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segunda-feira, 19 de março de 2012

Análise discursiva da música “Festa da Música” (1997), composição de Gabriel, O Pensador.

Prof.ª Dr.ª Eunice de Morais




O CD Quebra-cabeça (PENSADOR, Sony music,1997) é marcado por uma variedade da problemática social brasileira vivida no ano antecedente ao da sua publicação, quando a fome, o desemprego, a saúde, a educação e a cultura em geral do país estavam recheadas de promessas e vazias da prática (e este clima perdura).
A Música “Festa da Música” (número 11 do disco) vem com o tom polêmico e alegre do Hip Hop brasileiro e faz uma homenagem, segundo o compositor, “a todos que estiveram, estão ou estarão um dia na festa da Música popular brasileira”, lembrando  que “esta é uma obra de ficção” para aqueles que por ventura não se derem por satisfeitos com a forma como foram citados na obra.
O discurso de Gabriel é, já de início, o do sujeito discriminado por representar a classe econômica baixa que depende do transporte coletivo para ir à festa ( 175 – linha  de ônibus que passa pela Rua Antônio Carlos Jobim no Rio de Janeiro). Há aí a sua primeira identificação com o público referencial do discurso, que se completa com a idéia dos “barrados no baile” apresentada já  por Eduardo Dusek há alguns anos atrás. A discriminação continua com Gilberto Gil (negro e nordestino) entre outros representantes que vão “penetrar” na festa com Gabriel, que não tem nem mesmo convite.
A partir daí as características pessoais de cada representante da MPB será apresentada, por vezes citando trechos de músicas (“E aí Sandra de Sá! Bye Bye tristeza...”). A citação da presença do Tiririca e da ausência dos críticos que foram também barrados no baile lembra o fato de o cantor ter sido severamente repudiado pelos mesmos e ainda assim ter conquistado seu lugar na mídia (dona da festa) ainda que como modismo.
Ao referir-se à festa da música como “tupiniquim”, termo utilizado até mesmo por Oswald de Andrade em relação à arte brasileira como reflexo da origem  e pela criação de uma identidade nacional, o sujeito produtor do discurso retoma este questionamento sobre o que é originalmente brasileiro e sobre a diversidade da criação artística no país. Isto fica claro quando o texto apresenta representantes de todos os estilos musicais que compõem a história da nossa  música popular reunidos numa festa que acontece no Rio de Janeiro ( palco de grandes acontecimentos musicais) e numa rua com o nome de um dos grandes representantes da música Antônio Carlos Jobim. O clima de descontração e alegria, característicos do brasileiro, é ininterrupto, mesmo quando é citada a “presença” de Renato Russo como “um dos donos da festa” que está “no andar lá de cima”; há mortos que sobrevivem pela voz de outros e participam desta festa que é a música popular brasileira. O termo ‘festa’ no texto pode ser entendido, numa leitura inocente e até primária, como reunião comemorativa; mas também há um sentido negativo para o termo que indica lugar onde se faz o que quer e como se quer. Com este sentido, entende-se o discurso crítico, como não poderia deixar de ser, do compositor em relação ao caos que é o espaço e a falta de identidade da MPB, onde até Michael Jackson (que esteve no Brasil em 1996 para gravar cenas de seu clip musical) poderia roubar a cena, estar em primeiro lugar na mídia e se não o fez foi porque “uma brasília amarela dobrava a esquina”, lembrando o acidente com o avião que levava a banda “Mamonas assassinas” acontecido no mesmo ano e que, sendo algo trágico, no Brasil vende mais que qualquer acontecimento artístico. 
Depois deste relato sobre a festa tupiniquim da MPB, fica claro que o que importa não é o talento, o trabalho ou a arte brasileira, mas o que vende publicidade e o que não vende, o que está dentro e o que está fora da mídia ou da moda que a mídia cria e divulga.
A diversidade discursiva de Gabriel está dentro e fora do seu texto. Dentro porque relaciona estilos e vozes num mesmo espaço e tempo. A festa acontece num tempo indefinido que começou há muito tempo e não tem hora pra acabar e entre os presentes estão desde Gilberto Gil até Tiririca, representando públicos diversos e leituras diversas sobre o que é arte popular brasileira. Essa diversidade está também fora do texto, pois Gabriel usa uma linguagem habilmente informal e adequada ao ritmo do Hip Hop. A linguagem próxima da oralidade relaciona seu caráter polêmico e crítico aos fatos atuais e históricos daqueles que participaram ou que participam de um momento em que a música mistura seus valores estéticos e culturais a valores capitalistas ditados pela mídia brasileira, a verdadeira dona da “festa” em que se encontra nosso país.


FESTA DA MÚSICA Compositor: Gabriel, O pensador, C.D.: Quebra – Cabeça-Gravadora: Sony Music / 1997

HÁ MUITO TEMPO TÁ ROLANDO ESSA FESTA MANEIRA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
NINGUÉM ME CONVIDOU MAS EU QUERIA ENTRAR, PEGUEI O 175 E VIM DIRETO PRA CÁ
NA PORTARIA, O SEGURANÇA PEDIU O CRACHÁ DO GILBERTO GIL.
ELE APENAS SORRIU ACOMPANHADO POR CAETANO ,DJAVAN, PEPEU, ELBA, MORAES, ALCEU VALENÇA (XÁ COMIGO! DÁ LICENÇA!
ABRE ESSA PORTA CABRA DA PESTE) E FOI ASSIM QUE EU PENETREI COM A GALERA DO NORDESTE
BABY TÁ NA ÁREA , SENTI FIRMEZA! E AÍ SANDRA DE SÁ! – “BYE  BYE TRISTEZA ...”
BIRINIGHT À VONTADE A NOITE INTEIRA
OLHA O ED MOTTA ASSALTANDO A GELADEIRA
OLHA QUANTA GATA BONITA E GOSTOSA!
OLHA O TIRIRICA COM UMA NEGRA CHEIROSA 
UÉ! CADÊ OS CRÍTICOS?! NINGUÉM CONVIDOU? “BARRADOS NO BAILE UOUOU” 
NÃO É FESTA DO CABIDE, MAS O NEY TIROU A ROUPA 
BZZZ... PAULINHO MOSKA POUSOU NA MINHA SOPA 
CIDADE NEGRA APRESENTOU UM REGGAE NOTA CEM
TÁ ROLANDO UM SKANK TAMBÉM!
E O TIM MAIA ATÉ AGORA NEM PINTOU MAS O JORGE BENJOR TROUXE A BANDA QUE CHEGOU  “PRA ANIMAR A FESTA” 


FESTA DA MÚSICA TUPINIQUIM QUE TÁ ROLANDO AQUI NA RUA ANTÔNIO CARLOS JOBIM 
TODO MUNDO TÁ PRESENTE E NÃO TEM HORA PRA ACABAR
 E MUITA GENTE AINDA TÁ PRA CHEGAR 


A FESTA TÁ CORRENDO BEM
O LOBÃO ATÉ AGORA NÃO FALOU MAL DE NINGUÉM
O BARÃO E OS TITÃS TÃO TOCANDO RAULZITO 
A RITA LEE TÁ VINDO ALI...
ÃNH? NÃO ACREDITO! ELA OLHOU PRA MIM E DISSE “BAILA COMIGO”
EU SENTI AQUELE FRIO NO UMBIGO
MAS É CLARO QUE ADOREI O CONVITE 
E FUI DANÇAR OUVINDO O SOM DO KID ABELHA, PARALAMAS E A BLITZ ( ISSO AQUI TÁ MUITO BOM, ISSO AQUI TÁ BOM DEMAIS...)
“SEGURA O TCHAN, AMARRA O TCHAN” (XÔ, SATANÁS!)
HÁ HÁ! LULU SANTOS ACABOU DE CHEGAR COM A PIMENTA MALAGUETA PRO PLANETA BALANÇAR O CHICO CESAR, SCIENCE, E O BUARQUE OBSERVAM UM PESSOAL DANÇANDO BREAK NO CHÃO 
E NO ANDAR DE CIMA UM DOS DONOS DA FESTA TA NA BOA TÁ EM PAZ, TÁ TOCANDO UM VIOLÃO: “FESTA ESTRANHA COM GENTE ESQUISITA, EU NÃO TÔ LEGAL, NÃO AGUENTO MAIS BIRITA”


FESTA DA MÚSICA TUPINIQUIM
QUE TÁ ROLANDO AQUI NA RUA ANTÔNIO CARLOS JOBIM 
TODO MUNDO TÁ PRESENTE E NÃO TEM HORA PRA ACABAR
E MUITA GENTE AINDA ESTÁ PRA CHEGAR


CHOPP NA TULIPA, VINHO NA TAÇA
( CAMISINHA NA BOQUINHA DA GARRAFA!) ...
SALVE-SE QUEM PUDER! 
IH... O JOÃO GORDO VOMITOU NO MEU PÉ
FUI LIMPAR E DEI DE CARA COM OS RAIMUNDOS
QUE ME CONTARAM QUE ENTRARAM PELOS FUNDOS
PERGUNTEI PELO BANHEIRO E FIZ PAPEL DE MANÉ
OS SACANAS ME MANDARAM PRO BANHEIRO DE MULHER
AS MENINAS TAVAM LÁ
E FOI SÓ EU ENTRAR QUE A CÁSSIA ELLER, ZIZI POSSI E A GAL COMEÇARAM A GRITAR (AHHHHH!) QUANTA SAÚDE!
FERNANDA ABREU, DANIELA MERCURY, MARISA MONTE, DAÚDE... CALMA, EU NÃO VI NADA! 
A ÂNGELA RÔ  RÔ QUERIA ME DAR PORRADA
MAS OS TRÊS MALANDROS, MOREIRA, BE -  ZERRA E DICRÓ,
ME AJUDARAM A ESCAPAR DO PIOR FUI PRO FUNDO DE QUINTAL,
CASA DE BAMBA TODO MUNDO BEBE TODO MUNDO SAMBA 
BETH CARVALHO, ALCIONE, ZECA PAGODINHO, NEGUINHO DA BEIJA –FLOR...
DIZ AÍ MARTINHO! COMÉ QUE É , PROFESSOR? –
“É DEVAGAR, É DEVAGAR, DEVAGARINHO”


FESTA DA MÚSICA TUPINIQUIM
QUE TÁ ROLANDO AQUI NA RUA ANTÔNIO CARLOS JOBIM
TODO MUNDO TÁ PRESENTE E NÃO TEM HORA PRA ACABAR
 E MUITA GENTE AINDA TÁ PRA CHEGAR


