Pesquisar este blog

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

ESCRITOS COMPLETOS DE ERNANI REICHMANN
Ao meu pai / bisavô, com carinho.



Alexa Reichmann (USP / PUC-SP)*
Brunilda Reichmann (UNIANDRADE)**
 
 
 

Foto da inauguração da Divisão de Obras Raras e Especiais da Biblioteca da UFPR.
Guenia, neta mais nova de ER, compõe a foto. 
 
 
Recebemos muitas vezes mensagens de leitores que encontraram alguma obra de Ernani Reichmann (ER) nos sebos da Curitiba e se apaixonaram por ela. Temos ainda alguns volumes que foram publicados a partir de Volta às origens. Portanto, colocamos à disposição dos interessados os títulos que temos.

ER era um homem que provocada paixões exacerbadas ou distanciamentos intransponíveis. Era considerado o maior conhecedor da obra de Sören Kierkegaard no Brasil e tinha a maior biblioteca com obras de filósofos europeus da América do Sul – hoje as obras de sua biblioteca fazem parte das Obras Raras da Biblioteca da Universidade Federal do Paraná (ver foto da inauguração da Divisão de Obras Raras e Especiais da Biblioteca da UFPR, acima). Em 1959, ER sai com destino a Copenhagen para conseguir as primeiras edições e escritos diversos de seu amado filósofo. Volta nove meses depois, carregado de preciosidades.

Recentemente Ernani Reichmann passou a fazer parte da Academia Paranaense de Letras – APL (in memoriam) e os responsáveis publicaram uma nova edição de A noite do absoluto. Essa edição é primorosa, com uma capa cativante, se bem que completamente diferente das capas que ER utilizaria. Mas agradecemos de coração o carinho e a homenagem.

Vocês encontrarão abaixo a relação de obras de ER, como ele as datilografou. Tentamos reproduzir a datilografia dele: respeitamos a fonte normal e as caixas altas, porque era assim que ele registrava os títulos de suas obras.

Se quiserem adquirir gratuitamente algum livro ainda disponível, podem solicitar pelo e- mail: brunilda.reichmann@gmail.com.


TÍTULOS:
1. Cadernos Van de Lubbe (seis volumes)
2. Hic Fuit
3. O Cantar de Pedro
4. Intermezzo Lírico-Filosófico (4 volumes)
5. Volta às Origens
6. A Noite do Absoluto
7. As Lanternas
8. A Mula e o Mágico (com Face Perdida)
9. Longe no Horizonte um Homem
10. A Espiral e o Círculo
11. Cadernos Passionários (3 volumes)
12. O Único e o Agreste (2 volumes)
13. Cadernos ECR (6 volumes)
14. Ilustração Imprópria, Terminal
15. Inéditos de Angústia Subjugada, Intermezzo Lírico-Filosófico e Volta às Origens
16. O Instante
17. Cadernos PS (2 volumes)
18. Cadernos PS III
19. Ser e Sismar
20. Ser e Sismar VIII/IX
21. Ser a Sismar VI /VII
22. Projeto de Salvação
23. A Passagem (inacabado)

TÍTULOS EM SEPARADO:
1. Kierkegaardiana
2. Octávio de Faria
3. Kierkegaard: Textos Selecionados
4. A Poética de Carlos Nejar
5. O Trágico de Octávio de Faria
6. Cartas e Sueltos para Ernani Reichmann (Clementino Schiavon Puppi)


*Alexa Reichmann é bisneta de Ernani Reichmann, estudante de Letras da USP e de Jornalismo na PUC-SP.
**Brunilda Reichmann é filha de Ernani Reichmann, Professora Titular aposentada da UFPR, Professora Titular e Coordenadora da Pós-Graduação da UNIANDRADE.







quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Questões de gênero e sexualidade em Otelo: o mouro de Veneza

Profa. Dra Anna Stegh Camati

O texto shakespeariano Otelo permite diversas leituras, tanto é que pode ser interpretado a favor e contra as ideologias sexistas. As complexas relações entre os sexos, no universo textual da peça, têm sido investigadas pela crítica feminista que tende a examinar a posição da mulher como sujeito e/ou objeto, e sua atuação na sociedade patriarcal à época.
As considerações teóricas de Juliet Dusinberre, no livro intitulado Shakespeare and the Nature of Women (Shakespeare e a natureza das mulheres), cuja primeira edição foi publicada em 1975, inaugurou a crítica feminista shakespeariana que se debruçou sobre uma longa linhagem de discursos masculinos a respeito das persongens femininas de Shakespeare.
Dusinberre afirma que a profunda compreensão da natureza humana permitiu a Shakespeare investigar “paixões sem preconceitos de raça ou gênero” (DUSINBERRE, 1996, p. 130) , apresentando questões éticas e morais sob múltiplos pontos de vista, subvertendo, assim, as teorias de oposições binárias, entre elas casamento/ prostituição e amor/desejo. Nesse sentido, para ilustrar as inquietações do início da modernidade, a autora menciona um incidente em Otelo, especificamente a cena em que o mouro se refere a Desdêmona como prostituta:

Shakespeare é o único dramaturgo que entendia o sentido da palavra comedimento, tão cara ao código moral dos Puritanos, ou seja, o comedimento era uma maneira de diferenciar o casamento da prostituição. [...] Quando os Puritanos pregavam sexo moderado no matrimônio, dissociando o casamento do calor do bordel, objetivavam deixar clara a sua convicção de que a posição da esposa não tinha relação com o comércio que envolvia o ofício das meretrizes. [...] Segundo os Puritanos, o casamento somente oferecia a uma mulher uma vida melhor do que o meretrício, se o seu cônjuge a tratasse como parceira e não como propriedade. Na peça de Shakespeare, o homem tem o direito de tratar com violência sua amante, porque ela é um objeto que ele comprou. Quando Otelo bate em Desdêmona, isso choca Ludovico que exclama: – ‘Não acredito, ele bate na esposa?’ – porque esse ato nega a ela a dignidade de uma esposa. Algumas produções cênicas, sublinham essa questão ao fazer Cássio agredir físicamente sua amante Bianca que o persegue e não o deixa em paz. (DUSINBERRE, 1996, p. 119-120 e 126)

Valerie Wayne, no artigo “Historical Differences: Mysogyny and Othello” (“Diferenças históricas: Misoginia e Otelo”), argumenta que Shakespeare evoca as inquietações culturais à época na peça e explora as tensões entre três tipos de discurso: o residual, o dominante e o emergente.
Os discursos do início da modernidade, de acordo com Wayne, continuavam incorporando preconceitos medievais residuais, mostrando que, em grande proporção, havia inquietações masculinas a respeito do desejo e da sexualidade femininas, como atesta o trecho misoginista medieval de O romance da rosa, de Guillaume de Lorris e Jean de Meun, citado por Wayne:

Todas as mulheres são, serão, ou foram meretrizes, de fato ou em pensamento e, nesse sentido, nenhum homem é capaz de refrear os seus apetites sexuais. Todas as mulheres têm o privilégio de serem senhoras de seus desejos. Isso porque nenhuma violência física ou aprimoramento moral é capaz de mudar as inclinações femininas; assim, se algum homem conseguisse mudá-las ele teria soberania sobre seus corpos. (Citado em WAYNE, 1991, p. 156)

Wayne argumenta que a conversa rude de Iago com Emília e Desdêmona, na chegada a Chipre (2.1), associa o vilão “com o discurso residual misógino da Renascença” (WAYNE, 1991, p. 154). Ela esclarece que as provocações de Iago, que insultam as mulheres, remetem a uma retórica medieval encontrada em provérbios, romances de amor cortês, livros de conduta e escritos de clérigos, adaptada por Shakespeare com propósitos específicos em Otelo, oferecendo evidências de que muitos pensamentos misóginos residuais ainda se mantiveram ativos na formação do processo cultural do início da modernidade para restringir as atividades da mulher e refrear seus desejos sexuais.
Na minha opinião, o solilóquio de Otelo, na terceira cena do terceiro ato, que expressa sua agitação psicológica após ouvir as calúnias e insinuações maldosas de Iago, é construído de acordo com discursos residuais misóginos. O excerto de O romance da rosa, citado acima, reverbera no discurso de Otelo quando lamenta não ser capaz de controlar o apetite sexual de sua mulher:

OTELO

[...] Casamento
Maldito, que nos dá tais criaturas,
Mas não seus apetites. Antes ser
Um sapo no vapor de um calabouço
Que ter só parte da coisa que amo
Pr’uso dos outros. (3.3)
  
Esse solilóquio mostra que Otelo não considera Desdêmona como sua legítima parceira, como em teoria pregavam os Puritanos, visto que ele lamenta não ter controle sobre seus desejos sexuais e se refere a ela em termos de posse: a coisa que amo (the thing I love). Segundo a crítica feminista, essas palavras de Otelo relativizam o seu discurso final em que explica que matou Desdêmona por amá-la em demasia: “Falem só? De alguém que, não sabendo amar, amou demais” (5.2).
Por outro lado, Wayne (1991) observa que o discurso alternativo de Emília, sobre a questão do desejo da mulher (4.3), mostra que Shakespeare também inclui em seu texto os discursos emergentes que defendem condições de igualdade para as mulheres a partir do argumento da “similaridade entre os sexos” (WAYNE, 1991, p. 167):

EMÍLIA

[…] Saibam os os homens,
Que nós temos sentidos, que nós vemos,
Cheiramos, separamos doce e amargo,
Assim como os maridos. O que fazem
Os que nos trocam por outras? Só brincam?
Creio que sim. A causa foi paixão?
Creio que sim. Por fraqueza é que erram?
É também. E não temos nós paixões?
E fome de brincar, fracas, como eles?
Pois que nos usem muito bem, e tomem tino.
Os nossos erros vêm do seu ensino. (4.3)

O discurso revolucionário de Emília alude ao padrão duplo (dois pesos e duas medidas) que permite o adultério do homem e repudia o mesmo procedimento em relação à mulher, uma ideologia persistente que equaciona a contenção sexual da mulher como uma virtude e o desejo sexual como um vício. Assim, por meio de estratégias diversas, Shakespeare questiona os valores e as ortodoxias prevalecentes à época em que viveu e escreveu.

REFERÊNCIAS
DUSINBERRE, Juliet. Women as Property. In: _____. Shakespeare and the Nature of Women. London: Macmillan, 1996, p. 110-136.

SHAKESPEARE, William. Othello. Arden Shakespeare. Edited by E. A. J. Honigmann. Third Series. London: Methuen, 1997.
SHAKESPEARE, William. Otelo. In: _____. Teatro Completo. William Shakespeare: tragédias e comédias sombrias. Trad. Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, p. 545-694.

WAYNE, Valerie. Historical Differences: Misogyny and Othello. In: _____. (Ed.). The Matter of Difference: Materialist Feminist Criticism of Shakespeare. Ithaca NY: Cornell University Press, 1991, p. 153-179.

Obs. O artigo completo, intitulado “Otelo, o mouro de Veneza: o texto de Shakespeare no contexto da era elisabetano-jaimesca” foi publicado no livro O julgamento de Otelo, o mouro de Veneza – edição comemorativa Shakespeare 400 anos/ René Ariel Dotti. Coordenação Daniel Ribeiro Surdi de Avelar. Organização: Angela dos Prazeres e Liana de Camargo Leão. 1ª. ed. Florianópolis: Empório do Direito, 2017. p. 89-98.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019


Como estou me comunicando: sendo agressivo ou amistoso?

 Profa Dra. Angela Maria Rubel Fanini

A linguagem é central para o ser humano. Ela difere o homem dos outros animais. Por mais que os outros animais tenham uma linguagem, a nossa é bem mais complexa. Ela se altera, se modifica, serve para nomear as coisas, para identificar as pessoas, para se comunicar e serve também para enaltecer, subjugar, agredir, elogiar. A linguagem é nosso meio de nos inserirmos na sociedade. Nosso primeiro contato é na infância com a família ou com quem nos cuida. A criança vai aprendendo a apreender o mundo e entendê-lo a partir da linguagem. A mãe ou quem cuida da criança vai apontando as coisas e nomeando-as. É um ato bem complexo, pois as palavras não são as coisas. São símbolos para as coisas. São uma convenção social. É um código, mas não é sempre igual a um código matemático, em que os símbolos não mudam conforme o sujeito que os emite. A linguagem da matemática em contextos matemáticos é universal. Não sofre modificação. Já a linguagem humana  não é só um código técnico que eu aprendo bem na escola ou no convívio com os demais. Ela é fonte de juízo de valor sobre as coisas. Quando falo ou escrevo, emito juízos bons ou ruins sobre aquilo ou aquele de que falo ou sobre o quê ou quem escrevo. Por isso, devemos ser responsáveis em nossa comunicação, pois podemos agredir ou exaltar alguém. O racismo, o sexismo, o ódio ao estrangeiro vêm pela linguagem que falamos. Mas o amor, a afetividade, a solidariedade também são veiculados pela linguagem. A linguagem tem poder de construir ou destruir uma reputação. Ela tem uma perspectiva ética e moral daquele que a emite. Vejam com a mídia é poderosa. É um quarto poder, pois tanto bate em um mesmo discurso que cria realidades. Então a linguagem não nomeia as coisas tais quais são. Posso destruir a imagem de um governo, de uma pessoa, de uma instituição ou construir de modo positivo de acordo com a linguagem que uso. Não permaneço neutro quando falo ou escrevo. O ato comunicativo tem sempre uma intencionalidade ética, moral, política, afetiva etc. Nesse passo, a Filosofia da Linguagem a partir de Mikhail Bakhtin (filósofo russo) e Michel Foucault (filósofo francês), pode esclarecer bastante nossa compreensão sobre como devemos entender e usar a linguagem. A qualquer pessoa, universitária ou não, interessa pensar sobre o que fala, o que escreve e o que veicula nesse discurso emitido. Podemos nos encontrar com as pessoas, produzindo e fortalecendo laços de amizade via linguagem ou destruir esses laços para sempre. O que se diz de modo negativo permanece e causa mágoa. Todavia, os elogios via linguagem também são sempre lembrados. Pensem nisso, caros leitores e leitoras! Pense em como está a sua linguagem em família, com amigos, no trabalho e nas redes sociais. Você está sendo agressivo ou amistoso? Boa reflexão!

 

sexta-feira, 7 de junho de 2019


LITERATURA E SAMBA-ENREDO: PALAVRA MULTISSENSORIAL E IMAGEM

 

 

Profa. Dra. Verônica Daniel Kobs*

 

 

Em 2019, o carnaval carioca mostrou ao público as obras literárias de dois cearenses ilustres: José de Alencar e Rachel de Queiroz. A escola responsável pela adaptação sonora e visual dos textos literários foi a União da Ilha do Governador. O enredo, criado por Severo Luzardo Filho, já anunciava, a um só tempo, o contexto literário clássico, a linguagem dialetal e a influência do cordel. Sob o título A peleja poética entre Rachel e Alencar no avarandado do céu, a diversidade do enredo era completada pelo movimento armorial e pela arte da xilogravura:

 

Dessa forma, o cordel é usado como elemento intermediário, possibilitando a adaptação dos clássicos literários, em uma festa popular como o carnaval.  Além disso, o cordel também reforça os temas regionais, o folclore e a própria brasilidade, traços que marcam as obras dos dois escritores homenageados pela escola. Assim como os autores, o cordel também é nordestino, sendo considerado, hoje, um patrimônio cultural:
 
 
Rádio não existia; jornal era raro. Quando este chegava, levado dos grandes centros – Recife ou Fortaleza, por exemplo – com o atraso normal dos meios de transporte de então, já o folheto se antecipava na divulgação do fato. Tornava-se o folheto o elemento mais expressivo para que os acontecimentos chegassem ao conhecimento de todos, lidos nos mercados, nas feiras, nos serões familiares. (DIEGUES JÚNIOR, 1977, p. xvii)
A partir de 1920, até chegar o momento culminante da literatura de cordel do Nordeste como veículo de comunicação, o folheto de cordel superou todos os veículos existentes no momento, até mesmo o jornal. (SILVA, citado em RESENDE, 2005, p. 99)
 
 
Com base em fragmentos de inúmeras obras de Queiroz e Alencar, a escola dividiu o desfile carnavalesco em cinco setores. No setor 1, destacava-se a cultura telúrica do nordeste, não apenas pelo apego à terra, mas também pela associação entre o sujeito e a natureza, e até mesmo pelo sofrimento causado pela seca. Nesse aspecto, a agremiação buscou inspiração nestes trechos literários:

 
 
- “Iam para o destino, que os chamara de tão longe, das terras secas e fulvas de Quixadá, e os trouxera entre a fome e mortes, e angústias infinitas, para os conduzir agora, por cima da água do mar, às terras longínquas onde sempre há farinha e sempre há inverno...” (RACHEL, "O Quinze")

- "Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu" (ALENCAR,”O Guarani”). (UNIÃO DA ILHA, 2019, grifo no original)
 
 
 O setor 2 apresentava ao público a culinária e o artesanato. Já, no setor 3, a ênfase foi dada à música, às festas típicas e ao folclore: “- Rachel, dama  de fé, as festas folclóricas que tanto animam  o  sertão são feitas no Ceará, [...]. Reisado e  maracatu e  Padim  Ciço Romão. - Alencar, meu bom senhor, quadrilhas, cirandas e boi de chifre dourado, são festas bem conhecidas de meu povo rogado” (UNIÃO DA ILHA, 2019). Nos dois últimos setores, o 4 e o 5, a escola de samba traz, respectivamente: a dicotomia sertão/litoral; e a renda, que é tratada como sinônimo de moda e beleza.


Batizada de O milagre da fé, a comissão de frente da escola homenageava a religiosidade do nordestino, com cenas que mostravam o povo rezando e pedindo ajuda, a Deus e a Padre Cícero. Na letra do samba-enredo, essa performance é motivada por estes versos: “Vou pedir a Padim Ciço / Abençoe nosso povo / Essa fé vai nos guiar / Chão rachado, meu sertão / Peço a Deus pra alumiar / Terra seca que não seca a esperança / Arretada vocação de te amar” (UNIÃO DA ILHA, 2019). Padre Cícero não só atende ao pedido de seus fiéis, mas também surpreende a todos, quando surge em pleno céu (literalmente), voando sobre um planador:

 

Ao longo do desfile, é nítido o cruzamento da cultura letrada com a cultura popular. Do mesmo modo, ficção e realidade alternam-se, demonstrando uma simbiose perfeita da literatura com o carnaval, o qual, segundo Bakhtin, situa-se “nas fronteiras entre a arte e a vida. Na realidade, é a própria vida apresentada com os elementos característicos da representação” (BAKHTIN, 2008, p. 6). No que se refere à adaptação dos textos literários de Queiroz e Alencar para os formatos de samba-enredo e de desfile carnavalesco, destaca-se o aspecto multissensorial, pois a palavra que antes foi lida, nos livros dos dois escritores cearenses celebrados pela escola, agora é ouvida, cantada e também vista. No primeiro momento, o signo verbal realiza-se em sua plenitude, por abranger simultaneamente os sentidos da visão, da audição e da fala. Posteriormente, em uma espécie de extrapolação, garantida pela intersemioticidade do desfile carnavalesco, a palavra torna-se imagem, por meio de fantasias, alegorias e adereços e aguçando ainda mais a visão. Esse caráter plural do carnaval também foi analisado por Bakhtin. Conforme o teórico: “O carnaval criou toda uma linguagem de formas concreto-sensoriais simbólicas, entre grandes e complexas ações de massas e gestos carnavalescos. Essa linguagem exprime de maneira diversificada [...] uma cosmovisão carnavalesca [...], que lhe penetra todas as formas” (BAKHTIN, 2005, p. 122). De modo distinto, mas que pode complementar a constatação de Bakhtin, o estudioso Roberto DaMatta acentua o caráter imagético do carnaval neste trecho: “O desfile desses grupos é revestido de extrema pompa, já que se fundamenta na teatralização que tem como tema personagens, ambiente e ações” (DAMATTA, 1997, p. 58). Com base na afirmação de DaMatta, é possível interpretar a imagem como resultante do processo interartístico, protagonizado, no caso em análise, pela literatura e pelo samba. Além disso, é imprescindível destacar o fato de que a concretude imagética é a essência de todo desfile carnavalesco, que, por sua vez, teatraliza, coreografa e organiza temporalmente a narrativa, com o intuito de dar forma e corpo aos versos fugidios e à sonoridade quase abstrata do samba-enredo.

            Entretanto, as artes se complementam (na tal “simbiose perfeita”), quando lembramos os estudos de Mário de Andrade sobre a cultura musical brasileira, ou quando nos deparamos com o conceito de etnomusicologia: “Se a antropologia destaca a música ao lado do mito como espaços privilegiados da análise (estrutural) das culturas, cabe à Etnomusicologia a construção teórica de modelos que compreendam a articulação texto/contexto desde a música erudita até a de definição popular” (DINIZ, 2010, p. 289). Evidentemente, tanto a etnomúsica quanto a música, em sentido amplo, são artes sociais, assim como a literatura e qualquer tipo de arte, seja ela popular ou erudita, afinal o artista é sempre o leitor sensível do mundo e para o mundo.

 

REFERÊNCIAS

ANDRADE, M. de. Aspectos da música brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

_____. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 2008.

DAMATTA, R. Carnavais, malandros e heróis: Para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

DIEGUES JÚNIOR, M. Literatura de cordel. In: BATISTA, S. N. Antologia da literatura de cordel. Natal: Gráfica Manimbu, 1977, p. i-xxvi.

DINIZ, J. Música popular e literatura em diálogo: Mário de Andrade e as poéticas da palavra escrita e cantada. Revista Alea, n. 2, vol. 12, Rio de Janeiro, dez. 2010, p. 288-307.

RESENDE, V. de M. Literatura de cordel no contexto do novo capitalismo: O discurso sobre a infância nas ruas. Dissertação de Mestrado pela Universidade de Brasília – UnB, 2005.

UNIÃO DA ILHA. União da Ilha do Governador − Carnaval 2019. Disponível em: <http://www.gresuniaodailha.com.br>. Acesso em: 5 mar. 2019.

 

--------------------------------------

* Professora do Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE. Professora do Curso de Graduação de Letras da FAE. Autora do blog Interartes (https://danielkobsveronica.wixsite.com/interartes). Pós-Doutorado na área de Literatura e Intermidialidade realizado na UFPR, em 2018. E-mail: veronica.kobs@fae.edu

quinta-feira, 30 de maio de 2019

 
Os líderes da nova geração
 
Professora Dra. Sigrid Renaux
 
Na revista TIME de 27 de maio de 2019, o artigo “Next Generation Leaders”(p. 32-43) apresenta a trajetória de dez jovens que estão transformando  seus campos de atuação  no mundo inteiro -  seja na política, na música, no YouTube, entre outros. Além de constarem, entre eles, um boxeador refugiado, uma dançarina de flamengo, um divulgador de notícias no  YouTube, consta igualmente um brasileiro: David Miranda. Como comenta Ciara Nugent, autora do artigo sobre  Miranda, nas primeiras semanas no Congresso em Brasília ele estava assustado demais para usar o microfone: negro e gay, ele acabava de assumir a cadeira de um colega que  fugira do Brasil após receber ameaças de morte por homofobia. Miranda, de 34 anos, que cresceu na favela de Jacarezinho no Rio de Janeiro,  destaca-se entre os membros do Congresso composto por maioria branca  e, por esta razão, vindo de uma comunidade marginalizada,  significa que ele  nunca pôde  ignorar a política. Em 2016 Miranda foi eleito como membro da Prefeitura do Rio, assim como  o havia sido Marielle Franco, ativista assassinada  no ano passado. Miranda afirma que também está recebendo ameaças de morte, mas continua determinado a falar pelas comunidades mais vulneráveis, a exemplo de Marielle. O artigo termina com as palavras de Miranda: “Preciso assumir tudo que ela fez e continuar indo adiante”. Acreditamos que esta trajetória, tão significativa para nós brasileiros, demonstra mais uma vez como  coragem e determinação superam todos os obstáculos.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Trechos de “Romance odiado”

 Paulo Sandrini *

 
XII.

A partir de agora, tudo é motivo para um exorcismo ao pavor da morte, ao medo da dor. Não sei se cairei no bisturi. Em sessões de quimioterapia, radioterapia, essas canalhices que nos fazem sofrer e mesmo assim nos deixam embalados de presente para a morte, com lacinho e cartãozinho de dedicatória e tudo. 

Sou uma espécie de Mario Levrero, o uruguaio que se disse transformado em um canalha, que abandonou por completo toda pretensão espiritual. Eu, de modo distinto ao dele, passei tempo me dedicando também a ganhar dinheiro (e Levrero ganhou pouco, claro; eu, não), e não tive de trabalhar em um escritório em Buenos Aires. Ganhei escrevendo livros sem grandes intenções de transformação (abandonei como Levrero a pretensão espiritual). Escrevi romances dramáticos, mas todos foram dramas falsos. Se a literatura pode ter algo de muito, muito falso, a mais falsa das falsidades é quando um escritor escreve um drama sem senti-lo, sem ter nesse drama algo que se identifique realmente com ele, agindo apenas como um ferreiro que forja o metal, que depois de resfriado recebe um fio bem cortante que vai machucar a alma alheia, mas nunca, nunca a de quem escreveu, de quem forjou esse metal frio e afiado do falso drama. Isso é o que sou: um falso drama. Sou daqueles que sempre postergam o ato honesto da confissão. 

Fato é que, agora, me ponho a procrastinar não apenas a escrita mas sobretudo o conhecimento dos resultados dos exames que Berrini tem em mãos. Exorcizar o pavor da morte. É isso. Quero evitar médicos, análises, consultórios, salas de cirurgia e enfermeiros, mesmo que tenha algo grave a ser extirpado de mim. Lembrando outra vez Levrero em seu “Diário de um canalha”, quero me livrar desse processo infalível diante do qual serei transformado em um objeto apenas um pouco mais que material. E uma vez que a sociedade, diz Levrero, ou parte da sociedade perde a noção de alma, ou de espírito, tratando o ser vivo como puramente material, mais adiante a tortura e o crime advêm quase que naturalmente, como resultado. Que mal há em despedaçar um objeto?

Por outro lado, soo a uma besta paradoxal, que fala em espírito e exalta Cioran. Entre Levrero e Cioran? Fico com a desilusão destruidora dos dois. Sou apenas um dos diluidores de suas ideias, e não tenho nada de verdadeiro. Não penei como escritor, não tive de passar anos, até o fim da vida, comendo no bandejão da Sorbonne, como Cioran, para não passar fome. Nem tive de fazer de tudo para ganhar a vida como Levrero. Sou um sortudo. Apenas um sortudo que paradoxalmente se deu mal por não enfrentar uma escrita mais comprometida (ao menos comigo mesmo) e por não contar aquilo que realmente vem de mim. Sou um impostor. Dos piores.

Amanhã, ligarei para Mariana, para acertar minha ida até seu país de conto de fadas e certamente de enfado.

Londres amanhece brumosa, como convém. Vou caminhando, cortando parques e ruas vazias do sul londrino. Depois, tomo um táxi e desço na rua Oxford, que hoje se parece a qualquer região comercial de uma cidade grande qualquer. As mesmas lojas, as mesmas marcas, vitrines desestimulantes e restaurantes de fast food. O charme a mais, no momento, são as lojinhas de alimentos saudáveis que proliferam por aqui. Mas esse conceito de saúde me parece o mais doentio possível, pois nada nos pode salvar, na maioria das vezes, de nos sentarmos para mastigar, solitariamente, nossos reveses em restaurantes repletos de boas intenções, e que, apesar dos ingredientes saudáveis, nos alimentam de pura amargura e ansiedade. 

Pelas calçadas tumultuadas, estrangeiros e britânicos levam no peito frases em inglês. Tudo se iguala. O Ocidente aniquila tudo e todos. E o Ocidente vem fabricado, agora, da China. É uma nova civilização: Sino-Ocidental. O mundo já não é diferente, em todos os lugares é o mais do mesmo. Tudo é visível, tudo é visto em qualquer parte. Ao mesmo tempo, a possibilidade de ver algo com profundidade desvanece no momento mesmo em que começamos a tentar ver, pois sempre surge algo para que deixemos de lado o que estamos observando para já nos colocarmos atrasados na tentativa de apreender alguma novidade. O planeta Global é cansativo. A Babel turística de Londres é inebriante; por outro lado, a Palavra como ponte real entre todos esses seres distraídos caminhando pelas cidades cai no ostracismo. Em Londres, todos olham vitrines, mas quase ninguém se encoraja a olhar nos rostos. Basta olhar as superfícies.  Os olhares penetrantes se resumem a atravessar os vidros das vitrines. É a profundidade máxima que se pode atingir. Seguimos num caminho que certamente dará na exclusão inexorável do olhar. E ao olhar com dedicação, entrega, afeto e outras paixões mais convulsivas, que alteram nossa percepção, resta-nos ter consciência de que isso vai perdendo suas nuances e matizes mínimos; e assim os olhos, mesmo sem cerrar as pálpebras, se fecham.

XIII.

Em Londres me ponho a refletir sobre a duração do tempo quando estamos em viagem. Dois dias aqui e me parecem muito mais, como se num curto intervalo houvesse se esgotado o espaço da cidade. E olha que fiz pouco por aqui.  Uma fração de hora ganha o status de um Dia Inteiro, coisas que fiz há pouco parecem ter acontecido ontem ou anteontem. Alguns defendem que a vida contemporânea comprime o tempo, deixa-o mais rápido e os dias são mais curtos, os meses e os anos. Mas tenho outra sensação; uma hora aqui, sobretudo em viagem, em deslocamento, parece durar muito mais, há um retrocesso no tempo que me dá chances de viver mais de um dia em somente um dia.

            A ausência de Mariana me aflige. Ando por Londres como se andasse pela terra devastada do poema de Eliot. Em meio à multidão, meu vazio existencial me agride ainda mais. Estou esperando pelo Grande Nada. Sinto dores, agora mais fortes. Pode ser algo que piore com o frio. Ou pode ser mesmo o frio que chega com a morte. Vou caminhando, esbarrando por vezes em mulheres de burcas negras que saem correndo das lojas de grife, abarrotadas de sacolas, e entram tão rápido quanto saíram de grandes carros de luxo. O petróleo negro. A burca negra. O petróleo que faz com que as de burcas negras comprem tudo o que há nesse buraco negro que é o comércio de luxo. Todo esse negro que vem em minha mente piora como o negror do céu londrino. Tudo é úmido e cinza escuro. As pessoas estão cinzas. Eu me sinto aflito. É a falta de contato. A falta da fala. Sinto ainda mais isso aqui, neste lugar em que quase ninguém fala minha língua. Em meu país, os que falam minha língua geralmente não me interessam. Tento fugir da minha misantropia aqui, em Londres. Talvez seja a pior escolha. Mariana está me deixando no vazio, no escuro. Tínhamos combinado. Eu vou pra lá depois de amanhã. E ela nada de entrar em contato. Assim mesmo, vou. Tenho o endereço e Liubliana não é Moscou.  Me sinto péssimo. Tudo para o que olho me aflige. Uma espécie de pânico. De temor de chegar ao fim tendo feito muito pouco por minhas relações afetivas. Sempre fui um hedonista. Sempre um calhorda, canalha, mentiroso ficcional. Na verdade, o que vem tomando conta de mim nos últimos tempos é o desespero. A solidão máxima. Precisava encontrar Bertolt, mas ele não pode sair do trabalho. Assim mesmo ligo, e enquanto procuro o número dele na agenda do celular, mais uma vez me lembro de Cioran, sempre o maldito Cioran, mas desta vez, lembro-o por um de seus lados, se assim devo dizer, não pessimista.

            Lembro-me de ele ter comentado uma vez numa entrevista sobre suas visitas aos cemitérios e sobre a consciência do Nada. Diz que uma vez encontrou uma moça conhecida e ela estava desesperada por conta de um problema afetivo. Então ele lhe sugeriu que visitasse o cemitério de Montparnasse, e ficasse por ali um tempinho, com isso veria que sua tristeza iria parecer tolerável. Ir ao cemitério, segundo o filósofo romeno, é melhor do que consultar um médico, é uma lição de sabedoria praticamente automática. E completa, perguntando o que se pode fazer por uma pessoa em desespero profundo. Nada ou mais ou menos nada, ele mesmo responde. O único modo de suportar o vazio do desespero é ter essa consciência do Nada. Se não fizermos assim, a vida não pode ser suportável. Com a consciência do Nada, tudo que nos acontece ganha proporção normal e assim deixa de assumir proporções dementes que são os traços marcantes da exageração em momentos de desespero.
 
XX.

Não tive coragem. Deixei-a me esperando. Isso, se ela foi realmente ao local combinado. Ela já é o passado de uma relação promissora. Ela é o medo de que eu tanto necessitava. O medo que me faz ir adiante para logo voltar ao lugar de origem. Ela é a encarnação de várias outras situações me dizendo que sempre haverá desencontros. Frustrações. Me dizendo que as buscas nunca se concretizam. É como um manual de autoajuda ao contrário. A vida é sempre uma busca ansiosa sem ponto de chegada. Inexaurível. A vida é a insônia. O tempo lento e dilatado das amarguras e esperas por momentos mais sãos que, se chegarem, vão desaparecer num átimo de segundo, fazendo cócegas em nossas mãos, sem nem dizer adeus, tudo para provar que nunca estiveram por perto.  E logo virão novas ansiedades. Todas as noites serão longas. Todas as esperas te perseguirão. Até que você todo seja constituído de um tempo que se esgota sem pressa, um tempo obeso de possibilidades que se transformará em seu sistema nervoso; um tempo morno que aquecerá e se tornará sua carne resignada, um tempo espesso de demoras que constituirá sua ossatura.  Você: sobrepeso de possibilidades. Você: carne morna e resignada. Você: esqueleto de esperas óbvias jamais concretizadas.  Você e o tempo rastejante. Você e o tempo-verme. O tempo longo. O tempo-trem que range suas rodas numa estrada de ferro rumo ao leste. O leste lento.  A peste negra do tempo esticando-se, esticando suas noites. Transformando seus dias em noites. Suas luzes sempre acesas. Você, sempre alerta. E se prolongando junto ao tempo para que as esperanças se mantenham. Para que a vida se mantenha. Eterna e imutável. Como você nunca quis. Como você sempre quis. Assim, fugindo dos encontros. Torcendo para que deem errado. Fazendo com que tudo dê errado. E mesmo quando é para dar certo, você, inconscientemente, sabe: não vai dar certo. Tudo continuará como espera. E assim você seguirá. Sendo seu próprio tempo, confundindo-se com ele, com a sua própria espera, sua própria demora em chegar, sua própria eternidade prolongando uma vida lenta, sem nenhum risco. Sem o risco dos encontros que afligem, acariciam e arranham a pele seca, escamosa, da sua vida de serpente-tempo-rastejante.


* Paulo Sandrini é escritor, autor de livros de contos e romances, entre eles “O estranho hábito de dormir em pé” (2003), “Osculum obscenum” (2008) e “Peixes coloridos de alto-mar” (2017). É editor da Kafka Edições, mestre e doutor em Letras pela UFPR. Atualmente é professor do programa de Mestrado em Teoria Literária da Uniandrade (Curitiba).

segunda-feira, 13 de maio de 2019


Morgan Lloyd Malcolm dá vida à Dark Lady de Shakespeare.
Mail Marques de Azevedo
 
               Contratada pela diretoria artística do Globe Theatre para escrever uma peça sobre a intrigante Emilia Bassano, que poderia ter sido a Dark Lady dos sonetos de Shakespeare, a dramaturga e scriptwriter Morgan Lloyd Malcolm dá vida à personagem em Emília, encenada em setembro de 2018. A análise do processo da construção da peça e de sua protagonista constituiu a base do trabalho que apresentamos ao seminário Shakespeare and Cultural Appropriation, durante a 47ª reunião anual da Shakespeare Association of America, de 17 a 20 de abril, em Washington D.C. O estudo põe em destaque o sucesso da concepção e execução da peça como libelo contra a discriminação do “outro” – a mulher e o estrangeiro – e o eco desses preconceitos em obras literárias posteriores.
 
                 São escassas as informações sobre a Emília Bassano histórica: viveu de 1569 a 1645, era filha de um músico italiano da corte; foi mãe e professora e, fato inédito na época, publicou um livro de poesia em seu próprio nome. Lloyd Malcolm faz dela uma protofeminista em luta pelos direitos da mulher, num espetáculo que congrega comédia, drama, teatro musical e paródia. O elenco, exclusivamente feminino, compõe-se de treze elementos que representam mais de um papel. A cor dos trajes, vermelhos para os homens e azuis para as mulheres, ajudam a definir quem é quem (Fig 1).


Figura 1. O elenco de Emília. Fonte:

               Três atrizes representam o papel título como Emilia1 Emilia2 Emilia3, em três períodos temporais (Fig 2).

 

Figura 2: Emilia1, Emilia2, Emilia3. Fonte:

 

  
           No prólogo, Emília3, a personagem em idade madura, lê fragmentos do diário do astrólogo Simon Forman, seu contemporâneo, única informação direta disponível sobre Emília Bassano Lanier, a quem o diarista acusa levianamente “... ela é ou será uma prostituta” e acrescenta palavra contemporânea de baixo calão. Movendo apenas os lábios, Emilia3 traduz a palavra desconhecida para a plateia e, a seguir, anuncia que o título da peça, Emilia, lhe fora sugerido em sonhos. Em one fell swoop, como diria Shakespeare, Lloyd Malcolm transfere a autoria para sua personagem e introduz o tema da misoginia: uma mulher que fora amante de um nobre e está no momento destituída de recursos, deve, certamente, viver da prostituição. Na esperança de reverter a visão negativa, Lloyd Malcolm publica os poemas de Bassano juntamente com a peça, a fim de “expô-los através de uma lente diferente”, em suas próprias palavras.
 
            Decorrem daí as linhas diretivas deste trabalho, que examina como Lloyd Malcolm chama a atenção do público não apenas para a poesia de Bassano, mas para os obstáculos que enfrentou no contexto sociocultural da Renascença na Inglaterra. Focalizam-se, portanto, dois aspectos relevantes da peça: 1) a relação entre os sexos como reflexo da inferioridade social da mulher; 2) a apropriação do Shakespeare histórico como amante de Emilia e porta-voz das normas que regulam o comportamento feminino na sociedade elisabetana. Avançando um passo no terreno da ficção, como a personagem-título fica arrasada ao descobrir que seu amado introduzira na fala de seus personagens expressões de carinho dos momentos íntimos dos dois e, até mesmo, passagens escritas por ela (Fig. 3).

 





Figura 3: Emilia2 confronta Will Shakespeare. Fonte:

 
              Emília2 não encontra a tão sonhada alma gêmea no Will Shakespeare criado por Lloyd Malcolm. Embora troquem expressões de amor em linguagem poética, Will não entende a necessidade de Emília de ver seu trabalho reconhecido. Deveria dar-se por satisfeita de que suas palavras fossem ouvidas nas peças que ele escreve: “Fale-me mais da estória e eu a escreverei. Embora apareça apenas o meu nome, você saberá que é sua a inspiração que se desnuda.” Seu protetor, Henry Carey, Lord Chamberlain, pensa da mesma forma: sua escrita é mero passatempo feminino. Mas recomenda enfaticamente que Emilia não interferisse no trabalho promissor do jovem Shakespeare, seu afilhado artístico.
            Em uma sociedade patriarcal, com regras que discriminam a mulher, Emília “sente-se aprisionada por três homens e um menino” (Henry Carey, Will Shakespeare, o marido Afonso Lanier e o filho, Henry). Seus esforços teriam sido vãos? Seria seu destino da mulher olhar através das nuvens “num esforço para vê-los galgar triunfalmente montanhas cada vez mais altas, belas e generosas que ela é impedida de escalar?”
            Na década de 1920, Virginia Woolf não é admitida na biblioteca de “Oxbridge” a não ser acompanhada de um aluno ou professor. Por que não haviam suas ancestrais femininas provido filhas e netas com os meios destinados à educação? Provavelmente por estarem ocupadas dando à luz os filhos que lhes competia depois educar. A própria Virgínia estava reduzida às “principais atividades abertas às mulheres antes de 1918”: endereçar envelopes, ler para senhoras idosas ou ensinar leitura para crianças de jardim da infância.
            A peça de Lloyd Malcolm oferece resposta apropriada ao pedido urgente de Virginia para que alguém reescrevesse ou, ao menos, suplementasse a história, a fim de incluir nela a mulher elisabetana comum. Devem existir fatos em algum lugar, provavelmente em registros de paróquias e livros de contabilidade (WOOLF, 1989).
            A provação de Emilia acrescenta o desenraizamento a suas mágoas. “Em minha família itinerante de músicos eu fui a última em uma longa linha de indivíduos impedidos de criar raízes”. Na cena final da peça, um defunto Will Shakespeare, ainda arrogante, diz a Emilia3 o que sabe a respeito dela: “Que você vinha de uma família de músicos. Italianos. Talvez mesmo do norte da África. Provavelmente judeus, mas sempre escondeu isso.”
            Durante toda a peça Emilia tem consciência de que, como estrangeira, está sujeita à boa ou má vontade dos governantes e das massas. Emilia é um “deles” (one of them), gente de pele escura, de costumes e crenças diferentes. Embora se esforcem para absorver os usos de sua nova terra, seus processos de pensamento, de acordo com a visão de cultura como mecanismo de controle, permanecem os mesmos de sua comunidade de origem. “Pensar consiste em um tráfico de símbolos que impõem significado à experiência de um indivíduo. Fazem parte de Comunidade antes de seu nascimento – no quintal da casa, no mercado, na praça central – e continuarão em circulação depois que morrer” (GEERTZ, 1973, p. 45).
            Protestos violentos contra estrangeiros tiveram lugar em tempos elisabetanos. O discurso arrebatador de Sir Thomas More, na peça de mesmo título, hoje atribuído indiscutivelmente a Shakespeare, é dirigido à multidão enraivecida que exige a expulsão de “strangers”:
 
[...] you must needs be strangers, would you be pleas’d 
To find a nation of such barbarous temper 
That breaking out in hideous violence
Would not afford you an abode on earth. [1]



[1] E se fossem eles os strangers e encontrassem uma nação de têmpera tão bárbara que irrompendo em violência hedionda lhes negasse um abrigo na terra? (Tradução livre)
  
 
Tais considerações sobre o preconceito contra o outro – a mulher e o estrangeiro – em Virginia Woolf e, no próprio Shakespeare, complementam a análise do texto de Morgan Lloyd Malcolm. O elenco exclusivamente feminino de Emilia é uma réplica do século XXI à crença imemorial de que a mulher nunca foi, nem pode ser igual ao homem. Trata-se de recurso efetivo para enfatizar o tema da luta centenária da mulher pela igualdade de direitos. A rejeição ao estrangeiro, de modo similar, atinge picos críticos quatro séculos mais tarde. 
Uma vez que Henry Carey era patrono do grupo de atores Lord Chamberlain’s Men, é possível aventar a hipótese de que Shakespeare e Emilia Bassano se tenham cruzado, em algum momento, nesse meio artistico comum. Partindo dessa premissa, Lloyd Malcom confere verossimilhança a uma trama envolvente que mantém o leitor preso à página escrita. Teria sido verdadeiramente gratificante ter assistido à performance da peça no palco do Globe Theatre.
 

REFERÊNCIAS

GEERTZ, C. The Interpretation of Cultures. New York: Basic Books, 1973.

MALCOLM, M.L. Emilia. London: Oberon Modern Plays, 2018. Kindle Edition. Location 1-3194.

WOOLF, V. A Room of One’s Own. San Diego, New York: Harcourt, 1989.