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domingo, 10 de outubro de 2010

Baile perfumado revisita Lampião: realidade, ficção e revisão de um mito construído pela História

Prof.ª Dr.ª Verônica Daniel Kobs



Em 1997, veio a público o filme Baile perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. A produção foi a grande vencedora do Festival de Cinema de Brasília, conquistando, inclusive, o prêmio de melhor filme. A história contada não é a de Lampião, mas a de Benjamin Abrahão Botto, libanês que se naturalizou brasileiro, depois de mudar-se definitivamente para cá, para fugir da convocação para lutar na Primeira Guerra Mundial. No entanto, na trajetória desse personagem havia vários pontos que o relacionavam a Lampião e a seu bando, além de constituírem um rico material para um roteiro cinematográfico.
[...].




                                              
A princípio, qualquer tipo de registro histórico parece ser relacionado mais à permanência do que à mudança, afinal, depois de fazer parte da História, o fato fica ali, imóvel, até que surja alguém que retome aquele fato histórico e motive novas percepções, novas formas de leitura e compreensão. Benjamin Abrahão Botto conseguiu seu intento. Ele registrou um pedaço da História de Lampião e seu bando, que mudaram o mundo de muitos, e, muitos anos depois, ajudou Paulo Caldas e Lírio Ferreira a mudar o mundo construído em torno do mito do rei do cangaço. Em Baile perfumado, Lampião não deixa de ser mostrado como mito. Ele apenas tem enfatizado seu outro lado. O mesmo jogo de luz e sombra perpassa o personagem do fotógrafo. Comumente, Abrahão é lembrado pelo material iconográfico riquíssimo que produziu, mas pouco se fala sobre sua luta para pôr em prática seu projeto artístico-histórico. Todos comentam o que ele fez, mas, afinal, quem foi ele mesmo?
            Baile perfumado sugere uma nova perspectiva, para desinvestir o mito da autoridade que, habitualmente, esse carrega, a fim de possibilitar uma revisão. No entanto, essa mudança só é possível, pela estrutura escolhida para a apresentação da história. Nesse plano mais formal, destaquem-se o modo indireto de reacender a discussão sobre o papel do cangaço, na sociedade brasileira, e a associação entre imagem e som, inclusive com o privilégio da música, detalhe que não pode passar despercebido, já que a trilha sonora inclui a participação dos principais nomes do movimento mangue beat.
            Na primeira cena de Baile perfumado em que aparecem Lampião e seu bando, o som de Chico Science é indício valioso do que está por vir. A “batida” do mangue dialoga com a filosofia do cangaço, no que se refere à luta social, contra a miséria e pela esperança de mudança, e dialoga com o filme de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, pela valorização do aspecto regional e da cultura de raiz, para “modernizar o passado”, e pela fusão de estilos e elementos, que, no filme, fica muito bem representada pela alternância constante entre passado e presente. O híbrido e o novo são celebrados, mas sem esquecer o tradicional. Dentre os nomes que compõem a trilha sonora de Baile perfumado, Fred Zero Quatro, com a banda Mundo Livre S/A, e Chico Science, à frente da Nação Zumbi, estabeleceram um novo conceito pop.
            A relação entre modernidade e tradição foi explicitada, através do símbolo do movimento: uma antena parabólica enterrada na lama dos manguezais. Lançado em 1992, com o manifesto Caranguejos com cérebro, o mangue beat exigia “a percepção da diversidade cultural existente” e privilegiava “a fusão de ritmos, maracatus, repentes e cantigas de roda com rock, rap e dance music”. (LEAL, 2006, p. 3). Até aqui, há provas suficientes da convergência entre Baile perfumado e o movimento pernambucano dos anos 90, mas a prova irrefutável associa-se mais ao tema que à estrutura:


A cena mangue traz também um resgate de manifestações folclóricas de Pernambuco e nordestinas, tomando como referências figuras históricas como Zumbi, Lampião e Antônio Conselheiro, numa clara tentativa de resgate da identidade histórica. (LEAL, 2006, p. 3).


              Aí aparece Lampião, e não à toa, pois, se o objetivo dos “caranguejos com cérebro” era fazer revolução, nada melhor do que evocar alguns dos ícones revolucionários importantes de nossa História. Aliás, várias retomadas como essa, ao longo de décadas, acabaram contribuindo para a construção da heroicidade de alguns personagens históricos pelo movimento mangue beat. Ressalte-se que o apelo popular permitiu a reescrita da História, afinal, de “subversivos”, “revoltosos” ou “marginais”, todos os exemplos aqui citados foram conquistando, aos poucos, o reconhecimento oficial. Dessa forma, hoje, os “heróis” do passado interferem no presente e, em troca, o presente lança um novo olhar sobre o passado, o que equivale, respectivamente, a outro movimento de reciprocidade: “da lama ao caos” e “do caos à lama”.


(Trecho do artigo publicado pela Prof. Verônica Daniel Kobs, na revista Todas as musas, em julho de 2010. Para ler o texto na íntegra, acesse: http://www.todasasmusas.org/03Veronica_Daniel.pdf)


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Pablo Neruda: “A poesia não terá cantado em vão”.

Trecho do discurso de Pablo Neruda, por ocasião do recebimento do prêmio
Nobel de Literatura (1971), traduzido pela Professora Doutora Sigrid Renaux.
 




Senhoras e senhores:
Eu não aprendi nos livros nenhuma receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso  por minha vez sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso certos acontecimentos do passado, se revivi um relato nunca esquecido, nesta ocasião e neste lugar tão diferentes ao do acontecido, é porque no curso de minha vida encontrei sempre em algum lugar a afirmação  necessária, a fórmula que me aguardava, não para enrijecer-se em minhas palavras mas para explicar-me a mim mesmo.
Naquela grande jornada encontrei as porções necessárias para a formação do poema. Ali me foram dadas as motivações da terra e da alma. E acho  que a poesia é uma ação passageira ou solene na qual entram  em medidas iguais a solidão e a solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade de si mesmo, a intimidade do homem e a revelação secreta da natureza. E acho com fé não menor que tudo está sustentado – o homem e sua sombra, o homem e sua atitude, o homem e sua poesia –  em uma comunidade cada vez mais ampla, em um exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, porque de tal maneira os une e os mistura. E digo do mesmo modo que não sei, após tantos anos, se aquelas lições que recebi ao cruzar um rio vertiginoso, ao dançar em volta de um crânio de vaca, ao lavar minha pele na água purificadora das regiões mais altas, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para comunicar-se depois com muitos outros seres, ou era a mensagem que os demais homens me enviavam como exigência ou convite. Não sei se   vivi ou  escrevi aquilo, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei naquele momento, as experiências que cantei mais tarde.
De tudo isso, amigos, surge uma lição que o poeta deve aprender dos demais homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos levam ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é preciso atravessar a solidão e a amargura, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar tropegamente  ou cantar com melancolia; mas nessa dança ou nessa canção estão consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de sermos homens e de crermos num destino comum.


IN: La poesía no habrá cantado en vano: discursos de Neruda con ocasión del Premio Nóbel de Literatura, 1971. Santiago: Libros del Ciudadano, 2001.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

UMA MARGEM DISTANTE, DE CARYL PHILLIPS: EM BUSCA DO LAR

Patrícia Bertachini Talhari 



O artigo publicado integralmente neste blog, na página "Publicação dos alunos da Uniandrade", comenta, com base nos conceitos operadores dos Estudos Culturais e Pós-Coloniais e na noção de Pós-Modernidade, a construção do romance Uma Margem Distante, de Caryl Phillips, reconhecendo-o como questionador do cânone literário tradicional. Narrativa e personagens perfazem um percurso análogo, em que deslocamento físico representa o deslocamento do sujeito: Solomon, um refugiado africano, e Dorothy, uma professora britânica, encontram-se numa cidadezinha inglesa. Ele teve que percorrer um longo e acidentado caminho desde a África; ela, uns poucos quilômetros. Ambos, entretanto, estão à margem da comunidade: ele, por ser negro e estrangeiro; ela, pela idade e hábitos excêntricos. Nessa improvável amizade, um e outro se reconhecem como iguais na procura de uma identidade, do lar e necessidade de interação humana.


Palavras-Chave: Literatura Pós-Colonial, Pós-Modernidade, Identidade.


Obs.: Patrícia B. Talhari faz parte do corpo discente do curso de Mestrado em Teoria Literária da Uniandrade.

Nau Capitânia: a história navega pela ficção





                                                    Eunice de Morais


Nau Capitânia foi um dos livros mais vendidos no ano de 2000 em todo o país, quando rendeu ao jornalista Walter Galvani o Prêmio Literário Érico Veríssimo. Em 2001, em Havana, o Instituto Casa de las Américas reconheceu Nau Capitânia como maior destaque em Literatura Brasileira, na categoria romance histórico. O júri alegou que a “obra de Galvani tem como principal mérito destacar a figura humana do descobridor Pedro Álvares Cabral”. Nau Capitânia recebeu, ainda, o prêmio Jônatas Serrano, da Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores e, confirmando sua ambigüidade, recebeu o prêmio Clio de História do Brasil, concedido pela Academia Paulistana de História[1].
Já no primeiro capítulo da obra catalogada como narrativa histórica, Pedro Álvares Cabral, ficcionalmente localizado em “Santarém, 1518”, nos conta seus sentimentos saudosistas e arrependimentos em relação à viagem de 1500. Este primeiro capítulo de Nau Capitânia aponta para uma história que abusa dos recursos ficcionais para percorrer e questionar o tempo histórico.
Ao dar voz ao personagem histórico, fazendo-o migrar do mundo da história para um mundo ficcional, Walter Galvani ficcionaliza uma narrativa que se pretende histórica e, paradoxalmente, não a destitui da “pretensão à verdade” [2] histórica. Talvez seja esta “pretensão à verdade” o que justifica o fato de a obra ter sido caracterizada como histórica, mas a análise de sua narrativa pode propor uma outra caracterização que, pela falta de termo mais apropriado, insistimos em denominar ficção histórica.
Para confirmar esta ficcionalização da narrativa, em que há a construção de uma verdade possível juntamente com uma verdade provável da história, analisaremos Nau Capitânia considerando as reflexões de Paul Ricoeur apresentadas no Tomo III de Tempo e narrativa (1994), especificamente quando trabalha sobre a “ficção e as variações imaginativas do tempo”. Neste capítulo, Ricoeur aponta como a característica mais visível que opõe o tempo histórico ao tempo fictício (que entendemos como tempo da ficção) a “libertação do narrador” quanto à obrigação imposta ao historiador de “reinscrever o tempo vivido sobre o tempo cósmico” [3]. Ora, neste sentido a ficção histórica é aporética, pois institui o tempo da história tanto quanto o tempo da ficção, mas não se assemelha a nenhum deles em particular e se apresenta como uma terceira construção temporal de caráter híbrido.


[1] Informações disponíveis em http://www.waltergalvani.com.br/opinioes.html . Acesso em 08/09/2003
[2] RICOEUR, P. Tempo e Narrativa. São Paulo: Papirus Ed., 1994. Tomos I, II e III.
[3] RICOEUR, p. 218. Tomo III


OBS.: O TEXTO COMPLETO FOI APRESENTADO E PUBLICADO EM ANAIS DO CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC/2006, REALIZADO EM PORTO ALEGRE.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

THE FIFTH SYMPOSIUM OF IRISH STUDIES IN SOUTH AMERICA : Ireland on the Screen, Stage and Page

Por: Prof.ª Mail Marques Azevedo





Date: 30, 31 August and 01 September 2010


VENUE: Federal University Of Paraná – Curitiba – BRAZIL

Rua General Carneiro, 460 - Ed. Dom Pedro I - Reitoria

The Federal University of Paraná, the Brazilian Association of Irish Studies (ABEI) and the W.B.Yeats Chair of Irish Studies of the University of São Paulo are organising a Symposium of Irish Studies which, since 2006, has gathered specialists from various associations such as IASIL, SILAS, ACIS, CAIS, EFACIS, AEDEI, BAIS.

The Fifth Symposium of Irish Studies in South America has the support of the Embassy of Ireland in Brazil. The theme, “Ireland on the Screen, Stage and Page” will include the following topics:

• Film

• Radio and TV

• Photography

• Theatre and Drama

• Fiction and Poetry

• Translation of Irish authors

• Literary criticism

• History, Politics and Economy





The keynote speakers that have confirmed their participation in the Symposium are:

• Lance Pettitt (Metropolitan University, Leeds)

• Emer Nolan (National University of Ireland/Maynooth)

- Angus Mitchell (Historian and editor of The Amazon Journal of Roger Casement)

• Maureen Murphy (Hofstra University, New York)

• Luz Mar González Arias (University of Oviedo, Spain)

• Paulo Eduardo Carvalho (University of Porto, Portugal)

• Irish poet Eiléan Ní Chuilleanáin

• Irish film-maker John T. Davies

- Irish poet Macdara Woods



Individual Papers of 20 minutes and panels of three or four participants are invited on the topics above. Proposals are welcomed across disciplines, from scholars of languages and literatures, geography, history, psychology, sociology, economy, politics and other fields. Send an abstract of 200 words by email to:

Dr. Beatriz Kopschitz Bastos abeibrasil@yahoo.com.br Please include a short biodata, full address, institution affiliation, day telephone, fax and email address. Abstracts may be submitted in English, Portuguese or Spanish and should be sent no later than 15 June 2010.



The venue will take place in the city of Curitiba, Paraná State, Brazil. If you wish to attend the symposium without presenting a paper, please register by 10 August 2010.

Chair: Laura Izarra, Munira H. Mutran & Lance Pettitt.

Local Committee: Célia Arns de Miranda (UFPR); Liana de Camargo Leão (UFPR); Luci Maria Collin Lavalle (UFPR); Ana Stegh Camati (UNIANDRADE); Brunilda Tempel Reichmann (UNIANDRADE), Mail Marques de Azevedo (Uniandrade), Cristiane Busato Smith (UTP).

For extra information visit:

http://irishstudies.webs.com/fifthsymposium2010.htm







Observação: As inscrições para participação sem apresentação de trabalhos podem ser feitas até o inicio das atividades.

sábado, 14 de agosto de 2010

INCONSTÂNCIAS E REPRESENTAÇÕES DO FEMININO NAS OBRAS DE HILDA HILST E FRIDA KAHLO



Verônica Daniel Kobs


          Elaine Showalter considera a arte das mulheres “um ‘discurso de duas vozes’ que personifica sempre as heranças social, literária e cultural tanto do silenciado quanto do dominante.” (SHOWALTER, 1994, p. 50). Para a autora, essa posição “inconstante”, volúvel e aparentemente contraditória não é mera característica da produção artística feminina; ela é inevitável e possibilita o engendramento de uma nova perspectiva da questão dos gêneros. A “primeira voz” é responsável pela retomada dos estereótipos, e, no momento seguinte, a “segunda voz” encarrega-se de subvertê-los, em uma clara crítica às qualidades e às funções que a sociedade patriarcal associa ao feminino e ao masculino.
          Frida Kahlo, em O ônibus, exemplifica bem esse processo. Em meio aos passageiros retratados na tela, três mulheres chamam a atenção. Seus perfis são totalmente diferentes e, da esquerda para a direita, relacionam-se às seguintes representações: dona de casa, mãe e socialite.  




O ônibus (1929), de Frida Kahlo

É inegável a conformidade das representações femininas de Frida Kahlo em relação ao gendramento. No entanto, a pintura separa o que a convenção costuma agregar em um mesmo perfil. Evidentemente, isso não quer dizer que a pintura expresse uma visão excludente e redutora do gênero feminino. A tela investe na contradição da expectativa ufanista de que a mulher deve, obrigatoriamente, desempenhar com perfeição todos os papéis que lhe são impostos pela sociedade. A separação proposta no quadro não deixa de celebrar a multiplicidade, mas acrescenta a importância da individualidade e da liberdade de ser, mas em medidas diferentes, e talvez até de deixar de desempenhar, por convicção, um dos papéis geralmente atribuídos ao gênero feminino. De modo sutil, reclama-se do preconceito e da falta de opção, já que a recusa a uma das características impostas constitui uma falta grave, para a visão androcêntrica.
Hilda Hilst, ao se debruçar sobre as mesmas questões, carrega no tom cômico e critica mais fortemente o gendramento. Em Fluxo-floema, há vários exemplos da paródia que a autora faz dos comportamentos atribuídos ao feminino e ao masculino. O primeiro é perceptível nos perfis dos protagonistas, Osmo e Mirtza:


Aí, eu falava, falava, e nas primeiras noites ela ouvia o que eu falava, depois ela queria fazer amor e eu fazia amor direitinho e tudo o mais, mas eu queria continuar falando depois. Depois de fazer amor. Aí, ela não me ouvia mais. Comecei a compreender que a Mirtza só me ouvia antes de fazer amor, e então pensei: essa mulher é uma vaca [...]. (HILST, 1970, p. 75)


Mas, meses depois, Mirtza viaja para a Índia e, quando volta, Osmo comenta: “Achei que a Mirtza voltou bem disposta, um pouco bem disposta demais, talvez, e o que me aborreceu seriamente: já não me ouvia nem antes nem depois.” (HILST, 1970, p. 75). Nesses fragmentos, a característica de falar demais, mais associada às mulheres, é dada ao homem. Dessa forma, os papéis se invertem e, no jogo da sedução, não é mais o homem, mas a mulher que ouve, apenas por obrigação, tudo o que o homem diz, a fim de alcançar sua tão esperada recompensa: o sexo. Osmo, porém, percebe o artifício de Mirtza, assim como se dá conta de que ela voltou mudada da viagem. No entanto, ele não sabe dizer por que ela não o ouve mais, “nem antes, nem depois”.
          Em outro texto do mesmo livro, Hilda Hilst desconstrói o mito da beleza feminina, ao apresentar o desabafo de uma personagem que revela o quanto era difícil estar sempre bonita, alegre e saudável, diante do parceiro. Em sua revolta, ela fala: “[...] que vontade enorme de soltar a barriga, [...] de dizer que eu tenho flebite (ah, é?) e que as minhas pernas doem quando eu faço o amor.” (HILST, 1970, p. 128). Esse trecho demonstra bem as obrigações impostas pelo gendramento, bem como evidencia o cansaço e a dificuldade de o personagem feminino obedecer a elas.


(Parte do trabalho a ser apresentado no IV Seminário de Estudos  Linguísticos e Literários da Fafipar, em Paranaguá (PR), no dia 17/08/10. O texto completo será publicado nos anais do evento.)
         


sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A CONSTRUÇÃO DO HERÓI NO ROMANCE BOCA DO INFERNO Por: Eunice de MORAIS (UNIANDRADE)





O romance histórico biográfico Boca do Inferno (1989), de Ana Miranda, apresenta uma interpretação sobre a obra de Gregório de Matos e Guerra e sobre os diversos relatos biográficos, de caráter histórico, publicados. A autora faz circundar, no enredo, fatos comprometidos com a história abordados através do discurso ficcional que possibilita o detalhamento narrativo, nem sempre encontrados no discurso histórico. Ou seja, os fatos que podem ser comprovados por documentos históricos vêm no romance repletos de pormenores que fazem dos episódios históricos cenas passíveis de visualização pelo leitor.
Há no romance, por exemplo, representações de personagens históricos como o Padre Vieira e o então governador da Bahia, Antônio de Souza Menezes, além de referências a intelectuais da época como Rocha Pita, Bento Teixeira e Ambrosio Fernandes Brandão que ajudam a compor o cenário histórico; e há também personagens que, como figurações do ser, são invenções da autora. Estes surgem a partir da pesquisa sobre a realidade contemporânea ao tempo da narrativa (século XVII). Por outro lado, há o relato de um crime, previsto por biografias não literárias – como, por exemplo, A vida espantosa de Gregório de Matos (1983), de Pedro Calmon – apresentado desde o seu planejamento até sua efetivação. O detalhamento ficcional do episódio revela exatamente por quem, quando, onde e como foi cometido o crime, diferenciando, pelo visualismo da cena narrada, o texto romanesco do histórico. É também nesta relação entre o ficcional e o histórico que se descobrem as possíveis leituras e o posicionamento da autora em relação à interpretação histórica da vida do poeta em diferentes épocas.
Deste modo, a focalização deste trabalho é a construção da personagem Gregório de Matos no romance Boca do Inferno, considerando as relações entre a autora, enquanto pesquisadora da vida e da obra do poeta, e o herói biografado ficcionalmente. Neste romance, a autora não coincide e nem se aparenta com o herói, mas o reconstitui e configura, baseando-se em pesquisa aprofundada sobre documentos acumulados desde o século XVIII, quando foi escrita a primeira biografia do poeta.  A autora revela a atenção dada também às biografias mais recentes e a textos que esclarecem cientificamente a ambientação histórica e social do país, principalmente na região da Bahia. (...)


Excerto do trabalho de pesquisa a ser apresentado no IV SELLF, (Seminário de Estudos  Linguísticos e Literários da Fafipar) em Paranaguá/PR, a ser realizado de 16 - 20/08/2010. O texto completo será publicado em anais do evento.