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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ONDE HABITA O MEDO

 

Silvana S. Silva

 

Onde habita o medo

Autor: Tai
Desenhos: Niil
HQ brasileira ambientada na região Norte do Brasil

 

O cheiro de rio e o peso do silêncio

A história começa com aquele alívio gostoso de quem volta para casa. Kauê deixa a bagunça de Belém para trás e entra no ritmo do rio. A gente quase consegue sentir o vento úmido no rosto e aquele sol alaranjado que só existe no Norte, batendo na pele enquanto ele chega à casa dos avós.

É um começo que abraça: tem o cheiro do café coado, o estalar do chão de madeira e aquela paz de estar com quem a gente ama. Dá vontade de morar dentro dessas primeiras páginas.

Só que, conforme o dia cai, esse aconchego vai ficando meio estranho. Sabe quando você sente que tem alguém te olhando, mesmo estando sozinho? Pois é. Os desenhos mostram uma floresta que não é só mato; ela parece um bicho gigante que está ali, parado, observando.

O autor não busca assustar o leitor logo de início; ele vai plantando uma sementinha de dúvida. Entre uma história e outra contada pelos avós, você percebe que o medo deles não é superstição boba.

É um medo real, de quem conhece os segredos que o rio esconde quando a luz vai embora.

 

Onde o trauma vira monstro

Quando a noite chega de vez, o azul toma conta de tudo e o clima fica pesado, quase sufocante. Aquele papo de criança desaparecida na região deixa de ser boato e vira um desespero que dá nó na garganta.

Kauê acaba no meio de um pesadelo que mistura as lendas antigas com a dor de ver a floresta sendo maltratada. O traço do desenho aqui fica mais “sujo”, mais intenso, e você sente a aflição do menino tentando entender o que é visagem e o que é perigo de verdade.

O que mais mexe com a gente no final não é nem o monstro em si, mas o que ele representa. O “medo” ali não é um vilão de filme; é o grito de uma terra que está sendo invadida e de uma cultura que as pessoas tentam apagar.

Você fecha a HQ com um vazio no peito, meio pensativo, sentindo que o verdadeiro horror não está nas sombras da mata, mas no que o ser humano é capaz de destruir.

É uma leitura que não sai da cabeça facilmente; ela fica ali, cutucando, lembrando que a floresta tem memória e que o medo, às vezes, é a única coisa que sobra quando a gente perde as raízes. 


 

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Silvana S. Silva é graduada em Ciências Econômicas, com especialização na área de Negócios Digitais. Atua como tradutora de francês e inglês, desenvolvendo atividades relacionadas à comunicação e à mediação linguística. Atualmente, dedica-se ao estudo e à aplicação de ferramentas de Inteligência Artificial no cotidiano, buscando ampliar conhecimentos e explorar novas possibilidades de uso dessas tecnologias em contextos profissionais e pessoais.



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