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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

CAMPINA GRANDE EM PEDAÇOS: UMA TRADIÇÃO INTERROMPIDA

 

Verônica Daniel Kobs

 

Crédito da imagem: Capa feita por George Tenório Pinto.

 

O livro Campina Grande em pedaços: a tragédia de José Pinheiro em 1974, de Juliana Nascimento de Almeida, articula pesquisa histórica e sensibilidade literária para reconstituir, através da memória e da narrativa, o drama coletivo de uma fatalidade silenciada na história de Campina Grande. Diante disso, este ensaio objetiva refletir sobre a estrutura, os recursos discursivos e o tratamento temático do livro, enfocando sua relevância para os Estudos Literários e Culturais que se voltam à cidade, à memória e às representações periféricas.

 

Entre o bairro e a cidade: a centralidade das identidades locais

A historiadora parte de uma perspectiva metonímica para pensar a cidade. Afinal, como ela afirma: "Pensar em bairro é pensar na formação de ‘pequenos mundos’ dentro da cidade" (Almeida, 2021, p. 7). Dessa forma, ao eleger o bairro de José Pinheiro como foco, a autora desestabiliza a visão hegemônica da cidade como um espaço uniforme, projetando sobre esse “bairro-cidade” um olhar que une pertencimento, memória afetiva e história silenciada. Sob essa ótica, o espaço tem uma vida autônoma dentro de uma urbanidade maior: "[...] ele vai ser identificado como ‘cidade dentro de outra’, quando ocorreu crescimento vertiginoso, coincidindo com o próprio crescimento da cidade" (Amorin, citada em Almeida, 2021, p. 10, grifo no original).

Sem dúvida, isso desafia as hierarquias urbanas que historicamente relegam as periferias às margens da narrativa. Corroborando essa ideia, Almeida retoma, com acuidade metodológica, a perspectiva proposta por teóricos como Sandra Pesavento (2007), ao compreender a cidade como um tecido vivo de práticas, afetos e contradições, e não apenas como um conjunto de estruturas físicas. Ao longo do texto, a cidade é narrada de baixo para cima: o olhar não é o das elites urbanas, mas o das vozes silenciadas, dos corpos anônimos, das memórias não oficiais.

O “Zepa”, termo ambíguo que tanto carrega afeto como estigma, é elevado pela autora a um símbolo de resistência — um território popular onde se conjugam trabalho, religiosidade, cultura, violência e festa. Trata-se de uma prática textual que remete à “memória subterrânea” descrita por Michael Pollak (1989), que resgata fragmentos esquecidos do passado coletivo, oferecendo-lhes forma narrativa e relevância social.

Outro fator determinante do livro é a análise do silenciamento em torno da tragédia. Assim, a afonia é apresentada como uma forma de violência. Nesse contexto, Almeida denuncia o esquecimento, ao mencionar o "evento marcante para o bairro e para a cidade”, mas que hoje é “pouco conhecido por seus populares" (Almeida, 2021, p. 8). Esse apagamento é lido como sintoma de uma memória seletiva, que tende a excluir acontecimentos que confrontam a imagem de "progresso e ordem" (Benjamin, 2006) atribuída à Campina Grande industrializada. Na tentativa de resgatar o fato e avaliá-lo em toda sua envergadura, a autora dialoga com os conceitos de Maurice Halbwachs (2006), para reativar uma "memória coletiva" que se estrutura em torno da dor partilhada. Ao inserir depoimentos, imagens e registros esquecidos, Almeida transforma sua obra em instrumento de reparação simbólica.

 

Entre o arquivo e o afeto: literatura historiográfica e memória traumática

A estrutura da obra está organizada em duas partes complementares. A primeira reconstrói o cotidiano do bairro, seus espaços de sociabilidade e seus personagens — como José Pinheiro, o curandeiro e festeiro que deu nome ao lugar — com forte ênfase em fontes documentais, relatos orais e jornais da época. A segunda parte trata da explosão ocorrida em dezembro de 1974, durante uma quermesse natalina e que vitimou dezenas de moradores do bairro.

