Pesquisar este blog

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

REVELAÇÕES IV: as poetas do Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE


*Sigrid Renaux 

Dando continuidade aos blogs REVELAÇÕES I, II e III, este blog apresenta uma leitura do poema de Alice Della Coletta Moreno “Algo do passado/Lances do presente”.
Como o título já sugere, o poema está dividido em dois momentos: “Algo do passado/” com onze quadras, nas quais o eu-poético relembra episódios de sua infância, e “/Lances do presente”, com sete quadras, nas quais o eu-poético tece considerações sobre sua vida acadêmica atual. A aliteração em “passado/presente”, a nível sonoro, enfatiza, a nível lexical, o contraste passado/presente, um presente que por sua vez também já se tornou um passado, como presente de uma narrativa. O pronome indefinido “algo”, por sua vez, sugerindo como essas lembranças não constituem toda a realidade, mas apenas uma parte do passado, contrasta com o substantivo “Lances”, com seus múltiplos significados: o que acontece, aconteceu ou pode acontecer; episódio, caso, fato, acontecimento; impulso; aventura; etapa. Todos eles enriquecem o sentido de “lance”, como será visto adiante.
Composto por dezoito quadras rimando na 2ª.e na 4ª. linhas, o poema merece destaque não só pela musicalidade natural de seu ritmo – com linhas de versos que variam entre hexa- e octosilábicos, com três acentos tônicos por linha – mas principalmente pela liricidade com que relembra suas origens, bem como pela sensibilidade e sabedoria com que avalia seu momento presente.
Concentrando-nos primeiramente nas rememorações em “Algo do passado”, percebemos, ao examinar os diversos níveis de construção do texto, os seguintes elementos estruturais:  
            Na quadra I, o eu poético nos informa, orgulhosamente, de sua ascendência “roceira”,  “Pois só na origem do mato/Vinga a formação verdadeira”, ou seja, é no crescer, no desenvolver-se em contato com o “mato” – no interior, na roça, no campo – que realmente formamos nossa personalidade. A rima grave “roceira/verdadeira”, a rima interna “sertão/formação” e a aliteração “só/sertão/roceira” acentuam as relações fono-semânticas, ao aproximarem as palavras no som e no sentido:                                              
                                                              
Sou lá do sertão paulista
Com orgulho de roceira
Pois só na origem do mato
Vinga a formação verdadeira.

            Já quadra II, o eu poético passa da lembrança da paisagem ampla aos detalhes de sua vivência em contato com os animais da roça, ressaltando que “para ser boa matuta/ Só através dos animais”. Ou seja, se o “matuto” é um indivíduo que vive no campo e cuja personalidade revela rusticidade de espírito, falta de traquejo social, um  “caipira”, por sua vez “matutar” sugere pensar demoradamente sobre algo, meditar, refletir, levando-nos assim ao sentido apenas positivo de matuto como indivíduo que vive no campo, retomando deste modo a “formação verdadeira”, em contato com a natureza, da primeira quadra:

A pinguela e o mata-burro
São lembranças atuais
Pois para ser boa matuta
Só através dos animais.

A rima aguda “atuais/animais” enfatiza mais ainda a relação entre o eu poético e a lembrança sempre presente dos animais, que será detalhada nas seis quadras seguintes.  
O eu-poético ressalta, na quadra III, a beleza da “égua Faceira”, sua “companheira” nas cavalgadas, lembrando-nos que, no sul do Brasil, diz-se “faceira” do cavalo que é garboso e levanta o pescoço quando em marcha. Assim, a facilidade com que surge a rima “Faceira/ companheira” bem demonstra, mais uma vez, a íntima relação entre som/sentido, pois “Faceira/ minha companheira” se identificam como pertencentes ao eu-poético, além de participar de suas  aventuras:  

Agora tenho saudade
Da linda égua Faceira,
Que nunca se negava
  A ser minha companheira

A quadra IV continua a apresentar as lembranças do eu-poético descrevendo suas aventuras com a égua e a humanização dada ao animal, que “parecia sempre rir,/Quando eu puxava seu freio/Para a porteira abrir”, sugerindo que a alegria das lembranças entre o eu- poético e o animal transforma-se numa única alegria, pois “abrir a porteira” indica, para ambos,  o começo da liberdade de ir ao encontro dos campos. Unem-se, deste modo, mais uma vez, som e sentido através da rima aguda “rir/abrir”:

Em seu lombo confortável
Ela parecia sempre rir,
Quando eu puxava seu freio
Para a porteira abrir.

Já na quadra V é a vez do irmão do eu- poético a ser rememorado, por meio da imagem do cavalo “Guarani” – “Guarani”, como sabemos, denomina o grupo indígena que habita Mato Grosso do Sul, e do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul – e que, em contraste com a égua Faceira, é “um tremendo animalão”, lembrando assim a etimologia de “guarani”: guerrear, combater. Sua função, portanto, era de levar o menino, protetoramente, “de casa para a escola”, o que é ressaltado pela rima aguda “animalão/irmão”, caracterizando bem o grande porte do cavalo em contraste com o irmão:  
O cavalo Guarani
Um tremendo animalão,
De casa para a escola
Levava o meu irmão.

Em seguida, na quadra VI, passamos às lembranças que o eu-poético tem da “vaquinha Azeitona”, que lhe “dava o primeiro alimento”:

A vaquinha Azeitona
Que não me sai da lembrança,
Pois dava o primeiro alimento
Desde o tempo de criança.

O diminutivo “vaquinha” já demonstra o carinho para com este animal, a cor verde- “azeitona” sugerindo talvez a tonalidade de seu pelo, ou simplesmente como um epônimo. Por sua vez, a rima grave “lembrança/criança”, a aliteração “Azeitona/alimento”, a assonância em “alimento/ tempo” são todos efeitos sonoros que enriquecem a musicalidade das linhas além de uni-las numa única recordação.
            Na quadra VII o eu-poético já se apresenta em atividades de “fazendeira” ao ajudar na separação dos bezerros das mães, o que lhe causava “tristeza”, pois sentia-se sem coragem para exercer tal função: se a vaquinha Azeitona a alimentava, por que precisaria separar os bezerros das outras mães? O fato de a primeira linha ser eneassílaba, portanto mais longa que as outras, parece confirmar a obrigatoriedade desta tarefa triste da qual havia sido encarregada, enquanto a aliteração em “tarefa/toda/tarde/tristeza” enfatiza esta obrigatoriedade, levando-a a sentir-se  “toda tarde” como uma “covarde”:

Separava os bezerros das mães
Tarefa de toda tarde,
Que tristeza que sentia
Parecendo uma covarde.

Entretanto, por meio de seu eu-poético, esta menina continua a crescer e suas próximas atividades, na quadra VIII, já demonstram sua bravura, em contraste com sua “covardia” anterior:

Aprendi a pegar cobra
À tarde ou de manhã,
Depois eram enviadas
Para o Instituto Butantã.

O fato de ter aprendido “a pegar cobra”, a qualquer hora do dia, torna-se assim um ato corriqueiro na vida desta “fazendeira”, pois, dentro de novas responsabilidades, sabe o valor de seu ato ao serem os repteis depois enviados ao Instituto Butantã. Assim, a rima aguda “manhã/ Butantã” confirma a rotina quase diária de pegar cobras para este famoso centro de pesquisa biomédica e, deste modo, contribuir para a produção de vacinas, soros e biofármacos para uso humano.
Nas quadras IX e X - ,
A lembrança da escolinha
Traz à tona a rotina,
Com colegas muito amados
E a professora Albertina.

Com o uniforme alinhado
Blusinha branca, saia marinho,
E para que ficasse completo
No cabelo um lacinho.

o eu-poético relembra, inicialmente, a escolinha em que estudava – o diminutivo acentuando a valorização afetiva do substantivo – bem como os colegas e a professora Albertina. Simultaneamente, a “rotina” evocada – este hábito de fazer algo sempre do mesmo modo, mecanicamente –  à qual as crianças precisam se acostumar, é compensada pelo coleguismo e pela figura da professora, enfatizados pela rima grave “rotina/Albertina”, unindo, destarte, a rotina das aulas com a dedicação da professora. 
            O eu-poético relembra, em seguida, o uniforme – blusa branca, saia marinho: o branco, com suas implicações de asseado, impecável, em contraste a tonalidade escura do azul marinho,  similar ao azul do mar lembrando-nos, por similaridade visual, das cores da bandeira nacional. Este vestuário padronizado e distintivo, por sua vez, é qualificado como “uniforme alinhado”, remetendo-nos tanto aos alunos enfileirados à entrada da sala de aula, como também ao orgulho que as meninas sentiam, por estarem “uniformizadas” e, assim, pertencentes a uma escola. O “lacinho”, por sua vez, dá um toque especial ao “uniforme”, pois é o traço diferencial entre as meninas. O uso de diminutivos – blusinha, lacinho – como já visto em estrofes anteriores – escolinha, vaquinha – acentua mais uma vez o carinho que as lembranças do eu-poético despertava na menina, o que é confirmado, nesta quadra, pela rima grave “marinho/lacinho”, além da repetição da consoante líquida /l/ em “alinhado/blusinha/completo/cabelo/lacinho”, acrescentando, deste modo, uma sonoridade maior a esta quadra e, consequentemente, aproximando as palavras em som e sentido.
            Esta primeira parte do poema encerra-se, na quadra XI, com uma pergunta retórica do eu - poético:

Quem é que não tem saudade
Do seu tempo de criança?
Aí estão as verdades
Que mantemos como herança.

E a resposta, nas linhas 3 e 4, nos remete à quadra I:

Sou lá do sertão paulista
Com orgulho de roceira
Pois só na origem do mato
Vinga a formação verdadeira.

Ou seja, assim como a “formação verdadeira” se desenvolve em contato com a natureza, também as “verdades” que adquirimos em tempos de criança são as “que mantemos como herança”. Este círculo rememorativo se fecha, deste modo, valorizando a infância: do contato com a “natureza” e suas experiências na fazenda, ao convívio com o “saber” e com os outros, representados pela escolinha, a professora, os colegas. A rima grave “criança/herança” acentua a relação entre todos os elementos apresentados em “Algo do passado”, pois reúne os dois polos semânticos: a lembrança do passado e a herança que este passado lhe deixou.
            Ao passarmos para a segunda parte do poema, “/Lances do presente” – quadras XII a XVIII – na qual o eu-poético reflete sobre seu presente como mestranda da UNIANDRADE, esta reflexão se inicia com uma decisão (quadra XII):

Preciso com tato organizar
E ilustrar as minhas lidas,
Outras audiências virão
Assim que constituídas.
O fato de “lidas”, na linha 2, poder se referir tanto a um esforço fora do comum, como também a uma leitura rápida, superficial e, assim, “ilustrar minhas lidas” implicar em exemplificar, esclarecer seu trabalho/suas leituras para “outras audiências”, para outros ouvintes, demonstra, por meio da metalinguagem, a preocupação do eu-poético em sair-se bem nesta nova fase de sua vida acadêmica.
As quadras XIII a XVIII apenas ampliam, em outro nível, as recordações da “escolinha” de sua infância, ao comentar, na quadra XIII, que “” daqui a pouco” – quando tiver terminado o curso – irá “curtir nova saudade”; o fato de se referir a “daqui a pouco”, irá marcar a temporalidade futura da quadra XIV, pois ao retomar as figuras dos atuais colegas, professores,  funcionários e assessores, esses “retratos serão eternos”. O uso do diminutivo em “cantinho” também retoma os diminutivos da primeira parte do poema, sempre com o viés carinhoso de seu olhar. Como acima, as rimas graves na quadra XIII – Uniandrade/saudade – bem como da quadra XIV – professores/assessores – formam um grupo semântico que abriga a instituição com seus membros, como também o efeito que a futura separação irá causar no eu-poético – a saudade:

Agora outra vez aluna
Da grandiosa Uniandrade
Em Suma daqui a pouco
A curtir nova saudade.

Uns retratos serão eternos
Dos colegas e professores,
De cada cantinho da sala
                                                                 Dos funcionários e assessores


Já na quadra X, amplia-se também o conceito de “verdade” expresso na “formação verdadeira” da quadra I e nas “verdades” da quadra XI, pois agora o eu-poético, assumindo-se como adulto, afirma que “o sentido da vida/Só é completo na união”, algo que, na infância, ainda não temos condições de avaliar. A rima aguda “emoção/união” traz à tona esta agitação de sentimentos, este comoção afetiva ou moral que sentimos quando descobrimos uma grande verdade: unir é estabelecer harmonia, aliança, ligação entre as pessoas, pois só com esta união completa-se o sentido da vida: 
                                                
 Uma das grandes verdades
Que só reforça a emoção,
É que o sentido da vida
Só é completa na união.

Nas quadras XVI e XVII o eu-poético menciona sua gratidão a duas professoras, que, como outros mestres da Instituição, tiveram a oportunidade de lhe transmitir conhecimentos, transformando deste modo o ensino numa aventura de mão dupla, pois, certamente, as professoras se enriqueceram humanamente tanto em contato com os alunos como estes com elas. As rimas esdrúxulas, em “clássicos/mágicos” da quadra XVI, e graves em “literatura/aventura” da quadra XVII, apenas corroboram a magia do encontro com textos clássicos e com a modernidade que eles expressam, como também a visão da literatura como uma aventura infinda, tanto para alunos como para professores:

A sábia professora Sigrid
Na apresentação dos clássicos,
Tem tão grande maestria
Que parece ter dons mágicos.

A Brunilda se impõe
Ao expor literatura
E o ouvinte queira ou não
Introduz-se na aventura.

O poema finaliza, na quadra XVIII, com a constatação de que a “solidariedade” – este compromisso, este laço pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas – é a descoberta de uma verdade que vai muito além da aprendizagem de teorias e textos, pois é esta união, que dá sentido à vida, que também dá sentido às aulas que os alunos estão frequentando. Torna-se, assim, a grande “mensagem/aprendizagem” transmitida a todos – solidariedade, como o bem maior:

O ambiente calmo e aconchegante
Dá a todos a mensagem:
Aqui reina a solidariedade
Acima da aprendizagem.


As lembranças do eu-poético na primeira parte do poema tornaram-se, deste modo, uma mensagem de uma infância da qual todos nós já fizemos parte, enquanto as declarações do eu-poético na segunda parte do poema converteram-se numa mensagem da maturidade, época em que atingimos a condição de plenitude em arte, saber ou habilidade adquirida. Ambas as partes completam portanto um ciclo que, por sua vez, como “presente”, continua sempre a receber novos “lances”.
Que estas considerações – limitadas – sobre este poema, bem como sobre os poemas das outras mestrandas, já analisados em blog anterior, sirvam de incentivo a todas para continuarem suas aventuras infindas pelo mundo das palavras.


*Professora das disciplinas Teorias da Poesia e Poéticas da Modernidade: dos formalistas russos a Bakhtin,  no Curso de Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

REVELAÇÕES III :as poetas do Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE

*Sigrid Renaux

Em continuidade aos blogs REVELAÇÕES I e II, nos quais foram apresentados e comentados poemas dos alunos do 8º. Período de Letras, no blog REVELAÇÕES III apresentamos e comentamos poemas escritos pelas mestrandas em Teoria Literária da UNIANDRADE. O fato de as mestrandas estarem cursando a disciplina Teorias da Poesia, durante a qual foram apresentadas e discutidas as poéticas de diversos teóricos e poetas, para, em seguida, aplicá-las a poemas selecionados, ocasionou a sugestão de elas próprias escreverem e apresentarem seus poemas, a fim de verificar, por meio de sua criatividade, como um poema é uma conjunção de inspiração (natureza) e técnica (arte), ou, como afirmava Longino em Do Sublime: “a arte é acabada quando com esta [a natureza] se parece e, por sua vez, a natureza é bem sucedida quando dissimula a arte em seu seio” (c.XXII, I). Seguem, pois, os poemas de algumas das mestrandas de 2016:    
Vanda Carla Bobato Claudino: “Palavras”
                              
1.Um dia é muito tempo 
       2.para sorrir ou chorar  
       3.sentir e não gostar,  
       4.tempo para aceitar.  
 
5. Que fazer com o tempo? 
6. com desmedida, amar,  
7. olhar, esperar, dar,  
8. com cuidado... falar.
  
9. Palavras podem ser  
10. doces igual ao mel   
11. amargas como o fel,   
12. palavra é poder! 

13.Vejo a vida passar   
14. rápida como a luz,
15. bonita como o mar,  
16. doída como a cruz.
 
17. Numerosas palavras   
18. semeadas ao vento.    
19. Agora, o que fazer? 
20. Esperar e colher!   

A composição gráfica do poema (cinco quadras), bem como a construção métrica e acentuação (com seis sílabas poéticas e três acentos silábicos em quase todas as linhas) já demonstra o cuidado formal da autora em salientar esta regularidade visível das estrofes. Refere-nos, portanto, ao título, pois a palavra é uma “unidade da língua escrita, situada entre dois espaços em branco, ou entre espaço em branco e sinal de pontuação” (HOUAISS). 
 O uso que a poeta irá fazer das “palavras” demonstra como é versátil seu emprego, pois nas duas primeiras quadras, a temática gira em torno do tempo e de nossos gestos, ações e sentimentos e, simultaneamente, do contraste entre aqueles que podemos usar “com desmedida” e a ação que devemos usar “com cuidado... falar”. A repetição da palavra “tempo” no final da linha 1 da primeira quadra e no final da linha 5 da segunda, bem como as rimas em “-ar” nas outras linhas, criando o esquema abbb,abbb, demonstram novamente a preocupação da autora com a homofonia externa.
Da palavra “falar”, última da segunda quadra, retomamos o título “palavras”, no início da terceira quadra, pois o ato de falar significa literalmente “expressar por meio de palavras”. Assim, o “cuidado” que se deve ter ao “falar”, é concretizado por meio das comparações das “palavras” que podem ser “doces igual ao mel” ou “amargas como o fel”, e, consequentemente, têm o “poder” de agradar ou causar dor ou tristeza.  Nesta quadra, um novo esquema de rimas (cddc) acentua a mudança temática do “tempo” para o poder das “palavras”.
A quarta quadra, por sua vez, retoma o tema da temporalidade, desta vez mesclada à fugacidade, à beleza e ao sofrimento da vida, os dois primeiros comparados à luz e ao mar – como elementos que podemos visualizar – o último comparado ao instrumento em que Jesus Cristo esteve crucificado e que se tornou símbolo da religião cristã, lembrando-nos, portanto, que o sofrimento faz parte de nossa vida. A rima alternada (efef) também enfatiza a alternância dos momentos belos com os sofridos ao longo de nossa vida.
A quinta quadra, metalinguística como a terceira – as palavras falando das palavras – sugere que um poema é constituído de palavras “semeadas ao vento”, ou seja, lançadas para germinar. Entretanto, não podemos assegurar em que local elas vão germinar, pois o “vento” – tão simbólico de liberdade, inspiração poética, força vital, rapidez e, portanto, carregando as palavras como inspiração poética – pode arremessá-las perto ou longe. Só nos resta, como leitores, esperar e colher, onde quer que as palavras estejam! O esquema de rimas (g, a,c,c) lança toda a homofonia para as duas últimas linhas (rimas emparelhadas), corroborando, pela semelhança sonora, que todo poeta, após ter lançado suas palavras ao vento, a única atitude que pode tomar é esperar que germinem e que os leitores as colham e delas desfrutem. 


    Luzia Maria Tistki Almeida: “Vida e Morte”

       1.Nascimento e morte:   
2. duas magnificências antagônicas  
3. circundam o ser humano.  
4.Nascimento – celebração da vida  
5. rompimento para a luz,  
6.norte do pai e da mãe 
7.com crença na criação divinal.3
8.Morte - a transgressão da vida perfeita, plena e indelével.  
9.O espaço entre elas é um espiral, 
10.com altos e baixos,  
11.conforme a própria vida se comporta. 
12.Todos somos predestinados para o que vier. 
13.Com saraivadas e com os afagos da própria vida.
14.Também o faz-de-conta  
15.conta muito para ensinar a reaprender a amar a ausência  
       16.e aguar  a sementinha do amor  
17.na presença dos que estão presos à vida, 
18.equilibrando-se na tênue linha do aqui e do acolá.
19.Nascimento: muito te quis.
20.Tanto te quis que você nasceu! 
21.Morte: muito te odiei.
22. Tanto te odiei que reaprendi a te  aceitar! 

O poema “Vida e Morte”, composto de 22 linhas em versos livres, já indica no título a temática que será desenvolvida: o contraste entre as “duas magnificências antagônicas”   “nascimento e morte”. O uso de “magnificência” para sugerir a imponência e grandiosidade desses dois eventos que nos “circundam”, revela bem o valor que a poeta atribui a essas duas forças opostas: o nascimento como celebração e a morte como transgressão, como violação da vida.  Mesmo o poema não obedecendo a nenhuma regra pré-estabelecida, as coincidências sonoras, em vez da rima, aproximam as palavras no som e no sentido, como a assonância em /nascimento/ magnificências/ rompimento/crença/, ou a repetição da sibilante /s/ nas linhas 1,2,3,4,7,8, entre outros, como a repetição de “vida” nas linhas 4 e 8.
A partir da linha 9, estes círculos antagônicos contêm um novo desafio, pois “o espaço entre eles é uma espiral” esta linha curva que se desenrola num plano de modo regular a partir de um ponto, dele afastando-se gradualmente; e, figurativamente, um processo ascendente difícil ou impossível de deter (HOUAISS) –, concretizando deste modo a predestinação, ou seja, os eleitos estão destinados à bem-aventurança, enquanto os réprobos estão destinados ao castigo eterno. As “saraivadas” e os “afagos”, são mais uma vez metafóricos desse processo em espiral de nossa vida. A repetição de “vida” nas linhas 11 e 13, com suas reverberações sonoras nas aliterações com “vier” e “saraivadas”, aproximam, novamente, som e sentido, pois a vida inclui o futuro – “vier” – bem como as “saraivadas”, que se sucedem em torrente.   
            Entretanto, apesar da predestinação, o mundo do imaginário da fantasia é necessário para que possamos expressar nossos sentimentos – amar a ausência e a presença ­ – a fim de que nossa trajetória em espiral continue em equilíbrio, como o eu poético conjectura entre as linhas 14 e 18, conjecturações essas novamente plenas de reverberações sonoras (sempre com a finalidade de aproximar som e sentido): a recorrência dos infinitivos ensinar/reaprender/amar/aguar; a repetição da consoante surda /k/ em faz-de-conta/ conta/que/ equilibrando/ aqui/acolá, tanto em posição inicial (aliteração), como final.
As linhas 19-22, que finalizam o poema, resumem e simultaneamente anulam a proposição antagônica inicial, pois o Nascimento, tão desejado, não é mais o oposto da Morte, tão odiada, porque esta, apesar de inevitável¸ é agora aceita como consequência de nosso “reaprendizado”, ou seja, aprendemos, através da própria espiral da vida, a aceitar a morte. A ênfase nos advérbios “muito” (linhas 19 e 21), e “tanto” (linhas 20 e 22), este último com suas implicações temporais, de grau e de maneira, tornam mais penetrante o contraste inicial entre nascimento e morte, e que agora, ao final do poema, tornam-se quase irmãos: amar e aprender a aceitar.

 Sharon Martins Vieira Noguêz:  “Tempos de paz”

1.Para tudo se leva um tempo   
2.Tempo para a rosa desabrochar 
3.Para o dia nascer 
4.Para a criança crescer 
5.Para o amor vigorar.  
6.E no vazio do silêncio  
7.Espero as tempestades o supérfluo varrer 
              8.Espero o tempo tudo germinar  
              9.Espero o fim do tormento, com preces de paz.  

                   Composto por 9 linhas em versos livres, como o poema anterior, “Tempos de Paz”, entretanto, não apresenta antagonismos como temática. Ao contrário, o tempo como duração relativa das coisas, que cria no ser humano a ideia de presente, passado e futuro percorre o texto, associado à postura serena do eu poético, que aguarda tranquilamente o tempo necessário para “a rosa desabrochar/ o dia nascer/ a criança crescer/ o amor vigorar”. A construção paralelística das linhas 2 a 5, como complementação semântica da linha 1 – “Para tudo se leva um tempo” – é enfatizada não apenas a nível sintático (para a rosa desabrochar/para o dia nascer/ para a criança crescer/ para o amor vigorar/) e a nível sonoro, pois os verbos no infinito rimam: desabrochar/vigorar (linhas 2 e 5) e nascer/crescer (linhas 3 e 4). É ressaltada também a nível semântico, pois desabrochar/nascer/crescer/vigorar são metafóricos, ou seja, estão todos associados à ideia de vida como expressão e força do tempo, enquanto os substantivos rosa/dia/criança/amor também se tornam metafóricos do mundo natural e do mundo humano, atingindo, em “amor”, o conceito mais elevado da função do tempo, ao fortalecer o sentimento mais nobre do ser humano.
            As linhas 6 a 9 apenas concluem as considerações do eu poético sobre o tempo, pois é “no vazio do silêncio” – o silêncio como “prelúdio de abertura à revelação”, “envolvendo os grandes acontecimentos” (CHEVALIER et GHEERBRANT) – que o poeta aguarda “as tempestades o supérfluo varrer/o tempo tudo germinar/o fim do tormento”. E, se a ação de “esperar”, no sentido de “ter confiança”, é passiva, “as preces de paz” como consequência da introspecção gerada pelo silêncio implicam em exercer uma atividade, a fim de que o tormento seja substituído pela concórdia, pela paz. A construção paralelística das linhas 7 a 9 novamente enfatiza e reforça a temática desta paciente espera do eu poético, reforçada ainda pela aliteração “tempestade/tempo” e pela assonância “tempo/tormento”, unindo os sentidos por meio dos sons dessas palavras. Simultaneamente, “paz”, como a última palavra do poema, nos remete à palavra “tempo” da primeira linha, ligando desta maneira a concepção de “tempo”, como um período indefinido, a “tempos” como um determinado período em relação aos acontecimentos nele ocorridos, como consta no título. “Tempos de paz” torna-se, assim paradigmático da polivalência do conceito de tempo, unido às conotações positivas de “esperar”.

                                   
Jusiani Maria de Souza: “A Brisa”

1.A brisa do amanhecer     
2.Rejuvenesce a alma   
3.Conforta os corações   
4.Livrando das solidões.   
5.O sol brilha, ilumina a vida durante o dia 
6.A lua ilumina a noite conquistando os corações apaixonados  
7.Vindo deixa-los alegres, encantados os namorados. 


  Neste poema, composto por 7 linhas de versos livres, o eu poético conjetura, nas 4 primeiras linhas, sobre o poder regenerador da brisa – esta manifestação suave do vento:  simbólica de fertilidade e relacionada com a respiração, assim como o amanhecer é simbólico de ressurreição e criação, “a brisa do amanhecer” tem esse poder de rejuvenescer a alma e confortar os corações, centro das emoções e da essência vital. Em contato com a brisa do amanhecer, o ser humano não está isolado, e, mais ainda – como consta a partir da linha 6 –, sua vida é iluminada pelo sol durante o dia e pela lua à noite, imagens estas tão recorrentes para todos nós, mas das quais nem sempre nos damos conta. Por esta razão, a simplicidade com a qual essas imagens da natureza são apresentadas não deve deixar de nos alegrar e encantar, assim como no poema a lua alegra e conquista os corações apaixonados. As rimas ocasionais na 3ª.e 4ª. linhas – corações/solidões – e na 6ª. e 7ª. linhas – apaixonados/namorados –, as aliterações conforta/corações na linha 3 e conquistando/corações na linha 6, além da repetição da sibilante /s/ em amanhecer/rejuvenesce/ corações/solidões /sol/ reforçam a aproximação som/sentido entre as palavras, preconizada por Jakobson. O otimismo do poema é realçado ainda pelo fato de os verbos de ação /rejuvenesce/ conforta/ brilha/ ilumina/ estão no presente do Indicativo, reforçando assim o poder semântico dos mesmos.

Essas considerações sobre poemas das mestrandas terão sequência num próximo blog.



*Professora das disciplinas Teorias da Poesia e Poéticas da Modernidade: dos formalistas russos a Bakhtin, no Curso de Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Revelações II: Poetas do 8º Período de Letras

Sigrid Renaux*
Dando continuidade ao tema do blog anterior, no qual apresentamos e comentamos poemas dos alunos Fabiano Capistrano dos Santos, Elisângela Nardi e Jaqueline Kupka, os poemas que seguem têm, como os anteriores, recordações da infância como tema principal:
MARCIO EDUARDO ANDRADE
Às vezes, pego-me a pensar nos tempos de pequeno.
Tardes a trilhar por trilhas e trilhos de trem,
A correr e a andar de bicicleta.
Na sala de estar, os meninos a vibrar ao fim de cada partida de videogame.

Os amigos fizeram minha infância mais viva e alegre.
Crescemos e apenas ficou a saudade e as lembranças dos bons momentos.
Apesar da ausência desses companheiros, dá-me a vontade de voltar a ser menino e reviver cada momento.

O tom saudoso das lembranças de infância, neste poema composto de um quarteto e um terceto em versos livres, é enfatizado pelas reverberações sonoras das aliterações em /pego/pensar/pequeno/ na primeira linha; e, na segunda, em /tardes/trilhar/trilhas/trilhos/trem/, criando quase uma onomatopeia, com os sons de um trem passando. O movimento iniciado pelo verbo “trilhar” e a visualização das distâncias percorridas continua na terceira linha, com os verbos “correr” e “andar”¸ a consonância em /correr/andar/, juntamente com a rima interna /trilhar/andar/ enfatizando sonoramente o movimento /trilhar/correr/andar. Dos espaços externos nas linhas 2 e 3, as lembranças do eu poético voltam-se para o espaço interno da “sala de estar”. Esta expressão, além de conotar seu uso social, no encontro do eu poético com os outros “meninos” – em contraposição com as duas linhas anteriores, nas quais o eu poético trilhava¸ corria e andava sozinho –, também implica em movimento, mas desta vez, das emoções, ao “vibrarem” os meninos ao final das partidas de videogame. A ludologia dos jogos une, assim, as lembranças individuais com as sociais do eu poético, enfatizada ainda, sonoramente, pela aliteração da vogal /i/ nas sílabas tônicas /fim/partida/, bem como por uma sugestão de rima em /trem/videogame/.
A segunda estrofe retoma a ideia da amizade como propiciadora da alegria da infância do eu poético, restando assim uma saudade alegre “das lembranças dos bons momentos”, a eufonia propiciada pela repetição das nasais /m/n/, além da repetição da consoante /s/ aproximando as palavras sonora e semanticamente. O poema se encerra com a afirmação de que mesmo a “ausência desses companheiros” não o impede de querer “ser menino” novamente, e “reviver cada momento”. Os infinitos “voltar a ser” e “reviver”, pela sinonímia – pois voltar a ser é reviver – e pela rima interna /ser/reviver/ sobrepõem, novamente, som e sentido.
O poema propicia, assim, através da luminosidade visual da primeira estrofe refletindo-se nas considerações da segunda, um sentido altamente positivo à palavra “saudade, por meio das “lembranças” como um bem desejável do eu poético.
ALBERTO CORSATTO NETO
Numa cidade bem pequena                                                                        
No interior do Paraná
De uma família muito simples
Que só sabia trabalhar
Foi ali que eu nasci
O caçula de cinco irmãos
Todos iam para a roça
Levando a enxada nas mãos
Foi assim até os oito anos
Depois viemos pra capital
Enfrentar a cidade grande
Foi um esforço descomunal
Graças a um pai batalhador
E uma mãe que o ajudava
E com a graça de Deus
A gente se firmava
Não foi uma vida fácil
Muitas lutas enfrentamos
Mas com muita garra
Todas elas superamos
A vida nos ensinou
Que sempre iremos lutar
Muitas coisas se levantarão
Para nos desanimar
Mas a vitória é certa
Para quem não desistir
Não se deixar abater
Quando a dificuldade surgir
Prova disso sou eu
Mesmo com essa idade
Junto aos meus amigos
Estou terminando a faculdade
É uma graça sem tamanho
Estou aqui a comemorar
E vocês podem ter certeza
No meu coração vão morar 
        
Poema organizado em nove quartetos, com variações quanto ao número de sílabas – de 5 a 9 – mas com uma acentuação regular de 4 tônicas por linha e rimas nas linhas 2 e 4 de cada quarteto, conferindo assim uma ordenação figurativa e sonora esmerada ao todo. Esta ordenação, possivelmente advinda de recordações construtivas, faz este poema primar pela objetividade e clareza com que o eu poético apresenta sua vida desde a infância.
Os primeiros dois quartetos nos fazem visualizar um espaço bucólico, onde nasceu este “caçula de cinco irmãos”, que trabalhava na roça com a família. A rima aguda em /Paraná/trabalhar/ enfatiza o cenário rural e o trabalho, enquanto em /irmãos/mãos/ ela une a todos por meio da imagem comum das mãos, valorizando assim ainda mais o lavor da família.
O terceiro quarteto já apresenta uma mudança – da roça para a capital – onde continua o esforço da família em sobreviver. A rima aguda capital/descomunal, bem como as repetições sonoras de /e/f/r/ em enfrentar/esforço, valorizam ainda mais a transição do ambiente rural para a cidade grande, bem como do trabalho, agora “descomunal”, para sobreviver.
No quarto quarteto o eu poético presta sua homenagem aos pais e a Deus pela gradual estabilização que alcançaram, a rima grave “ajudava/firmava” valorizando assim o resultado alcançado por meio do trabalho.
No quinto quarteto o eu poético, já adulto, faz uma reflexão sobre a relação entre lutar e superar as lutas com “garra”, no sentido figurado de grande vigor ou entusiasmo, o que é novamente ressaltado pela rima grave “enfrentamos/superamos”, mostrando o caminho percorrido.
A reflexão, agora mais ampla, continua no sexto quarteto, ao meditar o poeta como a própria vida é um “lutar” contínuo para nos desencorajar de continuar lutando, a rima aguda “lutar/desanimar” opondo assim semanticamente os dois verbos.
 Entretanto, o sétimo quarteto reafirma, também em termos mais amplos, o que o quinto quarteto já havia anunciado: com vigor e entusiasmo, superamos as dificuldades. O uso da afirmação “a vitória é certa/ para quem não desistir”, serve de estímulo a todos os leitores, pois a perseverança é uma qualidade imprescindível a quem luta diariamente por sobrevivência, em todos os sentidos. A rima aguda “nãodesistir/quando a dificuldade surgir”, confirma sonoramente a importância da perseverança para alcançar a vitória.
No oitavo quarteto o eu poético retorna à sua própria experiência, como prova dessa perseverança, pois, apesar de mais velho, ainda continua lutando, com seus “amigos” mais jovens, para terminar a faculdade, sonho que não pode realizar antes. A rima grave “idade/faculdade”, aproximando as duas palavras sonoramente, comprova mais uma vez como as duas palavras se complementam, em vez de se oporem, como na rima do sétimo quarteto.
O último quarteto reitera a graça, o benefício recebido de Deus mencionado no quarto quarteto, e, como consequência, a comemoração – como ato de trazer à lembrança, mas também como expressão do júbilo do eu poético em terminar o curso –, ao lembrar os amigos que nunca serão esquecidos, pois juntos, como os irmãos do poeta, trabalharam muito, com enxadas metafóricas, para alcançar a graça de terminar a faculdade. A significação mais profunda de “comemorar” encontra assim eco em sua complementação rítmica “morar”.
O poema, neste final da jornada do eu poético, torna-se assim uma homenagem a todos seus colegas que, como ele, perseveraram em atingir sua meta mais ampla – a educação, no sentido profundo de chegarmos ao desenvolvimento pleno como seres humanos.

HELOYZE BIANCA DOS SANTOS
Menina Flor
Foi aprendiz da própria vida
Foi sentimento não demonstrado
Apenas uma Flor recém-florida
A desejar um abraço nunca dado
Mas ela nunca esteve sozinha
Solidão não sentiu jamais,
Pois três Guardiões ela tinha
Para suprir a ausência dos pais
Sua mãe fez isso por amor
Por ter quatro filhos pra criar
Trabalhou duro e derramou suor
Pra trazer sustento ao lar
O pai, talvez não fosse por maldade
Sentimento nunca soube demonstrar,
Pois quando ele tinha sua idade
A infância logo teve que largar
Hoje seu coração que é poesia,
Se fechou para o mundo ao redor
Os pensamentos incomodam em demasia
Ao recordar daquela Menina Flor.

Este poema que retrata, novamente, lembranças de infância, é composto por 5 quartetos cujas rimas alternadas abab, cdcd, efef, gfgf, ieie – ligando sonoramente as linhas de cada estrofe – dão continuidade à linha narrativa. Desta vez, o eu poético narra sua história em terceira pessoa, a Menina Flor, conotando o desabrochar da juventude, como a linha 3 do primeiro quarteto confirma: “Apenas uma Flor recém florida”. Neste primeiro quarteto, rememora o quanto aprendeu sozinha, e quanto desejava carinho, na falta do “abraço nunca dado”. Mesmo assim, como revela no segundo quarteto, não se considerava só, pois “três Guardiões”, não identificados, supriam a “ausência dos pais”. Ao especificar, no terceiro quarteto, ausência da mãe pelo trabalho, pois “derramou suor/Pra trazer sustento ao lar” a Menina Flor demonstra seu reconhecimento pelo amor da mãe, mesmo ausente. Já no quarto quarteto, mesmo se ressentindo da falta de demonstração de sentimento por parte do pai, a “Menina Flor” o justifica, pois também ele teve de largar a infância, provavelmente para trabalhar. A Menina Flor, deste modo, retoma um assunto já tratado em poemas dos colegas:  a ausência dos pais no lar, por motivo de trabalho, ou a falta de carinho para com os filhos menores.
 Por esta razão, na última estrofe, que nos transporta ao presente da “narrativa”, a Menina Flor afirma que  “hoje seu coração que é poesia/ se fechou para o mundo ao redor”,  ou seja, o coração como berço dos sentimentos, que abriga a poesia como o poder criativo e a inspiração, retraiu-se, pois as recordações da Menina Flor do que ela foi um dia, perturbam a Menina Flor atual. E, consequentemente, seu eu poético “se fechou para o mundo ao redor”, tornando-a insensível para usufruir a totalidade integrada de seres e realidades existentes. 
Este final melancólico, em complementação e contraposição aos outros dois poemas acima, demonstra como a libertação das emoções – a característica mais peculiar do gênero lírico, ativando a função emotiva da linguagem humana, como proposta por Roman Jakobson – é a tônica fundamental dos poemas apresentados,  em suas diversas manifestações formais.


*Professora das disciplinas Teorias da Poesia e Poéticas da Modernidade: dos formalistas russos a Bakhtin, no Curso de Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Diários não tão íntimos: o romance fingindo ser o que é

*Edson Ribeiro da Silva
Em A lógica da criação literária, Käte Hamburger considera o romance em primeira pessoa como um gênero específico, que define como “formas especiais”.
Não se trata do épico, pois o romance em primeira pessoa possui um personagem-narrador, que fala de si, rompendo com o distanciamento que a narrativa épica tem em relação ao momento da narração. O narrador épico vê o narrado de fora, o que lhe garante distanciamento, impessoalidade, mas domínio sobre ele. A narração em terceira pessoa, com seu domínio sobre o outro, seria exemplo de épico.
Não se trata do lírico, pois neste o autor fala de um eu que se confunde com ele mesmo. Ou seja, o lírico não enganaria o leitor quanto à natureza do eu que fala de si. Trata-se de uma enunciação que não é fingida, como a da ficção em terceira pessoa o é, pelo modo como fala de outro.
O romance em primeira pessoa finge que o eu que enuncia, que narra, é o autor do texto. Na verdade, não é. Fingindo ser, não se enquadra na categoria do lírico. Ao mesmo tempo, adquire a atitude do fingimento que, ao contrário do que ocorre na terceira pessoa, que se desnuda como ficção, pode até enganar o leitor.
Dessa forma, algumas modalidades do romance, como aqueles em forma de cartas, de diário, de autobiografia, são formas especiais. Têm uma configuração que imita a de gêneros não-literários. Por isso, conseguem efeitos de veridicção que o romance em terceira pessoa não almeja. O romance em primeira pessoa tenta convencer o leitor acerca da sua semelhança com a realidade através dessa configuração. Ser carta, diário, autobiografia aproxima a experiência da linguagem romanesca daquela efetiva que tais gêneros realizam.
Bakhtin, em A teoria do romance, chama a tenção para essa possibilidade de o romance assumir o formato de outros gêneros. Chama de plurilinguismo a possibilidade de, incorporando gêneros não-literários, orais e escritos, ou até literários, como a novela de cavalaria, assumir as suas configurações em vários sentidos, seja na estrutura, no discurso ou na enunciação. A incorporação da linguagem cotidiana, não-literária, aproxima o romance do presente. Obtém-se a ilusão de proximidade entre aquilo que é narrado e o momento da narração.
Se uma modalidade como o romance em forma de autobiografia pode aumentar a distância entre narrativa e narração, o romance em forma de diário a diminui. No primeiro caso, têm-se a visão de conjunto típica da epopeia, no que se refere ao narrado: o narrador está de posse de um passado que não pode ser alterado e, quase sempre, narra para falar dele e não do momento da narração. Já o romance em forma de diário adota a incompletude desse gênero: relatam-se fatos ocorridos quase ao mesmo tempo em que são narrados; não há um distanciamento no tempo que permita o controle sobre o passado; há uma preocupação com o imediato, passado e futuro. Por isso, trata-se de uma modalidade romanesca que assimila, como diria Bakhtin, a incompletude da rotina, do cotidiano, como forma de distanciamento do épico, mas de aproximação do universo do leitor. A configuração permite efeitos de real que podem produzir o fingimento que engana, que Hamburger considera típica da primeira pessoa.
A possibilidade de o romance, incorporando linguagens, não possuir uma que seja sua, própria do gênero, também o libera para assimilar formas que surpreendem pela experimentação, pelo ineditismo. A autoficção é um exemplo notável das assimilações de formas não-literárias, mas também de sua distensão, de sua renovação através de estratégias experimentais de configuração. Mas elas também são originais na ficção pura. Uma dessas possibilidades é a assimilação de formatos como a redação infantil, o relato oral, a confissão religiosa, o desabafo emocionado. A atitude de fingir que se fala para um tu que não se manifesta é uma formatação recorrente nas letras de músicas. A narrativa em primeira pessoa a assimilou de modo produtivo, a partir do momento em que o romance passou a fingir que não era mais escrita, mas fala. Memórias de Lázaro, de Adonias Filho, exemplifica a técnica, assim como Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. A fala como narração aproxima o romance, outra vez, do lírico das letras de música: o tu pode estar ausente, morto, mas é para ele que se fala; pode estar presente sem que sua fala seja representada. Ao contrário do que Hamburger dissera, essas formas são mais recorrentes que especiais. É a cara própria do romance, conforme Bakhtin o definira.
Basta que se pense em Diário de um ladrão, de Jean Genet. Não se trata de um diário, mas de uma autobiografia. Não apenas na configuração, mas no caráter verídico. No entanto, a configuração inusitada de uma obra que é autobiografia, intitula-se como diário, mas assume as especificidades estruturais e narrativas do romance leva o leitor a um poderoso efeito de estranhamento. A obra está no limite entre a ficção e a autoficção, no sentido contrário ao modo como Bakhtin dizia que o romance, ficcional, se aproximava do não-ficcional. Diário de um ladrão é autobiografia que procurou o efeito de incompletude típico do diário: não se ter uma visão completa a respeito do passado e de quem se é. Assim, o autor pode fingir para aquele leitor que de fato sabe quem ele é, que leu sua biografia, que ele, como homem, ainda está em formação, é um projeto a ser construído junto com a configuração da obra.
Tanto Hamburger quanto Bakhtin já haviam percebido o quanto a narrativa em primeira pessoa se aproximava da realidade, como efeito. Ela via nessa possibilidade um fingimento capaz até de enganar o leitor; para ele, esse fingimento menos enganava que desnudava o real. Trata-se de uma estratégia que rende possibilidades sempre renovadas em termos de elaboração estética.


*Professor  no Curso de Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE