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segunda-feira, 15 de agosto de 2011
sábado, 2 de julho de 2011
Um mistério no trem-fantasma e O mistério dos sinais da passagem dEle pela cidade de Curitiba
Prof. Dra. Verônica Daniel Kobs
Nesses dois contos de Valêncio Xavier, a utilização de notícias de jornal não é o único recurso a reforçar a verossimilhança do texto literário. Outra estratégia que provoca o efeito de realidade sobre o leitor é o uso de Curitiba, um espaço real, como cenário. Muitos leitores, com base nesses elementos, transferem a realidade dos referentes para a história, chegando, às vezes, a desconsiderarem a natureza ficcional, inerente ao texto literário.
No conto Um mistério no trem-fantasma, no melhor estilo kitsch, os personagens se conhecem no Passeio Público, um dos cartões postais da cidade, e terminam a tarde no extinto parque de diversões Alvorada. Essa especificação dos espaços aumenta ainda mais a impressão de que a história é verídica. Como o autor opta, desde o início da história, pela dissolução da fronteira entre realidade e ficção, ele, de fato, não poupa esforços para confundir o leitor. O narrador cita dia, mês e ano do desaparecimento da protagonista, Jucélia Ramos, cujo retrato falado também é reproduzido, no conto. O sumiço da moça ocorreu no dia 19 de julho de 1969, mesma data da chegada do homem à Lua. Aliás, esse detalhe também ajuda a convencer o leitor de que a história realmente aconteceu.
E o conto vai se fazendo a partir dos depoimentos de testemunhas, do parecer do delegado do caso (o autor, inclusive, estiliza o discurso policial, para tornar o texto mais verossímil) e das hipóteses formuladas pelos diferentes jornais da época. As versões, bastante divergentes, vão desde a abdução da jovem por extraterrestres, fuga espontânea e premeditada, até a associação do desaparecimento a mais uma ação do MR-8 no Paraná.
Apesar de, nesse conto, a função do jornal ser reduzida, se comparada ao papel do texto jornalístico, na novela O mez da grippe, os inúmeros elementos aqui citados suprem essa ausência e pode-se afirmar que até chegam a alcançar maior efeito, no que diz respeito à verossimilhança do texto. Recurso também poderoso é a ilustração do texto, que não compreende desenhos simplesmente, mas fotos. A intenção é tornar a protagonista mais real ao olhar do leitor. Jucélia Ramos (que tem até sobrenome e cujo rosto aparece estampado em um retrato falado) não é tratada como personagem construída. Ela ganha status de pessoa real, curitibana e frequentadora habitual dos espaços de lazer da cidade, assim como as pessoas mostradas nas fotos, nos carrinhos do trem-fantasma.
Embora utilize menos recursos para conferir realidade à história, o conto O mistério dos sinais da passagem dEle pela cidade de Curitiba também utiliza a fotografia e trechos de jornais para confundir o leitor. A notícia do assassinato de uma prostituta por um engraxate, que usou uma estaca de madeira e, provavelmente, tenha sido possuído pelo demônio, na hora do crime, parece mais uma lenda urbana.
Entretanto, dados precisos são informados. O assassinato aconteceu em 29 de maio de 1986 e, de acordo com o narrador, chamou a atenção da imprensa: “O revoltante crime teve muita repercussão na época e a Folha de Curitiba publicou fotos do cadáver na primeira página, o que provocou protestos generalizados. A Tribuna do Paraná, do doutor Paulo Pimentel, também publicou as fotos na primeira página (…).” (XAVIER, 2002, p. 319). No trecho citado, é de suma importância o tom de testemunho da narração. Esse recurso é similar ao usado em O mez da grippe, nos trechos que registram o depoimento de Dona Lúcia. No entanto, é fundamental perceber que, na novela, o que a personagem afirma contradiz as fontes oficiais e, no conto, o narrador respalda seu testemunho no que os jornais da época noticiaram. Não importa se o crime ocorreu ou não ou se foi, de fato, publicado nos jornais citados pelo narrador. O que é primordial é o fato de o narrador sustentar seu testemunho, citando suas fontes.
Seguindo o mesmo padrão do conto analisado anteriormente, O mistério dos sinais da passagem dEle pela cidade de Curitiba traz uma foto que mostra fezes e pegadas humanas em um terreno baldio, palitos de fósforo e pedaços de uma edição do jornal A Tribuna, mais precisamente a publicação de “segunda-feira 2 de novembro de 1987 Ano XXXII n 9.062/24 páginas” (XAVIER, 2002, p. 320). Esse detalhamento, na apresentação do jornal que aparece na foto, cria a impressão de realidade, além de brincar com a (im)possibilidade das coisas. A história considera possível que o assassino da prostituta e as pegadas no terreno baldio sejam obras do demônio. É óbvio que uma narrativa fantasiosa como essa não ganharia espaço nos jornais. Porém, o pedaço de jornal mostrado na foto serve de prova incontestável ao que antes parecia fruto de uma imaginação fértil.
Nesse conto, Valêncio Xavier mostra-se ardiloso e eficaz, ao comprovar, mais uma vez, que o discurso jornalístico não investe apenas na construção narrativa (e, portanto, não factual); ele também é capaz de fabricar notícias e, ao fazer isso, demonstra a frágil e relativa separação entre o fato e a fantasia.
(Excerto do artigo A literatura, o jornal e as verdades dos fatos, escrito pela Prof. Dra. Verônica Daniel Kobs e publicado na revista Miscelânea, Assis, vol. 8, jul.-dez. 2010)
sexta-feira, 24 de junho de 2011
PROFESSORES E ALUNOS DA UNIANDRADE PARTICIPAM DE EVENTOS NACIONAIS E INTERNACIONAIS
Por Mail Marques de Azevedo
VI CIEL – CICLO DE ESTUDOS EM LINGUAGEM
Mail Marques de Azevedo e Anna Stegh Camati, professoras do Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE coordenam simpósios formados por mestrandos da UNIANDRADE e apresentam trabalhos no VI CIEL – Ciclo de Estudos em Linguagem, a realizar-se na Universidade Estadual de Ponta Grossa, de 20 a 22 de junho de 2011. A Profa. Mail Azevedo coordena o Simpósio intitulado “Identidades do eu em narrativas de vida“, e apresenta o trabalho “A poética do gênero memorialístico“ como introdução ao simpósio, do qual participam os alunos: Samara de Souza Roggenbach – “Memórias da Emília, exemplo sui generis de memórias“, Irene Camilo – “Hans |Staden: a visão do outro“, Cleunice Fritoli – “O ofício de viver: a narrativa diarística de Cesare Pavarese como testemunho vivo de uma época“, e Mary Galan Boaron – “O resgate da memória como narrativa na obra Infância de Graciliano Ramos“. A Profa. Anna Camati coordena dois simpósios; no primeiro, intitulado “Representações do novo sujeito da modernidade na dramaturgia de Ibsen“, ela apresenta o trabalho “A crise do drama e o surgimento de novas formas de subjetivação nas peças de Ibsen“ como introdução ao simpósio que inclui o trabalho dos alunos Deangelis Andrigo Ruhmke – “Os subterrâneos da subjetividade das personagens em Rosmersholm“, Saray do Rocio Chila Meira – “O eu múltiplo, contraditório e em constante processo em Hedda Gabler“, e Suzana Mierzva Ribeiro – “A mentira vital em O pato selvagem“. No segundo simpósio, intitulado “Representações pictóricas e/ou simbolistas do sujeito ibseniano“, a Profa. Anna Camati apresenta o trabalho “Diálogos entre teatro e pintura em Quando nós mortos acordarmos“ e conta com a participação dos alunos Marly Agumi Sanefuji Werner – “A presença do sinistro em O pequeno Eyolf“, Márcia Valéria Costa Sales – “A constituição identitária da personagem feminina em A dama do mar“, e Galeno Cristóvão Ferreira Machado – “O sujeito eternamente desejante em Solness, o construtor“. A proposta dos simpósios e os resumos dos professores e alunos podem ser acessados no seguinte endereço eletrônico:
http://eventos.uepg.br/ciel/listasimposios/php
9º CONGRESSO MUNDIAL SOBRE SHAKESPEARE
(9th WORLD SHAKESPEARE CONGRESS)
A professora Anna Stegh Camati (UNIANDRADE) e o professor Tom Bishop (Universidade de Auckland, Nova Zelândia) coordenam o seminário nº 24, intitulado Shakespearean Metamorphoses: Intermedial Transactions (Metamorfoses shakespearianas: transações intermidiáticas), que integra a programação acadêmica do 9º Congresso Mundial sobre Shakespeare. O evento será realizado na Charles University em Praga, de 17 a 22 de julho de 2011, com palestras, painéis, seminários e workshops. A temática central do seminário n. 24 são as mudanças geradas pelas transações intermidiáticas no processo de adaptação do texto shakespeariano para outras artes e mídias, como a arte performática, a ópera, o teatro musical, o cinema, a televisão, os quadrinhos e as mídias digitais. Entre os doze participantes do seminário estão as professoras da UNIANDRADE, Mail Marques de Azevedo, que contribui com o ensaio “Text, Performance and Film: An Intermedial Reading of Antunes Filho’s Throne of Blood/Macbeth“, em co-autoria com a Profa. Liana Leão da UFPR, e a Profa. Cristiane Busato Smith, que assina o artigo “Otelo de Oliveira: The Brazilian Accent of Othello“. O resumo do seminário liderado pela Profa. Anna Camati pode ser acessado no site 9º Congresso da ISA.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Movie Takes: A Magia do Cinema na Sala de Aula
Prof.ª Dr.ª Janice Thiel (Uniandrade)
"Dirigida a professores de inglês, esta obra sugere que a exibição de filmes em sala de aula pode contribuir para o aprimoramento da habilidade leitora e ajuda na construção de conhecimentos linguísticos.
Destaque As atividades propostas no livro, criadas para a aplicação antes, durante e depois da exibição."
Movie Takes: A Magia do Cinema na Sala de Aula, Grace Cristiane Thiel e Janice Cristine Thiel, 120 págs., Ed. Aymará, tel. (41) 3213-3500, 39 reais
Revista Nova Escola, Ano XXVI, nº. 241, Abril 2011
segunda-feira, 30 de maio de 2011
PARTICIPAÇÃO NO CIEL/UEPG - JUNHO/2011
A ementa abaixo foi aceita para o simpósio a ser realizado durante o IV CIEL /UEPG de 20 a 22 de junho de 2011, sob coordenação da Prof. Eunice de Morais. Além do trabalho intitulado A paródia e cânone e A Última quimera, do qual apresentamos breve resumo, serão apresentados outros, os quais concentram-se sobre mesmo tema.
Eunice de Morais, Uniandrade
Apropriações discursivas: do moderno ao pós-moderno
Há muito que as apropriações discursivas surgem de modos e a partir de intenções diversas nas produções artísticas. A citação, a alusão, a farsa, o burlesco, o pastiche e a paródia são formas antigas de referência trans-textual utilizadas como elementos de construção discursiva, porém a ficção contemporânea parece privilegiar alguns destes modos de apropriação como a paródia e a ironia como forma de trans-contextualização questionadora. A literatura, assim como a arquitetura e outras artes, reelaboram discursos e estilos do passado, próximo ou distante, inserindo nesta reelaboração a homenagem e o questionamento, bem como a subversão destes mesmos discursos e estilos. Este simpósio pretende discutir estas apropriações enquanto respostas, conscientes ou não, ao mundo da modernidade e da pós-modernidade.
Palavras-chave: apropriações discursivas; moderno; pós-moderno.
Utilizaremos para este trabalho as definições de Linda Hutcheon para a paródia como modo de apropriação discursiva, configurada na construção formal e temática do romance A última quimera; e para a ironia como estratégia retórica que permite ao seu descodificador interpretar e avaliar o que está posto como convenção. A paródia, segundo Hutcheon, é uma “forma de imitação caracterizada por uma inversão irônica, nem sempre às custas do texto parodiado. (...) É, noutra formulação, repetição com distância crítica, que marca a diferença em vez da semelhança”. (HUTCHEON, 1989, p.18). Percebe-se, assim, que não há como reconhecer uma construção como paródia sem procurar nela a “inversão irônica”. A ironia, enquanto, estratégia retórica, acontece pela interpretação feita pelo seu descodificador, ou seja, precisa ser reconhecida pelo leitor. Enquanto a paródia recusa a unitextualidade, a ironia recusa a univocalidade. Na primeira, há a sobreposição de dois contextos textuais e na segunda a de dois significados. Sobre a ironia Hutcheon nos diz “Dada a estrutura formal da paródia, (...) a ironia pode ser vista em operação a um nível microcósmico (semântico) da mesma maneira que a paródia é um assinalar de diferenças, e igualmente por meio de sobreposição (desta vez de contextos textuais em vez de semânticos)” (HUTCHEON, 1989, p.74). Serão apresentados, neste trabalho, alguns recortes do romance que caracterizam a narrativa como construção paródica e irônica. É preciso lembrar que a descodificação irônica depende deste reconhecimento da construção paródica. Assim, os trechos escolhidos para análise serão reconstruções paródicas claras dos textos certamente pesquisados pela autora e assinalam a destituição ou transformação do conceito de cânone ou pelo menos a sua discussão no romance.
terça-feira, 17 de maio de 2011
DIVULGANDO EVENTO E HOMENAGEM
Anna Stegh Camati
Na noite de quarta-feira, dia 25 de maio, durante a edição de 2011 da Semana de Letras da Universidade Federal do Paraná, a professora do Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE, Dra. Mail Marques de Azevedo, que, dedicou-se ao ensino, pesquisa e extensão na UFPR no período de 1988 a 2007, será homenageada por sua contribuição intelectual e cultural no âmbito das letras e artes. Parabéns, querida colega e amiga: aceite nosso respeito e admiração pela sua trajetória acadêmica exemplar e por ser esta extraordinária figura humana, sempre disposta a dividir conhecimentos e abraçar novos projetos. Convidamos a comunidade acadêmica da UNIANDRADE para participar dessa importante celebração.
Na ocasião, a Profa. Mail proferirá a palestra, intitulada “Em busca de raízes geográficas e espirituais: o sujeito diaspórico do século XXI”, seguida do lançamento da Revista Letras, nº 77 (2009) que foi editada na tradição das Festschriften. O Dossiê intitulado “Alteridade em Construção: Questões de Identidade e Diferença” reúne 12 artigos escritos por colegas e amigos do Paraná e diversos outros estados brasileiros, nos quais a influência da homenageada se manifesta, visto que todos os ensaios partem de reflexões sempre presentes no campo de interesses da Profa. Mail, como os estudos culturais, a crítica pós-colonialista e feminista, o estudo da literatura das minorias e das narrativas memorialísticas. Transcrevo a seguir um trecho da apresentação do Dossiê dedicado à Profa. Mail que expressa o lugar privilegiado da homenageada no cenário acadêmico e na opinião de seus pares: “Sem sombra de dúvida, essa Cidadã Benemérita de Guarapuava pode orgulhar-se por ter cumprido sua missão. É uma vida dedicada à paixão pela literatura, traduzida no ofício de pensá-la e ensiná-la. O alcance do trabalho da Profa. Mail, em sala de aula e fora dela, como pesquisadora e orientadora de iniciação científica, mestrado e doutorado, transcende em muito o espaço que esta pequena homenagem pode pretender a abarcar. Ainda assim, este dossiê é uma oportunidade para nós – alunos, colegas e amigos – celebrarmos a seriedade e excelência dessa educadora exemplar.”
Para acessar todos os artigos da Revista Letras nº 77, jan/abr. 2009. Curitiba, UFPR – visitem o site http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/letras/issue/view/928
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segunda-feira, 9 de maio de 2011
Apontamentos sobre A tecnologia do gênero, de Teresa de Lauretis
Por Verônica Daniel Kobs
Ø Os anos 60 e 70 estabeleceram o conceito de gênero como diferença sexual.
Ø As conseqüências: espaços sociais “gendrados”, estereótipos e reducionismo.
Ø A mulher como o elemento oposto ao homem (= ponto de referência/base).
Ø As conseqüências: a sociedade patriarcal conduzindo o pensamento feminista, a mulher sendo concebida como elemento genérico (mulher=mulheres) e o sujeito definido sobretudo a partir do sexo, o que desconsidera os substratos de classe, língua, raça, etc., que também compõem o indivíduo.
Ø Tese defendida pela autora: os discursos (institucionais, artísticos (como cinema e literatura), entre outros), em sua totalidade, contribuem para perpetuar as diferenças estereotipadas impostas para diferenciar masculino e feminino.
Ø Sub-teses:
1) “Gênero é uma representação” e se concretiza no comportamento das pessoas.
2) “A representação do gênero é a sua construção” e evolui à medida que a sociedade também evolui.
3) A construção do gênero é ininterrupta.
4) “(...) a construção do gênero também se faz por meio de sua desconstrução”.
1
Ø Os significados de “gênero” nos dicionários: “classificação do sexo; sexo” e “representação de uma relação, a relação de pertencer a uma classe, um grupo, uma categoria”.
Ø Uso dos possessivos “its”, “his” e “her” para o substantivo “criança”: “Embora a criança tenha um sexo ‘natural’, é só quando ela se torna (...) menino ou menina que adquire um gênero. (...) então, (...) gênero não é sexo, uma condição natural, e sim a representação de cada indivíduo em termos de uma relação social preexistente ao próprio indivíduo e predicada sobre a posição ‘conceitual’ e rígida (estrutural) dos dois sexos biológicos.” (LAURETIS, p. 211).
Ø O sistema de sexo-gênero e as atribuições de valor, prestígio, status dentro da hierarquia social, etc.
Ø A construção de gênero como produto, mas também como processo.
2
Ø Gênero e ideologia: da representação à construção de homens e mulheres reais (Althusser x teorias feministas e marxistas).
Ø A categorização masculino/feminino, excludente, manipula as relações sociais, que não refletem, mas constroem a realidade. “Os homens e as mulheres não só se posicionam diferentemente nessas relações, mas — e esse é um ponto importante — as mulheres são diferentemente afetadas nos diferentes conjuntos.” (LAURETIS, p. 215).
Ø O conceito “sujeito do feminismo”: tentativa de diferenciar esse “sujeito” dos conceitos de “Mulher” (o estereótipo) e “mulheres” (sujeitos reais, mas “engendrados”).
Ø Feminismo, ideologia e hegemonia: Teresa de Lauretis destaca as publicações de This bridge called my back (1981) e All the women are white, all the blacks are men, but some of us are brave (1982), que marcaram a relação entre feminismo e ideologia e que, conseguindo espaço em meio aos estudos feministas escritos por brancos, abalaram o discurso hegemônico, redefinindo-o, ao menos em parte.
3
Ø A “interpelação”, termo cunhado por Althusser, e o desvendamento da representação como algo criado e incorporado pelos indivíduos. “Agora pergunto, isto não é o mesmo que dizer que a letra F assinalada no formulário grudou em nós como um vestido de seda molhado? Ou que, embora pensássemos estar marcando o F, na verdade era o F que estava se marcando em nós?” (LAURETIS, p. 220).
Ø A importância da História da sexualidade, de Michel Foucault, para o estudo A tecnologia do gênero, e as críticas dirigidas à obra pela autora (Foucault faz uma obra androcêntrica, porque nega o gênero, o que resulta na anulação das relações desiguais e opressoras entre masculino e feminino e, por fim, contribui para a continuidade do predomínio do masculino sobre o feminino).
Ø A tecnologia do gênero e a sexualização do corpo feminino.
Ø A teoria de Teresa de Lauretis retomada por Susana Funck: “As mulheres sempre tiveram uma relação complicada com a sexualidade. Territórios colonizados pelo desejo do masculino hegemônico, seus corpos são historicamente associados ao mistério e ao perigo do desconhecido, à ausência, ao vazio e à incompletude. Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, a própria idéia de feminilidade parece vir sempre atrelada a um corpo físico e palpável. Basta lembrar o conceito de imanência de Simone de Beauvoir e, mais recentemente, o da tecnologia do gênero, de Teresa de Lauretis, (...).” (FUNCK, p. 1).
Ø Também Susan Bordo entende a normatização do corpo feminino como modo de controle social e manutenção das hierarquias de gênero.
Ø A representação do feminino a serviço do masculino: “Alienada de seu desejo e sem o controle de seu corpo, a mulher aparece como objeto erótico do prazer masculino, perpetuada e aprisionada em papéis dicotômicos de amante submissa ou de perigosa devoradora de homens.” (FUNCK, p. 1) / “(...) mesmo quando localizada no corpo da mulher (...), a sexualidade é percebida como um atributo ou uma propriedade do masculino.” (LAURETIS, p. 222).
Ø Wendy Hollway, como demonstra Lauretis, exacerba o cruzamento do gênero com outros fatores determinantes para o perfil de sujeito, ao investigar como classe social, raça, idade, etc. influenciam os diferentes posicionamentos das mulheres em relação ao gênero.
Ø Segundo Lauretis, só acontecerá um avanço nos estudos de gênero, quando for possível o afastamento da base androcêntrica, a partir da revisão do sujeito diante das representações de gênero. Isso implica, porém, que os discursos que hoje andam à margem tentem minar o discurso hegemônico. A tarefa é difícil, já que as mulheres “já assumiram a posição em questão (a da parte feminina do casal) exatamente porque tal posição já lhes garante, como mulheres, um certo poder relativo”. (LAURETIS, p. 226).
4
Ø O masculino como “antagonista” da ficção feminina, como leitor e como crítico.
Ø Gênero e diferença discursiva: Culler, com base em Showalter, posiciona-se diante dos discursos lidos e produzidos por mulheres, segundo Lauretis, reconhecendo que “‘ler como mulher’ não está, em última análise, vinculado ao gênero do leitor real: repetidamente Culler fala da necessidade de o crítico adotar o que Showalter denominou a ‘hipótese’ de uma leitora mulher em vez de invocar a experiência de leitores reais.” (LAURETIS, p. 234).
Ø Porém, para Tânia Modleski, Culler mostra-se patriarcal, já que, para ela, a crítica feminista deve promover uma “leitora feminina real” e não a “hipótese”. Rosi Braidotti compartilha dessa opinião, ao constatar que também Deleuze, Foucault, Lyotard e Derrida não associam a feminilidade a mulheres reais.
Ø O “pós-feminismo” e a desconstrução do sujeito (mas “des-reconstrução” para quem?).
Ø Hoje, a luta é entre discursos (o hegemônico e os das “minorias”) e a finalidade não é a dialética, mas a contradição, a multiplicidade e a heteronomia, para que o discurso monopolizador possa, aos poucos, ser modificado.
Ø Em Feminismo em tempos pós-modernos, há referência à teoria de Donna Harraway, relacionada à de Lauretis. Donna Harraway centra seu estudo na figura do “ciborg (um ser-artefato que funde e confunde as categorias organismo e máquina), (...). Não sendo criado a partir de nenhuma unidade original e sem apresentar qualquer identificação com a natureza no sentido ocidental, o ciborg é, segundo Harraway, a criatura do mundo pós-gênero: (...). Um artefato emblemático e exemplar da experiência pós-moderna com sua profusão de espaços e identidades permanentemente parciais, com sua permeabilidade de fronteiras no corpo pessoal e no corpo político. Esse tipo de experiência, certamente, não encontra correspondência nas taxonomias do feminismo tradicional.”
REFERÊNCIAS:
LAURETIS, T de. A tecnologia do gênero. In: HOLLANDA, H. B. de. Tendências e impasses. O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
FUNCK, S. B. Descolonizando a sexualidade feminina: as marionetes e as vampiras de Angela Carter. Disponível em: http://www.amulhernaliteratura.ufsc.br/13susanabh.
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