Entretanto, Almeida não apenas narra o fato. Ela também realça a reverberação da tragédia na memória coletiva. O rastro físico e simbólico da explosão que lançou pedaços de corpos sobre tetos de casas e muros da igreja constitui-se como trauma. Portanto, o tipo de relato que a autora privilegia inscreve-se na tradição do testemunho, tal como definida por Shoshana Felman e Dori Laub (1991). Com esse diferencial, trata-se de resgatar algo que vai muito além daquilo que se viu, porque também se consideram o silêncio e o apagamento.

Para isso, a autora realiza um duplo movimento. A narrativa arqueja com a história, como diria Walter Benjamin (2015), mas também propõe uma interpretação a partir de um lugar de fala específico — o do pertencimento. Como resultado, Almeida insere-se no fato, ao se considerar filha do bairro, herdeira de suas dores e de sua força, aperfeiçoando seu texto com uma tensão emocional que o aproxima da autoficção histórica, sem jamais perder o rigor documental.

Aliás, essa é outra qualidade do livro, que se destaca pela combinação de cientificidade e densidade emocional. Por meio desse entrelaçamento, a autora mobiliza fontes como jornais da época (sobretudo o Diário da Borborema), documentos, relatos orais e registros fotográficos, ao mesmo tempo em que escreve com voz própria, dividindo com o leitor sua percepção como filha do bairro: "Foi assim, voltando o olhar a este espaço, o qual também é parte do meu lugar na cidade, que me senti instigada a revisitar algumas dessas memórias" (Almeida, 2021, p. 8).

 

Tradição e rupturas: a tragédia como chave de leitura da urbanidade

No que se refere ao aspecto temporal, é significativo que a autora estabeleça uma relação entre os espaços de festa e a tragédia. O bairro que era antes palco de pastoris, blocos de carnaval, missas campais e festas do padroeiro, torna-se, de repente, cenário de horror. No início do livro, destacam-se os rituais festivos como elementos próprios da comunidade e do pertencimento: "[...] o bairro surge como um território marcado por seus próprios códigos" (Almeida, 2021, p. 21).

Porém, a tragédia de 1974 interrompe brutalmente essa sequência de celebrações. No que deveria ser uma noite de alegria, durante uma quermesse natalina, um cilindro de gás hidrogênio explode, tirando a vida de muitos moradores. Conforme as notícias veiculadas no Diário da Borborema:  

 

[...] inúmeros eram os relatos de horror sobre tal acontecimento, [...] o trauma se instalava. [...] com a explosão do artefato, vários pedaços de corpos foram arremessados em casas e na própria Igreja, [...] denunciados, quase sempre, pelo mau cheiro desenvolvido com o avançar do processo de decomposição desses restos humanos. (Almeida, 2021, p. 30)

 

A autora narra esse evento com uma sensibilidade que evita o sensacionalismo, já que sua preocupação é evidenciar como o trauma se inscreve na memória coletiva e como o esquecimento institucional pode ser mais violento do que a tragédia em si. Essa ruptura simbólica é central para o entendimento do tom da narrativa: a festa interrompida é também a infância violada, a comunhão desfeita, o riso transformado em grito. O contraste entre festa e tragédia transcende o plano discursivo e alcança a esfera estrutural.

Utilizando uma linguagem que alterna o descritivo e o poético, o acadêmico e o afetivo, Almeida cria um efeito de ritmo oscilante que remete à teoria do verso em sua forma livre. Nesse sentido, não importa a métrica ou a regularidade. A expressividade da obra está na cadência emocional. A própria ideia da fragmentação, exposta no título, reforça a estrutura da memória em frangalhos, como um poema rasgado que tenta se recompor com as partes que restam.

No capítulo dedicado à explosão do cilindro de hidrogênio durante os festejos natalinos, Almeida mobiliza com precisão a análise jornalística da época para desmontar as narrativas oficiais, muitas vezes evasivas, culpabilizando um “garrafeiro” e obscurecendo as condições de negligência e precariedade que desencadearam a tragédia. Essa releitura crítica da imprensa local aproxima o livro de uma prática ensaística engajada, semelhante àquela proposta por autores como Eduardo Galeano, por exemplo, que denuncia as estruturas de exclusão e omissão nas narrativas oficiais. Dessa forma, ao devolver a tragédia à cidade — e não apenas ao bairro — a autora propõe uma reflexão sobre o modo como as identidades urbanas são determinadas por meio daquilo que é silenciado.

