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domingo, 4 de agosto de 2013

APRESENTAÇÕES DOS MESTRANDOS EM TEORIA LITERÁRIA


Profa. Sigrid Renaux

Partindo do tema  Linguagem, identidade e subjetividade no “breve século XX proposto pelo VII Ciclo de Estudos em Linguagem, na Universidade Estadual de Ponta Grossa, entre 19 e 21 de junho de 2013, um grupo de mestrandos em Teoria Literária apresentaram trabalhos, como participantes do GT “Abordagens formalistas e bakhtinianas de narrativas brasileiras e estrangeiras”, cuja ementa era a seguinte:

Em nosso “breve século XX”, surgiram, a partir dos formalistas russos, novas reflexões sobre o texto literário, e, consequentemente, novas abordagens teóricas e críticas para análise e interpretação de obras poéticas e ficcionais.  Partindo, pois  de alguns dos conceitos-chave de formalistas como Chklovski, Tomachevski, Eikhenbaum, Tynianov e Jakobson,  bem como do “pós-formalista”  Mikhail Bakhtin, este GT propõe-se a acolher estudos  acadêmicos que  apresentem leituras de narrativas  de origens diversas, tanto brasileiras como estrangeiras, baseadas nesses teóricos.  As  abordagens formalistas,  seja por meio dos procedimentos de singularização e da criação do efeito de estranhamento, dos conceitos de fábula e trama,  da arte como procedimento,  do realismo artístico, de dominante,  literariedade, motivo e motivação, noção de construção, estilística,  da lingua cotidiana x língua poética, entre outros,  irão revelar a relevância  que esses “operadores de leitura” têm para se penetrar no texto narrativo e extrair dele toda a potencialidade contida em sua linguagem, ressaltando destarte o caráter estético da linguagem artística. As abordagens bakhtinianas, por sua vez, irão ressaltar como alguns dos conceitos-chave deste filósofo da linguagem  como cronótopo e dialogismo,  bem como as particularidades fundamentais da Sátira menipeia - gênero sério-cômico do qual descende o romance europeu, e, consequentemente, o romance contemporâneo- , quando aplicados às narrativas a serem apresentadas, contribuem para uma nova visão/releitura  e reinterpretação dessas narrativas.   Deste modo, este GT estaria contribuindo, através das discussões/reflexões propostas nos trabalhos /as análises pelos participantes do grupo,  a refletir como o estudo imanente do texto, sem descartar suas vinculações com o contexto, pode  aprofundar a percepção dos diferentes níveis/usos da linguagem, tanto cotidiana como poética.

A partir dessa ementa, os mestrandos, aproveitando o embasamento teórico ofertado no curso “Poéticas da modernidade: dos formalistas russos a Bakhtin”, fizeram as seguintes apresentações:

- Adilson Costa Duarte, em “A atitude dialógica do herói no conto Polzunkov  de Dostoievski”, examina  como a representação da particularidade menipeana dos “estados psicológico-morais anormais do homem” irá esclarecer  a personalidade  de Polzunkov. Podemos deste modo avaliar melhor as atitudes tragicômicas deste suposto “bobo”, deste “mártir ridículo” – como o chama Dostoievski –  que não possui a capacidade de reclamar  seus direitos e prefere rebaixar-se contando histórias para o auditório que o assiste e que supostamente se diverte com suas histórias mentirosas e cômicas.

-Angela de Fátima Taline de Souza, em “O diálogo como fio condutor das relações entre O carteiro e o poeta no romance de Antonio Skármeta”, demonstra como as conceptualizações  bakhtinianas sobre o “diálogo socrático” nos fazem refletir sobre o poder da palavra e a importância do diálogo e do questionamento, a fim de comprovar que, através do diálogo, conseguimos trazer mudanças de pensamento, promover descobertas e lançar encantamentos. Assim,  os procedimentos  de anácrise e síncrese, utilizados pelos personagens Mário Jiménez e Pablo Neruda,  vão além da busca por uma verdade escondida e não sabida, pois inicia-se um processo de tecer um fio que conduzirá toda a narrativa: a amizade entre ambos,  que trará mudanças na personalidade e na vida de Mário.

 

-Adriane Bendlin, em “A atitude diálogica do  personagem Vássia face a si mesmo e aos outros personagens em Coração frágil de Dostoievski”, busca verificar, por meio  das particularidades menipeanas  da   “experimentação  moral e psicológica” do homem face a si mesmo, bem como  das “últimas questões”, como Vássia, principalmente em seus diálogos  com  o amigo Arkádi, vai aos poucos se desintegrando psiquicamente. O herói transita, assim,  por uma estrutura triplanar – da Terra ao Olimpo  e depois ao Inferno –, pois sua demência, consequência do remorso  em ser feliz  – uma linda noiva, um amigo e um emprego –, acaba levando-o ao manicômio.

 

-Elidete Zanardini Hofius, em  “As interrelações diálogo/tempo/espaço em Noites Brancas de Dostoievski”, demonstra o papel fundamental do diálogo – na acepção bakhtiniana – entre os protagonistas, pois é por meio dele que a narrativa vai se desenvolvendo e que o leitor toma conhecimento da história de vida dos personagens, do tempo e do espaço em que  vivem, da busca do protagonista  e de sua amada pelo amor e pela felicidade. Todas as revelações, portanto, fazem-se pelo confronto, pela palavra, pela conversa durante as “noites brancas” em que os personagens se encontram.

- Josiel dos Santos Lima, em  “Nada vale a pena se a alma é pequena”: o conflito existencial como dominante artístico em Coração frágil de Dostoievski”, analisa o protagonista por meio da particularidade menipeana da experimentação moral e psicológica, ou seja, da representação de inusitados estados psicológico-morais anormais do homem. Deste modo, a destruição da integridade e  perfeição do protagonista Vássia, facilitada pela atitude dialógica face a si mesmo, tornar-se-ia, na concepção jakobsoniana,  o dominante artístico, ou seja, o centro de enfoque de Coração Frágil.

- Mara Bilk de Athayde, em  “A estética da narrativa  no conto  O Ladrão Honrado  de Dostoievski”, examina como  os procedimentos  de   fábula e  trama,  motivo e motivação,  caracterização indireta das personagens e  narrativa dentro da narrativa destacam  os conceitos de polifonia e dialogismo, pois os personagens mantêm relações dialógicas  uns com os outros e também com o leitor. Deste modo, a análise imanente do texto confirma como a beleza artística da narrativa dá mais intensidade ao sofrimento e arrependimento do “ladrão honrado”.

-Marcia Izabel deLima em “As situações extraordinárias do herói-narrador em O mujique Marei de Dostoievski” discute, utilizando algumas das características da sátira menipéia,  como as   aventuras do herói-narrador enfrentando situações extraordinárias  o levam à descoberta da verdade e de uma ideia filosófica, tanto em suas recordações de infância como na situação atual no presídio; consequentemente, como  essa experimentação moral e psicológica revelam nele   possibilidades de um outro homem e de outra vida.

-Patricia Cristina de Oliveira em   “Uma visão cronotópica do romance O pelo negro do medo de Sérgio Abranches” examina,  utilizando o conceito de cronótopo  como uma categoria da forma e do conteúdo que realiza uma fusão dos índices espaciais e temporais em um todo inteligível e concreto, como o tempo e o espaço  constituem  o pano de fundo para o enredo deste romance, e como os personagens são inspirados pelo passado e pelos seus fantasmas, que confundem seu trajeto no presente.

 

            - Profa. Sigrid Renaux (coordenadora),  em  A ecocrítica como dominante artístico em Tres mortes de Tolstoi” faz  uma leitura deste conto em que ressalta como  o paralelismo usado pelo autor, ao introduzir o tema da morte por meio de três variantes – a morte de uma dama, de um camponês russo e de uma árvore – é na realidade muito mais profundo  do que uma primeira leitura poderia indicar. Pois, por meio da aplicação do conceito de Dominante à linguagem poética que predomina na morte da árvore, em contraposição à linguagem referencial das duas primeiras variantes, o equilíbrio temático existente  receberia uma nova orientação, ao sairmos do antropocentrismo para um ecocentrismo. Assim,  a derrubada e morte da árvore como valor artístico dominante no texto  – dando voz à natureza com a personalização e o sofrimento de um ser não-humano – colocaria o autor na vanguarda deste novo ramo dos estudos de literatura.

            Acreditamos que todas as apresentações tenham servido para comprovar como o estudo  imanente do texto, cujo início se deve aos formalistas russos, sem descartar suas vinculações com o contexto, pode  aprofundar a percepção dos diferentes níveis e usos da linguagem, tanto cotidiana como poética, como proposto na ementa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Seleção de poemas sobre mitos gregos

 
Sugestão do professor Edson Ribeiro sobre site com seleção de poemas sobre mitos gregos.
                                                                                    

A derrocada das ciências da educação nas propostas curriculares de escolas curitibanas


Prof. Dr. Edson Riberio
 
 
Parece um imenso paradoxo reconhecer que, enquanto as propostas curriculares oficiais feitas no país a partir da década de 90 tentam atualizar a escola brasileira em relação ao que as ciências da educação e da cognição vêm apregoando desde o começo do século XX, as escolas curitibanas têm não apenas ignorado a verdade científica, mas transformado os seus currículos em uma coletânea de noções amparadas unicamente em achismos subjetivos e no senso-comum.

Poderia ser apenas risível, se não fosse uma ofensa ao conhecimento científico e uma zombaria para com leis aprovadas e implantadas.

Não se trata apenas de desconhecimento do que as ciências norteadoras da educação têm defendido ou contestado. Trata-se, ao contrário, de um esforço consciente para trazer de volta as noções preconcebidas que orientaram a formação dos profissionais que atuam nas escolas. Estes, por sua vez, apoiam as suas convicções pessoais, baseadas no achismo de quem confessa nunca ter lido textos científicos, na vontade que os pais dos alunos têm de reencontrar uma escola onde se fale apenas em costumes, mas nunca em conhecimento científico. Dessa forma, o aluno precisa saber de cor os hinos do país, do estado, do município e da escola, mas não precisa saber quem foram os maiores escritores ou compositores do país, nem as teorias que explicam por que ele está aqui. Ele precisa ter seus cadernos com capas e margens, mas o que se encontra ali é apenas cópia de exercícios dos livros didáticos. Nenhum texto produzido, nenhuma obra lida.

A ideia de que a escola de antes era boa, e de que foram as modernidades científicas que geraram a crise de falta de rendimento se apoia na visão altamente condescendente que pais e professores têm de si mesmos. Acreditam que a escola em que estudaram fez deles modelos de sucesso e de cidadania. E que bastaria que as escolas de agora trouxessem de volta os sistemas de avaliação e as regras de conduta da escola tradicional e tecnicista que a crise estaria resolvida. Na verdade, é suficientemente sabido que a escola brasileira, em nenhuma época, foi exemplo de sucesso. E o professor de hoje, assim como os pais, são resultados de uma escola que não ensinou conhecimento científico nem artístico, que não habituou seu aluno a ler nem a escrever, mas que passa por ter sido uma escola satisfatória porque nem esses pais nem esses professores acreditam que o que o ensino não lhes deu seja importante. Exemplos notórios dessa visão são as ações movidas contra o concurso público recente, por ele ter incluído questões sobre Machado de Assis, na prova de língua portuguesa, ou por ter feito uma questão sobre os movimentos estudantis de 1968 em Paris, na de história. O professor que leu apenas um livro de Machado, na época da faculdade, diz que o edital do concurso deveria ter listado as obras a serem lidas, mesmo que entre os conteúdos estivessecontido história da literatura brasileira; o professor de história alega que esses movimentos de 68 não caem nos livros didáticos que as escolas adotam, o que o eximiria da obrigação de conhecer cientificamente, e não apenas didaticamente, a sua disciplina.

A derrocada do conhecimento científico se manifesta, por exemplo, no ensino de gramática das escolas curitibanas, que nem ao menos conhecem o conceito linguístico de gramática. Acreditam que gramática são as regras para se escrever e passam os muitos anos de escolarização repetindo isso para o aluno. Exemplo notório neste sentido são os projetos de literatura, como a da Escola Ângelo Trevisan, em que os alunos leem fascículos comprados em bancas de jornal, sobre aves ou dinossauros, como sendo literatura. Porque os pais acham que é. E acham que ler sobre aves é mais útil que ler Machado ou Graciliano, autores aos quais a escola impede o acesso pelo aluno. Ou os sistemas de avaliação que ignoram o conceito de avaliação defendido pela ciência da pedagogia. O que prevalece é a noção de avaliação da mãe do aluno, que paga para fazer o trabalho de pesquisa que a escola pediu, mas que não considera produção de texto ou leitura como formas legítimas de avaliar. Isto leva as escolas curitibanas a descumprirem o que as Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e a Deliberação 007/99 definem como regras oficiais para a avaliação. Uma delas, a de que provas e testes devem valer menos do que a maioria absoluta do total da nota; outra, a de que a escola nunca pode usar menos do que três formas diferentes de avaliação.  Assim, basta olhar as propostas das escolas em suas páginas na internet e ver que elas têm provas valendo 8,0 ou 10,0 pontos, ou perceber que não há nada além de prova e uma pesquisa valendo nota. O Colégio Santa Felicidade é um exemplo notável dessa facilitação a professores e alunos.

A própria linguagem em que as propostas pedagógicas estão elaboradas demonstra um domínio exíguo da língua. Não parecem obra de profissional formado. Mas são. Por isso, torna-se impossível não vincular todo esse desconhecimento das ciências à má qualidade da formação desses profissionais. Se os pais, tantas vezes, não chegaram a fazer um curso superior, o professor chegou, e deveria ser ele o responsável por vencer os achismos e o senso-comum que a verdade científica já desconstruiu e lutar pela implantação daquilo que há décadas as propostas curriculares vêm defendendo. Elas, sim, vieram das mãos de profissionais qualificados.

 

sábado, 6 de julho de 2013

BERTOLT BRECHT, ONTEM E HOJE: MOVIMENTOS SOCIAIS E VOZES DA ACADEMIA


Profa. Anna Stegh Camati

 

Em 20.06.2013,  os alunos do Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE apresentaram um painel sobre a dramaturgia, crítica e linguagens cênicas de Bertolt Brecht (1898-1956) no VII CIEL da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Brecht será sempre lembrado por desenvolver uma arte engajada em causas sociais e por manifestar-se contra os desmandos dos detentores do poder. Por conta da atual conjuntura política que levou milhares de pessoas (majoritariamente jovens) às ruas em diversas cidades, as reflexões desenvolvidas pelos mestrandos se inseriram na pauta das reivindicações dos manifestantes, cujas vozes inicialmente protestaram contra o aumento abusivo das tarifas do transporte público mas que, em seguida, tomaram de assalto o Congresso com insatisfações de longa data que afetam diretamente a população brasileira

Um dos participantes do painel levantou um paralelo entre os acontecimentos  da peça A mãe (1931), de Bertolt Brecht, adaptação do romance homônimo de Máximo Gorki, e as mobilizações nas ruas em todo país. Em uma das cenas desse texto, os operários  de uma fábrica lutam pelos seus direitos e se manifestam contra a opressão capitalista. Os protestos começam com o desconto de um “copeque” (moeda de baixo valor) do salário dos trabalhadores, no entanto, como argumenta um dos personagens, a luta não se trava apenas pelo “copeque”, nem pelo remendo do casaco,  mas pelo casaco inteiro.

Em matéria publicada em 19.03.2013, na terceira página do Caderno G, da Gazeta do Povo, intitulada “Acordes Locais”, Luiz Claudio Oliveira, faz comentários a respeito das mobilizações de rua que remetem às colocações brechtianas mencionadas acima: “Ao contrário do que pensam os conformados, os protestos não são só pelos vinte centavos do aumento do ônibus [...]. Tem outros motivos banais que vão se acumulando e subindo mais rápido que água de inundação. Tem o mensalão e toda a corrupção que ele representa e que se espalha nos gabinetes dos três poderes. Tem o Renan na presidência do Senado, tem o Feliciano na presidência dos Direitos Humanos, as benesses exageradas  para os políticos, os magistrados e os apaniguados em cargos de comissão ou recebendo jetons em dispensáveis postos nos conselhos administrativos de empresas públicas. Quanta sujeira”.  Acrescente-se a isso a “avalanche de impostos municipais, estaduais e federais que nos impõem em troca de serviços públicos de péssima qualidade” nas áreas da educação, saúde e outras.

Durante as apresentações na UEPG de Ponta Grossa, as vozes dos mestrandos mesclaram-se com os clamores do povo nas ruas. A reflexão crítica não se limitou apenas às tensões subjacentes ao contexto cultural da época em que Brecht viveu e escreveu, mas estendeu-se aos problemas da realidade brasileira de hoje. Como afirmou o encenador Peter Brook, na história da humanidade sempre surge um momento em que uma combinação de fatores e circunstâncias valida a opção de montar um texto clássico. Nesse sentido, agora é a hora e a vez de Bertolt Brecht.

No Brasil, a influência de Brecht evidenciou-se em vários momentos históricos  de tensão sócio-política nos quais o dramaturgo alemão foi revisitado, atualizado e ressignificado. O painel apresentado pelos mestrandos da UNIANDRADE objetivou criar um espaço de discussão e reflexão, ressaltando não apenas a atualidade de Brecht, mas sua importância como pensador e o caráter dialético de sua dramaturgia que permitem a adaptação de suas peças, em linguagens contemporâneas, para novos tempos e novos públicos.  

 

 

 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

FAROESTE DE ONTEM E HOJE


Verônica Daniel Kobs*

 

Uma das músicas mais longas do rock nacional virou filme. Faroeste caboclo, escrita por Renato Russo, na década de 1970, e lançada em 1987, pela Legião urbana, no disco Que país é este 1978/1987, foi o ponto de partida para o roteiro do longa Faroeste caboclo. O filme brasileiro foi lançado em maio de 2013, com roteiro de Marcos Bernstein e Victor Atherino; direção de René Sampaio; e atuações de Fabrício Boliveira (João), Ísis Valverde (Maria Lúcia), Felipe Abib (Jeremias) e César Troncoso (Pablo).


 



João e Maria Lúcia, “com a Winchester 22”, e Jeremias, no filme Faroeste caboclo**
 
 
O desafio era adaptar para as telas a história da música de Renato Russo, conhecida pela sua extensão (são 160 versos cantados em nove minutos e três segundos de música), pela estrutura peculiar (apesar do tamanho, a música não tem refrão) e pelo enredo denso e trágico. Deu certo. Com cortes, inversões e acréscimos comuns a qualquer adaptação, o filme cria um clima de suspense que se mantém do início ao fim, mesmo com o desfecho trágico já anunciado pela letra da música. É certo que os fãs de Renato Russo e da Legião urbana esperavam reconhecer, na tela, traços da música que conta a história de João de Santo Cristo e Maria Lúcia. Pois está quase tudo lá (e, nesta parte, o spoiler é necessário): o passado de criminalidade de João e o desejo de vingança pela morte do pai; a plantação de maconha, em sociedade com Pablo; “a violência e o estupro”; “o senhor de alta classe com dinheiro na mão”; o amor por Maria Lúcia; e a rixa com Jeremias. A única ausência é a do boiadeiro, que “tinha uma passagem e ia perder a viagem/ Mas João foi lhe salvar(LEGIÃO, 1987). Na música, o encontro dos dois é o que desencadeia a ida de Santo Cristo para Brasília, mas, no filme, houve motivos de sobra para o corte. O principal deles foi a condensação da história, que ficou com menos deslocamento e menos personagens, o que rendeu pontos no adensamento da trama.
No filme, pouca coisa não fazia parte da letra. Porém, o roteiro apresenta algumas modificações, todas adequadas e bastante pertinentes. O “senhor de alta classe”, no filme, corresponde ao senador, pai de Maria Lúcia, que oferece dinheiro a João, para tentar afastá-lo da filha. Além disso, no filme, João é surrado e violentado pela turma de Jeremias. Essas alterações são fundamentais, pois ampliam o triângulo amoroso entre João, Maria Lúcia e Jeremias, acirram a disputa entre os dois rivais e conferem mais unidade à história, porque fatos que, na música, apareciam isolados, no filme são relacionados aos personagens principais.
A ordem dos acontecimentos da história contada na música Faroeste caboclo também sofreu adaptações. No longa, Santo Cristo conhece Maria Lúcia logo no início, antes de começar a cultivar maconha, antes de sofrer violência sexual e também antes de se tornar um “bandido/ Destemido e temido no Distrito Federal” (LEGIÃO, 1987). A justificativa para isso é bastante plausível. Não só Maria Lúcia aparece, no filme, desde o início, mas também Jeremias. Ele sempre desejou a garota e controlava o tráfico da região. Com a chegada de João, ele perde a chance de conquistar a mulher que ama e perde poder e dinheiro, já que a droga oferecida por Pablo e Santo Cristo era de melhor qualidade. Aliás, esses dois motivos detonam todos os conflitos entre os personagens e ganharam como suporte uma espécie de “continuidade” dada pelos roteiristas à música de Renato Russo. Como música e cinema se opõem, no que se refere ao que é abstrato e concreto, o filme precisava preencher o espaço daquilo que não foi dito no texto. Na música, depois de um embate com o rival, João fica um tempo longe de casa e, quando volta, descobre Maria Lúcia casada com Jeremias e grávida. No filme, a ausência de Santo Cristo e até mesmo o casamento inusitado são explicados: João foi preso a mando de Jeremias, sofre violência constante na cadeia e, por isso, Maria Lúcia faz um acordo com Jeremias — o casamento em troca da segurança e da vida de João.
Passando agora para elementos extra-textuais, o faroeste da década de 1970 está na música e também no filme e focaliza momentos decisivos, marcas da revolução da época, no país e em Brasília, principalmente, como as festas punk e a “Roconha”. Revolução e liberdade dão o tom para a rebeldia, a corrupção, a diferença de classes e a luta pelo poder, no tráfico. Aliás, essas características são próprias do faroeste, gênero baseado no western americano, pelos significados inerentes a esse tipo de filme: “conquista de poder e de território” e, segundo Glauber Rocha, também “transformação” e a representação da “marcha da civilização” (ROCHA, 2011). A reedição da música de Renato Russo hoje, em forma de filme, adapta-se perfeitamente ao contexto contemporâneo. Nossa época é marcada pelo crescimento da violência e da criminalidade, que reforçam e refletem o individualismo e os duelos diários para resolver todo e qualquer tipo de conflito. Por isso, a história contada na música Faroeste caboclo serve de alegoria aos conflitos experimentados e redivivos, em plena era da globalização.
Faroeste caboclo (2013) exacerba a disputa de classe e de cor que fazia parte dos versos de Renato Russo: “Não entendia como a vida funcionava / Discriminação por causa da sua classe e sua cor” (LEGIÃO, 1987). Isso ocorre, pelas reações que a relação entre Maria Lúcia e João de Santo Cristo provoca em Jeremias e no senador (personagem de Marcos Paulo, pai de Maria Lúcia). Além disso, os duelos entre João e Jeremias são vários (em festas, encontros casuais, na “Roconha” e no final da história). A violência das cenas que opõem João de Santo Cristo e Jeremias é espetacular. Inversamente, os cenários e o figurino são simples, justamente para não ofuscarem o tom do filme e os conflitos que ele apresenta. A escolha de contrabalançar as coisas é perfeita, sinal de que Faroeste caboclo é mais conteúdo do que ritmo; mais ideologia do que forma.
No que diz respeito aos grandes duelos do filme, o primeiro, realizado na “Roconha”, impressiona pela artimanha de Jeremias, pelo suspense e pela grandiosidade das cenas. Jeremias faz João saber do evento e o rival resolve aparecer. Chegando lá, Santo Cristo atrai Jeremias para a mata e o surpreende com um grupo armado, comandado por Pablo. Mas a maior surpresa estava por vir: Jeremias também mostra que veio armado e chama seu bando, liderado por seu amigo, um policial corrupto (personagem de Antônio Calloni). Com os dois inimigos frente a frente, o faroeste (um épico urbano) se concretiza.
 
 
Facções rivais do filme Faroeste caboclo, sob as lideranças de Jeremias (acima) e de Pablo (abaixo)**
 
No duelo final, o que impressiona é a atitude desmedida dos personagens: João marca o encontro, escrevendo o endereço na mesinha da sala de Jeremias, com a cocaína que roubou do rival; Maria Lúcia vai até lá, levando a Winchester 22, para tentar impedir o pior; e Jeremias atira não só no inimigo, mas também em sua mulher, grávida.
 

Cena do duelo final, no filme Faroeste caboclo**

No filme, o final trágico e sangrento faz jus à história da música, mas sem a plateia imaginada por Renato Russo: “Sentindo o sangue na garganta,/ João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir/ E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e / A gente da TV que filmava tudo ali” (LEGIÃO, 1987).  No duelo do filme, os espectadores são o próprio público, que se impressiona com a ação violenta, com as mortes e com os motivos da tragédia. O espetáculo da letra da música (“— Se a via-crucis virou circo, estou aqui” (LEGIÃO, 1987)) se fez de outra forma, nas salas de cinema, quando a música de Renato Russo de abstrata se fez concreta.
 
*Doutora em Letras e Professora de Imagem e Literatura do Curso de Mestrado em Teoria Literária da Uniandrade – PR
 
** Imagens disponíveis em: www.google.com.br
 
 





quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dom Casmurro e os discos Voadores




MACHADO DE ASSIS

& LÚCIOMANFREDI

 
DOM CASMURRO

E OS DISCOS VOADORES

 



O título do livro publicado pela editora Lua de Papel, Dom Casmurro e os discos voadores, destina-se, evidentemente, a chamar a atenção para a reescritura de obras canônicas como combinações de gêneros de literatura de massa, na série Clássicos Fantásticos. Três outros títulos foram publicados em 2010, como parte do projeto da editora de “recriar nossas obras mais festejadas [...] com elementos da ficção moderna”: Senhora e a bruxa, A escrava Isaura e o vampiro e O alienista caçador de mutantes, assinados, respectivamente, por Angélica Lopes, Jovane Nunes e Natália Klein.

O estudo de Dom Casmurro e os discos voadores foi assunto do trabalho que apresentamos em um dos simpósios do 25º Congresso da LASA (Latin American Studies Association), em Washington, no final de maio. Foi gratificante verificar o interesse da platéia, formada de estadunidenses que se dedicam ao estudo da literatura dos diversos países da América Latina ─ particularmente os de língua espanhola ─ e de estudiosos falantes de espanhol, pela literatura brasileira. Houve curiosidade em saber detalhes sobre os demais romances que compõem a série.

Nosso trabalho partiu do exame da tendência mundial de associar obras consagradas com gêneros tornados populares pela mídia ─ deflagrada pela publicação de Pride and Prejudice and Zombies, por Seth Grahame-Smith ─ para as questões de autoria e da classificação dos gêneros utilizados em tais reescrituras.

A indicação de coautoria estampada em evidência na capa das obras mencionadas ─ Machado de Assis & Lúcio Manfredi; José de Alencar & Angélica Lopes ─ suscita problemas de teoria literária, por fugir aos parâmetros da adaptação e da paródia.

Para examinar a propriedade de colocar as diferentes utilizações do sobrenatural sob o guarda-chuva comum da ficção científica, reportamo-nos aos estudos de Eric Rabkin sobre o fantástico. Rabkin aponta que o termo ficção cientifica “vem sendo forçado a prestar os mais variados serviços”: da viagem a Laputa em Viagens de Gulliver (1726) e do Icaromenippus de Luciano de Samosata (b.120 A.D.) à série Guerra nas estrelas. Sua observação seguinte põe em relevo a flexibilidade do gênero e as dificuldades de categorização: “E há outros trabalhos [...] que se esgueiram para dentro e para fora do gênero sem que ninguém note”. (NOTA)

As dificuldades aumentam claramente na atual sociedade de comunicação de massa, em que a mídia visual tem papel preponderante e fornece as mais esdrúxulas combinações permitidas pela tecnologia.

 

MAIL MARQUES DE AZEVEDO

 

NOTA. RABKIN, E. The Fantastic in Literature. Princeton: Princeton Un, Press, 1977.p. 118-119  Tradução da autora

 

 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

TEORIA DA NARRATIVA: LEITE DERRAMADO E SUAS DIVERSAS ABORDAGENS


Luiz  Zanotti

 

Na próxima semana os alunos da disciplina Teorias da narrativa irão apresentar no CIEL (UEPG), diversos ensaios no Grupo de Trabalho “Leite derramado e suas diversas abordagens”. Estes ensaios mostram a diversidade de perspectivas teóricas possíveis de serem assumidas para a análise literária do romance de Chico Buarque. As diversas possibilidades da interpretação de uma obra literária estão baseadas em processos tais como a investigação do seu estrato linguístico e discursivo, a relação do texto com a história, aspectos sociais, psicológicos e políticos envolvidos, e mais recentemente, a interação do leitor com a obra, os estudos culturais e de gênero. Para Marisa Lajolo, estas diferentes perspectivas assumidas pelos estudos da literatura frente ao seu objeto muitas vezes coexistem e hoje em dia quase sempre se sobrepõe. Desta forma, dentro do panorama perspectivista contemporâneo, o Grupo de Trabalho buscará construir um panorama interpretativo da narrativa do protagonista Eulálio Montenegro d’Assumpção, um homem centenário, que faz um relato da sua existência através da derrocada de uma família tradicional carioca desde a Monarquia até os tempos atuais através da reflexão sobre as manifestações críticas e formulações teóricas suscitadas pela narrativa ficcional.

A minha contribuição está contida na problematização se o romance objeto deste GT é ou não um romance histórico, conceito construído pelo filósofo marxista George Lukács e que possui uma série de características, entre as quais a descrição da transformação da vida popular através de um conjunto de tipos humanos característicos. No entanto, para Seymour Menton (2010), a designação “histórica” deve ser somente utilizada apenas para os romances que tem a sua trama num passado que não foi experimentado diretamente pelo escritor. Desta forma, seria correto considerar Leite Derramado como um romance histórico, uma vez que parte da narrativa se passa durante um período contemporâneo ao autor?

Ainda dentro de uma linha que privilegia a História, “Relato de uma saga familiar: uma breve reflexão” de Syonara Fernandes aproveita a narrativa da crise brasileira e a derrocada da aristocracia nos últimos dois séculos para uma aproximação ao movimento Novo Historicismo e baseada no pensamento de Stephan Greenblatt,  busca compreender a obra de Chico Buarque a partir do contexto particular da cultura e da época em que ocorreu a narrativa.

A crítica feminista aparece no ensaio que Ana Rosa Sana apresenta do retrato da mulher e seu papel na sociedade no início do século XX a partir da visão de Chico Buarque. No romance Leite Derramado esta imagem feminina aparece repleta de preconceitos e ideias desarticuladas do ancião com relação à esposa, a partir de determinadas convenções estéticas da época, que segundo Showater, interferem na prevalência do subjugo das mulheres pelos homens.

Carlos Alberto Alves  analisa a obra de Chico Buarque de Holanda sob uma perspectiva psicanalítica.  Embora a psicanálise tenha fins clínicos e terapêuticos, que diferem da literatura, Carlos afirma que ela se processa pela interpretação do discurso, quer seja oral - o mais comum na clínica – ou até mesmo escrito. Assim, dentro da imensa gama da teoria psicanalítica, é problematizado principalmente o conceito de livre associação elaborado por Sigmund Freud através de um diálogo entre a teoria psicanalítica e o texto literário.

A carnavalização de Leite Derramado está no centro do ensaio de Patrícia Penkal de Castro que identifica esta característica conceituada nos estudos de Bakhtin (2005). A carnavalização aparece como uma maneira de mostrar o mundo por intermédio da inversão de costumes e valores, ou seja, a tradição de uma sociedade é apresentada pelo chamado “mundo às avessas” que acarreta a eliminação de toda a distância entre os homens ocasionando o livre contato familiar entre eles, separados na vida diária por barreiras hierárquicas.

Dentro das últimas abordagens teóricas, Renata Vargas traz a teoria dos efeitos conceituada pelo teórico Wolfgang Iser (1996). A teoria dos efeitos analisa a interação entre o texto e o leitor, sendo que o texto ganha existência no momento da leitura. Neste sentido, Iser entende a recepção como noção estética que abrange um duplo sentido: o efeito produzido pela obra e a maneira como esta é recebida pelo público.

Leandro Amaral trabalha uma abordagem estruturada nos Estudos culturais,  visando a reflexão sobre a dignidade da pessoa humana através de uma análise voltada a algumas situações apresentadas na obra em questão, bem como uma possível compreensão das inúmeras relações entre indivíduos. Finalmente, Winston Mello trabalha a desconstrução de Jacques Derrida, um passo adiante em relação ao estruturalismo “clássico”, resultado de um corte epistemológico na análise da estrutura através da inserção de um elemento temporal, a “differance”, no entendimento do constructo supostamente objetivo e não-histórico que seria o texto.