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domingo, 22 de dezembro de 2024

REVISTA SCRIPTA ALUMNI V. 27, N. 2 (2024)




Acesse o dossiê temático de nossa última edição:

 O ENCONTRO (2007) DE ANNE ENRIGHT E AS FASES DO LUTO

 

Larissa Degasperi Bonacin

 

A morte nada mais é do que uma etapa da vida e, consequentemente, um evento certo e inevitável. É, portanto, parte constitutiva da nossa condição humana. Contudo, mesmo que todos tenham a ciência desse fato, as experiências com a morte e o luto diferenciam de pessoa a pessoa. Para uns a morte pode estar associada a sofrimento, para outros pode significar libertação. Algumas pessoas ainda consideram que a morte não existe e para estas, a vida não é limitada pelo biológico.

Ocorre que, nem todos são ou estão preparados para vivenciar ou mesmo falar sobre a morte, pois esta, muitas vezes, evoca lembranças que preferíamos esquecer e suscita sentimentos que muitas vezes estavam escondidos e que, vindo à tona, trazem dor. Isso é o que acontece com a protagonista Verônica Hegarty do romance O encontro, da escritora irlandesa Anne Enright, após a morte do seu irmão mais próximo, Liam Hegarty. Ela será a responsável pelo traslado do corpo do irmão de Londres até Dublin para o funeral e nesse percurso ela retoma a história da família e de si própria.


Professora Larissa Bonacin. Foto enviada pela autora.


O romance de Anne Enright pode ser caracterizado pela trajetória da narradora ao encontro de um sentido para sua vida a partir da morte do irmão. Mas a narrativa de Enright é angustiante, porque sincera. Porque descreve com detalhes toda sua dor, sua angústia, sua solidão, suas dúvidas. É permeada por lembranças, ora nítidas em sua memória ora ofuscadas pelo tempo, ou até fictícias, que não sabe ao certo se realmente ocorreram.

Leia o texto completo em:

https://drive.google.com/file/d/12QtXm2S8dIC4OGdBPNApS5UR4JcPgOzv/view?usp=sharing


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Larissa Degasperi Bonacin é Doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Teoria Literária pelo Centro Universitário Campos de Andrade – UNIANDRADE. Professora de Literatura para os cursos de Letras e Pedagogia da UNIANDRADE, de 2014 a 2024. Professora do Mestrado e Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE, desde dezembro de 2024.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

 ANAIS DO SEMINÁRIO INTERNACIONAL: EDIÇÃO 2024



Acesse o arquivo completo, por meio deste link: 

https://drive.google.com/file/d/11qOy6rQF6yMxERo5bzd0yOghzL-TiQCl/view

 

 TECNOLOGIA, EDUCAÇÃO E SOCIEDADE: 

UM DEBATE ATUAL E NECESSÁRIO NO II SIET-DH

 

Verônica Daniel Kobs

 

O II Seminário Internacional de Educação, Tecnologia e Desenvolvimento Humano (II SIET-DH), realizado de 10 a 12 de dezembro de 2024, na Florida University of Science and Theology (FUST), abriu espaço para discussões acerca das transformações do cenário educacional, especialmente em tempos de rápidas mudanças tecnológicas. A parceria com a Uniandrade, que já se consolidou no congresso de agosto deste ano, mais uma vez se destacou, refletindo o compromisso compartilhado entre as duas instituições, a fim de promover debates significativos sobre os desafios do novo milênio.

O Seminário foi dividido em três noites de discussões intensas, cada uma abordando um tema central. Na primeira noite, a temática foi saúde e bem-estar na educação, abordando a crescente importância de criar ambientes de aprendizagem que não só favoreçam o conhecimento, mas também priorizem o cuidado com o corpo e a mente. A segunda noite tratou de políticas públicas e inclusão, um tema crucial para garantir que todas as camadas da sociedade, especialmente as mais vulneráveis, tenham acesso à educação de qualidade.

Na terceira noite, a pauta foi esta: os impactos da tecnologia digital na educação e no crescimento individual. Esse debate gerou diversas reflexões sobre como as tecnologias digitais estão reconfigurando os processos educacionais e as maneiras como nos desenvolvemos e nos relacionamos, neste novo mundo. Em uma sociedade cada vez mais conectada, a tecnologia se tornou um poderoso vetor, mas também um obstáculo a ser superado, especialmente quando pensamos no equilíbrio necessário para garantir que seu uso seja saudável e benéfico para o desenvolvimento humano.


Cartaz de divulgação da terceira noite do evento. Crédito da imagem: FUST University.

 

O encerramento do Seminário foi marcado pela palestra dos professores da Uniandrade, Otto Winck e Verônica Daniel Kobs, que discutiram de maneira complementar o papel das novas tecnologias na educação. A professora Verônica Daniel Kobs abordou os impactos das tecnologias sobre a sociedade e a educação, explorando os aspectos positivos e negativos do digital, e apresentou algumas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o Ensino Médio. Foram ressaltadas as implicações do uso predominante de plataformas digitais no ensino, o que representa um risco significativo, afinal o ato de substituir a leitura tradicional por conteúdos digitais interfere nas capacidades de análise e contemplação. Nesse contexto, defendeu-se a ideia de que o livro impresso e a leitura analógica continuam sendo insubstituíveis, pois mantêm uma conexão com o mundo físico, além de promoverem uma relação mais orgânica e não hierárquica entre os seres humanos e o ambiente ao seu redor.

O professor Otto Winck, por sua vez, trouxe uma visão mais filosófica, abordando as perspectivas de "apocalípticos e integrados". O discurso de que a tecnologia traria o fim da sociedade ou da educação muitas vezes ignora a capacidade de integração da tecnologia com práticas pedagógicas mais tradicionais. Para reagir a isso, foi demonstrado que a chave está no equilíbrio entre as potencialidades da tecnologia e os métodos de ensino mais humanizados e críticos, sem cair no medo ou na exaltação cega da digitalização.

Desempenhando a função de debatedor, o doutorando Daniel Zanella, jornalista de formação, fez um elo entre a crítica à tecnologia e sua própria vivência no campo da Comunicação. Em sua fala, foi mencionado o conceito de brain rot, palavra eleita em 2024 pela Oxford para descrever o fenômeno da degradação cognitiva promovida pela exposição excessiva e superficial às tecnologias digitais. Nesse sentido, também foram retomadas algumas críticas do filósofo Edgar Morin, que questiona o impacto da digitalização na capacidade de reflexão profunda e no pensamento crítico. Por fim, Zanella ressaltou o valor do impresso como modo de motivar uma abordagem mais analítica da informação, em oposição à rapidez e à superficialidade dos meios digitais.



 

Crédito das imagens: YouTube

 

O evento, que fortaleceu a parceria recente entre a FUST e a Uniandrade, foi uma excelente oportunidade para aprofundar a discussão sobre o papel da tecnologia na educação, ressaltando tanto seus benefícios quanto os desafios que ela impõe. Para aqueles que não puderam participar ou desejam revisitar as reflexões apresentadas, é possível acessar as palestras e o debate da última noite no YouTube, por meio deste link: https://www.youtube.com/watch?v=JT_lNbrwCSU.

Finalizamos este registro com nossos sinceros agradecimentos à FUST University, aqui representada por algumas menções especiais: ao magnífico reitor, Prof. Dr. Washington Luiz Martins da Silva; ao coordenador, Prof. Dr. Fábio Alves Gomes; ao organizador e anfitrião, Prof. Dr. Matusalém Alves Oliveira; e às professoras Juliana Almeida e Ana Vitória Imperiano, que não poupam esforços na organização impecável. A acolhida, o incentivo e a gentileza da FUST, aliados à promoção do saber e da troca de conhecimento constante, são as principais marcas, em todas as atividades que realizamos juntos.

Também agradecemos aos alunos e professores da Uniandrade e da FUST, pela presença e pelo engajamento. Sem dúvida, a parceria entre as duas instituições continuará a ser consolidada e, no II SIET-DH, defendemos a importância de um futuro educacional mais inclusivo, inovador e humanizado.


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Verônica Daniel Kobs: Pós-Doutorado em Literatura e Intermidialidade (UFPR). Professora e pesquisadora de Literatura e Tecnologia Digital. Coordenadora dos cursos de Mestrado e Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE. Idealizadora do blog Sarau Literário.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

O LEGADO DO VAMPIRO


Verônica Daniel Kobs



E Dalton Trevisan se foi...
Hoje o dia começou triste, pois recebi a notícia da morte de Dalton Trevisan. Autor curitibano e meu conterrâneo, Dalton é meu ídolo máximo na literatura. Tenho dezenas de livros dele, nos quais "viajo, viajo"... Não me canso de reler suas histórias, admirar seu humor ácido e de cair na armadilha de sorrir, para só então começar a lamentar.
Dalton tinha 99 anos e ainda estava na ativa. Mesmo assim, suas obras eram raridade por aqui. Eu sempre reclamava, nas feiras e livrarias de Curitiba, quando descobria que não havia nenhum livro de nosso vampiro.
Talvez essa ausência possa ser explicada pela contundência dos textos do autor. Sei que Dalton Trevisan é para poucos e, nesse aspecto, acho oportuno celebrar o vampiro parodiando os versos do nosso "poeta polaco", o "cachorro louco" curitibano:  

Dalton Trevisan
ame-o 
ou deixe-o.

Muitas pessoas criticam a repetição com variação; outras não aguentam a violência da linguagem e dos personagens; há aqueles que não entendem a ironia; e também há quem diga que as histórias de Dalton não têm nenhuma associação com a realidade (???). 
Bem... Por tudo isso, eu resolvi amá-lo e registro aqui meu pesar pela partida dele. Nesta ocasião, relembro um artigo que escrevi há 10 anos e que foi publicado no Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea da UFRJ. O título é "Dalton Trevisan e a literatura do contra" e o texto pode ser lido na íntegra, neste link: 
Por fim, transcrevo aqui alguns trechos do meu conto preferido, "Lamentações de Curitiba":

A palavra do Senhor contra a cidade de Curitiba no dia de sua visitação.
[...].
O que fugir do fogo não escapará da água, o que escapar da peste não fugirá da espada, mas o que escapar do fogo, da água, da peste e da espada, esse não fugirá de si mesmo e terá morte pior.
O relógio da Praça Osório marca a hora parada do dia de sua visitação.
[...]
Os ipês na Praça Tiradentes sacolejarão os enforcados como roupa secando no arame.
[...]
No rio Belém serão tantos os afogados que a cabeça de um encostará nos pés de outro, e onde a cachaça para mil e um velórios? [...]
A espada veio sobre Curitiba, e Curitiba foi, não é mais.
Não tremas, ó cidadão de São José dos Pinhais, nem tu, pacato munícipe de Colombo, a besta baterá voo no degrau de tuas portas. Até aqui o juízo de Curitiba.

"Curitiba foi, não é mais", mas Dalton será para sempre o nosso vampiro! O dia do Juízo Final chegará e restarão apenas ele e "as baratas com caspa na sobrancelha". 
Um viva e "um assobio com dois dedos na língua" para Dalton Trevisan!


Créditos
Trechos do conto: TREVISAN, Dalton. Em busca de Curitiba perdida (1992).
Imagem: Caricatura de Dalton Trevisan feita pelo artista e amigo Poty Lazzarotto.

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Verônica Daniel Kobs: Pós-Doutorado em Literatura e Intermidialidade (UFPR). Professora e pesquisadora de Literatura e Tecnologia Digital. Coordenadora dos cursos de Mestrado e Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE. Idealizadora do blog Sarau Literário.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

O ARTESÃO DE MEMÓRIAS


Bruno Truiti


Meu nome é Bruno Truiti, sou o idealizador da empresa Artesão de Memórias, cujo trabalho é imortalizar, na forma de livros, memórias de pessoas “comuns”.

Sou natural do estado do Paraná, tenho 39 anos e uma origem familiar bastante diversa. Engenheiro florestal de formação, tive ofícios dos mais variados desde a adolescência e, desde quando comprei uma pequena câmera filmadora em 2007 durante o breve tempo em que vivi nos Estados Unidos —, venho entrevistando pessoas, inicialmente, apenas com o intuito de “preservar um pouquinho delas” para o futuro.


Fonte: Imagem cedida pelo autor do texto.


Entre 2007 e 2011, levei a sério esse hobby de curiosidade e urgência, ao longo do qual entrevistei dezenas de pessoas — em geral idosas e com uma história interessante para contar. Durante o tempo que morei na Irlanda, conversei com alguns amigos sexagenários e septuagenários sobre tempos mais duros, sombrios e violentos no país, que obrigaram muitos a tentar uma vida melhor em outros países, principalmente na Inglaterra, onde a recepção a eles era longe de ser amigável.

Em Portugal, tive a oportunidade de passar dez dias na terra natal de um avô meu, uma aldeia de apenas 18 habitantes — todos já relativamente idosos, localizada no extremo Norte da província do Minho. Durante esse tempo, vivi a rotina daquelas pessoas, trabalhando e comendo junto a eles e, com algum esforço de convencimento, consegui captar em filme alguns relatos interessantíssimos sobre suas histórias e memórias, alguns dos quais remetiam ao tempo em que meu avô, seus pais e irmãos ainda moravam lá.

De volta ao Brasil, continuei na busca de histórias interessantes para guardar, desde veteranos e outras testemunhas dos horrores da Segunda Guerra Mundial até agricultores semianalfabetos que lavravam a terra nos recantos mais profundos do Paraná.

Eis que, em 2011, tive a ideia de transformar esse hobby em um trabalho, nascendo, então, a empresa Artesão de Memórias, cuja proposta era, além de realizar entrevistas — como eu já vinha fazendo por anos —, preservar estes relatos na forma de livros.


Fonte: Imagem cedida pelo autor do texto.


“Será que existe um mercado para isso?”, pensei. Na verdade, não existia. Foi preciso, portanto, criá-lo. E é isso que venho fazendo ao longo dos últimos 13 anos, não sem cometer muitos erros pelo caminho.

Meus primeiros três ou quatro clientes foram amigos que, além de realmente achar a ideia interessante, com certeza quiseram me dar uma força. Pude, então, a preços bastante módicos, realizar preciosos registros das memórias de seus avós. É verdade que hoje, lendo esses primeiros livros, já como um profissional mais traquejado, tenho vontade de refazê-los, mas posso afirmae com orgulho que fiz o melhor que pude no tempo certo. Esses primeiros narradores já se foram todos, mas suas memórias são agora imortais.

Nos anos posteriores fui, aos poucos, conquistando novos horizontes. O boca a boca foi, por muito tempo, meu principal aliado, e também tive a sorte de sair em matérias muito bem redigidas nos jornais Tribuna de Minas e O Globo, o que também me ajudou a conquistar clientes em terras mais distantes. Superando aos poucos meu medo de "parecer inconveniente”, apresentei minha ideia a incontáveis pessoas, ouvi muitos nãos, fui criando uma tolerância à rejeição — inerente ao trabalho de vendas de qualquer serviço, quanto mais um tão inusitado quanto o meu —, fui persistente e me mantive positivo entre os altos e baixos.

Em treze anos de trajetória, escrevi mais de quarenta livros, fiz muitos amigos para a vida toda e aprendi muitas lições valiosas, a principal das quais é a perspectiva. Nada como ouvir as histórias de vida dos heróis anônimos da “geração silenciosa” para percebermos os privilégios da nossa vida moderna. Sigo, então, transformando os mais variados tipos de histórias em livros, para que as gerações vindouras possam conhecer melhor como foram as vidas dos seus antecessores.

 

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Bruno Truiti é o fundador da empresa Artesão de Memórias (https://www.instagram.com/oartesaodememorias/) e atua no mercado editorial há mais de 13 anos.