 

A escrita como antídoto ao esquecimento

Campina Grande em pedaços extravasa os limites do registro histórico ou documental para se inscrever como manifesto em prol da memória, da identidade cultural e da justiça. Consequentemente, Juliana Nascimento de Almeida assume seu papel como sujeito da história, rompendo com o distanciamento da narração tradicional e escolhendo a escrita como forma reparadora.

Em outras palavras, trata-se de uma obra contra a invisibilidade, porque, ao transformar uma memória traumática em narrativa compartilhada, a autora recupera o direito à lembrança como instrumento de cidadania. Sua escrita, que mistura o rigor acadêmico da historiadora com a sensibilidade da escritora, oferece ao leitor um documento vivo, um ato poético de revisão crítica.

Com forte apelo à literatura da memória, à urbanidade e à teoria do testemunho, Campina Grande em pedaços convida o leitor a pensar sobre o que se quer lembrar e sobre o que a sociedade é obrigada a esquecer. Emprestando mais uma vez as palavras de Walter Benjamin, articular historicamente o passado não significa conhecê-lo como ele de fato foi. Significa apropriar-se de uma lembrança que relampeja nos instantes de perigo (Benjamin, 1994, p. 224-225). É justamente isso que Almeida nos oferece justamente isso: um relâmpago que ilumina momentaneamente o rosto partido da cidade. Assim, a autora nos faz compreender que o esquecimento também é um tipo de violência. Como Luíra Freire Monteiro escreve, no “Prefácio” do livro, a "cidade precisa se repensar, se enxergar na crueza do contexto" (Almeida, 2021, p. 5). É nesse espelho estilhaçado da memória que a obra se estabelece como um pedaço essencial da História e da identidade de Campina Grande.

 

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Juliana N. de. Campina Grande em pedaços: a tragédia de José Pinheiro (1974). 1. ed. Campina Grande: Nativa Edições, 2021.

BENJAMIM, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Coleção Obras escolhidas, v. 1).

BENJAMIM, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG, 2006.

BENJAMIM, Walter. Baudelaire e a modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

FELMAN, Shoshana; LAUB, Dori. Testimony: crises of witnessing in Literature, Psychoanalysis and History. Londres: Routledge, 1991.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 2006.

PESAVENTO, Sandra J. Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias. Revista Brasileira de História, v. 27, n. 53, São Paulo, jan.-jun. 2007, p. 11-23.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos históricos, v. 2, n. 3, Rio de Janeiro, 1989, p. 3-15.

 

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Verônica Daniel Kobs tem Pós-Doutorado em Literatura e Intermidialidade pela UFPR. É Professora e Pesquisadora de Literatura, Mídias e Tecnologia Digital. Atualmente, é Coordenadora e Professora dos cursos de Mestrado e Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE.

Juliana Nascimento de Almeida é Doutoranda do Curso de Ciências da Educação, Dinâmica Social Pós-Moderna e Religiosidade da Florida University of Science and Theology (FUST). Na UEPB, atuou como monitora do componente curricular “História da Paraíba”. Na FUST, atua como Coordenadora Pedagógica e Coordenadora do Grupo de Estudos de Metodologia da Investigação Científica.

Para ler o livro completo de Juliana Nascimento de Almeida, acesse o link

https://drive.google.com/file/d/1uo-UvMROr_2sK1hbg1_f0P1pjPPvpCYg/view?usp=sharing

  

sábado, 29 de novembro de 2025

 CRÍTICA LITERÁRIA: NOVELA URBAN, DE MARCELO ALCARAZ

 

 

Rubens Gomes Corrêa

 

 

Título do livro: Urban

Autor da obra: Marcelo Alcaraz

Editora: Urutau

Data de edição: 2025

Gênero literário: Literatura contemporânea / Ficção urbana


 

Crédito da imagem: https://editoraurutau.com/titulo/urban

 

Narrador: A narrativa é em terceira pessoa, permitindo uma visão abrangente sobre os pensamentos e sentimentos do protagonista, Urban. Essa escolha narrativa ajuda a construir uma conexão entre o leitor e as frustrações e anseios do personagem.

Tempo da ação: A história se passa em um contexto contemporâneo, logo após o período da pandemia, refletindo um momento de transição e adaptação social.

Análise geral: O livro Urban, de Marcelo Alcaraz (2025), apresenta uma narrativa densa e introspectiva que mergulha na psicologia de seu protagonista, um soldado imerso em um conflito interminável e desumanizador.

A obra destaca-se por sua crueza e pela complexidade com que trata temas como a violência cotidiana, o impacto psicológico da guerra, a perda da ética e da humanidade, e a alienação causada tanto pela brutalidade do conflito quanto pelo mundo contemporâneo das redes sociais e do consumo.

A escrita de Alcaraz é marcada por uma prosa direta, às vezes fragmentada, que reflete a confusão e o desgaste emocional de Urban, ao mesmo tempo em que evoca uma reflexão profunda sobre a condição humana em contextos extremados.

A construção do personagem Urban é particularmente eficaz ao mostrar a contradição entre sua formação universitária e sua função violenta no campo de batalha, além das tensões internas entre seus valores éticos e as ações que é obrigado a cometer. Esse conflito interno, bem como a representação do sofrimento emocional ganha ainda mais força pela ausência de qualquer romantismo sobre a guerra; Alcaraz expõe uma realidade dura, onde a humanidade se corrói diariamente.

Outro aspecto relevante é a crítica social implícita na obra, que denuncia não apenas a violência física da guerra, mas também a violência simbólica e estrutural de uma sociedade que banaliza o massacre e naturaliza o sofrimento, além de explorar a negligência frente ao passado e às consequências do esquecimento coletivo. Em suma, Urban funciona como um espelho inquietante da atualidade em que vivemos, transpondo para a literatura o impacto da barbárie cotidiana através da lente de um indivíduo que luta para manter sua sanidade frente ao caos, tornando-se um texto significativo para a reflexão sobre ética, memória, e a fragilidade da condição humana diante da violência sistêmica.

Essa crítica literária evidencia a força simbólica da obra e sua capacidade de provocar um olhar crítico sobre a guerra e as suas múltiplas dimensões humanas e sociais.

 


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Rubens Gomes Corrêa: Nascido em Mandaguaçu, Paraná. Reside em Curitiba desde 1982. Doutorando em Teoria Literária pelo Centro Universitário Campos de Andrade e Mestre em Assistência pela UFPR. Especialista em Didática do Ensino Superior. MBA em Gestão do Conhecimento na Educação Superior. Professor no Instituto Federal do Paraná. Possui 26 livros publicados.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

 

CAPÍTULOS DE UMA VIDA PERMEADA PELA LITERATURA

 

Angela Cristina Cavichiolo Bussmann

 

Desde a minha infância a literatura faz parte do meu cotidiano. Minha mãe era professora de uma escola pública dos Anos Iniciais e, portanto, os livros faziam parte natural do ambiente doméstico. Meu pai, embora trabalhasse no comércio, sempre foi um leitor ávido. Lia inúmeros livros por mês — e continua assim até hoje, mesmo com mais de oitenta anos. Crescer nesse contexto foi, de certa forma, crescer entre histórias, palavras e mundos imaginários. Talvez por essa influência familiar, desde muito cedo desenvolvi um gosto profundo pela leitura.

Lembro com carinho de um costume da minha infância: o “presente do mês”. A cada novo mês, havia a expectativa pelo presente que minha mãe traria — e, na maioria das vezes, por opção dela ou escolha minha, eram livros infantis. Eu os devorava em poucos dias e, enquanto o próximo não chegava, relia os anteriores com o mesmo entusiasmo da primeira vez.

Na adolescência, essa relação se ampliou. Para quem nasceu nas décadas de 1970 e 1980, os livros da Coleção Vaga-Lume marcaram época e acompanharam uma geração inteira. Lembro-me de passar tardes inteiras mergulhada em títulos como “A Ilha Perdida”. Lia um após o outro, entretida e encantada com as histórias.

Com o passar do tempo, a literatura foi assumindo novos papéis na minha vida. Na fase adulta, ela deixou de ser apenas entretenimento e tornou-se também instrumento de conhecimento, reflexão e aprendizado. Passei a ler não apenas romances, mas também biografias, ensaios e livros de não-ficção. A leitura, que começou como um gesto de curiosidade infantil, transformou-se em uma forma de compreender o mundo — e, em muitos momentos, de compreender a mim mesma.

Além disso, sempre gostei de aprender novas línguas, e a literatura também me acompanhou nesse caminho. Ler em outros idiomas me ajudou a perceber nuances culturais, formas de pensar e expressões que vão além das palavras. Em cada língua, há uma forma particular de ver o mundo e é isso que, em muitos momentos, torna a leitura uma ponte entre culturas. Às vezes, optava por versões adaptadas; outras vezes, enfrentava o texto original como um desafio prazeroso.

Com o tempo, vieram as mudanças tecnológicas e, junto delas, novas formas de ler. Ainda que o livro físico ocupe um lugar insubstituível — o cheiro das páginas, o peso nas mãos, o gesto de virar cada folha —, o formato digital, como o Kindle, também conquistou espaço. Hoje, a literatura me acompanha em diferentes suportes, adaptando-se às rotinas e aos tempos modernos, mas sem perder sua essência. 

 


Crédito da Imagem: concedida pela autora.


A literatura, acredito, é um dos maiores exercícios de empatia e imaginação que podemos experimentar. Ela nos permite viver vidas que não são as nossas, sentir dores e alegrias de personagens distantes, enxergar o mundo por outros ângulos. Como disse Jorge Luis Borges, “sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”. E talvez haja verdade nisso: ao ler, nos aproximamos do que há de mais humano — a capacidade de sonhar, de pensar, de criar.

Estudos em diferentes áreas apontam para os inúmeros benefícios da leitura, não escreverei sobre eles, mas tenho a certeza de que ela nos ajuda a compreender as complexidades da vida, a lidar com sentimentos e a cultivar a sensibilidade. É uma prática silenciosa que molda, pouco a pouco, o modo como enxergamos o outro, a nós memos e o mundo.

Hoje, continuo lendo com a mesma frequência e entusiasmo de antes. Acompanho lançamentos, redescubro clássicos e revisito histórias que marcaram minha trajetória. Acredito que, assim como a linguagem, a literatura é viva — ela se transforma conosco, acompanha as fases da vida e nos devolve sempre algo novo. Tenho certeza de que os livros seguirão presentes em todos os meus dias. Porque ler, mais do que um hábito, é uma forma de estar no mundo.

 

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Angela Cristina Cavichiolo Bussmann: é formada em Letras – Português e Inglês. Atua como professora e coordenadora de inglês há mais de 25 anos. Fez cursos de especialização em Literatura Brasileira, Literatura Americana e Literatura Inglesa no Brasil, Inglaterra e Japão. Integra a equipe técnica de Língua Estrangeira da Secretaria Municipal de Educação de Curitiba.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

 LEITURA E ESCRITA COMO PRÁTICAS SOCIAIS NA EDUCAÇÃO INFANTIL

 

Rosa Maria Bariquelo


A experiência de levar para casa o livro O Monstro das Cores e realizar sua leitura junto às famílias foi extremamente enriquecedora, tanto para as crianças quanto para os adultos. A autora, Anna Llenas, aborda de forma lúdica e sensível o universo das emoções, apresentando-as como cores que o personagem principal, o Monstro das Cores, precisa organizar — um verdadeiro convite ao diálogo emocional entre crianças e suas famílias.

Dessa forma, ao compartilhar a leitura em casa, as famílias tiveram a oportunidade de explorar o universo emocional das crianças, ajudando-as a identificar, nomear e compreender sentimentos como alegria, tristeza, raiva, medo e calma. A abordagem visual do livro facilitou a compreensão de conceitos abstratos, promovendo momentos de interação afetiva e fortalecendo os vínculos familiares.

A leitura conjunta foi complementada com a proposta de registro de desenhos sobre as emoções apresentadas pelas crianças. O retorno dessa estratégia uniu arte e autoconhecimento, pois, nos momentos de conversa, foi possível observar nos relatos infantis a presença de emoções e vínculos afetivos não apenas com os colegas de sala, mas também com os familiares.

 

Crédito da Imagem: Amazon.com.br. Disponível em: <https://www.amazon.com.br/Monstro-das-Cores-Anna-Llenas/dp/8595260087> Acesso em: 23 out. 2025.

 

Uma das crianças da turma comentou que fica muito triste quando sua mãe não vai buscá-la após o término da aula: "— Eu não quero que minha vovó venha me buscar, fico muito triste; quero minha mamãe!”.

Outra criança compartilhou seu sentimento de raiva porque a mãe não a levou para passear no final de semana: "— Fiquei muito brava porque minha mãe não me levou para passear no parquinho! Eu queria brincar no escorregador, daí ela falou: 'depois'!".

Diferentes registros e relatos também foram realizados a partir da experiência de assistir ao filme Divertidamente, outra ação proposta às famílias das crianças. Com os seguintes relatos de três crianças:

Criança 01: "— A menina tem sentimentos na cabeça dela!".

Criança 02: "— Tem a Alegria, a Tristeza, a Raiva e o Medo que ficam brigando pra ela sentir!".

Criança 03: "— Mas eu gostei da Nojinho!".

Assim, as narrativas do livro O Monstro das Cores e do filme Divertidamente se complementaram na tarefa de ajudas as crianças a compreender e expressar seus sentimentos. Essas experiências tornaram, o momento de leitura ainda mais especial fortalecendo os laços entre escola e família. As crianças ao perceberem que os seus familiares dedicam tempo à leitura e ao lazer com elas, sentem-se acolhidas, valorizadas e seguras para viver suas emoções.

Quando os adultos demonstram entusiasmo pela leitura, tornam-se modelos para as crianças, despertando nelas o interesse por explorar o mundo dos livros. Essa vivência reforça os vínculos e torna o ato de ler uma experiência significativa e prazerosa para todos os envolvidos, criando oportunidades para ampliar o repertório cultural, promover a afetividade e estimular o gosto pela leitura desde a primeira infância.

 

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Rosa Maria Bariquelo: é Professora de Educação Infantil, trabalhou na Secretaria Estadual de Educação do Paraná   SEED/PR de 1994 a 2007. Desde 2008  até o presente momento é servidora da Secretaria Municipal de Ensino de Curitiba.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

 

POEMAS DE VIAGEM

 

Camila Marchioro 



Poemas de Viagem é uma jornada poética por meio de paisagens geográficas e emocionais. Organizada em ciclos que mapeiam experiências em Budapeste, Itália, Península Ibérica e Brasil, os poemas criam um mosaico de impressões onde o presente do viajante-lírico dialoga constantemente com as camadas profundas da história, da arte e da condição humana.

O Ciclo de Budapeste abre a viagem, justapondo a beleza e o sabor das sementes de papoula com a sombra persistente de um passado de guerras, perseguições e figuras históricas imponentes. No Ciclo Itálico, Roma e Florença servem de palco para reflexões sobre a arte, a mortalidade e a própria poesia. O Ciclo Ibérico nos leva a Portugal, contemplando desde a força silenciosa da pedra na Praia da Ursa até a profunda meditação sobre o tempo e a identidade às margens do Douro. Finalmente, o Ciclo Brasileiro retorna à terra natal com uma voz mais dura e engajada. A tranquilidade bucólica dá lugar a uma denúncia contundente das feridas sociais e da exploração histórica:

 

Retrato de um mundo repetido

A criança clara caminha em seus sapatos sujos [de guerra]

dentro deles mora sua alma translúcida

os jardins florescem sem expectadores

olhos vibrantes rolam sobre uma mesa

e a pobre humana língua gemegrita

há um segredo sobre seu pescoço

Duas catedrais oscilam

cartas que se espalham sem destinatário

o vestido ficou pra sempre no armário

ao lado dos medos fracos

observamos frágeis

círculos de cadeiras agora sem pernas

e resumos de pedras:

na manhã, o nosso sangue assovia a palavra [ruína.]

 

Poemas de Viagem é um diário de viagem lírico e uma investigação das ressonâncias entre lugar e memória, beleza e dor, entre o efêmero instante da viagem e o peso da história.

 

Fonte: Imagem cedida pela autora.

 

A pré-venda já está aberta. Acesse o link abaixo e saiba mais:

https://benfeitoria.com/projeto/poemasdeviagem

 

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Camila Marchioro é uma artista da palavra que trilhou um caminho singular na arte. Atriz, bailarina e poeta, é nos versos que encontra o lugar onde todas as suas paixões se entrelaçam. Sua poesia é leve, concisa e direta, um convite a explorar a beleza e a complexidade da experiência humana através da linguagem, da cor e do movimento. Camila é também doutora em Literatura Comparada pela UFPR, redatora, professora e mãe.