UMA
PROFESSORA, UMA SEMENTE E MUITAS VOZES:
OS CAMINHOS
ENTRE A LITERATURA E A DOCÊNCIA
Jaqueline Maria de Oliveira
Créditos da imagem: OPENAI. ChatGPT. Gerado em: 16 de outubro 2026. Disponível em: https://chat.openai.com
Há professores que passam
por nossas vidas e há aqueles que permanecem em nós, mesmo muitos anos depois
de deixarmos suas salas de aula. Neste Dia dos Professores, revisito uma
experiência que marcou minha trajetória e me fez compreender como determinadas
práticas pedagógicas podem produzir sentidos que ultrapassam o tempo escolar. Sempre
gostei de estudar, embora a Língua Portuguesa nem sempre tenha sido minha
disciplina favorita. Essa relação começou a mudar, quando encontrei uma
professora que transformou minha experiência com a linguagem.
Desejando nos preparar para os desafios do Ensino Médio, ela propunha atividades pouco comuns à nossa rotina: declamação de poemas, jornal falado e apresentações em público. Queria que aprendêssemos a nos expressar sem que o medo nos paralisasse. Na época, eu não imaginava que aquelas experiências se tornariam tão significativas para minha vida profissional. Hoje, reconheço naquela professora a origem de um interesse que se aprofundaria ao longo de minha formação: o trabalho com a oralidade e os gêneros poéticos. A experiência em sala de aula evidenciou a necessidade de continuar estudando e aproximar os conhecimentos acadêmicos dos desafios cotidianos da docência.
Foi em uma Festa Literária Internacional de Paraty que conheci a poesia Slam. Encontrei nessa manifestação literária uma potência expressiva que dialogava com as experiências e as realidades sociais dos estudantes com quem trabalhava em uma escola da periferia de Curitiba. De certa maneira, reencontrei ali as experiências que minha professora havia proporcionado tantos anos antes: a palavra em voz alta, a poesia compartilhada e a possibilidade de ocupar o espaço público por meio da linguagem. Segundo D’Alva (2019), o Slam articula poesia, performance e expressão crítica, abordando frequentemente questões como racismo, violência e desigualdade social. Sua força está também na possibilidade de tornar audíveis experiências e perspectivas muitas vezes marginalizadas.
O meu interesse pela pesquisa me levou a questionar como a oralidade e os gêneros orais são trabalhados nas aulas de Língua Portuguesa. Que oportunidades oferecemos aos estudantes para desenvolver suas formas de expressão? Como articulamos as práticas sociais da linguagem aos conhecimentos que a escola precisa ensinar? Essas inquietações passaram a orientar meu percurso acadêmico, culminando na pesquisa desenvolvida no ProfLetras sobre a poesia Slam como proposta de leitura dialógica para o 9º ano. Nesse caminho, compreender a oralidade tornou-se fundamental. Marcuschi (2001) a define como uma prática social interativa, realizada por meio de diferentes gêneros textuais e em variados contextos comunicativos. A escola não ensina o estudante a falar como se essa capacidade não existisse antes de sua chegada, mas tem a responsabilidade de ampliar seus conhecimentos sobre os usos da linguagem, especialmente em situações públicas que exigem formas específicas de fala e escuta.
O Slam possibilita integrar leitura, produção textual, oralidade e análise linguística, articulando o estudo da linguagem à experiência estética e à realidade dos estudantes. A poesia Slam também me faz refletir sobre a concepção de educação que orienta nossas práticas. Paulo Freire (1987), ao criticar a educação bancária, questiona um ensino que reduz os estudantes à condição de receptores passivos de conteúdos. Trabalhar com manifestações poéticas que acolhem suas experiências, inquietações e formas de interpretar o mundo permite construir outras relações com o conhecimento. Isso não significa abandonar o ensino sistematizado, mas reconhecer que aprender a linguagem envolve compreender seus usos, experimentar possibilidades expressivas e participar de práticas sociais significativas.
Ao olhar para minha trajetória, percebo que a professora da antiga 8ª série não foi apenas alguém que ensinou conteúdos ou propôs atividades diferentes. Ela abriu possibilidades de relação com a linguagem que continuaram produzindo sentidos muito depois daquele ano escolar. A menina que ainda não reconhecia na Língua Portuguesa sua disciplina favorita tornou-se professora e pesquisadora, interessada justamente por uma dimensão da linguagem que aquela docente ajudou a revelar.
Talvez ela não imaginasse
que suas propostas permaneceriam vivas em minhas escolhas acadêmicas e
profissionais. Eu também não poderia prever que a declamação de poemas e as
apresentações em sala de aula se transformariam em referências para minhas
pesquisas sobre gêneros poéticos orais. Hoje, compreendo que algumas sementes
precisam de tempo para florescer e que o alcance de uma prática pedagógica nem
sempre pode ser medido quando acontece.
Ser professora significa reconhecer os desafios que atravessam a escola e, ao mesmo tempo, acreditar nas possibilidades que surgem quando os estudantes encontram espaço para aprender, criar e se expressar. Por isso, continuar estudando e pesquisando é também uma forma de cuidar do ensino e de buscar caminhos que aproximem a reflexão acadêmica da realidade escolar. Neste Dia dos Professores, minha homenagem dirige-se especialmente àquela professora que, ao incentivar seus estudantes a encontrarem a própria voz, ajudou a construir a minha. Entre as primeiras declamações escolares e as oficinas de Slam, há anos de formação, pesquisa e trabalho, mas permanece o vínculo entre duas experiências: a de quem abriu caminhos para que eu descobrisse a potência da palavra e a de quem, hoje, procura criar oportunidades para que outros estudantes também a descubram. Afinal, alguns professores continuam ensinando muito depois de a aula terminar.
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Jaqueline Maria de Oliveira é professora de Língua
Portuguesa, mestre em Letras e atua na Secretaria Municipal da Educação de
Curitiba, na Gerência de Educação Integral, com formação docente. Pesquisa a
poesia Slam e o ensino de Língua Portuguesa.
