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sexta-feira, 3 de julho de 2026

 VIVA A LITERATURA

 

Amanda Vital


Créditos da imagem: OPENAI. ChatGPT. Gerada em: 12 de junho 2026. Disponível em: https://chat.openai.com


Quando me foi pedido para escrever sobre a minha vivência com a Literatura, admito que pensei em desistir. Como falar sobre algo que permeou a maior parte da minha vida? Como reduzir um conceito tão complexo em apenas alguns parágrafos? Como capturar a imensidão invisível da luz em um pequeno prisma?

Sou capaz de fazer isso? Definitivamente não. Mas, talvez eu não precise. Por que eu deveria tentar definir o indefinível? O que quero dizer? Bem, se a Literatura sempre esteve presente em minha vida, então por quê pensei em falar dela como conceito e não como o que a Literatura realmente é? Uma parte da existência humana.

Eu poderia começar explicando como a Literatura me foi apresentada quando eu ainda era bastante jovem; ou das incontáveis idas a bibliotecas; da quantidade levemente problemática de dinheiro deixada em sebos; da coleção de impressos que ocupa mais espaço que minhas roupas. Tudo isso faz parte da Literatura em minha vida, mas não é assim que pretendo contar essa história.

Quero começar minha memória pelo período que eu gostaria de esquecer: o um ano e meio em que morei em Portugal, na cidade do Porto para ser exata. Estaria mentindo se dissesse que tudo foi horrível (afinal, a pior das tempestades ainda consegue formar um arco-íris). Mesmo assim, foi um período para mim com mais tristezas do que alegrias. Apesar de tudo, a Literatura ainda se fez presente em minha vida.

Para aqueles que não sabem, Porto tem, a que é considerada, a livraria mais antiga do mundo. Ironicamente, apesar de ter morado na cidade por um ano e meio e considerar a Literatura como parte bastante definidora de quem eu sou, nunca visitei aquela livraria. Queria ter algum motivo legítimo para justificar essa ausência, mas a verdade é que… Precisa pagar entrada e eu sou mão de vaca, não me julguem!

Então, se eu nunca estive nessa livraria tão importante para história da Literatura como eu pretendo falar (ou escrever) sobre Literatura? Muito simples. Não falando sobre a livraria. A Literatura não está apenas na livraria. Está nos domingos nos quais eu e minha vizinha comíamos pizza enquanto bebíamos cidra de maçã (ela dizia que a de melancia era melhor, mas nunca achei para comprar) e ouvíamos música alta para incomodar as vizinhas fofoqueiras da casa ao lado.

A Literatura está em uma tarde no shopping, um filme ruim no cinema e fazer compras de Natal com uma pessoa especial. Gestos pequenos de afeto que eu interpretei como mera amizade, incapaz de ver a reciprocidade do que eu também sentia. Não na livraria, mas no brilho dourado do rio ao final da tarde e na alegria de dividir doces com uma amiga depois de um dia passeando pela cidade.

A Literatura está nas videochamadas com as amigas que estavam no Brasil. As longas (e ainda assim curtas) madrugadas nas quais conversávamos e jogávamos juntas, nos divertindo como se não houvesse um oceano nos separando.

É claro que a Literatura também está no preconceito sofrido; no medo constante de “virar estatística”; nos olhares enviesados que eu recebia; nos comentários de ódio velado, e nos explícitos também; nas situações perigosas e no medo de procurar ajuda e não ser ouvida (ou coisa pior). O que quero dizer com tudo isso? Que a Literatura é algo que vai muito além dos livros em uma livraria.

Querer limitar a Literatura a um punhado de autores ou a livros específicos é talvez o que de mais presunçoso que possa se fazer. Uma ostra pode produzir uma pérola, mas é apenas um pequeno ponto na imensidão de diversidade que forma o oceano. É claro que as pérolas são mais valiosas que uma sardinha, mas ninguém está tentando comer uma pérola ou fazer um colar com uma sardinha. Ambos são úteis de sua própria maneira. E, é em tal vastidão que também se espelha a Literatura.

A Literatura existe em cada ser humano, em cada pessoa que tenha uma história para contar (e toda história merece ser contada). Todo dia praticamos Literatura nas rotinas, nos vícios, nas alegrias, nas tristezas, nos pequenos gestos e nos chamados para a aventura. Somos seres narrativos, portanto nossa mera existência é literária, nossa vida é um livro de páginas invisíveis. Nossas vivências influenciam como lemos histórias, mas também como as contamos.

Todo livro merece ser escrito e toda Literatura merece ser vivida.

 

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Amanda Vital é Mestre em Teoria Literária pelo Centro Universitário Campos de Andrade, é escritora e designer freelancer. Possui dois livros publicados pela Editora Viseu: Amores Inocentes (2023) e Drinque Doce e Amargo (2023), e participação em diversas antologias.


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