VIVA A LITERATURA
Amanda
Vital
Créditos da imagem: OPENAI. ChatGPT. Gerada em: 12 de junho 2026. Disponível em: https://chat.openai.com
Quando me foi pedido para escrever sobre a minha vivência com a Literatura, admito que pensei em desistir. Como falar sobre algo que permeou a maior parte da minha vida? Como reduzir um conceito tão complexo em apenas alguns parágrafos? Como capturar a imensidão invisível da luz em um pequeno prisma?
Sou capaz de fazer isso? Definitivamente
não. Mas, talvez eu não precise. Por que eu deveria tentar definir o
indefinível? O que quero dizer? Bem, se a Literatura sempre esteve presente em
minha vida, então por quê pensei em falar dela como conceito e não como o que a
Literatura realmente é? Uma parte da existência humana.
Eu poderia começar explicando como a
Literatura me foi apresentada quando eu ainda era bastante jovem; ou das
incontáveis idas a bibliotecas; da quantidade levemente problemática de
dinheiro deixada em sebos; da coleção de impressos que ocupa mais espaço que
minhas roupas. Tudo isso faz parte da Literatura em minha vida, mas não é assim
que pretendo contar essa história.
Quero começar minha memória pelo período
que eu gostaria de esquecer: o um ano e meio em que morei em Portugal, na
cidade do Porto para ser exata. Estaria mentindo se dissesse que tudo foi
horrível (afinal, a pior das tempestades ainda consegue formar um arco-íris).
Mesmo assim, foi um período para mim com mais tristezas do que alegrias. Apesar
de tudo, a Literatura ainda se fez presente em minha vida.
Para aqueles que não sabem, Porto tem, a
que é considerada, a livraria mais antiga do mundo. Ironicamente, apesar de ter
morado na cidade por um ano e meio e considerar a Literatura como parte
bastante definidora de quem eu sou, nunca visitei aquela livraria. Queria ter
algum motivo legítimo para justificar essa ausência, mas a verdade é que…
Precisa pagar entrada e eu sou mão de vaca, não me julguem!
Então, se eu nunca estive nessa livraria
tão importante para história da Literatura como eu pretendo falar (ou escrever)
sobre Literatura? Muito simples. Não falando sobre a livraria. A Literatura não
está apenas na livraria. Está nos domingos nos quais eu e minha vizinha
comíamos pizza enquanto bebíamos cidra de maçã (ela dizia que a de melancia era
melhor, mas nunca achei para comprar) e ouvíamos música alta para incomodar as
vizinhas fofoqueiras da casa ao lado.
A Literatura está em uma tarde no shopping,
um filme ruim no cinema e fazer compras de Natal com uma pessoa especial.
Gestos pequenos de afeto que eu interpretei como mera amizade, incapaz de ver a
reciprocidade do que eu também sentia. Não na livraria, mas no brilho dourado
do rio ao final da tarde e na alegria de dividir doces com uma amiga depois de
um dia passeando pela cidade.
A Literatura está nas videochamadas com as
amigas que estavam no Brasil. As longas (e ainda assim curtas) madrugadas nas
quais conversávamos e jogávamos juntas, nos divertindo como se não houvesse um
oceano nos separando.
É claro que a Literatura também está no
preconceito sofrido; no medo constante de “virar estatística”; nos olhares
enviesados que eu recebia; nos comentários de ódio velado, e nos explícitos
também; nas situações perigosas e no medo de procurar ajuda e não ser ouvida
(ou coisa pior). O que quero dizer com tudo isso? Que a Literatura é algo que
vai muito além dos livros em uma livraria.
Querer limitar a Literatura a um punhado de
autores ou a livros específicos é talvez o que de mais presunçoso que possa se
fazer. Uma ostra pode produzir uma pérola, mas é apenas um pequeno ponto na
imensidão de diversidade que forma o oceano. É claro que as pérolas são mais
valiosas que uma sardinha, mas ninguém está tentando comer uma pérola ou fazer
um colar com uma sardinha. Ambos são úteis de sua própria maneira. E, é em tal
vastidão que também se espelha a Literatura.
A Literatura existe em cada ser humano, em
cada pessoa que tenha uma história para contar (e toda história merece ser
contada). Todo dia praticamos Literatura nas rotinas, nos vícios, nas alegrias,
nas tristezas, nos pequenos gestos e nos chamados para a aventura. Somos seres
narrativos, portanto nossa mera existência é literária, nossa vida é um livro
de páginas invisíveis. Nossas vivências influenciam como lemos histórias, mas
também como as contamos.
Todo livro merece ser escrito e toda
Literatura merece ser vivida.
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Amanda Vital é Mestre em Teoria Literária pelo Centro
Universitário Campos de Andrade, é escritora e designer freelancer. Possui dois
livros publicados pela Editora Viseu: Amores Inocentes (2023) e Drinque Doce e
Amargo (2023), e participação em diversas antologias.