ESSA FESTA É UMA LOUCURA
OLHA LÁ O CARLINHOS BROWN COM O PESSOAL DO SEPULTURA
VIERAM COM OS ÍNDIOS XAVANTES
E A POLÍCIA VEIO ATRÁS TENTANDO DAR FLAGRANTE 
E-E-E-Ê! O INDIO TEM APITO E EU NÃO ENTENDI PORQUÊ 
COMEÇARAM A APITAR QUANDO A POLÍCIA CHEGOU 
MAS A GALERA DO CACHIMBO DA PAZ NEM ESCUTOU
PORQUE O OLODUM TAVA FAZENDO UM BATUQUE MANEIRO
ATÉ  O LEANDRO E LEONARDO DE MC! 
E O ZEZÉ DI CAMARGO E O LUCIANO FICARAM ZUANDO
E O FUNK ROLANDO!  AAH... VOCÊS TINHAM QUE VER!
CHITÃOZINHO E XORORÓ GRITANDO UH! TERERÊ! 
O PESSOAL DA JOVEM GUARDA AGITANDO SEM PARAR
ESTAVAM EM OUTRA FESTA MAS VIERAM PRA CÁ
PASSEI ALI POR PERTO E OUVI O ROBERTO COMENTAR:
“Ê HEI! QUE ONDA, QUE FESTA DE ARROMBA!”
TODO MUNDO NO MAIOR ASTRAL
MAS ROLOU UM BOATO QUE PREOCUPOU O PESSOAL
DIZIAM AS MÁS LÍNGUAS, À BOCA PEQUENA,
QUE O MICHAEL JACKSON TAVA CHEGANDO PRA ROUBAR A CENA
E FOI AÍ QUE A MARINA OUVIU UMA BUZINA
E TODOS FORAM PRA JANELA NA MAIOR ADRENALINA
UMA BRASÍLIA AMARELA DOBRAVA A ESQUINA 
ADIVINHA QUEM ERA?


FESTA DA MÚSICA TUPINIQUIM...  
               


“Obs.: Esta obra de ficção é uma homenagem a todos que estiveram, estão ou estarão um dia na festa da música brasileira”. (GABRIEL, O PENSADOR)





(Este texto foi elaborado, em 2000, durante o curso de Especialização em Linguística Aplicada ao ensino de Língua Materna, UFPR)

terça-feira, 13 de março de 2012

O ciclo do misticismo e do cangaço em Pedra Bonita e Cangaceiros, de José Lins do Rego



Prof.ª Dr. ª Edna Polese


José Lins do Rego, um dos maiores representantes do chamado romance de 30, ficou conhecido como o escritor dos ciclos. Assim, suas obras mais conhecidas reúnem memória e imaginação e apresentam o aspecto social de vertente neorealista, que acaba por destacar personagens marcantes como Carlos de Menino de engenho. Realiza em Pedra Bonita e Cangaceiros o que foi identificado como o Ciclo do cangaço, do misticismo e da seca. Enfatiza o problema do fanatismo religioso no Nordeste e retoma o acontecimento messiânico conhecido como Pedra do Reino ou Reino Encantado, para contar a história dos Vieira, família historicamente envolvida com os acontecimentos marcantes do ano de 1838. Em nota da edição publicada pela José Olympio o autor destaca: “Continua a correr neste Cangaceiros o rio de vida que tem as suas nascentes em meu anterior romance Pedra Bonita. É o sertão dos santos e dos cangaceiros, dos que matam e rezam com a mesma crueza e a mesma humanidade.” O acontecimento histórico funciona como via inspiratória para a criação dos personagens que irão representar a tríade que massacra o sertanejo: a volante, o cangaço e a seca e, por outro lado, a religiosidade representada pela figura do beato peregrino que veio para salvar o povo.
José Lins apresenta a condição social e o perfil do sertanejo. É nessa atmosfera  que o autor retorna ao episódio factual ocorrido cem anos antes. No romance Pedra Bonita, lançado em 1938, a narrativa ocorre num período de tempo de mais ou menos 70 anos após os acontecimentos. A seca, fenômeno natural que expulsa o sertanejo de suas terras, traz a morte e a separação dos entes queridos. O cangaço e a volante são faces opostas da mesma moeda: situação criada pela permanência do patriarcalismo, da violência contra os mais fracos, da má distribuição de riquezas. Os fenômenos sociais – o fanatismo religioso e o cangaço – acabam por se constituírem em tipos de refúgio para o abandono desse povo que percebe nas autoridades locais somente a exploração e a injustiça. O autor declara, em registro resgatado no prefácio da 8º edição, que não pretendia fazer romance histórico e que o acontecimento ocorrido na Pedra Bonita é um assunto subjacente ao romance. Em Cangaceiros, a base para a ação é a mesma, com os mesmos personagens, porém a ênfase recai sobre o fim da família Vieira após um dos filhos tornar-se cangaceiro.
Na narrativa de José Lins do Rego, a apropriação da informação sobre a hierarquia monárquica ocorre a partir da utilização do nome da família Vieira para a construção de seus personagens. A informação de registro histórico não apresenta muitos detalhes sobre a participação da família, mas na obra ficcional de Lins do Rego, será um de seus membros, já que parte da família participava da aglomeração messiânica, que irá levar às autoridades as notícias sobre os fatos ocorridos na comunidade. A narrativa de Pedra Bonita trata da família Vieira, descendentes dos participantes do movimento: “ — Menino, tu me disseste que era filho de Bentão do Araticum. Pois fica sabendo. O homem que correu pra ensinar o caminho à tropa foi um de tua gente. Um Vieira. Tu não tem culpa de nada. Mas Deus não esquece. ( REGO, 1976, p. 119)
A família é composta por Bento Vieira, sua esposa Josefina e os quatro filhos: Deodato, Aparício, Domício e Antonio Bento. Na seca de 1904, a família foi obrigada a partir de suas terras no pequeno vilarejo de Açu. Josefina deixa o filho caçula, Antonio Bento, então com cinco anos, aos cuidados de Padre Amâncio. A velha mãe nutre uma esperança de ver o filho padre, desejo que é compartilhado pelo próprio filho e pelo padre, mas, devido ao estado lastimável da paróquia e da pouca influência de Padre Amâncio, tal propósito torna-se improvável. A vila do Açu é composta de figuras que representam a população local: o padre, as beatas, o juiz, os coronéis. Figuras que aos poucos deixam transparecer um receio sobre Antonio Bento, a cria do padre. Os moradores do Açu atribuem aos mórbidos acontecimentos ocorridos na Pedra Bonita, assim como à interferência dos antepassados da família Vieira, o fato da cidade não ser pródiga. Somente com a leitura avançada é possível apreender o verdadeiro motivo porque a família dos Vieira causa repulsa nas pessoas: um dos antepassados foi o responsável por levar às autoridades as informações sobre os sacrifícios ocorridos entre o grupo fanático, guiando-os para o embate que resultou em mais mortes. A interpretação dessa ação é de que houve traição e como a profecia não se cumpriu, recai sobre a família uma espécie de maldição. Assim, é apresentada a razão para o fato de Aparício tornar-se cangaceiro e para Domício tornar-se um dos líderes fanáticos quando o movimento é posto em voga novamente. Antonio Bento, o caçula, está, a essa altura da narrativa, com dezessete anos e acompanha toda essa situação mergulhado em profundas dúvidas sobre os fatos e suas conseqüências.
Bento, personagem principal do romance de José Lins, descobre, a partir do relato de Zé Pedro, um idoso que vive próximo das formações rochosas e serve como conselheiro espiritual para a gente da redondeza, as obscuras informações sobre a Pedra e o envolvimento de sua família com os acontecimentos. A partir da intervenção do irmão mais velho, Domício, ambos partem em segredo para afinal descobrirem a verdadeira história da Pedra. O relato de velho é breve, confirmando a informação do autor em não pretender fazer romance histórico, utilizando-se do acontecimento histórico para embasar a narrativa. Também não há registro sobre a figura de Dom Sebastião. José Lins utiliza-se da mensagem bíblica do novo testamento, a anunciação da vinda de Jesus Cristo, para explicar a força de conduta para que o movimento tomasse corpo:


Lá vem Batista, com as pedras na mão. Ele vem do Piancó. Ele diz pra todos: “— Ainda não sou eu. Só tenho as três pedras. Uma é o Padre, a outra é o Filho, a outra é o Espírito. Eu venho pra dizer que o Filho não tarda. Ele se chama Ferreira, vem no corpo de Antônio Ferreira, vencer os demônios, abrir a porta dos homens que não querem abrir pra os pobres, botar os pobres no lugar dos ricos e os ricos no lugar dos pobres” (REGO, 1976, p. 117)


A cena incorpora os elementos do messianismo: a vinda de um salvador, a promoção de uma vida digna aos que sofrem, a inversão social. João Ferreira, na narrativa de Lins do Rego, representa a figura de preenchimento anunciada por Cristo. Tal caracterização amplia o imaginário sobre a questão dos movimentos messiânicos. Ao fazer a referência bíblica, José Lins apresenta o fundamento cristão da segunda vinda de Cristo, no qual é possível estabelecer uma visão voltada à realidade social de forma a legitimar o traço religioso profundamente enraizado na cultura local, independente da formação de um grupo fanático. A obra de Lins do Rego apresenta a idéia geral de causa e conseqüência de determinada situação social que pode levar ao caminho do cangaço ou do fanatismo. Bentinho experimenta o processo de formação perante situações que vêm ao encontro de sua vida até então simplória e previsível. Tais situações o obrigam a escolher caminhos ou presenciar outras escolhas que reconhece como inexoráveis. Ao final da narrativa, essa imagem fica bem clara, pois diante de duas situações difíceis, a iminente morte de padre Amâncio e a perseguição que a família sofre com a volante, Bentinho parte do Açu rumo a um desses caminhos: buscar o padre de Dores para ministrar a confissão ao moribundo, ou seguir para a Pedra, onde agora sua família buscou refúgio.
O padrinho morria e desejava o consolo de uma confissão, de um ajuste de contas. O Padre Amâncio queria fazer as suas contas, dizer o  que devia a Deus, o que ficara restando, o que deixara de fazer. Aquilo não podia ser. Ele era um santo. Foi quando Bento chegou na encruzilhada que dava para Dores e para a Pedra Bonita. E o tiroteio voltou à sua cabeça, nítido como se ele estivesse olhando de perto. (REGO, 1976, p. 218)


                  Em Cangaceiros a narrativa foca a ação do grupo formado pelo irmão de Bento, Aparício, que assumiu o cangaço após um crime cometido na pequena cidade próxima ao Araticum, terra de seus pais. Sabendo que a justiça não beneficiaria gente humilde, a única saída é o cangaço. A narrativa não relata diretamente os acontecimentos ocorridos no grupo de cangaceiros liderado por Aparício. As ações chegam ao conhecimento de Bentinho e sua mãe, agora refugiados na fazenda do Capitão Custódio, após o segundo massacre à Pedra. Angústia e desolação são os tons que acompanham a narrativa. Os coiteiros e mensageiros simpatizantes dos cangaceiros trazem as notícias do mundo exterior e é dessa maneira que o leitor tem acesso aos acontecimentos. Na narrativa de Cangaceiros o “coito”[1] de Aparício e seu bando pertence ao Capitão Custódio dos Santos. É um local denominado Roqueira. O dono é um homem próspero, mas profundamente magoado com a situação de um mandatário local que assassinou seu filho e a família não teve como vingar-se. Sua esposa Doninha morre de desgosto. Na figura do cangaceiro é que o Capitão Custódio deposita a esperança de ver Cazuza Leutério, o mandatário do crime contra seu filho, vingado pelo cangaço . O tipo de situação que envolve Capitão Custódio e Aparício é uma das facetas que explica a longa permanência do cangaço nos sertões:


O problema dos coiteiros pela ótica policial, era uma engrenagem imensa e complicada; observava-se que qualquer pessoa do sertão era parente e compadre de cangaceiro, amigo ou protetor, de fato ou em potencial.
Existiam dois tipos de coiteiros. O primeiro era constituído pelos fazendeiros, comerciantes e chefes políticos ricos que por necessidade ajudavam Lampião.(...) O outro grupo de coiteiros era constituído de vaqueiros, moradores do campo, das fazendas e por outras pessoas que tinham pouca influência. Entre eles estavam os donos de pequenas e médias propriedades e os seus agregados, lojistas e negociantes dos povoados e arruados. Esse outro grupo não tinha grande proteção e sofria mais amiúde da força policial, principalmente quando se desconfiava de que os coiteiros estavam dando informações inexatas quanto à pista dos cangaceiros. (NASCIMENTO, 1998, p. 206)


                  O grupo de personagens que surge na narrativa de Lins do Rego pertence a essa engrenagem: Bento e sua mãe Josefina, parentes de Aparício, sofrem desde a narrativa de Pedra Bonita as influências de ter o parente tão próximo no cangaço. Capitão Custódio, que protege Aparício por interesses pessoais, representa o médio proprietário que tem pouca proteção policial. Os demais moradores da Roqueira, de uma maneira ou outra, sofrem com a guerra entre o cangaço e a força policial. Esse modo de narrar segue a maneira como a população acessou e construiu a imagem de Lampião, o mais conhecido dos bandoleiros. Informações desencontradas, notícias falsas e exageros nos relatos sobre a ação dos cangaceiros fortaleceram o imaginário sobre essas figuras. Outro meio utilizado por Lins do Rego e que tem fonte no imaginário do sertão nordestino é a literatura popular, ou a literatura de cordel. Dioclécio, cantador que aparece desde a primeira parte do romance Pedra Bonita, surge na narrativa de Cangaceiros como a voz que leva a vida de Aparício e de sua família para os versos e a viola. Ariano Suassuna faz um comentário sobre a obra de Lins do Rego analisando Cangaceiros a partir da continuidade de Pedra Bonita como uma “Gesta de Aparício”, o terrível cangaceiro que espalhará o terror em todas as nuances e camadas da comunidade local. Amplamente inspirado em cangaceiros famosos que assolaram o sertão nordestino a partir do final do século XIX, Aparício é construído a partir das figuras de Jesuíno Brilhante, Antonio Silvino e Lampião, certamente o mais famoso deles.


NASCIMENTO, José Anderson. Cangaceiros, coiteiros e volantes. São Paulo: Ícone, 1998.


REGO, José Lins do. Pedra bonita. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
_____. Cangaceiros. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.




[1] No texto de José Lins do Rego surge o substantivo “coito” no sentido de acoitar, verbo que significa dar couto ou guarida, refugiar-se. No texto, o autor utiliza-se de uma corruptela do termo: “Bentinho procurou saber do irmão. O Beiço Lascado estivera com ele no coito do Coronel Ramalho.” (REGO, 1976, p. 119.) “A gente ficava parado e ninguém podia sair do coito” (REGO, 1976, p. 121)

quarta-feira, 7 de março de 2012

“OS MORTOS”: O CONTO DE JOYCE E O FILME DE HUSTON





Brunilda T. REICHMANN, PhD


Resumo: Utilizando as teorias de adaptação fílmica de Robert Stam, Brian McFarlane, Linda Hutcheon, entre outros, este artigo trabalha as transferências, adaptações, interpolações utilizadas por John Huston em sua adaptação fílmica do conto “Os mortos” de James Joyce, intitulada “Os vivos e os mortos”, em português. Tanto o texto ficcional quanto o fílmico retrata relações sociais e íntimas da sociedade irlandesa do início do século XX. Tendo como pano de fundo o severo inverno em Dublin de 1904, na primeira parte da narrativa (ficcional e fílmica) “participamos” do evento social promovido pelas irmãs Morkan e pela sobrinha Mary Jane, na passagem do ano. Huston intensifica a dramaticidade do evento ao incluir no filme um novo personagem, Sr. Grace, que declama um poema trágico traduzido do irlandês por Lady Gregory, enriquecendo assim ainda mais o caráter multimidial do filme. Na segunda parte, a narrativa volta-se para o “desencontro emocional” do casal Conroy, Gabriel e Gretta, sobrinhos das irmãs Morkan. O crescente afastamento e nostalgia de Gretta vão de encontro ao crescente desejo e expectativas do marido, que acaba por ouvir da esposa a revelação de um acontecimento trágico de sua juventude.


Palavras-chave: Narrativa ficcional e adaptação fílmica. 


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Imagem-página

Prof.ª Dr.ª Verônica Daniel Kobs
           
Lucia Santaella e Winfried Nöth, em Imagem: cognição, semiótica, mídia, referem-se a diferentes maneiras de relação entre palavra e imagem. Tomando a imagem como referência, ela pode ser superior, inferior ou equivalente à palavra. Na produção literária de Arnaldo Antunes, a imagem é lemento absolutamente necessário e, em razão disso, são privilegiadas, em seus textos, as relações de predominância ou de iguladade da imagem diante da escrita.
No poema Gertrudiana, parte do livro 2 ou + corpos no mesmo espaço, a página transforma-se em imagem e serve de pano de fundo para o texto, centralizado e simetricamente distribuído em três versos minúsculos:




Poema Gertrudiana, de Arnaldo Antunes (ANTUNES, 1997, p. 63).


Nesse texto, que utiliza o famoso verso “a rose is a rose is a rose”, de Gertrude Stein (o que justifica o título do poema), Arnaldo Antunes transforma a palavra rose em zero. A opção, à primeira vista, remete ao algarismo 0, mas o último verso, quando apresenta a palavra zero escrita ao contrário, faz lembrar a transcrição fonética de rose, na qual o s vira z. Essa alternativa lança, então, nova luz sobre a inversão feita pelo poeta: número zero ou ro + ze, as sílabas fonéticas de rose? A dúvida se dissipa assim que o leitor relaciona o texto à imagem de fundo (com rosas em tons de branco, preto e cinza), a qual, somada ao verso final, remete à rosa repetida ciclicamente no verso de Gertrude Stein.
Essa elucidação que resume a função da imagem no poema de Arnaldo Antunes encaixa-se na categoria em que Santaella e Nöth inserem a imagem como elemento “superior ao texto e, portanto, o domina, já que ela é mais informativa do que ele”. Além disso, os autores ressaltam que, nesse tipo de composição, “sem a imagem, uma concepção do objeto é muito difícil de ser obtida”. (SANTAELLA & NÖTH, 1998, p. 54).
Entretanto, como a elucidação serve como reforço dado pela imagem aos fonemas que compõem rose, pode-se afirmar que a relação entre texto e imagem, em Gertrudiana, é também indício de equivalência: “A imagem é, nesse caso, integrada ao texto. A relação texto-imagem se encontra aqui entre redundância e informatividade.” (SANTAELLA & NÖTH, 1998, p. 54). A informatividade já foi comprovada pela elucidação dada pela imagem e exatamente por isso a redundância é pertinente, afinal a imagem representa o significado da palavra de outro modo, figurativamente, provocando a redundância do sentido.
Esse processo de equivalência, de acordo com Santaella e Nöth, acentua a “complementaridade” ou  a “determinação recíproca” e estabelece a intersemioticidade como pressuposto para a criação artística: “A vantagem da complementaridade do texto com a imagem é especialmente observada no caso em que conteúdos de imagem e palavra utilizam os variados potenciais de expressão semióticos de ambas as mídias.” (SANTAELLA & NÖTH, 1998, p. 55). Dessa forma, considerando a base gertrudiana do texto de Arnaldo Antunes, é pertinente a relação entre intersemiótica e transposição, já que o verso de Gertrude Stein é representado pelo escritor em forma de desenho, que, por sua vez, serve de pano de fundo aos versos, palavras que oferecem uma nova leitura ao texto base, aparentemente diversa, mas que desmonta a palavra (em letras, fonemas e sílabas), para analisar a essencialidade da palavra-objeto, tal como fazia Gertrude Stein. 


(Parte do artigo As relações entre imagem e palavra na produção contemporânea de Arnaldo Antunes, escrito pela Prof. Dra. Verônica Daniel Kobs e publicado na revista Miscelânea(Unesp), vol. 9.)


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

UMBERTO ECO: “Sobre algumas funções da literatura”



Profa. Sigrid Renaux 


Neste primeiro texto em Sobre a Literatura (Rio de Janeiro: BestBolso,   2011) Eco discorre sobre alguns tópicos que, como sempre em se tratando de Eco, são de interesse tanto para “iniciados” em literatura quanto para leigos. Cito  abaixo alguns trechos  deste discurso apresentado no Festival dos Escritores em Mântua (Itália), em setembro de 2000,  que dizem respeito ao trabalho que estamos fazendo, professores e alunos, para nos distanciarmos por alguns momentos de nossos estudos e podermos reavaliar o que significa a literatura para nós.
Como Eco pondera,
Estamos circundados de poderes imateriais que não se limitam àqueles  que chamamos de valores espirituais, como uma doutrina religiosa. (...) E entre esses poderes, arrolarei também aquele da tradição literária, ou seja, do complexo de textos que a humanidade produziu e produz não para fiins práticos (...), mas antes gratia sui, por amor de si mesma – e que se leem por deleite, elevação espiritual, ampliação dos próprios conhecimentos, talvez por puro passatempo, sem que ninguém nos obrigue a fazê-lo (com exceção das obrigações escolares).
É verdade que os objetos literários são imateriais apenas pela metade, pois encarnam-se em veículos que, de hábito, são de papel.  Mas houve um tempo em que se incorporavam na voz de quem recordava uma tradição oral ou mesmo em pedra, e hoje discutimos sobre o futuro dos e-books (...). Aviso logo que não pretendo me deter esta noite na vexata quaestio do livro eletrônico. Estou, naturalmente, entre aqueles que, um romance ou um poema, preferem lê-lo  em um volume de papel, do qual haverei de recordar até mesmo as orelhas e o peso. (...)
Para que serve este bem imaterial que é a literatura? (...) A literatura mantém em exercício, antes de tudo, a língua como patrimôno coletivo. A língua, por definição, vai aonde ela quer (...) mas é sensível às sugestões da literatura. (...) a literatura, contribuindo para formar a língua, cria identidade e comunidade. (...) Mas a prática literária mantém em exercício também a nossa língua individual. (...)
As obras literárias nos convidam à liberdade da interpretação, pois propõem um discurso com muitos planos de leitura e nos colocam diante das ambiguidades e da linguagem e da vida. Mas para poder seguir neste jogo, no qual cada geração lê as obras literárias de modo diverso, é preciso ser movido por um profundo respeito para com aquela que eu, alhures, chamei de intenção do texto. (p. 9-12)
Espero que os trechos acima sirvam de introdução à leitura completa deste texto, que contém outros comentários instigantes sobre a maneira de encararmos os textos literários!


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Kafka Edições: LIVROS QUE NÃO PARAM EM PÉ

Por Paulo Sandrini (UFPR)




Kafka Edições mandou gratuitamente cerca de 1700 livros para bibliotecas de todo o país, dentro do seu ideal de apoio ao livro e à leitura, e também ao acesso aos bens culturais. A série Livros que não param em pé logo estará disponível no site da editora para acesso gratuito, como parte do nosso projeto pela lei do Mecenato de Curitiba. Divulguem se puderem.



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Com que se pode jogar
Nesse silêncio vi as perguntas formando fila e calmamente apanhando as ferramentas de corte. E no silêncio compreendi a esfoladura a escavação o esmerilhamento. Eu percebi que uns saem ilesos — lhes é permitido desconhecer as agruras da esfoliação e igualmente a pressão irreversível do torno. Também percebi que outros — esses todos nós que não seremos poupados — terão que aguardar pelas respostas. Achando injusto, a princípio, e depois cedendo, e depois aceitando, assumindo a condição de ser em segundo plano. Nesse silêncio pude entender a espera, ou pelo menos tentei me aproximar de uma definição. Eu pude mensurar deuses e deuses, pude ver aquela planta cuja existência foi apenas — a partir de certo ponto que o destino previu — falta d’água, sede, secura, sequidão, estrangulamento. Eu pude compreender punhais e a evidência da dor enquanto ingrediente. Pude permanecer um lamento até que a própria voz se desfizesse. E eu queria entender em mim essa tormenta do silêncio para sempre no peso da canga do jugo da férula e desta inderrogável solidão.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

RAP: ARTE POPULAR PÓS-MODERNA

 Prof.ª Dr.ª Eunice de Morais


“(...) o pós-moderno é um empreendimento cultural contraditório, altamente envolvido naquilo que procura contestar. Ele usa e abusa das próprias estruturas e valores que desaprova.” (Linda Hutcheon) *


É neste sentido do desafio a convenções que este texto se propõe a analisar as produções recentes do rap ou hip hop no Brasil. Teremos por orientação a obra de Richard Shusterman vivendo a arte: o pensamento pragmatista e a estética popular (1998), que ao examinar a estética do rap considera-o uma


 arte popular pós-moderna que desafia algumas das convenções estéticas mais incutidas que pertencem não somente ao modernismo como estilo artístico e como ideologia, mas à doutrina filosófica da modernidade e à diferenciação aguda entre as esferas culturais [3].


 Apesar de desafiar tais convenções o rap satisfaz, segundo Shusterman, as normas estabelecidas para a legitimidade estética, geralmente negada à arte popular. Nosso objetivo, portanto, será mostrar como o rap do Brasil, com suas características próprias aliadas às raízes culturais de quem não apenas o compõe, mas se compõe dele, se insere neste contexto caracterizado por Shusterman da arte pós-moderna.
Shusterman, assim como Linda Hutcheon e F. Jameson, considera que mesmo sendo o pós-modernismo “um fenômeno complexo e contestado, cuja estética resiste a toda definição clara e consensual” [4] é possível reconhecer nele traços estilísticos e temas próprios, o que não significa dizer que estes traços e temas não estejam presentes, com certa nuança, em obras de arte modernas. É a diferença dentro da semelhança. Dentre as características da obra pós-moderna citadas por Shusterman estão:


A tendência mais para uma apropriação reciclada do que para uma criação original única, a mistura eclética de estilos, a adesão entusiástica à nova tecnologia e à cultura de massa, o desafio das noções modernistas de autonomia estética e pureza artística, a ênfase colocada sobre a localização espacial e temporal mais do que sobre o universal ou o eterno.[5]




Essas características, doravante, darão o direcionamento de nossa análise sobre um conjunto selecionado de composições em que estão mais claramente apresentados os recursos estéticos e estilísticos citados na análise do autor americano.


A apropriação reciclada



Nunca as obras de arte foram reprodutíveis tecnicamente, em tal escala e amplitude, como em nossos dias. (Walter Benjamin) [6]




A primeira característica citada pelo autor revela a opção pela não utilização do termo “pastiche” apresentado por Jameson [7], por outro lado também não utiliza a definição de “paródia” apresentada por Hutcheon. Quando Shusterman opta pela idéia de uma “apropriação reciclada” demonstra que há razões e critérios na escolha do elemento e do modo como ele será apropriado. Há uma preocupação por parte dos rappers com a seleção dos recursos discursivos e técnicos a serem apropriados. Não há, portanto, a “canibalização aleatória” (grifo meu) como afirma Jameson. “A música é composta pela seleção e combinação de partes de faixas já gravadas, a fim de produzir uma ‘nova’ música.” [8]
O status adquirido pelo rapper é derivado de seu poder verbal, porém há também uma séria preocupação com o desempenho do vocalista, pois “a voz é o único instrumento verdadeiramente inimitável” [9]. A habilidade verbal é ao mesmo tempo característica e tema do rap e a confirmação disso está na composição de Fúria verbal de Thaíde e Dj Hum apresentado no álbum Assim caminha a humanidade (2000). A letra composta por Thaíde traz o sentido pedagógico da produção numa construção metapoética, o que demonstra uma clara e forte preocupação com o aspecto sonoro e poético da letra que não está alienada da qualidade conteudística.

 

A construção dos meus versos tira a dúvida.



A segunda rima com a terceira e a primeira com a última


Exemplo: use bem o papel e caneta


Olhe pra mim, pequeno aprendiz



Aqui é muita treta


Se você não entendeu, tudo bem, não tem complexo


É só tomar cuidado pra não escrever coisa sem nexo


Como eu tenho escutado por aí. (Thaíde).


         A composição segue desafiando os falsos rappers, aqueles que se dizem fazer parte de um “movimento Hip Hop” que segundo Thaíde não existe (Movimento rap não existe / infelizmente muita gente insiste em dizer que sim), segundo Xis, revelação do rap no ano de 2001, o que existe é a “cultura Hip Hop”. Tudo isso vem confirmar que há uma auto-legitimação do Hip Hop como arte e não como um mero movimento amparado pelo modismo. O desafio que se faz quanto à produção de rimas é um desafio muito mais abrangente do que pode parecer.
A rima, apesar de ser o recurso poético mais exigido e exaltado nas produções de rap não é o único, há aliterações, marcações rítmicas dos versos, ambigüidades, metáforas, etc... E há nestas composições uma auto-reflexão sobre a construção poética e a revelação de uma consciência artística que reivindica sua força e seu talento superior, mostrando que há uma tradição artística como no trecho:


Lendário como Nino Brown, Nelson triunfo, Dj Hum



Orgulho literário nascido na zona sul



(...)


Zulu é minha doutrina, sou parte integrante da arte.”


E que esta tradição está centrada num espaço social que é a periferia


... pregamos a união entre irmãos e irmãs


mesmo que o negócio deles seja cavaco e tantãs


Periferia maioria: esse é o nosso lema


Um salve para casa de Hip Hop Canhema, Diadema


Onde comunidade aprende o que é arte de verdade.


Segundo Shusterman, a habilidade verbal é muito aplicada no gueto africano urbano e pesquisas antropológicas mostram que afirmar uma posição superior pelo poder verbal é uma tradição negra bastante enraizada. A incapacidade de reconhecer estruturas significativas e convenções estilísticas na criação verbal do inglês afro-americano fez com que se visse as letras de rap como superficiais, monótonas e estúpidas, adjetivos estes que poderiam ser facilmente derrubados por uma leitura mais atenta e desimpedida que revelaria os níveis diversos de significação, ambigüidade e intertextualidade. Do mesmo modo, no Brasil há o preconceito lingüístico com relação às produções do rap, por ser composto em uma linguagem socialmente estigmatizada, porém no rap esta linguagem é o que define sua identidade cultural. O rapper Xis em Us mano e as mina, através desta linguagem imediatamente relacionada à ignorância vem justamente marcar o lugar de produção e de origem do rap que é a periferia pobre e discriminada. Demonstra que a música está diretamente relacionada com a condição social. Ou seja, a linguagem padrão é vista como representante da classe dominante e discriminadora e por isso não é apropriada para o contexto representado. Ela representa justamente aquilo por que se luta contra. A linguagem é também uma forma de contestação. A música aparentemente superficial, monótona e estúpida é um instrumento de difusão de idéias e conceitos culturais durante muito tempo oprimidos por uma cultura dominante que agora tem seu posicionamento central questionado.
Shusterman denomina os Dj’s de rap “canibais da selva urbana”, pois recuperam os ritmos da selva aos quais se remete o funk e são retomados pelo rock e pelo disco. Há, portanto, uma herança africana, apesar de ter nascido em plena era disco no meio dos anos 70. “O rap retoma elementos acústicos concretos, performances pré-gravadas desses padrões musicais.”[10] A habilidade criativa do rapper se restringe à manipulação de equipamentos de gravação. É uma criação sobre o elemento tecnológico através da técnica de montagem, mas vai além desta montagem quando se considera a criação verbal.



* Hutcheon, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria e ficção. Rio de janeiro: Imago Editora. 1987. p. 142.
[1] Idem, p. 84
[2] Hutcheon, p.85.
[3] Shusterman, R. Vivendo a arte: o pensamento pragmatista e a estética popular. São Paulo: Ed. 34, 1998. p. 144.
[4] Idem, p. 145.
[5] Idem, ibidem.
[6] BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política.5.ed. São Paulo: Brasiliense, 1993, p.  168.
[7] Shusterman freqüentemente assinala em notas que utiliza como base teórica a reflexão sobre o pós-modernismo de F. Jameson apresentada em Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio.(São Paulo: Ática. 1996)
[8] SHUSTERMAN, p. 145.
[9] O produtor de rap Tito em artigo publicado na página www.bocadaforte-versão 2001_arquivos\materiais1.htm apresenta dicas para se produzir um bom hip hop economizando o máximo de dinheiro.
[10] SHUSTERMAN, P. 147.