QUANDO O MEDO GANHA NOVAS CORES: UMA EXPERIÊNCIA DE LEITURA DE LÁ VEM O HOMEM DO SACO COM CRIANÇAS DO INFANTIL
Capa da obra Lá vem o Homem do Saco e ilustração do desfecho da narrativa. Fonte: Rennó (2013) e Editora FTD (2025).
"Ele vai pegar alguém?"
A pergunta surge quase em um sussurro enquanto pequenas mãos apontam
para a imagem de um homem caminhando lentamente, carregando um grande saco nas
costas. Os olhos das crianças percorrem a página em busca de respostas. Algumas
observam as janelas das casas; outras reparam nos personagens escondidos nos
umbrais. Há silêncio, expectativa e uma certa apreensão no grupo.
Antes mesmo que qualquer palavra seja dita, a imagem já contou uma
história. O homem de aparência misteriosa, o cenário em tons acinzentados, a
atmosfera sombria e os olhares assustados das personagens ilustradas despertam
nas crianças uma sensação conhecida: o medo diante do desconhecido.
Mas, essa história ainda guarda uma surpresa. O que parece ameaçador
revelará algo inesperado. O que provoca medo carregará música. O Homem do Saco,
personagem tão presente no imaginário popular brasileiro, ganhará novas cores
diante do olhar curioso das crianças.
1. O Homem do
Saco: uma memória do folclore brasileiro
As histórias populares fazem parte da memória cultural de um povo.
Transmitidas principalmente pela oralidade, elas atravessam gerações,
carregando costumes, valores, ensinamentos e também os medos construídos
socialmente.
O Homem do Saco é uma dessas figuras que permaneceram vivas no
imaginário brasileiro. Sua imagem foi, durante muito tempo, associada ao
desconhecido e utilizada pelos adultos como forma de alertar as crianças sobre
perigos ou comportamentos considerados inadequados. Para Luís da Câmara Cascudo
(2006), o folclore não é algo parado no tempo; ele se transforma conforme as
sociedades recriam suas narrativas. As histórias populares permanecem vivas
porque cada geração encontra nelas novos sentidos. É justamente esse movimento
que acontece em Lá vem o Homem do Saco, de Regina Rennó (2013). A autora
retoma um personagem conhecido da tradição popular, mas o apresenta por uma
perspectiva diferente: a narrativa não confirma o medo inicialmente associado a
essa figura, mas convida o leitor a olhar novamente.
A obra é construída exclusivamente por imagens. Não há palavras
conduzindo o caminho do leitor. São as cores, os gestos, os espaços, as
expressões dos personagens e a sequência visual que constroem a narrativa. Nesse tipo de livro, a criança não ocupa
apenas o lugar de quem recebe uma história. Ela torna-se participante da
criação narrativa. Como destacam Nikolajeva e Scott (2011), o livro de imagens
possui uma linguagem própria, na qual os elementos visuais assumem função
narrativa. Cada detalhe pode revelar informações, sugerir emoções e provocar
interpretações.
2. Ler imagens:
quando a criança também se torna autora da história
Durante a leitura compartilhada com crianças do Infantil 5, percebeu-se
que o silêncio das páginas não significava ausência de narrativa. Pelo
contrário: ele abriu espaço para muitas histórias possíveis. Ao observar o
Homem do Saco caminhando pelas páginas iniciais, as crianças começaram a
construir suas próprias interpretações.
— "Ele está indo pegar alguém."
— "As pessoas estão escondidas, porque ele é mau."
— "Eles estão com medo dele, ele rouba crianças."
As falas revelavam que as crianças compreendiam não apenas aquilo que
estava representado, mas também os sentimentos presentes na cena em virtude de
repertório já pré-existente em seu imaginário. Elas percebiam o medo nas
personagens desenhadas. Percebiam a distância entre o homem e aqueles que o
observavam. Percebiam o clima de suspense criado pelas imagens. A leitura
acontecia pelo olha enquanto as expressões e as mais variadas falas, apresentavam
a interpretação do texto visual.
Segundo Wolfgang Iser (1996), toda experiência de leitura envolve a
participação do leitor, que preenche espaços deixados pela obra e constrói
sentidos a partir de sua própria experiência. Em um livro-imagem, esse processo
torna-se ainda mais evidente, pois as lacunas são preenchidas pela imaginação
daquele que observa.
As crianças não estavam apenas vendo imagens. Elas estavam
interpretando. Estavam criando possibilidades. Estavam lendo e interpretando
através do imaginário.
3. Entre o medo
e a curiosidade: o segredo dentro do saco
O grande saco carregado pelo personagem torna-se o centro da
expectativa.
