VITRINE COM SEGURO DE IPVA
Rubens Gomes Corrêa
Crédito
da imagem: Imagem cedida pelo autor.
Comprei um tênis porque “é só um tênis que eu quero.” Digo isso alto, para
mim e para o vendedor, como se a frase tivesse peso e segurasse a vergonha.
É só um tênis. Ele sorri com a etiqueta colada no ar, e desenha no rosto a cifra
do preço. A etiqueta me devolve outra verdade, não é só um tênis. É uma
assinatura que exige proteção, seguro, nota fiscal, declaração de valor moral.
Quando o preço bate na mesa, penso: vai ficar um pouco mais caro, porque
vou ter que fazer um seguro. Faz sentido. Tudo que brilha demais pede
apólice. Tem coisas que, de tão caras, deviam vir com emplacamento, pagar IPTU,
IPVA. Onde vamos parar com esses valores? Em lugar nenhum, porque parar é
reconhecê-los. Melhor continuar o desfile puxando o cartão de crédito. -
10 vezes.
Se eu não puder comprar o mais caro, 25 de Março ou o Paraguai está ali,
igualzinho, versão pirata, quinhentos reais e com a mesma promessa, fazendo todo mundo pensar que você pagou R$11.791,00
numa grife de luxo italiana Zegna que algum magnata que recebe de salário nos
seus R$46.366,19.
A diferença não está no couro ou na sola, mas no contrato social que aceita
a farsa. Somos crianças com brinquedos de adulto, fingir é brincar de existir.
É uma exposição calculada, o tênis é selfie, a rua é feed, o peito inchado de
ar condicionado é academia, o sorriso é filtro.
A exposição do “eu” virou esporte. Sibilia chamaria isso de espetáculo do
sujeito, a vida transformada em vitrine. A academia é o altar, o espelho, o
confessional. Se mostrou, logo existe. Se curtiu, validou-se. A beleza em
excesso não é desejo, é política, molda corpos, ordena olhares, distribui
elogios como troféus. Cada forma é meticulosamente apresentada, cada luz é
pensada para o ângulo perfeito. Os ambientes se tornam cenários. O quarto
é set, a rua, plateia. Você não só se veste, você monta uma cena.
Eu me idiotizei do que eu não sei quem eu sou. Preciso fingir para que você
me atribua um valor que eu não tenho e eu me sinta feliz pelo que você pensa. E
à noite, a cabeça no travesseiro pesa com a estupidez social que nos
engoliu. A felicidade do engano é barata e tem prazo de validade, dura o
tempo da notificação. Depois, o vácuo. A máscara fica grudada.
A neurose do consumo é um discurso que repete, mais, mais, mais. Ele não se
satisfaz, ele se reproduz. Compramos imagens para preencher a falta de uma
consistência íntima.
A pessoa que se monta diariamente em frente à lente é tanto atriz quanto
dramaturga de si mesma. Selfies são pequenos testamentos, provas de que eu
existo aos olhos que eu quero. O like é absolvição. O comentário é
confissão. Somos juízes e réus do próprio espetáculo.
Apelo para uma passagem típica de aforismo e de esquina, sem pretensão
mística, mas com a mesma vocação de julgamento: “Já não sou o que penso ser,
minha vida é o que os outros assinam.” Não é maniqueísmo. É diagnóstico. O
problema não é enfrentar dificuldades exteriores, é compreender se eu sei quem
eu deveria ser. Se estou onde deveria estar. Se cumpro o que devo, ou se apenas
coleciono etiquetas.
A questão é elementar e cruel. O que vale? Será que viver é somar
aquisições ou somar momentos? Será que a autenticidade cabe num mostruário? A resposta
não é coletiva, é íntima. Não adianta o show se, por dentro, a corda está
solta. O que salva não é o tênis, nem o selo, nem a melhor luz. O que salva é
ter uma razão para estar no mundo que não precise de audiência. E então resta a
escolha, continuar se expondo para ser visto ou desmontar o cenário e se ver. Arrancar
filtros, calçar o que for preciso sem considerar o aplauso. Não é milagre nem
penitência, é prática. Praticar a própria presença. Alguns chamariam isso de
rebelião silenciosa, outros, de desinteresse. Eu chamo de economia radical,
investir na integridade.
Volto à vitrine do shopping com meu “só um tênis” e observo. O vendedor
repete gestos aprendidos, eu repito frases antigas. Do lado de fora, o mundo
inventa mais demandas. No espelho do provador, uma última imagem do tênis sobre
o chão imaculado.
Nada nele promete salvação. Promete, apenas, a sensação passageira de caber num lugar onde se exige que sejamos aquilo que compramos. Se isso não for suficiente, que se dane a vitrine. Prefiro, talvez pela primeira vez, calçar os sapatos de andar mais devagar.
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Rubens Gomes Corrêa é doutorando em Teoria Literária na UNIANDRADE,
Mestre em Assistência (UFPR) e Licenciado em Enfermagem (PUCPR). Possui MBA em Gestão
do Conhecimento na Educação Superior e especializações nas áreas de Educação e
Saúde. É professor do Instituto Federal do Paraná e autor de 26 livros
publicados.

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