VOCÊ JÁ TOMOU UM BANHO DE INDÚSTRIA?
Álvaro Divardin
Em dezembro, fui ao Cine Guarani, que é da
Fundação Cultural de Curitiba: sala boa, som ótimo, estacionamento bom, fácil
de chegar e ingresso convidativo. Só faltou a pipoca — fica aí a dica.
O filme que assisti foi O Agente Secreto, de Kléber Mendonça, com Wagner Moura no papel de
Armando (ou Marcelo). Também tem a dona Sebastiana, papel da divertida Tânia
Maria, de 79 anos, que já tinha sido figurante em filmes do Kleber Mendonça e
agora atua em um papel de coadjuvante. Especialistas afirmam que há
possibilidade de uma indicação ao Oscar. Kléber e Wagner levaram melhor diretor e ator em
Cannes.
Curioso: quando tive a oportunidade, fui
assistir e tudo o que li se comprovou. O filme é ótimo, a história é
instigante, um thriller fantástico. Fui esperando ver um "Ainda Estou
Aqui", mas é diferente. A semelhança é o ambiente da ditadura em 1977,
assunto fundamental para nunca esquecermos dessa chaga da nossa história.
Wagner Moura faz respirarmos junto com ele,
desde a cena inicial no posto de gasolina. Nos exaltamos na briga no bar, até o
momento em que descobrimos o desfecho de Marcelo. Fiquei desapontado, mas
depois compreendi que era o necessário para a história. É a Divina Comédia. Me
identifiquei com o Marcelo: professor e chefe de departamento na UFPE, cabelos
longos, barba por fazer e roupa casual. Em certo momento, Marcelo vai ao
aeroporto de Recife receber Ghirotti, "filhote" da ditadura,
burocrata da Eletrobrás que vai à UFPE para fechar o departamento.
Chegando em Recife, decepcionado com o visual
do professor, o vilão ataca: "você precisa tomar um banho de
indústria". Sei o que o Marcelo sentiu. Certa vez, um gestor falou para
mim: "aqui você vai precisar ter postura executiva e não usar mais tênis
de corrida". Ouvi, refleti, ponderei e continuo com o meu Mizuno no pé.
Muito mais confortável.
A vida tem que ser leve!
Créditos da imagem: Imagem fornecida pelo
autor.
“Sempre gostei de cinema de rua. Lembro-me de ver Ghost no Lido; De Volta para o Futuro no Condor; e Os Trapalhões no Vitória. Só não fui ao Glória, pois um menino pudico como eu não poderia entrar em uma sessão daquelas (risos).” (Álvaro Divardin)
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Álvaro Divardin é jornalista que não se condissera como um
cinéfilo, mas um espectador médio que gosta de boas histórias.
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