— O que haveria ali dentro?
A cada página, novas hipóteses surgiam.
— "É uma bola!"
— "É um carrinho!"
— "É um boné!"
— "Tem algum brinquedo!"
O medo inicial começa a dividir espaço com a curiosidade. Esse movimento
é fundamental na experiência literária infantil. A criança não precisa eliminar
o medo para continuar lendo; ela aprende a conviver com ele, compreendendo que
a narrativa pode oferecer diferentes caminhos.
Bruno Bettelheim (2007), ao estudar os contos tradicionais, demonstra
que histórias envolvendo conflitos e personagens assustadores possibilitam à
criança elaborar simbolicamente sentimentos e situações difíceis. A literatura
oferece um espaço protegido para experimentar emoções e encontrar novos
significados. Em Lá vem o Homem do Saco, esse processo acontece pela
própria descoberta da imagem. Uma pequena ponta vermelha aparece.
Um detalhe aparentemente simples transforma toda a expectativa
construída até aquele momento. A curiosidade vence o medo. As crianças querem
descobrir, e a próxima página revela o inesperado.
4. A música que
transforma a paisagem
Dentro do saco não existe aquilo que as crianças imaginavam.
— Não há ameaça.
— Não há perigo.
— Há uma gaita.
O personagem que parecia assustador revela-se alguém que carrega música.
Nesse instante, a narrativa visual se transforma. As páginas antes dominadas
pelos tons cinzentos começam a revelar novas cores. O ambiente ganha movimento.
As personagens deixam seus esconderijos. Os rostos antes apreensivos passam a
expressar alegria. A música modifica a paisagem.
E modifica também o olhar das crianças sobre aquele personagem. Aquele
que antes era visto como ameaça passa a ser compreendido como alguém capaz de
proporcionar encontro e felicidade. Essa transformação evidencia a força da
imaginação. Para Bachelard (1993), a imaginação poética não apenas reproduz o
mundo, mas cria novas possibilidades de percebê-lo.
A literatura faz exatamente isso: permite que vejamos novamente aquilo
que acreditávamos conhecer. O “Homem do Saco” deixa de ser apenas o personagem
do medo contado pelas gerações anteriores e torna-se, na experiência das
crianças, aquele que traz música.
5. A infância
como espaço de criação de sentidos
A experiência com Lá vem o Homem do Saco revela que a criança é
leitora desde muito antes de dominar a escrita convencional.
— Ela lê imagens.
— Lê expressões.
— Lê cores.
— Lê silêncios.
A leitura visual desenvolvida na Educação Infantil contribui para a
formação estética e narrativa das crianças, pois permite que elas criem
relações, formulem hipóteses e desenvolvam sua capacidade interpretativa. Como
afirma Teresa Colomer (2017), o contato com a literatura desde os primeiros
anos favorece a construção da competência narrativa e amplia o repertório
cultural infantil.
Mais do que ensinar uma história, a literatura possibilita uma
experiência. No encontro com essa obra, as crianças aprenderam que nem tudo
aquilo que parece assustador realmente representa perigo. Aprenderam que uma
aparência pode esconder outras possibilidades. Aprenderam que uma história
conhecida pode ganhar um novo final. E talvez seja esse o maior encanto da
literatura infantil: permitir que o mundo seja visto novamente.
O “Homem do Saco”
carregava uma surpresa. As crianças carregavam imaginação. E, entre páginas
cinzentas que lentamente ganharam cor, nasceu uma nova forma de olhar para uma
antiga história.
REFERÊNCIAS
BACHELARD, Gaston. A
poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
BETTELHEIM, Bruno. A
psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007.
CASCUDO, Luís da Câmara.
Literatura oral no Brasil. São
Paulo: Global, 2006.
COLOMER, Teresa.
Introdução à literatura infantil e juvenil atual. São Paulo: Global, 2017.
ISER, Wolfgang. O ato da
leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Editora 34, 1996.
NIKOLAJEVA, Maria; SCOTT, Carole. How
Picturebooks Work. New York: Routledge, 2011.
RENNÓ, Regina. Lá vem o Homem do Saco. São Paulo: Companhia das
Letrinhas, 2013.
VAN DER LINDEN, Sophie.
Para ler o livro ilustrado. São Paulo: Cosac Naify, 2018.
ZILBERMAN, Regina. A
literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 2003.
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Ligia Fernanda Giorgia
de Oliveira Klein é mestra em Teoria
Literária pela Uniandrade. Integra o Grupo de Estudos em Teoria da Complexidade
da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e atua como voluntária da Federação
Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS) e no Ministério de Surdos
Neemias.
