A CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA
Greicy
Pinto Bellin
Em 1911, o escritor
alemão Thomas Mann escreveu um texto que eu considero perfeito: Morte em
Veneza.
Fonte da imagem: Prime Video (editada pelo Blog Sarau Literário)
O enredo trata de um escritor de meia-idade, Gustav von Aschenbach, que, em meio ao cansaço de uma rotina extenuante de trabalho e atravessando uma crise existencial, resolve passar férias na Itália, destino usual e quase clichê de muitos escritores alemães naquela época. Durante a viagem, o protagonista se depara com Tadzio, um belíssimo jovem polonês por quem se apaixona, embarcando em uma jornada ensandecida que resultará na sua própria morte, conforme o título da novela anuncia.
Observa-se, ao longo da narrativa, a instauração de uma verdadeira dança pelo abismo, em uma espiral de perturbações cada vez mais intensas que se iniciam no barco que leva Aschenbach até a Itália. É neste barco que ele encontrará a primeira manifestação de sua sombra em um velho vestido de forma ridícula e que se mistura sem critério com os jovens, atitude que, apesar de lhe causar repulsa, será a tônica principal de sua estadia em Veneza após o encontro com Tadzio. O ancião do barco pode ser considerado como um dos primeiros mensageiros da morte encontrados pelo protagonista ao longo da viagem, sendo o segundo deles o repulsivo gondoleiro que o conduz até Veneza. A descrição da gôndola como algo semelhante a um túmulo impacta a mente e os afetos do leitor, bem como a suspeita, nutrida pelo próprio protagonista, de que poderia ser assassinado a qualquer momento: “Mesmo que só estejas interessado em meu dinheiro e, com um golpe de remo pelas costas, me envies para a mansão do Hades, terei feito uma boa viagem”. Há, nesta passagem, uma fina e macabra ironia, travestida de um componente mitológico que nos permite efetivamente adentrar o reino dos mortos, ainda que Aschenbach pareça não desejar, pelo menos conscientemente, a sua própria morte.
À medida em que se aproxima de seu fatal desfecho, o enredo mostrará que o
protagonista toma o caminho da própria sombra beirando o ridículo nas
perseguições a Tadzio, já não escondendo mais o que sentia e arriscando, até
mesmo, a ser descoberto em meio ao absurdo de ingerir morangos estragados para
não perder o rapaz de vista. A narrativa segue em uma gradação cada vez mais
vertiginosa até a constatação de que a família polonesa estava abandonando o
hotel em virtude de uma epidemia de cólera; após esta cena, o escritor presencia,
na praia, uma luta em que Tadzio é quase morto pelo amigo Jaschu, em macabra
antecipação do momento em que o jovem faz, contra a luz do sol, o mesmo sinal
feito por Aschenbach quando tomou a decisão de realizar o mergulho fatal e
definitivo nas águas turbulentas e sombrias de seu próprio inconsciente.
O que a novela de Mann nos revela é o surreal itinerário
de um homem na busca por algo que pode vir a governar a vida de um ser humano:
o desejo. Este desejo é projetado na figura do belo rapaz que parece alimentar
a obsessão do escritor de meia idade com migalhas de atenção, a exemplo do que
acontece muitas vezes nas redes sociais, fomentando a proliferação dos tantos stalkers
que presenciamos por aí. E o que o stalker percorre, ao fim e ao cabo, é
apenas o desejo, mesmo que isso venha a significar a sua própria morte, na
maior parte das vezes espiritual, mas física no caso de Aschenbach.
À parte o seu mérito
literário inquestionável, Morte em Veneza nos conduz a pensar nas muitas
vezes em que a alma humana insiste em perseguir o desejo sem se dar conta de
que ele não é feito para ser perseguido e sim, para ser contemplado com
distância segura e calculada, sem qualquer envolvimento que enrede a alma nas
teias de um destino que pode se revelar trágico, inexorável e imutável.
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Greicy Pinto Bellin é doutora em Estudos Literários pela UFPR. É
professora titular do Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e do curso
de Graduação em Letras da UNIANDRADE.

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