantivos rosa/dia/criança/amor também se tornam metafóricos do mundo natural e do mundo humano, atingindo, em “amor”, o conceito mais elevado da função do tempo, ao fortalecer o sentimento mais nobre do ser humano.
            As linhas 6 a 9 apenas concluem as considerações do eu poético sobre o tempo, pois é “no vazio do silêncio” – o silêncio como “prelúdio de abertura à revelação”, “envolvendo os grandes acontecimentos” (CHEVALIER et GHEERBRANT) – que o poeta aguarda “as tempestades o supérfluo varrer/o tempo tudo germinar/o fim do tormento”. E, se a ação de “esperar”, no sentido de “ter confiança”, é passiva, “as preces de paz” como consequência da introspecção gerada pelo silêncio implicam em exercer uma atividade, a fim de que o tormento seja substituído pela concórdia, pela paz. A construção paralelística das linhas 7 a 9 novamente enfatiza e reforça a temática desta paciente espera do eu poético, reforçada ainda pela aliteração “tempestade/tempo” e pela assonância “tempo/tormento”, unindo os sentidos por meio dos sons dessas palavras. Simultaneamente, “paz”, como a última palavra do poema, nos remete à palavra “tempo” da primeira linha, ligando desta maneira a concepção de “tempo”, como um período indefinido, a “tempos” como um determinado período em relação aos acontecimentos nele ocorridos, como consta no título. “Tempos de paz” torna-se, assim paradigmático da polivalência do conceito de tempo, unido às conotações positivas de “esperar”.

                                   
Jusiani Maria de Souza: “A Brisa”

1.A brisa do amanhecer     
2.Rejuvenesce a alma   
3.Conforta os corações   
4.Livrando das solidões.   
5.O sol brilha, ilumina a vida durante o dia 
6.A lua ilumina a noite conquistando os corações apaixonados  
7.Vindo deixa-los alegres, encantados os namorados. 


  Neste poema, composto por 7 linhas de versos livres, o eu poético conjetura, nas 4 primeiras linhas, sobre o poder regenerador da brisa – esta manifestação suave do vento:  simbólica de fertilidade e relacionada com a respiração, assim como o amanhecer é simbólico de ressurreição e criação, “a brisa do amanhecer” tem esse poder de rejuvenescer a alma e confortar os corações, centro das emoções e da essência vital. Em contato com a brisa do amanhecer, o ser humano não está isolado, e, mais ainda – como consta a partir da linha 6 –, sua vida é iluminada pelo sol durante o dia e pela lua à noite, imagens estas tão recorrentes para todos nós, mas das quais nem sempre nos damos conta. Por esta razão, a simplicidade com a qual essas imagens da natureza são apresentadas não deve deixar de nos alegrar e encantar, assim como no poema a lua alegra e conquista os corações apaixonados. As rimas ocasionais na 3ª.e 4ª. linhas – corações/solidões – e na 6ª. e 7ª. linhas – apaixonados/namorados –, as aliterações conforta/corações na linha 3 e conquistando/corações na linha 6, além da repetição da sibilante /s/ em amanhecer/rejuvenesce/ corações/solidões /sol/ reforçam a aproximação som/sentido entre as palavras, preconizada por Jakobson. O otimismo do poema é realçado ainda pelo fato de os verbos de ação /rejuvenesce/ conforta/ brilha/ ilumina/ estão no presente do Indicativo, reforçando assim o poder semântico dos mesmos.

Essas considerações sobre poemas das mestrandas terão sequência num próximo blog.



*Professora das disciplinas Teorias da Poesia e Poéticas da Modernidade: dos formalistas russos a Bakhtin, no Curso de Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE.