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quinta-feira, 4 de maio de 2017

“SUEÑOS DIGITALES”, DO BOLIVIANO EDMUNDO PAZ SOLDÁN





                                                                                                                         *Paulo Sandrini

A obra ficcional “Sueños digitales”, do boliviano Edmundo Paz Soldán[1], é uma narrativa urbana, mas que se passa numa cidade-invenção: Río Fugitivo, na Bolívia. O protagonista é Sebastian, ou Sebas, um exímio tratador e manipulador de imagens digitais que, por esse mesmo motivo, acaba por chamar a atenção do governo do velho ditador Montenegro. Reconvertido em presidente e na tentativa de impor ao país falsos ares democráticos, o ditador deseja reconverter também a História recente por meio da eliminação (ou alteração) do acervo de suas imagens[2].

Maquear o mundo que os cerca é a tônica da vida das personagens desse romance. O protagonista e seu amigo Pixel se dedicam a organizar (falsamente, por meios digitais) os exteriores de uma cidade problemática do interior boliviano para que essa se assemelhe a uma cidade internacional e desenvolvida.

O romance agrega duas realidades paradoxais: um mundo criado digitalmente, sobretudo por Sebas (e isso se torna o conflito principal), e a vida íntima do protagonista em sua complexa relação com Nikki.

No campo político, é mostrada a corrupção de um governo aparentemente democrático, que deseja apagar um passado ditatorial. Sebas se deixa comprar pelo dinheiro sujo do governo de Montenegro e se põe a “organizar” o passado do ditador. Isso se dá por meio do processo de modificar fotografias, eliminando dessas narcotraficantes e corruptos que antes estiveram associados ao presidente. Nesse processo de tratamento de imagens, Sebas substitui tais figuras por outras. Exemplo disso é a manipulação de uma foto em que a figura do presidente é mostrada apertando a mão de um morador de rua e de pessoas tidas por “decentes” em meio à sociedade. Assim, são alterados, com habilidade técnica, as imagens negativas de Montenegro e seu passado repressor, de modo que se instaure, por meio de novas imagens, uma Idade de Ouro.

O romance de Soldán, apesar dos traços políticos que contém, não deixa de ser uma narrativa ao estilo McOndo, marcada essencialmente pela vida privada das personagens (suas relações pessoais e afetivas) com o meio que as cerca. É recheado de referências à cultura de massa e à cultura pop, marcado pelos eventos tecnológicos contemporâneos, a evidenciar, dentro dos próprios parâmetros do manifesto publicado na antologia McOndo (1996), um tempo de globalização, de acesso ao mundo virtual e de aquisição de produtos de última geração.

Outro ponto a ressaltar é que apesar de a obra de Soldán ser construída a partir de princípios mcondistas ela não deixa de estabelcer uma evolução crítica em relação ao sistema político e econômico latino-americano caso a comparemos, por exemplo,  com os próprios contos publicados em “McOndo”.

“Sueños digitales” registra a crítica ao proceso de alienação promovido pelo universo midiático.

Ella le quitó el control y cambió a una película en blanco y negro en un canal de clásicos […] Nikki era de esas personas con complejos de culpa por sus huecos culturales e históricos, cada vez que hacía zapping y se encontraba con un canal de noticias o documentales o clásicos, se sentía obligada a quedarse ahí al menos unos minutos, por más que en realidad tuviera prisa en llegar a su telenovela o a Bugs Bunny. El zapping convertía a muchos en seres culpables, incapaces de gozar plenamente de su superficialidad, de admitir que les interesaba más enterarse de los últimos chismes de Hollywood que de lo que ocurría en Bosnia o Ruanda.[3]


Este trecho atua como reflexão sobre a condição do sujeito bombardeado pela cultura de massa, algo tão comum na formação cultural e identitária latino-americana. A ironia que o narrador do romance de Soldán usa em relação à formação cultural de Nikki mostra um discurso voltado a problematizar os prejuízos e a alienação promovidos pela indústria cultural.

“Sueños digitales”, por outro lado, não deixa de questionar (mesmo que em poucos trechos) as políticas econômicas instauradas na Bolívia e em grande parte da América Latina sobretudo nos anos 1990 e início do século XXI. A passagem que trata da Ponte dos Suicidas é significativa desse questionamento:



Los últimos meses había habido un recrudecimiento de suicidios: unos decían que la transición de un milenio a otro exacerbaba las tensiones y era la causa principal de esa oleada; otros, menos abstractos, culpaban a las salvajes políticas económicas de cuño neoliberal — entre ellas el desmantelamiento de los servicios públicos de asistencia social —, llevadas a cabo por los tres últimos gobiernos e intensificadas por Montenegro. Ambas teorías le daban lo mismo a Sebastián. No pudo evitar un estremecimiento al recordar a la mujer que se había tirado del puente una semana atrás. Treinta y cinco años, divorciada, tres hijos menores de diez años. La habían despedido de su trabajo de enfermera luego de que la clínica se enterara que ella cobraba unos pesos extra por limpiar las descuidadas habitaciones de los pacientes. ¿Ésa era razón suficiente…? Nunca lo entendería. Qué egoísmo el suyo, debía pensar en sus hijos. [4]

O romance de Soldán, tratando agora de sua construção de linguagem, surge com aquele tão trivial narrador de fora, que sabe praticamente tudo de suas personagens. É o narrador-deus, que controla passado, presente e pode até mesmo determinar o futuro das figuras humanas e dos eventos inseridos na obra. Ou seja, o narrador fala muito mais que as personagens — e essas, quando se expressam, o fazem de modo, na maioria das vezes, tímido, com pouco espaço para desenvolver um discurso mais particularizado em relação ao narrador externo.
Ao longo da narrativa, Soldán maneja o foco oscilando entre onisciência e discurso direto, por vezes chega a usar o indireto livre. O que dá ao romance um certo ar contemporâneo. Fato é que, apesar disso, o livro se arrasta em uma sequência bastante convencional, sem novidades enquanto linguagem e arquitetônica ou algo que nos faça, como leitores, nos surpreender com ele. Desse modo, o leitor mais atento e crítico pode chegar à conclusão de que certos romances atuais, que trazem consigo o modo “alfaguarizado” de escrita não têm muito a contribuir para o acúmulo de repertório inventivo da literatura latino-americana contemporânea.
Ao construir sua ficção sob a perspectiva de uma sociedade dominada pelo capitalismo neoliberal mesclado a um sistema ditatorial que tenta se disfarçar para fazer crer que se vivem tempos democráticos, Soldán não perde oportunidade de reduzir os indivíduos (personagens) de classe média do romance à condição de objetos, seres sem autonomia; por outro lado, desconsidera que esse mesmo sistema capitalista[5] é também aquele “que provoca a maior estratificação social e o maior número de conflitos da história da sociedade, gerando vozes e consciências que resistem a tal redução”[6].
Além disso, a obra reduz seu mundo ao universo dos sujeitos de classe média globalizados, com acesso à educação e informações que circulam pelo mundo, salvo em alguns poucos trechos — por exemplo, a narrativa sobre o suicídio de um líder operário que pula de uma ponte na capital do país e o da mulher que se suicida na ponte de Río Fugitivo por sua condição de miséria material. Contudo, a ficção de Soldán não nos permite verificar uma preocupação aguçada com os conflitos humanos e sociais engendrados pelo sistema que cerca, encarcera e esmaga as personagens. As variadas formas de violência (econômica, política e ideológica) são pouquíssimas vezes questionadas pelas personagens, que seguem submissas à repressão que assola o país, seja por parte do capitalismo neoliberal ou por parte do sistema político ditatorial. Para além de queremos afirmar que escrever contra o sistema político, econômico ou social seja um dever de Paz Soldán, faz-se necessário argumentar que ao terminarmos a leitura de “Sueños digitales”, temos a impressão de que esse romance aponta para um livro com potencial questionador muito maior. É um livro que nos dá a sensação de que irá se desenrolar em uma direção menos convencional, afastando-se fórmula do thriller. No entanto, isso não ocorre e a ficção de Soldán cai no lugar comum.




                                                                                        Figura 1: Edmundo Paz Soldán.
                                  Imagem disponível em <http://www.latamrob.com/archives/988>




[1] Escritor nascido em Cochabamba, em 1967, um dos destaques da chamada Geração McOndo. É autor do romance “Días de papel” e do livro de contos “Las máscaras de la nada”, entre outros.
[2] FERRERO, Aránzazu. Sueños digitales: Edmundo Paz Soldán.  Disponível em versão digital em: http://www.bibliopolis.org/resenas/rese0412.htm. Acesso em 15 de dezembro de 2012

[3] SOLDÁN, Edmundo Paz. Sueños digitales. Madrid: Alfaguara, 2000, p.49.

[4] Ibidem, pp 29-30.
[5] Apesar de o contexto capitalista observado por Bakhtin ser o do século retrasado, não podemos deixar de entender que a obra de Soldán se encaixa dentro de um contexto de forças neoliberais, privatistas, obviamente capitalistas, e que produz ainda uma grande estratificação social, principalmente em países desiguais como os latino-americanos, fato que engendra vozes discordantes, antagônicas e conflituosas dentro desse mesmo universo regido pelo capitalismo — e isso, acreditamos, deixa de ser explorado em “Sueños digitales”.
[6] BEZERRA, Paulo. Polifonia. Op. Cit. p. 193.      
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* Professor do curso de Mestrado em Teoria Literária
da UNIANDRADE

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A POESIA DE TRANSIÇÃO DO SÉCULO XIX PARA O XX: OLAVO BILAC E AUGUSTO DOS ANJOS


*Prof. Otto Leopoldo Winck
Na periferia do capitalismo, ourivesaria e paroxismo
            Em 1880 o Brasil era uma monarquia (a única na América Latina), escravagista (a última nação do continente a alforriar os escravos), com uma população, basicamente rural, de cerca de dez milhões de habitantes. O romantismo, dominante até algumas décadas atrás, agonizava, acossado por uma poesia que se pretendia científica, socialistas e realista. Uma geração depois, em 1920, o país já contava com uma população de 30 milhões, era uma república consolidada, não obstante instável. A industrialização, ainda que incipiente, ao lado de uma nova burguesia, produzia os primeiros proletários. Na elite dirigente, reinava o positivismo, o qual, de doutrina que pretendia combater a ignorância e a superstição, transplantado para os trópicos, assumia curiosos ares de culto religioso. Ao mesmo tempo, os imigrantes europeus traziam para cá as novas ideias do anarquismo e do marxismo. Na literatura, realismo, naturalismo, parnasianismo e simbolismo, muitas vezes imbricados e sem mais a pujança inicial, já ostentavam um rol considerável de realizações, enquanto aquilo que viria a ser conhecido como modernismo ainda não dera o ar da sua graça, como o faria de maneira ruidosa em 1922, na Semana de Arte Moderna – curiosamente no mesmo ano da fundação do Partido Comunista. A imigração mudara profundamente o perfil da demografia brasileira, “branqueando a raça”, enquanto os ex-escravos e seus descendentes, preteridos como mão-de-obra assalariada, engrossavam os cortiços nos morros e nos subúrbios das grandes cidades que pontuavam num país de feições ainda agrárias. Com efeito, não obstante algumas mudanças políticas e econômicas, o Brasil continuava um país de inserção subalterna no capitalismo global, pagando um pesado óbolo por sua herança colonial. O Rio de Janeiro exemplificava de maneira sintomática essas contradições. No começo do século a capital federal, inspirando-se na reurbanização de Paris, passava por uma profunda reforma, com a abertura de amplas avenidas, túneis e uma maquiagem no antigo centro. Os ambientes saneados e urbanizados, nos quais são combatidos os focos de epidemias como a febre amarela e a varíola, contrastavam com os morros e áreas periféricas, para onde era impelida a população pobre residente na região central. Com essa situação, crescia a delinquência, aumentando o número de delitos de toda ordem. Ao mesmo tempo, nas livrarias e cafés das áreas nobres, agitava-se toda uma fauna de boêmios e literatos, do sofisticado João do Rio ao marginal Lima Barreto. É a Belle Époque carioca, cenário onde circulava a alegre intelligentsia tupiniquim, antes da irrupção, por conta do modernismo, de uma nova geração de artistas e intelectuais baseados em São Paulo. Na poesia desse período, dois poetas podem ser convocados para exemplificar o espírito da época: o parnasiano Olavo Bilac e o “simbolista” Augusto dos Anjos.
O Príncipe dos Poetas
Juntamente com Alberto de Oliveira (1857-1937) e Raimundo Correa (1859-1911), Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918), cujo nome já é um alexandrino perfeito, forma a famosa “trindade parnasiana”. Nascido como reação aos excessos da subjetividade romântica e ao seu famigerado desleixo formal, o parnasianismo chega ao Brasil por influxo direto de seu similar francês. O vate se transforma em joalheiro, o vidente em ourives. Em vez da inspiração, o lavor; no lugar do sestro, a perícia técnica. O modelo ideal são as artes visuais, em especial a escultura. O culto da forma, não raro confundido com fôrma (como disse Manuel Bandeira), a arte pela arte, a impassibilidade são erigidas em virtude, como no ideal clássico, e toda a temática da Antiguidade volta à tona, com sua carga alienígena de deuses e heróis greco-romanos. Num país de não-leitores, os poetas parnasianos alcançam invejável glória, sobretudo a supracitada trindade, da qual destaca-se, em evidente primazia, o primeiro príncipe dos poetas brasileiros, Olavo Bilac.
Jornalista, polígrafo, inspetor de ensino, Bilac talvez seja o representante mais típico de nossos triunfantes literatos da Belle Époque – sem dúvida o poeta mais popular de sua época. Contrariando o conselho que deu em “A um poeta”, não fugiu “do estéril turbilhão da rua”, mas antes envolveu-se em intensa atividade política: defendeu a Abolição e a República, engajou-se na oposição a Floriano Peixoto, na campanha pelas reformas urbanas, na defesa da instrução primária, e, no fim da vida, na propaganda pelo serviço militar.
Já no intróito de seu livro de estreia, Poesias (1988), o poema “Profissão de fé” é um exemplo do ideário parnasiano, felizmente nem sempre seguido à risca pelo poeta: “Torce, aprimora, alteia, lima / A frase; e, enfim, / No verso de ouro engasta a rima, / Como um rubim.” Das três partes constitutivas do livro, a primeira é a que mais se identifica com o ideal parnasiano – na escolha dos temas, na ênfase descritivista, no caprichado refinamento, na chave de ouro dos sonetos. Sobretudo, é na segunda parte, Via Láctea, que se revela outro veio do poeta, o que o salva dos excessos da rigidez da escola. Aí se percebe a influência do lirismo da matriz portuguesa, sobretudo Bocage, e um sensualismo de inspiração epicurista. Mas é sobretudo no livro Tarde, publicado postumamente em 1919, que esse lirismo logra ás vezes libertar-se da camisa de força parnasiana e, envolto num doce clima crepuscular, atingir alguns altos vôos poéticos.
Devido a tendência parricida das novas gerações, Olavo Bilac foi um dos alvos preferenciais dos modernistas, o que turvou durante muito tempo sua correta apreciação pela crítica. Todavia, nos últimos decênios, sua obra vem sendo aos poucos revalorizada, não apenas seus poemas “oficiais” como também sua atividade na imprensa, sobretudo as crônicas e os poemas de circunstância.
Poesia agônica
Se Olavo Bilac, salvo em alguns momentos, é um representante típico do parnasianismo, o mesmo não se pode falar de Augusto dos Anjos (1884-1914) com respeito ao simbolismo. É claro que não é apenas sob o ponto de vista cronológico que o poeta paraibano é aproximado ao simbolismo, pois este não é tanto posterior ao parnasianismo como muitas vezes concomitante a ele. Entre Augusto dos Anjos e a escola do Símbolo, não apenas alguns temas mas a sensibilidade os aproxima. No entanto, se o simbolismo, ao contrário da visualidade do parnasianismo, preferiu o encantamento da música, esta soa de modo estridente e dissonante em Augusto dos Anjos. Ao contrário da surdina verlaineana de um Alphonsus de Guimaraens, os acordes do autor de Eu, lançado em 1912, causam estranheza por sua aguda dissonância. Todavia, junto ao poeta de Mariana e Cruz e Souza, uma vocação para a marginalidade e para a melancolia os une. Ademais, ao contrário dos aplausos da trindade parnasiana, esta tríade “simbolista” não conheceu a fama, não gozou de prestígio literário. Contudo, ainda que membro inconteste desse trio, só podemos denominar Augusto dos Anjos como simbolista com aspas de protesto. Ao contrário dos outros, nele não encontramos a fuga para a Torre de Marfim do Parnaso ou do Símbolo, mas sim um amargo mergulho na sordidez da realidade, com fortes cores escatológicas. Em vez do evanescente, a dura materialidade expressa não raro com “antipoéticos” termos científicos. Em vez do sonho, o pesadelo do prosaico. Em vista dessas particularidades, alguns críticos denominam Augusto dos Anjos como pós-simbolista, outros, como Ferreira Gullar, como pré-moderno, embora esses termos nos pareçam demasiado imprecisos. Há ainda quem vislumbre nele traços expressionistas, aproximando-o ao poeta alemão Trakl. De toda forma, Augusto dos Anjos pertence a esta geração na qual o simbolismo, em todas as suas vertentes, preparou o terreno para a irrupção da poesia moderna.
Ao contrário de Bilac, célebre em vida e atacado depois de morto, Augusto dos Anjos, que em vida não encontrou mais que ostracismo, conquistou uma grande popularidade póstuma. Seu livro, o único publicado em vida, vem recebendo seguidas reedições, superando em muito o número de leitores do colega parnasiano.
Referências bibliográficas
ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
BILAC, Olavo. Poesias: Panóplias, Via-Láctea, Sarças de fogo, Alma inquieta, As viagens, o caçador de esmeraldas, tarde. Belo Horizonte: Itatiaia, 1985.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 41 ed. São Paulo: Cultrix, 1998.
BUENO, Alexei. Uma história da poesia brasileira. Rio de janeiro: G. Ermakoff, 2007.
CANDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 5. ed. São Paulo: USP/Itatiaia, 1975.
GIL, Fernando Cerisara. Do encantamento à apostasia: a poesia brasileira de 1880-1919. Curitiba: Editora UFPR, 2006.
HELENA, Lúcia. A cosmo-gonia de Augusto dos Anjos. Rio de janeiro: Tempo brasileiro, 1977.
SIMÕES JUNIOR, Álvaro santos. A sátira do parnaso: estudo da poesia satírica de Olavo Bilac de 1984 a 1904. São Paulo: Editora UNESP, 2007.
*Professor no Curso de Mestrado
em Teoria Literária da UNIANDRADE

quinta-feira, 20 de abril de 2017

(RE) LENDO STEFAN ZWEIG

*Mail Marques de Azevedo


A palestra do professor Celso Lafer sobre o pacifismo de Stefan Zweig, a que assistimos na USP, no dia 31 de março, abordou a conferência sobre a unidade espiritual da Europa, pronunciada pelo escritor austríaco no Rio de Janeiro, em 1936, no Instituto Nacional de Música. Professor titular de Filosofia do Direito na Universidade de São Paulo, membro da Academia Brasileira de Letras, por duas vezes ministro das Relações Exteriores, o palestrante falou com autoridade sobre a trajetória pacifista de Stefan Zweig, impulsionada pelo ideal da harmonia entre os povos.

A utilização do avanço do conhecimento tecnológico para a destruição em massa, que transformou a Primeira Guerra Mundial em um banho de sangue, teria sido o ponto de partida para a jornada utópica de Stefan Zweig por diversos países do oriente e do ocidente em busca de mostras da dignidade do ser humano.

Utilizando-se da alegoria da torre de Babel na peleja contra o belicismo, Zweig argumenta na referida conferência que a capacidade de traduzir é o fio de Ariadne que conduz o homem para fora do labirinto. Daí a função do intelectual como mediador: enquanto a política divide, a cultura une, vive e cresce no diálogo; é o caminho que conduz à universalidade. Apesar de retrocessos e recaídas, o intelectual não deve duvidar da força da comunicação pela linguagem. É a linguagem universal da música que permite a Handel transferir-se dos estados germânicos para a Itália e, posteriormente, para a Inglaterra, criando sua arte monumental.

Como cidadão europeu, Stefan Zweig viveu a experiência da Europa da cultura, cujos valores de harmonia entre os povos inspiram o ideal da Comunidad
e Europeia. A conferência de 1936, publicada em várias línguas, contém o germe da obra Brasil, o país do futuro, evidentemente a mais conhecida dos brasileiros, e isto por mais de uma razão.

Desde a divulgação pelas coordenadoras do GT Literaturas Estrangeiras Modernas, que promoveu a palestra, o assunto escolhido acordou ecos de contatos recentes com a obra de Zweig. Há algum tempo, fiz a revisão final do artigo “Vida e morte de Stefan Zweig no cinema de Sylvio Back (1995-2003): identidades, ressentimentos e suicídio como protesto,” publicado em 2013, na nossa Scripta Uniandrade. Dos pontos ressaltados pela articulista, Rosane Kaminski, na análise do filme ficcional de Back, Lost Zweig, parece-me importante comentar “o sentimento de solidão intelectual e o dilaceramento de Zweig entre o ato criativo da escrita e as pressões exercidas pelo governo Vargas sobre sua atuação profissional”.

Nos anos 1930, a publicação das obras de Zweig no Brasil atingia elevado número de leitores com sucesso incomum. Não é de surpreender, portanto, que fosse recebido de braços abertos em sua primeira visita ao país, ocasião em que pronunciou conferências para salões sempre lotados. Nas viagens que fez ao Brasil, até estabelecer-se com a esposa, Lotte, em Petrópolis, em 1940, Stefan Zweig coletou anotações para o ensaio Brasil, país do futuro, publicado em 1941, de onde se originou a alcunha “país do futuro”, quase um aposto aplicado ao nosso país.

A publicação suscitou reações adversas de jornalistas que viam na obra um pagamento à concessão pelo governo Vargas a Zweig do visto de residência no Brasil. Artigos no Correio da Manhã insinuam o “comercialismo do escritor” e censuram as “interpretações abusivas” de Zweig na descrição dos hábitos do povo brasileiro. Trata-se de “um livro mau” e tendencioso marcado por imprecisões históricas. Sai em sua defesa Afrânio Peixoto que, no prefácio do livro polêmico, apresenta ao leitor o escritor famoso como “um encanto de convivência, de conversação, de simplicidade” (...) “... aqui está, aqui esteve, sem ruído, no Brasil. Aqui, não foi ao Catete nem ao Itamarati, nem às Embaixadas, nem à Academia” (...) “Não quis nada, nem condecorações, nem festas, nem recepções, nem discursos . . . Não quis nada.”

Entre o libelo e o panegírico, escolho ouvir o próprio autor. Tenho em mãos os dez volumes das Obras completas de S. Zweig, publicadas pela Delta, em 1960. É uma daquelas edições encadernadas, com decorações em vermelho e dourado, pertencente a meu pai que, certamente, rendeu-se às técnicas insistentes de algum vendedor – hoje substituído pelas incursões igualmente intrusivas que sofremos via TV, e-mail, Ipad, Ipod, smartphone e quejandos. Retirei os livros dos fundos da prateleira de obras de referência, onde descansavam em tranquilidade. Surpreendi-me fascinada pelo texto, lendo trechos aleatoriamente, sem me concentrar na busca específica que deveria fazer. 

O prefácio à história de Maria Antonieta, na primeira página, por exemplo, oferece-nos de pronto sinais da honestidade intelectual do escritor que não se alinha com detratores ou defensores da desventurada rainha, mas introduz com equanimidade os argumentos com que irá apresentar a personagem ao leitor:


Assim como o artista procura às vezes intencionalmente um motivo na aparência mesquinho, (...) a fim de melhor provar sua força criadora, também o destino, uma vez ou outra, escolhe um herói insignificante, para mostrar que, de uma matéria frágil, sabe tirar o mais intenso patético, de uma alma fraca e indolente, a mais alta tragédia. Maria Antonieta é um dos mais belos exemplos desse heroísmo involuntário. (ZWEIG, 1960, vol. 1, p. 4)


Ao invés de me embrenhar em comentários sobre Brasil, o país do futuro, − o texto de maior interesse para nós, brasileiros − em que Zweig parte da história do país, desde a chegada dos portugueses − prefiro citar um trecho curto da “Pequena viagem ao Brasil”, cuja epígrafe indica: O Brasil: primeiro um curso de repetição para o europeu. Após constatar a ignorância do europeu culto que vê o Brasil como “uma terra de clima quente e pouco saudável, com paisagens lindíssimas e muita matéria-prima não aproveitada, à espera de imigrantes e colonos audazes e desesperançados em suas pátrias”, Zweig nos dá sua própria visão do Brasil: “um país com uma cultura própria, independente e valioso, uma terra que tem a extensão de um continente. Um país que dentro de poucos decênios será um dos mais poderosos e importantes do mundo” (ZWEIG, 1960, v.10, p. 247). Pergunta-se: onde ficou a inocência atávica que encantou o escritor?

Resta ainda comentar a solidão intelectual que leva o escritor a renunciar à vida, na terra em que depositara suas esperanças de um recomeço saudável depois da débâcle da civilização europeia.  Em uma de suas últimas cartas, Zweig fala da situação de exílio, das perdas que isto representa, entre outras, a do seu público leitor, os falantes de sua língua materna e as dificuldades de adaptar-se ao novo público e em especial dos efeitos do exílio em sua obra. “Em meu trabalho propriamente dito estou paralisado devido ao sentimento inconsciente de não possuir mais um público leitor certo” (ZWEIG, 1953, p. 232).

Na apresentação do professor Lafer, nossa colega Nancy Rosenchan referiu-se ao tema de estudo que desenvolvemos no presente biênio “Línguas em trânsito na literatura: espaços, memórias, identidades”, que visa a estudar literaturas que apresentem a complexa contingência do exercício de uma língua distinta da materna por autores ou personagens, ou seja, uma desterritorialização. A literatura se articularia, então, a partir de uma rede de impossibilidades: a de escrever, a de não escrever e a de escrever de outra maneira. Uma língua desterritorializada seria, assim, a que se escreve fora de um território, dito de origem. Nesse sentido, o caráter político dessa literatura é fundamental. A desterritorialização da língua, junto à ligação do individual com o imediato político e o agenciamento coletivo de enunciação, são, portanto, as três categorias caras a este projeto de estudo. Difícil imaginar, no contexto deste tema, personalidade literária que mais se teria enquadrado no aspecto da desterritorialização do que Stefan Zweig que, saído da Áustria, encontrou abrigo no Brasil, mas não o seu território linguístico e cultural.

(Re)leiamos Stefan Zweig!

 


REFERÊNCIAS

ZWEIG, Stefan. Encontro com homens, livros e países. Tradução de Odilon Galloti. Rio de Janeiro: Guanabara, 1953.
__________. Obras completas de S. Zweig. Rio de Janeiro: Delta, 1960. 10 volumes.

KAMINSKI, Rosane. “Vida e morte de Stefan Zweig no cinema de Sylvio Back (1995-2003): identidades, ressentimentos e suicídio como protesto”. Scripta Uniandrade, v.11 n.2 (2013).
* Professora do Curso de Mestrado em Teoria Literária
da UNIANDRADE

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

REVELAÇÕES IV: as poetas do Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE


*Sigrid Renaux 

Dando continuidade aos blogs REVELAÇÕES I, II e III, este blog apresenta uma leitura do poema de Alice Della Coletta Moreno “Algo do passado/Lances do presente”.
Como o título já sugere, o poema está dividido em dois momentos: “Algo do passado/” com onze quadras, nas quais o eu-poético relembra episódios de sua infância, e “/Lances do presente”, com sete quadras, nas quais o eu-poético tece considerações sobre sua vida acadêmica atual. A aliteração em “passado/presente”, a nível sonoro, enfatiza, a nível lexical, o contraste passado/presente, um presente que por sua vez também já se tornou um passado, como presente de uma narrativa. O pronome indefinido “algo”, por sua vez, sugerindo como essas lembranças não constituem toda a realidade, mas apenas uma parte do passado, contrasta com o substantivo “Lances”, com seus múltiplos significados: o que acontece, aconteceu ou pode acontecer; episódio, caso, fato, acontecimento; impulso; aventura; etapa. Todos eles enriquecem o sentido de “lance”, como será visto adiante.
Composto por dezoito quadras rimando na 2ª.e na 4ª. linhas, o poema merece destaque não só pela musicalidade natural de seu ritmo – com linhas de versos que variam entre hexa- e octosilábicos, com três acentos tônicos por linha – mas principalmente pela liricidade com que relembra suas origens, bem como pela sensibilidade e sabedoria com que avalia seu momento presente.
Concentrando-nos primeiramente nas rememorações em “Algo do passado”, percebemos, ao examinar os diversos níveis de construção do texto, os seguintes elementos estruturais:  
            Na quadra I, o eu poético nos informa, orgulhosamente, de sua ascendência “roceira”,  “Pois só na origem do mato/Vinga a formação verdadeira”, ou seja, é no crescer, no desenvolver-se em contato com o “mato” – no interior, na roça, no campo – que realmente formamos nossa personalidade. A rima grave “roceira/verdadeira”, a rima interna “sertão/formação” e a aliteração “só/sertão/roceira” acentuam as relações fono-semânticas, ao aproximarem as palavras no som e no sentido:                                              
                                                              
Sou lá do sertão paulista
Com orgulho de roceira
Pois só na origem do mato
Vinga a formação verdadeira.

            Já quadra II, o eu poético passa da lembrança da paisagem ampla aos detalhes de sua vivência em contato com os animais da roça, ressaltando que “para ser boa matuta/ Só através dos animais”. Ou seja, se o “matuto” é um indivíduo que vive no campo e cuja personalidade revela rusticidade de espírito, falta de traquejo social, um  “caipira”, por sua vez “matutar” sugere pensar demoradamente sobre algo, meditar, refletir, levando-nos assim ao sentido apenas positivo de matuto como indivíduo que vive no campo, retomando deste modo a “formação verdadeira”, em contato com a natureza, da primeira quadra:

A pinguela e o mata-burro
São lembranças atuais
Pois para ser boa matuta
Só através dos animais.

A rima aguda “atuais/animais” enfatiza mais ainda a relação entre o eu poético e a lembrança sempre presente dos animais, que será detalhada nas seis quadras seguintes.  
O eu-poético ressalta, na quadra III, a beleza da “égua Faceira”, sua “companheira” nas cavalgadas, lembrando-nos que, no sul do Brasil, diz-se “faceira” do cavalo que é garboso e levanta o pescoço quando em marcha. Assim, a facilidade com que surge a rima “Faceira/ companheira” bem demonstra, mais uma vez, a íntima relação entre som/sentido, pois “Faceira/ minha companheira” se identificam como pertencentes ao eu-poético, além de participar de suas  aventuras:  

Agora tenho saudade
Da linda égua Faceira,
Que nunca se negava
  A ser minha companheira

A quadra IV continua a apresentar as lembranças do eu-poético descrevendo suas aventuras com a égua e a humanização dada ao animal, que “parecia sempre rir,/Quando eu puxava seu freio/Para a porteira abrir”, sugerindo que a alegria das lembranças entre o eu- poético e o animal transforma-se numa única alegria, pois “abrir a porteira” indica, para ambos,  o começo da liberdade de ir ao encontro dos campos. Unem-se, deste modo, mais uma vez, som e sentido através da rima aguda “rir/abrir”:

Em seu lombo confortável
Ela parecia sempre rir,
Quando eu puxava seu freio
Para a porteira abrir.

Já na quadra V é a vez do irmão do eu- poético a ser rememorado, por meio da imagem do cavalo “Guarani” – “Guarani”, como sabemos, denomina o grupo indígena que habita Mato Grosso do Sul, e do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul – e que, em contraste com a égua Faceira, é “um tremendo animalão”, lembrando assim a etimologia de “guarani”: guerrear, combater. Sua função, portanto, era de levar o menino, protetoramente, “de casa para a escola”, o que é ressaltado pela rima aguda “animalão/irmão”, caracterizando bem o grande porte do cavalo em contraste com o irmão:  
O cavalo Guarani
Um tremendo animalão,
De casa para a escola
Levava o meu irmão.

Em seguida, na quadra VI, passamos às lembranças que o eu-poético tem da “vaquinha Azeitona”, que lhe “dava o primeiro alimento”:

A vaquinha Azeitona
Que não me sai da lembrança,
Pois dava o primeiro alimento
Desde o tempo de criança.

O diminutivo “vaquinha” já demonstra o carinho para com este animal, a cor verde- “azeitona” sugerindo talvez a tonalidade de seu pelo, ou simplesmente como um epônimo. Por sua vez, a rima grave “lembrança/criança”, a aliteração “Azeitona/alimento”, a assonância em “alimento/ tempo” são todos efeitos sonoros que enriquecem a musicalidade das linhas além de uni-las numa única recordação.
            Na quadra VII o eu-poético já se apresenta em atividades de “fazendeira” ao ajudar na separação dos bezerros das mães, o que lhe causava “tristeza”, pois sentia-se sem coragem para exercer tal função: se a vaquinha Azeitona a alimentava, por que precisaria separar os bezerros das outras mães? O fato de a primeira linha ser eneassílaba, portanto mais longa que as outras, parece confirmar a obrigatoriedade desta tarefa triste da qual havia sido encarregada, enquanto a aliteração em “tarefa/toda/tarde/tristeza” enfatiza esta obrigatoriedade, levando-a a sentir-se  “toda tarde” como uma “covarde”:

Separava os bezerros das mães
Tarefa de toda tarde,
Que tristeza que sentia
Parecendo uma covarde.

Entretanto, por meio de seu eu-poético, esta menina continua a crescer e suas próximas atividades, na quadra VIII, já demonstram sua bravura, em contraste com sua “covardia” anterior:

Aprendi a pegar cobra
À tarde ou de manhã,
Depois eram enviadas
Para o Instituto Butantã.

O fato de ter aprendido “a pegar cobra”, a qualquer hora do dia, torna-se assim um ato corriqueiro na vida desta “fazendeira”, pois, dentro de novas responsabilidades, sabe o valor de seu ato ao serem os repteis depois enviados ao Instituto Butantã. Assim, a rima aguda “manhã/ Butantã” confirma a rotina quase diária de pegar cobras para este famoso centro de pesquisa biomédica e, deste modo, contribuir para a produção de vacinas, soros e biofármacos para uso humano.
Nas quadras IX e X - ,
A lembrança da escolinha
Traz à tona a rotina,
Com colegas muito amados
E a professora Albertina.

Com o uniforme alinhado
Blusinha branca, saia marinho,
E para que ficasse completo
No cabelo um lacinho.

o eu-poético relembra, inicialmente, a escolinha em que estudava – o diminutivo acentuando a valorização afetiva do substantivo – bem como os colegas e a professora Albertina. Simultaneamente, a “rotina” evocada – este hábito de fazer algo sempre do mesmo modo, mecanicamente –  à qual as crianças precisam se acostumar, é compensada pelo coleguismo e pela figura da professora, enfatizados pela rima grave “rotina/Albertina”, unindo, destarte, a rotina das aulas com a dedicação da professora. 
            O eu-poético relembra, em seguida, o uniforme – blusa branca, saia marinho: o branco, com suas implicações de asseado, impecável, em contraste a tonalidade escura do azul marinho,  similar ao azul do mar lembrando-nos, por similaridade visual, das cores da bandeira nacional. Este vestuário padronizado e distintivo, por sua vez, é qualificado como “uniforme alinhado”, remetendo-nos tanto aos alunos enfileirados à entrada da sala de aula, como também ao orgulho que as meninas sentiam, por estarem “uniformizadas” e, assim, pertencentes a uma escola. O “lacinho”, por sua vez, dá um toque especial ao “uniforme”, pois é o traço diferencial entre as meninas. O uso de diminutivos – blusinha, lacinho – como já visto em estrofes anteriores – escolinha, vaquinha – acentua mais uma vez o carinho que as lembranças do eu-poético despertava na menina, o que é confirmado, nesta quadra, pela rima grave “marinho/lacinho”, além da repetição da consoante líquida /l/ em “alinhado/blusinha/completo/cabelo/lacinho”, acrescentando, deste modo, uma sonoridade maior a esta quadra e, consequentemente, aproximando as palavras em som e sentido.
            Esta primeira parte do poema encerra-se, na quadra XI, com uma pergunta retórica do eu - poético:

Quem é que não tem saudade
Do seu tempo de criança?
Aí estão as verdades
Que mantemos como herança.

E a resposta, nas linhas 3 e 4, nos remete à quadra I:

Sou lá do sertão paulista
Com orgulho de roceira
Pois só na origem do mato
Vinga a formação verdadeira.

Ou seja, assim como a “formação verdadeira” se desenvolve em contato com a natureza, também as “verdades” que adquirimos em tempos de criança são as “que mantemos como herança”. Este círculo rememorativo se fecha, deste modo, valorizando a infância: do contato com a “natureza” e suas experiências na fazenda, ao convívio com o “saber” e com os outros, representados pela escolinha, a professora, os colegas. A rima grave “criança/herança” acentua a relação entre todos os elementos apresentados em “Algo do passado”, pois reúne os dois polos semânticos: a lembrança do passado e a herança que este passado lhe deixou.
            Ao passarmos para a segunda parte do poema, “/Lances do presente” – quadras XII a XVIII – na qual o eu-poético reflete sobre seu presente como mestranda da UNIANDRADE, esta reflexão se inicia com uma decisão (quadra XII):

Preciso com tato organizar
E ilustrar as minhas lidas,
Outras audiências virão
Assim que constituídas.
O fato de “lidas”, na linha 2, poder se referir tanto a um esforço fora do comum, como também a uma leitura rápida, superficial e, assim, “ilustrar minhas lidas” implicar em exemplificar, esclarecer seu trabalho/suas leituras para “outras audiências”, para outros ouvintes, demonstra, por meio da metalinguagem, a preocupação do eu-poético em sair-se bem nesta nova fase de sua vida acadêmica.
As quadras XIII a XVIII apenas ampliam, em outro nível, as recordações da “escolinha” de sua infância, ao comentar, na quadra XIII, que “” daqui a pouco” – quando tiver terminado o curso – irá “curtir nova saudade”; o fato de se referir a “daqui a pouco”, irá marcar a temporalidade futura da quadra XIV, pois ao retomar as figuras dos atuais colegas, professores,  funcionários e assessores, esses “retratos serão eternos”. O uso do diminutivo em “cantinho” também retoma os diminutivos da primeira parte do poema, sempre com o viés carinhoso de seu olhar. Como acima, as rimas graves na quadra XIII – Uniandrade/saudade – bem como da quadra XIV – professores/assessores – formam um grupo semântico que abriga a instituição com seus membros, como também o efeito que a futura separação irá causar no eu-poético – a saudade:

Agora outra vez aluna
Da grandiosa Uniandrade
Em Suma daqui a pouco
A curtir nova saudade.

Uns retratos serão eternos
Dos colegas e professores,
De cada cantinho da sala
                                                                 Dos funcionários e assessores


Já na quadra X, amplia-se também o conceito de “verdade” expresso na “formação verdadeira” da quadra I e nas “verdades” da quadra XI, pois agora o eu-poético, assumindo-se como adulto, afirma que “o sentido da vida/Só é completo na união”, algo que, na infância, ainda não temos condições de avaliar. A rima aguda “emoção/união” traz à tona esta agitação de sentimentos, este comoção afetiva ou moral que sentimos quando descobrimos uma grande verdade: unir é estabelecer harmonia, aliança, ligação entre as pessoas, pois só com esta união completa-se o sentido da vida: 
                                                
 Uma das grandes verdades
Que só reforça a emoção,
É que o sentido da vida
Só é completa na união.

Nas quadras XVI e XVII o eu-poético menciona sua gratidão a duas professoras, que, como outros mestres da Instituição, tiveram a oportunidade de lhe transmitir conhecimentos, transformando deste modo o ensino numa aventura de mão dupla, pois, certamente, as professoras se enriqueceram humanamente tanto em contato com os alunos como estes com elas. As rimas esdrúxulas, em “clássicos/mágicos” da quadra XVI, e graves em “literatura/aventura” da quadra XVII, apenas corroboram a magia do encontro com textos clássicos e com a modernidade que eles expressam, como também a visão da literatura como uma aventura infinda, tanto para alunos como para professores:

A sábia professora Sigrid
Na apresentação dos clássicos,
Tem tão grande maestria
Que parece ter dons mágicos.

A Brunilda se impõe
Ao expor literatura
E o ouvinte queira ou não
Introduz-se na aventura.

O poema finaliza, na quadra XVIII, com a constatação de que a “solidariedade” – este compromisso, este laço pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas – é a descoberta de uma verdade que vai muito além da aprendizagem de teorias e textos, pois é esta união, que dá sentido à vida, que também dá sentido às aulas que os alunos estão frequentando. Torna-se, assim, a grande “mensagem/aprendizagem” transmitida a todos – solidariedade, como o bem maior:

O ambiente calmo e aconchegante
Dá a todos a mensagem:
Aqui reina a solidariedade
Acima da aprendizagem.


As lembranças do eu-poético na primeira parte do poema tornaram-se, deste modo, uma mensagem de uma infância da qual todos nós já fizemos parte, enquanto as declarações do eu-poético na segunda parte do poema converteram-se numa mensagem da maturidade, época em que atingimos a condição de plenitude em arte, saber ou habilidade adquirida. Ambas as partes completam portanto um ciclo que, por sua vez, como “presente”, continua sempre a receber novos “lances”.
Que estas considerações – limitadas – sobre este poema, bem como sobre os poemas das outras mestrandas, já analisados em blog anterior, sirvam de incentivo a todas para continuarem suas aventuras infindas pelo mundo das palavras.


*Professora das disciplinas Teorias da Poesia e Poéticas da Modernidade: dos formalistas russos a Bakhtin,  no Curso de Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE