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terça-feira, 28 de maio de 2024

CILKA: SOBREVIVÊNCIA, ESPERANÇA E RESILIÊNCIA


Laura Carolina Gusso Marques


O livro A Viagem de Cilka: baseado em uma história real de amor, coragem e esperança, escrito por Heather Morris, é um de muitos que retratam o horror e a crueldade que foram os campos de concentração do governo do líder do Partido Nazista Adolf Hitler (1889-1945). O que o diferencia dos demais é o foco na vida da protagonista Cilka, após o fim da Segunda Guerra Mundial.


Fonte da imagem: https://m.media-amazon.com/images/I/81u50P3bwjL._AC_UF1000,1000_QL80_.jpg


Cecilia “Cilka” Klein foi tirada de sua casa na Tchecoslováquia (em 1993, dividiu-se em dois Estados: a República Tcheca e a República da Eslováquia) e enviada para Auschwitz, quando tinha apenas 16 anos, em 1942. Como muitos outros prisioneiros, teve apenas duas escolhas: sobreviver ou morrer. Quando o campo de Auschwitz foi libertado pela URSS, ela foi condenada a quinze anos de trabalho forçado pelo governo que a viu como espiã e colaboradora dos nazistas, devido ao trabalho forçado que desempenhava no campo.

Ela foi enviada para um dos campos de trabalho forçado na Sibéria, criados pelo revolucionário comunista Josef Stalin (1878-1953), para aprisionar, principalmente, opositores políticos, mas, no local, encontrava-se todo tipo de contraventor e, também, inocentes como a personagem principal.

No caminho para esta nova prisão, Cilka percebeu que a sua rotina não seria muito diferente do que era em Auschwitz. A comida era escassa, os alojamentos precários, trabalho insalubre nas baixas temperaturas da Sibéria e abuso por parte dos guardas e superiores. A diferença, era que se o prisioneiro não falecesse, estaria livre quando sua pena acabasse.

Conforme descrito por Morris e pelo escritor Alexandr Soljenítsin (que também foi prisioneiro em Vorkuta), tanto Stalin quanto Hitler tinham pensamentos parecidos, senão iguais, sobre os trabalhos nos campos de concentração e de trabalho. Estes campos tinham como objetivo eliminar pessoas, mas antes, extraíam tudo o que podiam delas através do trabalho. Além da forma parecida como seus campos funcionavam, ambos possuíam letreiros na entrada dos campos que consideravam como “motivadores”. No caso de Hitler de que “o trabalho liberta” e, para Stalin de “O trabalho na URSS é uma questão de Honra e Glória” e “Com punho de ferro, levaremos a humanidade à felicidade”.

A autora traz, no livro, este outro lado das consequências e problemas do pós-Segunda Guerra na União Soviética, onde muitas pessoas que escolheram obedecer aos nazistas para não morrerem, ou seja, que escolheram sobreviver, foram consideradas colaboradoras ou espiãs e enviadas para as planícies da Sibéria.

Cilka nos mostra a força de todas as mulheres que passaram pelos campos destes dois regimes e que, apesar de todas as adversidades, encontraram forças para sobreviver e nunca perderam a esperança de reencontrar seus familiares. Além disso, almejavam que um dia iriam poder viver suas vidas sem ter outras pessoas ditando todos os seus passos e ações.

 

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Heather Morris (1953-) é uma autora neozelandesa best-seller #1 do New York Times. A autora é apaixonada por histórias de sobrevivência, esperança e resiliência. Morris trabalhava em um hospital quando conheceu Lale Sokolov, o tatuador de Auschwitz, que lhe disse que “talvez tivesse uma história para contar”. Após esse encontro, Morris lançou o livro O tatuador de Auschwitz, sobre a vida de Lale. Em seguida, publicou mais dois livros sobre sobreviventes de Auschwitz e, que de certa forma, conviveram com Lale: A viagem de Cilka e Três irmãs. Em 2024, Morris lançou seu quarto livro: As irmãs sob o sol nascente.

Laura Carolina Gusso Marques é formada em Administração, adora animais, música e é uma leitora voraz. Gosta de livros de ficção de todos os gêneros, mas tem uma queda por livros de romance que abordam sobre momentos históricos. Laura considera que é uma forma de adentrar melhor em como era a vida das pessoas, em determinada época, e por tudo que passaram, por uma perspectiva mais humana, e não apenas como narrativa dos acontecimentos em um livro de história.

terça-feira, 21 de maio de 2024

ENTREVISTA COM O DR. JOSIEL LIMA: SENTIMENTOS PÓS-DEFESA


Josiel dos Santos Lima

Nathalia Ribeiro e Fernandes


No post de hoje do blog Sarau Literário temos uma entrevista com o Doutor em Teoria Literária, Josiel Lima, que recém defendeu sua tese e vai contar um pouco para nós como foi essa experiência. A entrevista foi concedida à doutoranda Nathalia Ribeiro e Fernandes. 


Josiel dos Santos Lima, doutor em Teoria Literária pela Uniandrade. 
Crédito da imagem: Arquivo pessoal.


Nathalia: Olá, Josiel. Obrigada por aceitar o convite. Para começar, fale um pouco de você e da sua experiência em cursar um doutorado em área diferente da sua de formação. 

Josiel: No começo do mestrado em Teoria Literária, demorei um tempo para me adaptar, pois como sou graduado em história, não tinha conhecimento dos autores e termos técnicos da literatura. Foi bom porque aprendi muita coisa nova, tive que ler muitos livros para além dos que eram solicitados em sala, já que o que era de conhecimento básico dos graduados em letras, era desconhecido para mim. Já no doutorado, estava mais familiarizado e tudo o que li e estudei nas disciplinas tentava associar à minha tese. 

Nathalia: Ah, então sua formação é em História. No nosso programa temos pós-graduandos de diversas áreas e isso enriquece muito o curso. Como surgiu a ideia do seu projeto de pesquisa?   

Josiel: Depois do mestrado, me especializei em Contação de Histórias e Literatura Infantil. Nesse tempo conheci os livros escritos durante o período da Ditadura Militar pela autora de livros infantis Ruth Rocha. Achei muito interessante haver livros infantis que criticavam o autoritarismo de forma leve e divertida. Então, aqueles reizinhos mandões das histórias me chamaram a discutir sobre história e literatura infantil, sobre literatura de protesto e sobre a recepção dessas obras pelas crianças.

Nathalia: Que interessante! E sendo de outra área, qual a disciplina você considera que mais ajudou na sua pesquisa? Por quê? 

Josiel: Foram duas. A disciplina de “Imagem e Literatura” ministrada pela professora Célia Arns, que contribuiu para as análises das ilustrações, e a outra foi “Metodologia da Pesquisa” com a professora Greicy Bellin, na qual conheci as ideias do teórico H. U. Gumbrecht sobre Stimmung e Produção de Presença, e que foram fundamentais na interpretação das obras infantis. Essas ideias me ajudaram a entender sobre o potencial que a literatura infantil possui para tocar os leitores e causarem diferentes estados de humor.

Nathalia: Então foi muito enriquecedor! No geral, como foi a experiência toda de cursar um doutorado em Teoria Literária?

Josiel: Foi muito positiva, gosto muito de literatura e li obras que talvez não fosse ler por não conhecê-las. Faltou um contato mais próximo com os colegas e professores por ter uma pandemia que impossibilitava as aulas presenciais. Por outro lado, pude participar de importantes congressos de forma virtual. Também apresentei um trabalho presencial em São Luís, talvez nunca viajasse para lá, mas o desejo de conhecer outras regiões aliado à necessidade de produzir e apresentar artigos possibilitou o estudo e o lazer. Também destaco as Oficinas de Contação de Histórias, que ministrei nos 4 anos de curso. Elas ajudaram a divulgar meu trabalho, a conhecer pessoas, interagir com colegas e professores, e muito mais. Foi uma experiência fantástica que além de me trazer enorme satisfação, me proporcionou uma bolsa de estudos da instituição.

Nathalia: Bom, como você defendeu recentemente, conte-nos como foi essa experiência. Como foi a ansiedade, a expectativa, a pós-defesa?

Josiel: A ansiedade sempre existe, mas meu orientador, Otto Winck, sempre me deixou tranquilo. Ele explicou tudo como iria acontecer, quem estaria na banca e o que esperar. Além disso, seria on-line e isso me deixava seguro. Eu tinha uma expectativa de que teria muita gente participando por ser virtual, mas o link chegou para mim apenas 13 minutos antes do início. Não sei o motivo, mas acho que a instituição deveria divulgar o link de acesso com mais antecedência para que possamos nos organizar e chamar familiares, alunos, professores e amigos para assistir. Não consegui avisar todo mundo, e nem meus pais assistiram a defesa, fiquei chateado com isso. Depois que tudo passou, me emocionei, fiquei muito feliz porque cheguei no lugar em que sempre sonhei.

Nathalia: E quais seus planos após entregar a versão final da tese?

Josiel: É claro que a gente pensa em dar voos mais altos como um pós-doc ou algum curso fora do país, mas no momento quero relaxar, pôr em prática o que aprendi nesses anos, aplicar algumas ideias nas escolas públicas em que leciono. Para este ano de 2024 quero aprender a tocar algum instrumento e me aperfeiçoar no inglês. Depois volto para os estudos acadêmicos, entendo que nossa formação é constante e devemos continuar a aprender sempre.

Nathalia: Sim. Também acredito que precisamos colocar nossa pesquisa em prática, o que nos faz aprender ainda mais. Muito obrigada pela disponibilidade e boa sorte com os planos futuros.


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Josiel dos Santos Lima é mestre e doutor em Teoria Literária pela UNIANDRADE e atua como professor e contador de histórias.

Nathalia Ribeiro e Fernandes é mestra e doutoranda em Teoria Literária pela UNIANDRADE e bolsista PROSUP-CAPES. Atua como professora de Literatura.


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Nota de esclarecimento: Sobre o fato citado no texto, de que o link de acesso à sala virtual foi enviado tardiamente ao aluno, a coordenação informa que está ciente desse problema, que a direção da IES já foi informada sobre isso e que foi solicitado à assessoria pedagógica (setor responsável pela divulgação e pela documentação das bancas de mestrado e doutorado) que os envios sejam feitos com uma antecedência de 7 a 10 dias em relação à data da banca.

terça-feira, 14 de maio de 2024

UM LIVRO NASCE DE UMA IDEIA


Ana Lúcia Corrêa Darú


Um livro nasce, assim como nascem os seres vivos: há uma fagulha inicial, que para os seres vivos talvez possamos chamar de ‘concepção’, e para os livros talvez possamos chamar de ‘ideia’. Livros e seres vivos, depois de um tempo de maturação, surgem no mundo, singulares, com suas próprias teias de significado, aparência, estrutura e temperamento. Um livro vem ao mundo com uma mensagem e de certa forma, cada ser vivo também. E cada livro é especial e importante, assim como cada ser vivo.

Os eventos por trás do livro Vincent van Gogh: minha história (2022) veio de uma ideia, uma ideia de dar ao pintor a oportunidade de contar sua própria história. Ela começou em 2020, quando fui analisar um livro Os Girassóis (2009), da escritora americana Sheramy Bundrick. Naquela época precisava analisar o romance do ponto de vista da vida do pintor Vincent van Gogh (1853-1890). O texto de Bundrick é um romance em que a vida do pintor se transforma em uma narrativa ficcional e o pintor vira personagem dessa ficção. Portanto, eu tinha, dentre outras coisas, que explicitar o que era ficção e o que era realidade no romance, precisava de uma biografia do pintor para fazer o cotejo. Mas, ao recorrer a algumas bibliotecas, sebos e livrarias virtuais percebi que não havia livros que revelassem a totalidade da vida do pintor, havia apenas um livro enorme e belíssimo que retratava a arte do pintor, entremeada a fragmentos de frases das cartas que ele escreveu, e também havia um livro que retratava uma parte da vida do pintor: os últimos dez anos, por assim dizer. Uma biografia completa, autorizada ou não, não encontrei. Então eu recorri a sites onde eu intencionava reunir fragmentos da vida do pintor e organizar, eu mesma, uma biografia.


Fonte da imagem: www.livrariascuritiba.com.br

Na minha busca, encontrei muitos textos de artigos e reportagens (fontes secundárias e terciárias) que emitiam juízos sobre a vida do pintor, textos que teciam comentários, às vezes, até maldosos sobre ele. Eu compreendia que o pintor teve uma vida muito problemática, porque já tinha lido Cartas a Theo, um livro que trazia 150 cartas e que fora traduzido para o português por Pierre Ruprecht, em 1964. Por conta dessa leitura, eu tinha a convicção de que o pintor não era merecedor de muitos adjetivos depreciativos que estavam em alguns textos e, apesar de as cartas apresentarem lacunas temporais entre si, a leitura das 150 cartas deixava claro que o pintor tinha um coração amável e era um homem dedicado e fiel às suas convicções, principalmente religiosas.

Em minha busca, descobri que a totalidade das cartas (902) estavam publicadas pelo Museu Van Gogh e era lá que eu iria buscar as informações de que precisava. Na verdade, minha ideia inicial não era ler as 902 cartas, algumas com até nove páginas de conteúdo, na minha ideia, eu achava que seria possível ler algumas cartas e conseguir algo com elas, mas eu fui me apaixonando pelo dia a dia do pintor e não consegui ler ‘algumas cartas’, eu li as 902 cartas, e mais 25 fragmentos de cartas encontradas que fazem parte da correspondência do pintor. Nesse texto epistolar completo, uma fonte primária de informação, Van Gogh registra suas ações, pensamentos, leituras, observações de paisagens, ocorrências e dificuldades que enfrentava para se relacionar com as pessoas e sobreviver como pintor. Durante a leitura, fui organizando um desenrolar dos acontecimentos e fui constituindo, com os relatos colhidos em sua correspondência, uma autobiografia ficcional onde o próprio pintor vai contando sua história. Alguns trechos das cartas eu procurei deixar para o leitor conhecer os próprios redemoinhos linguísticos que constituíam os seus dias. Algumas informações estão em cartas escritas pelos familiares e amigos do pintor. O livro Vincent van Gogh: minha história dá uma chance de o leitor conhecer esse gênio das artes visuais e ao pintor uma oportunidade de dar-se a conhecer. O livro, uma ideia que levou dois anos para maturar, está à disposição em sites e livrarias. Boa leitura!

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Ana Lúcia Corrêa Darú é Mestre em Teoria Literária pelo Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE) e Doutoranda pela mesma instituição. Atua como parecerista, analista de projetos educacionais e editora de materiais didáticos para diversas editoras do Brasil. O livro Vincent van Gogh: minha história – a vida do pintor contada por ele mesmo é uma autobiografia ficcional do pintor Vincent van Gogh. A obra nasceu de uma lacuna que a doutoranda, Ana Lúcia Corrêa Darú, identificou, ao realizar suas pesquisas, quando da produção de sua dissertação.

terça-feira, 7 de maio de 2024

LITERATURA, FOTOGRAFIA ECOCRÍTICA 


                                                                                                                Verônica Daniel Kobs

 

No dia 22 de novembro de 2023, participei do Colóquio Uma Festa Imodesta, promovido pelo Centro de Estudos Portugueses da UFPR. No convite que recebi, os anfitriões eram bem claros quanto ao motivo da comemoração: “espantar os males” e “celebrar o prazer”, revisitando obras da literatura lusófona. Diante disso, escolhi analisar os haicais de Sigrid Renaux, associando-os às fotografias de Leonir Kobs, com a finalidade de olhar mais detidamente sobre a natureza, especificamente sobre os pássaros e as plantas.  

Começando pela literatura, convém lembrar que os haicais tradicionais privilegiam a natureza, geralmente focalizando uma das estações do ano, e são apresentados em 3 versos ― de 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente. No entanto, ao longo das décadas, esse tipo de poema passou por inúmeras mudanças, tanto na forma quanto no conteúdo, e isso resultou do estilo de diversos autores brasileiros, como: Pedro Xisto, Paulo Leminski, Millôr Fernandes, Helena Kolody, Mário Quintana, Dalton Trevisan, Sigrid Renaux, entre outros. De acordo com o poeta e ensaísta Marcos Siscar, a poesia brasileira feita a partir dos anos 1980 caracterizava-se pela “ausência de linhas de força mestras” (2010, p. 149), já que, naquele período de abertura política, a democratização e a pluralidade ganharam ênfase, valorizando as estéticas individuais. Paulo Franchetti corroborou essa afirmação, em artigo publicado em 2008, ao informar que, “no Brasil, coexistem e estão ativas as várias ver­tentes do haicai brasileiro: a tradicionalista, a de inspiração zen, a fi­liada a Guilherme de Almeida, a epigramática e a de matriz concre­tista” (FRANCHETTI, 2008, p. 266).

Nesse sentido, serão analisados os haicais de Sigrid Renaux publicados em três livros: Outros azuis (2009), As grafias do olhar (2016) e Luzes na selva (2019), com o objetivo de demonstrar as contribuições da autora na evolução desse texto poético. Entre elas, destacam-se, na maioria dos poemas, os versos com margem sinuosa e a estrutura de 3 ou 4 versos – brancos e livres. Porém, o tema da natureza e o caráter sintético (que alguns críticos chamam de ideogrâmico) sempre corresponderam ao projeto estético da autora, para quem a natureza é a “principal fonte de inspiração”. Além disso, Sigrid Renaux afirma que os haicais a atraíram “pelo formato simples”, facilitando a transmissão das ideias que a inspiram (RENAUX, 2022). Segundo Antoine Compagnon: “A literatura é um exercício de pensamento; a leitura, uma experimentação dos possíveis” (COMPAGNON, 2009, p. 52). Combinando isso com o raciocínio de Clarice Lispector, chegamos à metáfora da ”não palavra”, que a escritora definiu como “a palavra pescando o que não é palavra”, nas “entrelinhas” do texto (LISPECTOR, 1980, p. 41). Dessa forma, a abordagem da Ecocrítica pareceu adequada para este trabalho, levando em conta que os haicais de Sigrid Renaux, por trás de cada verso, mostram a possibilidade de perceber as plantas e os pássaros como protagonistas e não como meros coadjuvantes.

Com esse mesmo objetivo, escolhi analisar as fotos feitas por Leonir Kobs, interpretando-as como ecfráses ao contrário. Dessa forma, os haicais, que sugerem imagens mentais — invisíveis e não palpáveis —, podem ser concretizados por meio da fotografia.  Aliás, vale lembrar que, na literatura japonesa, há alguns haicais que são acompanhadas por ilustrações, chamadas de haigas. Portanto, as fotografias tendem a cumprir função semelhante, neste trabalho. Além disso, a proximidade entre as mídias literária e fotográfica justifica-se pelo olhar contemplativo sobre a natureza, fixando-se em flagrantes do cotidiano, para redefinir as relações das pessoas com animais, vegetais e minerais. Citando Susan Sontag, a “insaciabilidade do olho que fotografa altera as condições do confinamento na caverna: o nosso mundo. Ao nos ensinar um novo código visual, as fotos modificam e ampliam nossas ideias sobre o que vale a pena olhar e sobre o que temos o direito de observar. Constituem uma gramática e, mais importante ainda, uma ética do ver” (SONTAG, 2004, p. 8). Sem dúvida, essa ética a que Susan Sontag se refere é imprescindível hoje, para desautomatizar e desalienar o comportamento humano, de certa forma anestesiado pelos efeitos da tecnologia. Conforme Nelly Novaes Coelho, a literatura pode servir como “antídoto à robotização” (COELHO, 2007), propriedade que também se aplica às outras artes, incluindo a fotografia, e, nesse contexto, o tema da natureza surge como um intensificador.

Perceber-se como uma pequeníssima parte do ambiente natural, e não como centro, é o princípio basilar da Ecologia, que Scott Slovic e Yingyu Yang definem como “ciência de interconexão” e “de relacionamento” (SLOVIC; YANG, 2010, p. 111, tradução nossa). Nas palavras de Sigrid Renaux, em sua obra “a associação entre literatura e ecologia surgiu naturalmente” (RENAUX, 2022). Nesse sentido, alguns haicais da autora, de caráter metalinguístico, celebram a comunhão do eu-lírico com as plantas e os animais: “para construir um poema / procuro a palavra plena / entre as canções dos pássaros / e o silêncio colorido das flores” (RENAUX, 2011, s. p.). O leitor é, então, convidado a perceber as aves e os vegetais, em meio ao barulho e à agitação das grandes cidades, em uma proposta que, de certo modo, nos faz resgatar os princípios do Arcadismo: fugere urbem, aurea mediocritas, carpe diem e inutilia truncat. Com esse mesmo ideal, a jornalista e escritora Eliane Brum, em Banzeiro òkòtó (2021), seu último livro, trata do “Eu-natureza” e da “luta contra a autoextinção, que só poderá ser vencida se [...] nos tornarmos outro tipo de gente, [...] capaz de viver com todas as outras gentes, humanas e não humanas” (BRUM, 2021, p. 117). Nos haicais de Sigrid Renaux, esse senso de conjunto instiga a identificação, em detrimento da hierarquia: “sou o que vejo / as folhas ao vento / o universo azul / o sol nas estrelas” (RENAUX, 2019, p. 27).

Para analisarmos alguns exemplos disso, aprofundando nossas reflexões com base na Ecocrítica, vejamos 5 combinações que proponho aqui, entre os haicais de Sigrid Renaux e as fotografias de Leonir Kobs. Antes, porém, é preciso deixar claro que as fotos não são adaptações dos poemas. Os haicais e as fotografias selecionados para análise são obras independentes e sem nenhuma conexão, até o momento em que decidi colocá-los lado a lado. Trata-se, então, de uma intermidialidade não intencional, realizada no âmbito da crítica, e não da criação artística. Além disso, percebam que, em cada imagem mostrada, serão mencionados o nome populares e também o nome científico de cada planta e de cada pássaro, na tentativa de combater o que Suzana Ursi denomina “cegueira botânica” (URSI et al., 2018, p. 13), chamando a atenção do público para a importância de conhecer as espécies que integram a paisagem da maioria das cidades.


Haicai e foto n. 1

sinuosamente branca

           uma garça penetra no silêncio das águas

à espreita de um peixe (RENAUX, 2009, p. 106)

 

Garça-real (Pilherodius pileatus) pescando. 
Créditos da imagem: Leonir KOBS (Foto e Edição).


Nesse haicai, assim como nos demais, a disposição dos versos recusa a estrutura linear, propondo um novo tipo de organização, mais condizente com o ambiente natural. Os versos são curtos e cada um deles corresponde a uma espécie de frame, consolidando o teor imagético do poema. Na fotografia, as águas dividem espaço com os aguapés (Eichhornia crassipes) e focaliza-se um tipo específico de garça, a Garça-real (Pilherodius pileatus). Essa ave dá mais cor à cena, embora conserve a sinuosidade, a brancura e o estado de prontidão.


Haicai e foto n. 2

entrelaçando a prédica do pastor

                         um passarinho entoava no jardim

                                     seu hino de louvor (RENAUX, 2016, p. 58)

  

Sabiá-ferreiro (Turdus subalaris) cantando no galho de um Pinheiro Araucária (Araucaria angustifolia). Créditos da imagem: Leonir KOBS (Foto e Edição).


Essa comparação exemplifica o princípio da ecomimese, que, segundo Timothy Morton (2009), indica uma inversão: a natureza deixa de ser apenas cenário para se tornar a protagonista do haicai e da foto. A prosopopeia ou personificação acentua a mudança de paradigma, assim como a metáfora do pássaro-pastor, na imagem representado por um Sabiá-ferreiro (Turdus subalaris) cantando no galho de um Pinheiro (Araucaria angustifolia). Esse tipo de recurso reage ao europeísmo e ao especismo. De acordo com o cientista e ativista Antonio Nobre, “[...] existe um desastre cognitivo na sociedade ocidental, que ocorreu principalmente na Europa, do divórcio entre a chamada mente racional [...] e a cognição ampla, intuitiva, holística, integrativa” (CYPRIANO, 2020). Reforçando essa questão, Aílton Krenak, autor de Ideias para adiar o fim do mundo, afirma que “Tanto a humanidade europeia quanto as sub-humanidades projetadas ignoram que existem milhões de outros seres que nos fazem companhia. Alguns deles são muito sutis como um colibri ou uma borboleta. Outros têm a virulência de um covid. [...]. Não estamos sozinhos neste universo” (SILVA, 2020).



Haicai e foto n. 3

 entre vestígios de madrugada

            ínfimas teias bordavam a relva

                                    com rendas e lágrimas (RENAUX, 2016, p. 87)


Teias orvalhadas sobre Grama Santo Agostinho ou Grama Inglesa (Stenotaphrum secundatum). Créditos da imagem: Leonir KOBS (Foto e Edição).

 

Esses exemplos, assim como os anteriores, demonstram o que decidi chamar de natureza-viva. De início, minha finalidade era marcar a oposição ao conceito de natureza-morta.  No entanto, os dois termos se assemelham, em certa medida, já que sinalizam a fragilidade da natureza e a fugacidade ― do tempo e da vida. Outro detalhe que o haicai e a fotografia realçam é a integração dos reinos animal e vegetal, por meio das teias de aranha sobre a relva, que, a partir da imagem em análise, pode ser classificada como Grama Santo Agostinho ou Grama Inglesa (Stenotaphrum secundatum). Essa simbiose foi mencionada por Oliver Sacks, no artigo “Darwin e o significado das flores”, especificamente neste trecho: “As flores de magnólia [...] ficavam cobertas de [...] besouros minúsculos. [...] as mais antigas das plantas floríferas [...] precisavam contar com um inseto mais antigo, um besouro, para a sua polinização” (SACKS, 2009).

 

Haicai e foto n. 4

         árvores antigas

   bromélias em troncos verde-musgo

                                               jardins suspensos agora (RENAUX, 2019, p. 15)

 

Bromélias (Bromeliaceae) em tronco de árvore. Créditos da imagem: Leonir KOBS (Foto e Edição).


Nessa comparação, haicai e fotografia dão destaque às Bromélias (Bromeliaceae), principalmente às epífitas, que permitem o uso da metáfora “jardins supensos”. Além disso, sob a perspectiva da Ecocrítica, as duas obras exemplificam o processo que Evando Nascimento denomina “experiência vegetal” (MANCUSO; NASCIMENTO; AGUSTONI, 2021), pelo fato de valorizarem um olhar mais contemplativo sobre a natureza, principalmente sobre as plantas. Quanto a isso, novamente cito Oliver Sacks, que, depois de analisar o primeiro caderno de notas que Darwin escreveu, em 1837, revelou que “todos os seres vivos descendem de um ancestral comum” e que “os seres humanos não estão ligados só aos macacos e aos outros animais, mas também às plantas (As plantas e os animais, sabemos hoje, têm 70% do DNA em comum.)” (SACKS, 2009).

 

Haicai e foto n. 5

     raízes

                 imagens invertidas

                        forças submersas distendem ramos

                                                          sustentando o solo (RENAUX, 2019, p. 29)

 

Raízes de Figueira (Ficus). Créditos da imagem: Leonir KOBS (Foto e Edição). 

NesseN

Nesse último par de exemplos, somos convidados a enxergar, na fotografia, a inversão proposta pelo haicai, como se as raízes da Figueira (Ficus) fossem os galhos, tornando mais intensa a dependência entre o ar, a terra e o subterrâneo. Em certa medida, esse novo olhar encontra correspondência no propósito da Ecocrítica, que nos motiva a refletir sobre “[...] outras maneiras de estar no mundo [...], sem a centralidade no ‘humano’” (FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY, 2021, grifo no original).

Somos apenas uma pequena parte da natureza. Vivemos em conexão com os outros ― humanos, vegetais, animais e minerais. Recentemente, ouvimos falar sobre o risco de extinção das abelhas. Ao contrário do que afirma o senso comum, sem as abelhas não deixaremos de existir, mas, segundo os especialistas, se isso ocorrer, o mundo inteiro experimentará mudanças bastante profundas. Sendo assim, hoje, de acordo com Evando Nascimento, não se trata mais de uma “[...] consciência ecológica no sentido clássico, mas de uma consciência de sobrevivência” (MANCUSO; NASCIMENTO; AGUSTONI, 2021). Aprofundando essa ideia, Isabelle Stengers considera que “falar de uma luta contra o aquecimento global [, por exemplo’] é inapropriado – se é importante lutar, a luta é contra o que provocou Gaia, não contra sua resposta” (STENGERS, 2015, p. 59). Dessa forma, o prazer proporcionado pelas fotografias e pelos haicais analisados neste estudo torna-se um convite para ver e ler aquilo que nem sempre é percebido, em meio às atribulações do mundo contemporâneo, em um dia comum. Afinal, lembrando as palavras do poeta Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta” (GULLAR, 2005).

 

REFERÊNCIAS

BRUM, Eliane. A mulher que se reflorestou. Vogue Brasil, n. 518, nov. 2021, p. 116-117.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura: um olhar aberto para o mundo. Disponível em: <http://www.collconsultoria.com/artigo7.htm>. Acesso em: 2 jun. 2007.

COMPAGNON, Antoine. Literatura para quê? Belo Horizonte: UFMG, 2009.

CYPRIANO, Fabio. Somos natureza. Disponível em:

<https://artebrasileiros.com.br/arte/seminario/ailton-krenak-naiara-tukano-antonio-nobre-falam-natureza-e-cultura-seminario-artebrasileiros/>. Acesso em: 28 nov. 2020.

FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY. Nhe’éry, plantas e literatura. Disponível em: <https://flip.org.br/2021/principal/nheery-plantas-e-literatura/>. Acesso em: 12 dez. 2021.

FRANCHETTI, Paulo.  O haicai no Brasil. Alea, v. 10, n. 2, p. 256-269, jul.-dez. 2008.

GULLAR, Ferreira. Ferreira Gullar: A arte existe porque a vida não basta. Disponível em: <https://www.pensador.com/frase/NTg0MjMx>. Acesso em: 20 dez. 2005.

LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. São Paulo: Círculo do Livro, 1980.

MANCUSO, Stefano; NASCIMENTO, Evando; AGUSTONI, Prisca. Literatura e plantas. Disponível em: <https://flip.org.br/2021/principal/programacao/?cat=37>. Acesso em: 13 dez. 2021.

MORTON, Timothy. Ecology Without Nature: Rethinking Environmental Aesthetics. Cambridge: Harvard University Press, 2009.

RENAUX, Sigrid. Outros azuis. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura, 2009.

RENAUX, Sigrid. As grafias do olhar. Curitiba: Artêra; Appris, 2016.

RENAUX, Sigrid. Luzes na selva. Curitiba: Appris, 2019.

RENAUX, Sigrid. [Sem título]. Comunicação via e-mail entre Sigrid Renaux e a autora deste artigo, no período de 11 a 15 fev. 2022.

SACKS, Oliver. Darwin e o significado das flores. Disponível em:

<https://piaui.folha.uol.com.br/materia/darwin-e-o-significado-das-flores/>. Acesso em: 28 mar. 2009.

SILVA, Juremir Machado da. Entrevista com Ailton Krenak. Disponível em:

<https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/entrevista-com-ailton-krenak-1.524763>. Acesso em: 8 dez. 2020.

SISCAR, Marcos. Poesia e crise. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.

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Verônica Daniel Kobs: Pós-Doutorado em Literatura e Intermidialidade (UFPR). Professora e pesquisadora de Literatura e Tecnologia Digital. Coordenadora dos cursos de Mestrado e Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE. Idealizadora do blog Sarau Literário.